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© Miguel Bartolomeu / Cortesia Teatro do Bairro/Ar de Filmes
“A tragédia do homem moderno não é ele saber cada vez menos sobre o significado da sua própria vida, mas o facto de isso o preocupar cada vez menos.” – Václav Havel
Comecemos não com uma didascália mas com uma redundância, pelo princípio. “E no princípio era o verbo”, Logos, o que dizer sobre Shakespeare em 2026 quando practicamente já tudo foi dito sobre o mesmo e o seu trabalho? Rei Lear é um excelente exemplo. É possível dissociar este texto teatral dos jogos de poder, política e natureza humana? E assim dessa maneira não escrever o mesmo que todos? Não, é impossível. A primeira, decididamente, a segunda, provavelmente. Decididamente porque vivemos tempos em que os valores morais se arrastam pelas ruas da amargura e em que a opinião substituiu o facto, o ruído substituiu o diálogo, o fanatismo substituiu a crítica. Rei Lear é sobre vaidade, intriga, ganância e traição – levando à loucura, estação última, não fossem as Tragédias Clássicas, tal como as gregas – os mitos – épicos, histórias bíblicas e religiosas no geral, tão carregadas de mortes, punições, traições, cataclismas, loucura. Toda uma parafernália de pragas, não vindas do Egipto bíblico, mas dos próprios humanos. Da Divina Comédia à Comédia Humana tudo começa ou termina na condição humana porque Rei Lear é na realidade mais sobre escolhas do que sobre destinos. O divino não mora ali e estar vivo é ter de fazer escolhas. Uma trabalheira. Escrito em 1605, poderia ter sido escrito a semana passada e continuará actual no século XXII caso ainda exista teatro, ou sequer planeta. Esta sua actualidade e pertinência – características dos clássicos – é simultaneamente fascinante e assustadora, mas fiquemos pelo fascinante. Lear, já com idade avançada, chama as suas três filhas pois, abdicando do trono numa espécie de reforma, pretende repartir o reino entre elas. Pergunta-lhes então do amor que sentem por ele. Duas delas, as mais velhas e casadas, Regan e Goneril, bajulam-no, a outra, Cordelia, a mais nova e solteira, e insuspeita de maldade, não, dizendo apenas que o amor que sente por ele é o amor natural que uma filha sente pelo seu pai, nada mais nada menos. É franca. Mas Lear, parecendo de início ser justo e benevolente, mostra-se afinal colérico e birrento, e furibundo resolve presentear o seu reino apenas às duas bajuladoras interesseiras – metade para cada uma – e castigar a terceira, a não bajuladora – pela qual nutria mais carinho e expectativa. Esta tem dois pretendentes, o duque de Borgonha, que desiste ao ver que ela não terá direito a dote, e o rei de França, que a toma em casamento e a leva para o seu país, rival histórico de Inglaterra. Lear decide que daí em diante ficará alternadamente hospedado em casa das suas duas filhas, o problema é que nem uma nem outra estão exactamente satisfeitas por o receber, nem a ele nem aos seus cem cavaleiros que ele faz questão de ter por perto. Caem todas as defesas a Lear, e este começa a delirar.
Outra situação que corre em paralelo, mas se mistura para tecer uma teia, é a artimanha de Edmundo, filho ilegítimo do Conde de Gloucester, para que este acredite que Edgar, seu filho legítimo, o queira matar com o objectivo de herdar mais rapidamente os seus bens. Duas tramas envolvendo traição e ganância numa tragédia de enganos.

© Miguel Bartolomeu / Cortesia Teatro do Bairro/Ar de Filmes
E, por falar em enganos, Shakespeare era um excelente autor mas também um excelente plagiador pois o texto que serviu de inspiração foi uma história de 1147 do galês Godofredo de Monmouth. Entre outras, existe também uma história italiana sobre dois jovens que se apaixonam mas ambas as famílias rivais proíbem esse amor e tudo termina com o suicídio de ambos. Essa mesmo que o leitor está a pensar: Romeu e Julieta. Fica a modos de desculpa o facto de naquela época o conceito autoral e dos seus direitos ser algo ambíguo. Persiste porém o mistério sobre o bardo inglês ter tantos textos com referências a Itália – cerca de um terço – e mesmo se não seria ele um pseudónimo do anglo-italiano John Florio. Mas deixemos os mistérios e polémicas e regressemos a Rei Lear para dizer que duas foram as novidades introduzidas por Shakespeare em relação à história original: o final dramático, com a morte de Lear e da filha Cordélia, e a criação das personagens do Bobo e do Pobre Tom, estas curiosamente as duas personagens cómicas e que introduzem um elemento de tragicomédia, sendo este um antigo género greco-romano apreciado pelo Teatro Isabelino e não fosse o romano Plauto uma referência para Shakespeare, até no quesito metateatro, pois veja-se: onde em Rei Lear temos o bobo (a voz da consciência) a falar directamente para o público, em Anfitrião de Plauto temos no prólogo o deus Mercúrio a falar directamente para o público. Outra cena considerada metateatro – pessoalmente considero um exagero a presunção de metateatro sobre esta peça – é a cena do Edgar (Pobre Tom) com o seu pai, Conde de Gloucester, já cego como castigo de uma falsa traição, no Penhasco de Dover, famosas falésias, de onde o pai pretende atirar-se e o filho o engana para o salvar. "There is a cliff, whose high and bending head looks fearfully in the confined deep: Bring me to the very brim of it", pede ao filho. O conde enquanto cego tem o seu protegido no infortúnio, mas se Edgar se disfarça de mendigo louco, já Lear, passe a piada, realmente enlouquecido, tem no bobo o seu companheiro através da tempestade na qual faz questão de mergulhar. Temos um cego, que escapa à queda do penhasco, temos um louco, que se atira para o meio da tempestade. Mas não está apenas com o bobo na tempestade – que é metáfora do seu interior e circunstâncias sociais, ambas em convulsão – pois recebe a companhia de Edgar e do fiel Conde de Kent, personagem que a meu ver merecia mais destaque nas mil e uma análises feitas sobre a peça.
E a pergunta: por que razão enlouquece Lear? Por não ter sido mais elogiado do que o normal pela filha mais nova, por ter sido desprezado pelas duas filhas herdeiras, por ter abdicado do seu trono e estar arrependido da perda do viciante sentimento de poder? Apenas maldade ou também senilidade da idade? Lear está velho, está senil, é facto, perceptível até na voz, na maneira como fala. A idade pesa, a morte liberta.
“Mas é nas obras de William Shakespeare que o Teatro do Aborrecimento Mortal se instala com maior seguranca, conforto e manha. O Teatro do Aborrecimento Mortal dá-se bem com Shakespeare.” disse Peter Brook e concordo em absoluto e é por isso que aos clássicos regresso sempre com alguma reticência. Ou são aborrecidos por serem justamente “clássicos” e daí muito provavelmente não trazerem nada de novo ao nível de encenação e/ou representação ou então por serem revistos – mais uma vez – de forma vanguardista, mas caindo quase sempre num pretensiosismo pós-moderno que no século XXI só pode impressionar papalvos. Porém, sendo eu apreciador deste desporto radical chamado Surpresa, por vezes acabo mesmo por ser surpreendido. “É a vida.”, já dizia o escritor Kurt Vonnegut.

© Miguel Bartolomeu / Cortesia Teatro do Bairro/Ar de Filmes
Logo de início a Mise-en-scène é um primor parecendo um bailado entre texto, representação e cenário tal a sua fluidez. As palavras e sua dicção têm importância fundamental em Shakespeare não fosse seu apanágio o wit, musicalidade e wordplay. E humor, até mesmo brejeiro. Sobre o meu receio, exagerei, é certo, pois com o Teatro do Bairro/Ar de Filmes existe uma certa rede de segurança com as suas produções e residências. António Pires continua a ser um excelente timoneiro e também foi feliz na escolha da versão do texto para encenar, pois a tradução feita por Álvaro Cunhal na prisão entre 1953 e 1955 é cunhada de simplicidade e fluidez, colaborando assim para uma maior clareza e compreensão do mesmo por parte do público, e porque não, de quem está em palco, e em palco estão quinze actores e nenhum deles destoa naquele belo bailado de palavras e movimentos. Idem para os figurinos, para o desenho de som do Paulo Abelho e para a música de Daniel Bernardes (habitual colaborador do Teatro do Bairro), esta de uma elegância certeira, e para o cenário minimal imponente (a fazer lembrar as esculturas de Richard Serra) oscilando entre a sensação de solidez e peso (como se paredes de castelo) e uma mobilidade suave e versátil. Interessante a verticalidade do mesmo (à qual muito ajuda o pé alto da sala). O efeito usado para a tempestade é de um primor poético e funcional (parabéns Rui Seabra, outro colaborador habitual da companhia).

© Miguel Bartolomeu / Cortesia Teatro do Bairro/Ar de Filmes
No entanto, um reparo (existe sempre um): a última cena, em que o rei está no trono com a filha morta ao colo, é uma inversão da pietà de Michelangelo ou delírio do crítico? A ser uma pietà invertida numa história passada numa bretanha pré-cristã não estará coerente, mas se a opção do encenador foi ir mais longe, aí a incoerência passa a ser virtude. Acredito que Peter Brook teria apreciado, e atrevo-me a acrescentar às suas quatro categorias de teatro (Teatro do Aborrecimento Mortal, Teatro Sagrado, Teatro Bruto e Teatro Imediato) uma da minha autoria, e bem aplicada a este Rei Lear: o Teatro do Acontecimento Total.
Não começamos com uma didascália mas terminamos com uma, pois foi o Teatro da Didascália (em parceria com o Teatro do Bolhão) que em 2023 levou Rei Lear ao palco do Teatro Nacional D. Maria II naquela que foi a anterior representação deste clássico em Portugal. Com tanta realeza importa dizer que, apesar de ser Teatro Isabelino, o bardo Shakespeare dedicou Rei Lear a rei Jaime I, igualmente um mecenas das artes cénicas, e não só. E que mecenas poderá existir nos dias de hoje quando temos uma maioria de alienados culturais nos lugares de poder? O pior ego é o que não quer ver.
“Não te metas entre o dragão e a sua raiva!” – in Rei Lear
Leonel Ventorim
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção, tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa, mas prefere sempre o futuro.
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Rei Lear, de William Shakespeare
Encenação de António Pires
3 a 26 de Abril - Teatro do Bairro
15 a 26 de Julho - Casino Lisboa