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OPINIÃO


artistoji, Pedro Portugal.


Mário Cesariny. Fotografia: Eduardo Tomé.


René Bértholo. Fotografia: Elna Voss-Hellwig.


Álvaro Lapa. Fotografia: DR.


Michael Biberstein. Fotografia: António Carrapato.

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JOÃO SILVÉRIO

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VIENA, 22 a 26 de Março de 2006


OS ARTISTAS TAMBÉM MORREM



PEDRO PORTUGAL

2020-10-17




 

Andy Warhol, o sábio da Pop, disse que quando morremos fica tudo igual só não estamos cá para ver... Heidegger circularmente demonstra em “A Origem da Obra de Arte” que é o artista que põe em obra, mas hesita sobre quem está primeiro: se o artista ou se a obra.

Há duas grandes categorias de artistas: o vivo e o morto.

Em Portugal, ao contrário do que acontece no resto do ocidente, quando um artista morre a cotação cai-lhe a pique. Os leiloeiros, vendilhões contemporâneos do templo, carraças sem predadores imunes à legislação fiscal e criminal, suínos chafurdando repugnantemente na pocilga da arte, arruínam a cotação de artistas portugueses vivos e mortos. Com falsificações, com vendas a granel, com lotes a preços irresponsáveis, avaliações discricionárias e outras grosserias. As leiloeiras não morrem, mas deviam (e já são mais do que as galerias).

Freud dizia que os artistas só pensam em sexo, glória e dinheiro e em “O Amante de Lady Chatterley”, D. H. Lawrence identificava “A Deusa Cadela da Glória” na pulsão artística.

A que velocidade pode ultrapassar o artista a barreira da história? (tempus fugit)

O que é que acontece quando um artista morre?

Acabam o ego, a ambição e a rivalidade, que no caso dos artistas é da maior importância para continuarem vivos. Há um atelier que fica vazio. Há disputas na família. Há o problema de guardar o que fica. Há a despesa do enterro. Há mais ou menos dívidas. Há a fama que não veio. Há o caso do zeloso artista Santa-Rita que convenceu a família a queimar tudo o que tinha feito quando morresse — e a família queimou. Há o drama de Van Gogh, obcecado com glória e dinheiro, que morreu sem vender uma pintura e que deve ter gasto 5 euros nos materiais das pinturas dos girassóis...

Outra coisa que acontece quando um artista morre é ficarem obras por acabar no atelier. O facto mereceu exposição de orçamento ilimitado no Metropolitan Museum, N.Y. em 2016 — embora o assunto da exposição fosse mais a incompletude do que a obra inacabada. Sob o título Unfinished: Thoughts Left Visible foram apresentadas centenas de pinturas, desenhos e esculturas de Van Eyck, Durer, Ticiano, Turner, Cézanne, Klimt, Picasso, Mondrian, Basquiat, etc. O que as obras inacabadas revelam é o que artista procura esconder do público: a maneira de fazer. A obra só pode ser mostrada terminada e daí a encenação do lençol que a cobre.

Turner era satirizado por se discutir se as suas pinturas estariam realmente acabadas. Turner contestava arrastando esfregonas sobre as pinturas durante as inaugurações. Klimt era obcecado por sexo. Quando morreu encontraram-se-lhe no atelier inúmeras pinturas de mulheres da alta sociedade Vienense nuas. Klimt exigia pintar as clientes despidas antes de as vestir com ouro. Na última pintura de Mondrian, que ficou inacabada, Victory Boogie Woogy (1944), percebe-se a técnica em que são utilizados pedaços de papel e adesivo para delimitar áreas de cor.

Mas se Miguel Ângelo (mestre do non-finito), Monet ou Warhol morreram deixando uma imensa fortuna, houve um artista português cuja última pintura pagou o próprio funeral :(

Outra vez o professor da Pop: os melhores artistas são os artistas nossos amigos. Nos últimos vinte anos grandes artistas portugueses morreram. Amigos com quem discuti a nartureza do artístico e porque é que a arte é o que é, entre visitas aos ateliers, almoços, jantares e paródias.

António Palolo morreu, René Bértholo morreu, Mário Cesariny morreu, Álvaro Lapa morreu, João Vieira morreu, Ângelo de Sousa morreu, Michael Biberstein morreu, Alberto Carneiro morreu, Costa Pinheiro morreu, Ana Vieira morreu, Júlio Pomar morreu, Helena Almeida morreu, Carlos Correia morreu, José Barrias morreu e agora o Nikias Skapinakis morreu.

Os artistas morrem. Os museus vivem (menos o Museu do Chiado que melancolicamente agoniza). Os museus vivem dos artistas vivos e mortos. Os museus não são uma indústria cultural como defende Adorno, mas um negócio. Idem para os parasitas FDP das leiloeiras. Novos e mais artistas precisam de ser inventados porque é necessário manter os engenhos museológicos a operar: administração, direção artística, curadoria, serviço educativo, consultadoria jurídica e financeira, conservadores, restauradores, comunicação, produção, montagem, transportes, limpeza, seguradoras, vigilância, etc, etc... Nesta cadeia os artistas vivos e mortos são o plâncton. Os museus estão à defesa, porque já perceberam que a sua sobrevivência radica num mundo em desaparecimento, e tenderão a fechar-se e a guardar em segredo os testemunhos, há espera de um tempo que os requeira.

Mas a arte é o inexorável rasto histórico da humanidade e podemos imaginar que em 7.100 D.C., historiadores e arqueólogos (se ainda existirem as disciplinas) estarão a desenterrar as ruínas de um museu de arte pós-contemporânea do principio do Novaceno (Lovelock), há séculos soterrado com datação provável de 2.100, e a encontrar fragmentos de estranhos artefactos de uso inexplicável, mas cujo fabrico dá a entender enorme perícia, muito tempo, e recursos vastos de tecnologias desconhecidas.

 

 

Pedro Portugal