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ARTES PERFORMATIVAS


UMA OUTRA VIAGEM AO FIM DA NOITE

LEONEL VENTORIM

2026-03-27



Combate de negro e de cães, Teatro GRIOT. © Humberto Brito

 

 


“Oh, meu corpo, faça de mim um homem que sempre questiona!” – Frantz Fanon.

 

Tudo começa na escuridão, de onde saem sons do trabalho de uma obra e sons de animais da selva, e ficamos a saber que um negro nativo aproxima-se do estaleiro de infraestruturas dos colonos franceses para pedir, somente, que lhe entreguem o corpo morto do irmão, trabalhador nesse mesmo estaleiro e vitima de acidente de trabalho. É que a mãe não terá paz e ficará a noite inteira a chorar e a correr pela aldeia, e ninguém terá sossego. Nas torres de vigilância – invisíveis ao público – estão soldados, também eles negros, na ironia de guardar o território “fechado” dos brancos. Um espelho invertido. Poderíamos estar na África de Céline em Viagem ao Fim da Noite, porque esta é igualmente uma viagem ao fim da noite, numa antiga colónia francesa, e porque há desespero latente. Este é o espaço, o tempo e estado de espírito da peça escrita por Bernard-Marie Koltès em 1979 depois de este ter estado na África Ocidental.

 

Fotografia de cena: Combate de negro e de cães, Teatro GRIOT. © Marlene Nobre

 

Há um desespero em Horn, o capataz do estaleiro, há um desespero em Cal, o empregado subalterno, há um desespero em Leóne, a mulher que aceitou vir de Paris para a selva a convite de Horn para se casar com este. Há um desespero e tensão permanentes. Não há exactamente desespero em Alboury, mas essencialmente assertividade porque este se recusa ir embora sem o corpo morto do irmão. Mas o corpo do irmão não é devolvido porque simplesmente não sabem dele. Ou sabem, deve ter ido rio abaixo. É apenas mais um corpo, mas não é apenas mais um corpo de operário morto, o corpo carrega uma mensagem do reino dos mortos, é um corpo morto que não fala mas põe todos a falar, e falam imenso, os europeus, os colonos. Há desespero, e tensão permanente – típico de Koltès – o confronto é latente mas nunca se materializa deixando o público perturbado – este é um texto perturbado, e a encenação conseguiu passar isso, porém… Volto daqui a pouco a este “porém”. Os colonos tentam mostrar – um de forma diplomática e subtil, Horn – procurando corromper o nativo – o outro, Cal, de forma violenta e galhofeira – empunhando uma espingarda – quem manda ali, mas as suas diferentes personalidades são no entanto complementares com a importante particularidade de Cal, mais novo e com mais estudos, se sentir inferiorizado em relação a Horn, mais velho e com menos estudos, mas superior na hierarquia. Horn avisa Cal de que o seu temperamento o poderá levar a cavar a sua própria sepultura – este é um texto de mortos, um morto vivo e três vivos mortos. Léon continua igualmente perdida, já o estava em Paris quando aceitou vir, e não ama Horn, apenas sente carinho, como confessa, por um homem quase velho e que não dará chatices. Mas tenta encontrar-se nos braços de Alboury – eis outra perturbação do texto, mulher branca/homem negro – que no entanto a rejeita, lançando-a, ainda mais, no desespero. Ao contrário daqueles, quem quase não fala é Alboury, que ora está escondido ora aparece, e a dada altura impaciente pelo corpo morto que demora. Ultrajado pela oferta monetária de Horn, mexe e remexe nas armações metálicas – o estaleiro, boa solução cénica – as quais vai espalhando e assim contraditoriamente encolhendo o espaço e agravando a sensação de claustrofobia, de um cerco a quem está dentro do estaleiro numa espécie de Apartheid invertido (na África do Sul o princípio do fim do Aparheid seria apenas em 1990). As únicas vezes que Alboury mostra medo é quando ouve o ladrar e, embora os cães do título não cheguem a aparecer, são como que o fantasma do Cão Branco de Samuel Fuller, filme sobre cães treinados desde pequenos para ter raiva e atacar pessoas de pele negra – ladravam, mas mordiam – e também mostra algum medo dos guardas de vigia ao estaleiro na sua dupla missão de vigilantes e colonizados.

 

Fotografia de cena: Combate de negro e de cães, Teatro GRIOT. © Marlene Nobre

 

Regresso ao “porém” de umas linhas acima. Estes guardas funcionam no texto como uma espécie de coro ao qual o autor imbuiu de suma importância, mas nesta encenação foram fisicamente omitidos tendo ficado reduzidos à condição de fantasmas, estão lá, mas não se vêem, e com isto perdeu-se impacto e o final tornou-se confuso pois são eles que, das torres de vigia, matam o instável e armado Cal, que por sua vez descobre-se ter sido ele a matar o irmão trabalhador apenas por causa de uma cuspidela que lhe passou rente. O final pareceu-me abrupto essencialmente pela pouca percepção da execução deste por parte dos guardas e também pela inexistência dos respectivos coros. Estes elementos teriam dado sobremaneira um impacto à acção e nem sequer a ideia de sugestão desse acontecimento – técnica ao gosto do Teatro do Absurdo – é usada, ou se é, não é suficientemente perceptível, mesmo sabendo que no teatro na mais das vezes o invisível é mais importante, e neste caso, ameaçador, que o visível. Não estou a dizer que não seja uma opção válida, mas que não terá sido a melhor. No fim o desespero aperta, a tensão explode, e metaforicamente a selva – sempre tensa de vida – penetra no estaleiro através de uma “provável” revolta envolta numa cacofonia de sons guturais (os guardas), choro e lamento (os europeus) e euforia (Alboury) e onde o público igualmente se perde.

 

Fotografia de cena: Combate de negro e de cães, Teatro GRIOT. © Marlene Nobre

 

Nada disto mancha definitivamente o bom trabalho da encenadora Zia Soares, tal como a direcção de actores e as actuações destes, todas as quatro excelentes. Este é o segundo texto de Koltès – o primeiro foi Na Solidão dos Campos de Algodão – levado a palco pelo Teatro Griot, companhia fundada em 2009 e provavelmente a única na Europa constituída exclusivamente por pessoas de pele negra. É também de louvar a recuperação deste pertinente e um tanto esquecido autor francês, ou fora de moda, pois o teatro não é imune às modas – veja-se a recente moda de textos mais autoanálise do que outra coisa de autores demasiado egocentrados – como se nascer não fosse por si só um mergulho numa banheira de traumas. Para lá do Griot, temos de recuar a 2019 com Na Solidão dos Campos de Algodão pela Companhia de Teatro de Sintra para ter Koltès nos palcos portugueses.

Saio da peça que se passa totalmente de noite para o Bairro Alto de tarde luminosa que vai lenta não fosse tarde de domingo. E que melhor do que ir ao teatro nesta Era de velocidade? O teatro é um dos últimos refúgios do contacto social humano. No teatro, tudo é vivo e ao vivo, é o momento sem rede, não repetível, no teatro só existe PLAY, mover a peça do jogo da vida. O teatro salva. A quarta parede não é o mesmo que um ecrã pois o público está presente perante os jogadores, e o público estava em grande número como sempre tem acontecido nas salas onde vou. Não existe uma crise de público tal como não existe escassez de oferta. Felizmente, ao contrário de Alboury, não temos corpo morto a reclamar. Aquele só queria mesmo reclamar o corpo do irmão, supostamente mais um entre tantos acidentes de trabalho tais como os que acontecem às centenas em países como o Dubai, na construção da cidade “ultramoderna”, ou no Qatar do Mundial de 2022, em que todos esses acidentes de trabalho são mão de obra emigrante e pobre. E se fosse somente aí já seria bom sendo mau. Apesar do tema pertinente, Koltès afirmou não ter escrito com intenção consciente de debater o racismo e a colonização. Zia Soares, ao contrário do autor, assume a relevância do texto para os dias de hoje, embora não de forma estritamente panfletária mas saudavelmente consciente, e fica uma curiosidade: esta é a primeira vez em que no palco os brancos estão em maioria. Esta peça vai além do texto e faz pensar noutra coisa: Porque não há mais pessoas negras no mundo do teatro? Existem, mas estão invisíveis? O trabalho do Griot tem suma importância e, como diz a encenadora, este nasceu de e para ser “Um lugar onde ensaiamos o gesto e a desobediência lúcida.” – Griot significa “guardador de memórias” e para que se saiba e não se esqueça, o nome do corpo era Nouofia.

A tarde de domingo vai lenta tal como memórias minhas do Bairro Alto antigo. É que os lugares mudam, e enganam, e por isso urge criar novas memórias, e para isso continuaremos a contar com o Griot, e o Griot connosco.

 

“Querias conhecer África? Não é África, aqui. É um estaleiro francês de obras públicas.” – in Combate de Cães e Negros.

 

 

 

Leonel Ventorim
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Já escreveu artigos de Jornalismo Cultural e crítica de arte. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção, tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, mais de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa e vai fazendo outras, mas prefere sempre o futuro.

 

 

:::

 

COMBATE DE NEGRO E DE CÃES

de Bernard-Marie Koltès

Encenação de Zia Soares

com António Simão, Matamba Joaquim, São José Correia e Thomas Coumans

5 a 15 de março no Teatro do Bairro
27 de março no Teatro José Lúcio da Silva

 

 




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