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OPINIÃO


Maya Daren, At Land, 1944. Fotograma do filme a preto e branco, mudo, 14’.


Joyce Mansour, Objecto malvado, 1975-80. Bola de pregos, 20x20x20 cm. Colecção Mansour.


Grace Pailthorpe, Dream of Giving Birth to an Egg, 2 outubro 1937. Óleo sobre tela, 40,5×50,8cm. Colecção particular.


Mimi Parent, Amante, 1995. Assemblagem cabelo e coro, 47,5×34,5x6cm. Colecção Mona Vibescu.


Jane Graverol, A Sagração da Primavera, 1960. Óleo sobre tela, 46x30cm. Colecção RAW.

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EXISTE UM SURREALISMO FEMININO?



MARC LENOT

2023-09-07




 


“A maioria das mulheres e das amantes dos surrealistas permanece desconhecida para nós. Quem já ouviu falar de Jacqueline Brauner ou Simone Breton?” escreve Xavière Gauthier no seu excelente livro Surréalisme et Sexualité (Gallimard, 1971), depois de citar Dorothea Tanning (que diz ter entendido tarde demais "que a sua existência enquanto pintora deve ter inevitavelmente sofrido por via da sua qualidade de esposa de Max Ernst.”) As únicas mulheres que a militante feminista Gauthier reconhece como verdadeiras artistas são Toyen, e Leonor Fini, que tem direito à capa da primeira edição e a duas das vinte reproduções no texto (mais que Magritte, Miró ou Delvaux). Uma exposição no inesperado Museu de Montmartre (até 10 de setembro) tentará realmente provar o contrário? Tem, contudo, a extrema prudência de adornar o seu título de um ponto de interrogação: Surrealismo no feminino?

Com efeito, as 45 artistas apresentadas aqui (que eu confesso ter conhecido apenas um terço antes de entrar na exposição) têm posições muito diversas. Algumas, as mais conhecidas, são quase sempre qualificadas de surrealistas: Dora Maar, Lee Miller, Meret Oppenheim, Toyen, Valentine Hugo, a poeta egípcia Joyce Mansour (relativamente a esta última, só podemos lamentar a fragilidade da exposição sobre os surrealistas egípcios, ainda que importantes). Outras não foram mais que esposas, amantes ou companheiras. Outras passaram mais ou menos rapidamente pelo surrealismo para se afirmarem dentro de outras correntes (Judith Reigl) e por vezes negaram com a maior veemência ter alguma coisa a ver com este movimento (Leonora Carrington, Leonor Fini). E a cineasta Maya Deren, mesmo se ela filmou Duchamp, sempre recusou qualquer afiliação com os surrealistas, que a desprezavam ao compará-la com Cocteau; o seu estranho filme At Land (1944), pleno de saltos, mostra-a a rastejar na praia e depois sobre uma mesa, como um anúncio do Festin de Meret Oppenheim 15 anos mais tarde. Algumas por fim, ainda bastante desconhecidas, são belas descobertas (e é mais sobre elas que tenho vontade de falar aqui). Assim como a medíocre exposição sobre as mulheres e a abstracção em Arles, esta não faz verdadeiramente um grupo ou um movimento, mas inscreve-se mais numa reescrita feminista da história de arte (ver o ensaio bastante militante de Fabrice Flahutez no catálogo), mesmo se as duas comissárias negam sem muita convicção querer “tomar emprestadas problemáticas feministas contemporâneas sobre a relatividade de género das quais elas seriam precursoras” (p. 15). Devemos, portanto, citar Dorothea Tanning (p. 16): “As mulheres artistas: uma tal coisa – ou pessoa – não existe. É tanto uma contradição de termos como “artista homem” ou “artista elefante”. [...] o lugar da mulher no surrealismo [não] é diferente do seu lugar na sociedade burguesa em geral.”

É mais uma conjunção de individualidades, com mais ou menos distância em relação ao eixo central (e a Breton, muitas vezes). A anglo-americana Grace Pailthorpe, psicóloga e adepta da terapia pela arte, foi por isso marginalizada no movimento: os seus sonhos eram muito clínicos, não suficientemente desfasados, como sem dúvida este sobre o seu parto de um ovo.

Mimi Parent, que tem direito a uma nota específica no catálogo (p. 142-145), é uma surrealista tardia (pós 1959), mas que foi próxima de Breton. Alguns dos seus objectos mais ou menos eróticos têm uma carga tão forte como os de Meret Oppenheim: esta maîtresse no duplo sentido, pós-surrealista tendo em conta a sua data, é um belo exemplo.

Uma das revelações é sem dúvida aquela que decora também o cartaz e a capa do catálogo, ainda que tenha sido considerada como subalterna pelos papas do surrealismo belga. Jane Graverol, passa, sob a influência de Magritte, de um puro classicismo a um surrealismo erótico e desenfreado (mas sempre muito bem desenhado e pintado, muito polido), onde o tempo é suspenso e o acto ambíguo.

O catálogo, à imagem da exposição, é um pouco desconexo. Depois de uma muito boa apresentação pelas duas comissárias, três destaques muito parciais sobre a Grã-Bretanha, a Bélgica e a Escandinávia, um ensaio bastante medíocre sobre as fotógrafas e algumas curtas notas individuais. Temos de responder que não à questão do título: houve muitas mulheres surrealistas, mas não houve surrealismo feminino. E se, como dizem as comissárias, "o surrealismo ofereceu às mulheres um quadro de expressão e de criatividade", não está, a meu ver, "sem equivalente nos movimentos de vanguarda": podemos pensar que, neste campo, o constructivismo (e mais geralmente as vanguardas soviéticas) concedeu-lhes um espaço ainda maior.

Aqui em baixo, da brasileira Maria Martins (que foi amante e modelo de Duchamp), um pequeno guerreiro bem masculino.

 

Maria Martins, O Guerreiro, posterior a 1947. Bronze, mármore negro, 14×13.5cm. Musée des Beaux-arts de Rouen.

 

 


Marc Lenot
É desde 2005 autor do blog Lunettes Rouges, publicado pelo jornal Le Monde. Em 2009 obteve o grau de Mestre com uma dissertação sobre o fotógrafo checo Miroslav Tichý, e em 2016 doutorou-se pela Universidade de Paris com uma tese sobre fotografia experimental contemporânea. Membro da AICA, venceu em 2014 o Prémio de Crítica de Arte AICA França, pela sua apresentação do trabalho da artista franco-equatoriana Estefanía Peñafiel Loaiza.