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© Nash Does Work
“Antes não se imaginava o que agora é provado.” - William Blake
Não sabemos qual é o ponto de partida mas sabemos qual é o ponto de chegada: o Ártico, também conhecido por Polo Norte. O Ártico, que para as personagens, em especial o comandante da expedição – um misto de explorador, visionário e fanático (Não foram quase todos?) – será novamente o ponto de partida para uma nova humanidade, um renascimento, pois será o regresso ao Paraíso primordial e perdido de que a Bíblia – e outros textos sagrados e lendas – fala, logo no capítulo inicial, o Génesis. Portanto, o Paraíso não foi destruído, mas está sim congelado por baixo ou por dentro do gelo, e essa terá sido a função desse mesmo continente. Uma criogenia continental. Mas estará intacto? E quem teve esta ideia completamente, ou, aparentemente, disparatada? Quem a teve foi essencialmente William Fairfield Warren, o fundador e primeiro presidente da Universidade de Boston. Estamos, portanto, perante um académico, um intelectual, vergado no entanto a uma crença, no caso, à crença cristã da criação do mundo. Acontece que William também era metodista e foi presidente da Escola de Teologia da Universidade de Boston, sendo ainda mais tarde professor de Teologia Comparada e Filosofia da Religião. O século XIX foi tão fértil em avanços científicos como em misticismos e esoterismos vários, em especial na segunda metade desse século. Foi por exemplo a época do surgimento do Espiritismo como doutrina (com o qual simpatizo – algum problema?). Em 1885 foi publicado Paradise Found, Cradle of the Human Race at the North Pole, o seu livro no qual promovia a teoria de que o Paraíso bíblico, também conhecido por Jardim do Éden, ficava localizado no Polo Norte. Mas não só, também lá ficavam Avalon, o Monte Meru, a famosa Atlântida, ou aquele povo do Norte, da designada Hyperborea. O senhor académico especialista em especulação científica e crença religiosa não se contentou com apenas uma localidade lendária e quis tudo, mas foi o Jardim do Eden que mais ficou marcado para a posteridade, a tal ponto que Seth Bockley, o dramaturgo norte-americano especializado em adaptações literárias, e a pedido da Mala Voadora, adaptou o livro para teatro. Se o texto original é já uma mixórdia de correntes de pensamento misturadas com lendas antigas, a adaptação de Seth Bockley não foge a isso, mas por outro lado tem os pés firmes numa realidade, coisa que o académico não apresenta no livro, pois nem um único dado concreto, nem uma única prova da sua teoria de que o Paraíso primordial se encontre no Polo Norte. Ou sequer da própria existência do Paraíso.

© Mala Voadora
O nosso Polo Norte possível foi este encontro na Culturgest em Lisboa, e logo num dia de imenso calor – melhor do que isto só a peça chamar-se e acontecer no Polo Sul. Ir ao teatro não como civil mas como crítico está entre a atitude de uma auto-imposta frieza e um descontrolado sobreaquecimento, ainda não percebi, mas uma coisa é certa: a peça é fria, tanto quanto uma secção de congelados de supermercados. Uma peça quer-se quente, mesmo com um contexto gelado, e por isso, sobre aquelas que, a meu ver, são falhas, divido a responsabilidade entre a adaptação do texto e a encenação/direcção de actores, tendo a perfeita consciência de que a segunda esteve dependente da primeira. O tema, apesar das tontices do académico, é bom, tem potencial, e a nível audiovisual está irrepreensível, tal como os apontamentos musicais do coro (“E os ananases cultivados no Alasca” fez-me rir) – O problema é a forma como é representado pois, passe a piada, e o edredão, é uma representação, e apresentação, fria, afectada, distante, plástica, mecânica, demasiado neutra. Demasiado Robert Wilson. A forma dos actores falarem está refém do texto, são declamações em vez de diálogo, e um bom diálogo com o calor das palavras descongela qualquer situação, incluindo um Polo, um crítico e um público. Foi esse o objectivo e escolha do director artístico Jorge Andrade, e é válida a sua opção, são todas, infelizmente ficou uma frustração, um saber a pouco, tanto que no fim o público aplaudiu “friamente”. O crítico não pode então ser acusado de má vontade. “Deus tem um plano.” – diz e repete a espírita/médium na peça, todo o director também, e todo o director também deve ser um médium, o intermediário, o canal de comunicação entre um lado, o criativo, e o outro, o público. Os actores estão todos bem – e saúde-se o regresso de Hoji Fortuna vinte anos depois – porém limitados por essa opção de representação. Estes mereciam uma janela maior, e nem Alberto Jerónimo, o comandante da expedição, é capaz de levar o todo a bom porto.

© Mala Voadora
Acontece que este é o estilo de trabalho e apresentação da Mala Voadora, companhia nascida em 2003 no Porto, e da qual Jorge Andrade, além de director artístico, é também um dos fundadores da companhia. Um estilo muito próprio, conceptual e visual, e isso trespassa para tudo o que produzem incluindo a interessante monografia comemorativa de quando a companhia fez vinte anos de existência, pois o espólio fotográfico dos espectáculos foi manipulado em Photoshop de forma a o livro parecer um espectáculo por si só, e resultou, e ficou bonito. O trabalho desenvolvido pela Mala Voadora é singular em Portugal, e isso é bom, e necessário.

© Nash Does Work
Voltando ao frio, todos os anos a equipe reúne-se, veste os fatos para o gelo, e parte para o Ártico levando material técnico de investigação, e grita, “É desta!”, em especial Alberto Jerónimo, o tal explorador e messias louco que insiste em procurar no gelo o Paraíso escondido e sonha e apela a uma união universal de povos e nações onde tudo voltará a ser como dantes: uno, harmonioso e feliz, todos irmãos e uma só língua – Utopia? – Uma língua única – Babel foi punição pelo Pecado Original – e para isso usam-se e unem-se sabedorias várias vindas da Geologia, Paleontologia, Astronomia, Biologia, Mitologia, Etnologia e... pseudociências – a especialidade do “académico” – e para isso, conta-se principalmente, com… acredite-se… O Aquecimento Global. É verdade, e é aqui que se encontra a mais valia deste texto, nesta ironia, contradição e pertinência política (Tudo é política) de serem as Alterações Climáticas a proporcionar através do degelo a possibilidade do aparecimento do Jardim do Éden. Na realidade, precisam do Apocalipse para regressar ao Génesis, precisam do Inferno para chegar ao Paraíso. Acontece que o caos não colabora (Deus não dorme, mas cochila?), o gelo até aumenta ao invés de derreter, e mais uma vez, nada encontram. Pegam numa motosserra e cortam uma circunferência no gelo onde fazem uma espécie de caverna, queimam livros sagrados para fazer uma fogueira, depois escavam um buraco de onde jorra petróleo – a sede de petróleo irá nos matar e salvar – mas nem isso lhes vale. A frustração nasce e o desespero apodera-se, em especial do comandante, que a essa altura já está rouco de gritar “Para Norte é que é o caminho!” – Recolhem o material de pesquisa científica e regressam de onde partiram sentindo-se traídos pela Estrela Polar e na mãos apenas um punhado cheio de nada. Então, no palco, na cena final, surge afinal o Paraíso, mas este é surrealista ao ponto de ser infantil e tropeçar no kitsch – Lembrando inclusive os desenhos da revista Sentinela, dos jeovás – outros sonhadores. Entre animais a conviver com humanos numa idílica e ao mesmo tempo inquietante e luxuriante paisagem, um caracol atravessa o palco. Sem querer ironizar, o final é das cenas mais interessantes da peça.
Polo Norte é uma espécie de comédia absurda estilizada e inspirada numa boa ideia e onde a ironia impera, tendo ainda a qualidade de estar adaptada a um contexto contemporâneo. O comandante bem grita: “O Éden era aqui, e vai voltar a ser!” – Acontece que prometem-nos o Paraíso na entrada, e nada, apenas um vislumbre. Mas o esperanto é o último a morrer.
“Só Adão e Eva estiveram aqui, com as bananas e os monstros antigos.” - in Polo Norte
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
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Polo Norte, por Mala Voadora
26 junho a 4 julho na Culturgest, Lisboa
Direcção Jorge Andrade
Texto Seth Bockley, a partir de Paradise Found, the Cradle of the Human Race at the North Pole – a Study of the Primitive World, de William Fairfield Warren
Com Albano Jerónimo, David Pereira Bastos, Hoji Fortuna, Jani Zhao, Jorge Andrade, José Mata, Maria Jorge, Sílvia Filipe