Links

SNAPSHOT. NO ATELIER DE...




No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


No atelier de Nuno Viegas. © Ana Poeira


Mural "Teatro de Rua" pintado por Nuno Viegas. © Ana Poeira


Mural "Teatro de Rua" pintado por Nuno Viegas. © Ana Poeira


Mural "Teatro de Rua" pintado por Nuno Viegas. © Ana Poeira


Mural "Teatro de Rua" pintado por Nuno Viegas. © Ana Poeira

Outros registos:

Susana Pilar



Frida Orupabo



ska batista



Gustavo Ciríaco



Bernard Michel



Catarina Gentil



Beatriz Manteigas



DAVE AND TONY



Rafaela Salgueiro



Evan Cláver



Martinho Costa



Mariana Maia Rocha



Catarina Dias



Ana Loureiro



celine s diaz



Guilherme Figueiredo



Babu



Tiago Loureiro



S/ Título



Francisco Rivas



Beatriz Roquette



César Barrio



João Gomes Gago



Joana Franco



Rudi Brito



Pedro Batista



Coletivo Artístico Pedra no Rim



José Almeida Pereira



Nuno Cera



Vanda Madureira



João Ferro Martins



Mattia Denisse



Catarina Patrício



Bruna Vettori



André Silva



Manoela Medeiros



Tiago Madaleno



Catarina Cubelo



Bruno Silva



HElena Valsecchi



Diogo da Cruz



José Costa



Maria Bernardino



Melissa Rodrigues



Tânia Geiroto Marcelino



Xavier Ovídio



André Alves



Adrian Conde Novoa



Samuel Silva



Rui Castanho



James Newitt



Mariana Gomes



Daniel Fernandes



Diana Carvalho



Giammarco Cugusi



Rita Senra e João Pedro Trindade



Catarina Domingues



Cristina Regadas



Lionel Cruet



Pedro Vaz



Luís Nobre



Joana Taya



Angel Ihosvanny Cisneros



Rodrigo Gomes



Ludgero Almeida



Francisco Sousa Lobo



Letícia Ramos



Valter Vinagre



Andrés Galeano



João Pedro Fonseca



Pedro Proença



Tiago Baptista



António Guimarães Ferreira



João Seguro



Isabel Madureira Andrade



Fernando Marques Penteado



Virgílio Ferreira



Antonio Fiorentino



Alexandre Conefrey



Filipe Cortez



João Fonte Santa



André Sier



Rui Algarvio



Rui Calçada Bastos



Paulo Quintas



Miguel Ângelo Rocha



Miguel Palma



Miguel Bonneville



Ana Tecedeiro



João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira



João Serra



André Gomes



Pauliana Valente Pimentel



Christine Henry



Joanna Latka



Fabrizio Matos



Andrea Brandão e Daniel Barroca



Jarosław Fliciński



Pedro Gomes



Pedro Calapez



João Jacinto



Atelier Concorde



Noronha da Costa



Pedro Valdez Cardoso



João Queiroz



Pedro Pousada



Gonçalo Pena



São Trindade



Inez Teixeira



Binelde Hyrcan



António Júlio Duarte



Délio Jasse



Nástio Mosquito



José Pedro Cortes




NUNO VIEGAS

ANA POEIRA


9/10/2026 

 

 

Foi num dia solarengo no final de setembro que visitámos o atelier de Nuno Viegas na Castanheira, perto de Leiria. Neste pequeno espaço, uma espécie de cubo (talvez mágico), ouvimos o artista falar da sua trajetória artística, dividida entre Lisboa, Oslo, Berlim e presentemente Castanheira, da dificuldade de encontrar espaços de trabalho para artistas, da relação com o mercado da arte e da autonomia e individualidade do artista.

Os seus desenhos chamam, de imediato, a atenção pela densidade extraordinária das composições, em que praticamente toda a página é ocupada por animais, objetos, figuras humanas desproporcionadas, padrões e formas mais ou menos grotescas. Mas também porque longe de utilizar as cores tradicionais, o artista opta por cores elétricas, ácidas, florescentes, quase psicadélicas, numa mistura que designa como uma espécie de “histeria cromática”. As cores que utiliza, diz, são também uma forma de luta contra as cores da realidade, nas quais diz não acreditar.

Para o artista, a arte nasce da relação com o desconhecido, com a impossibilidade de encontrar respostas definitivas e consegue, de forma honesta, imaginar formas de lidar com o absurdo, a impermanência e a fragilidade da realidade.

Uma conversa longa por entre um amontoado de desenhos, tintas, canetas florescentes, dossiers e cadernos onde só faltou a visita do Lusco-Fusco, Caravaggio, Bartolomeu e Fagulha, os quatro gatos, habituais companheiros durante a sua produção artística.

Como pano de fundo, tivemos a “Protelação do Despertar”, a obra em que Nuno Viegas está, de momento, a trabalhar e que reflete talvez a nossa preguiça coletiva em ouvirmos o nosso verdadeiro eu, a nossa espiritualidade. E como diz o artista: “Bem, isto é apenas o princípio de uma obra muito cheia, como essas que estão por aí”.


 

Entrevista por Ana Poeira

 

 

>>>

 

 

AP: Antes de mais como é que surgiu a ideia de vires viver para a Castanheira? Sentes-te bem integrado aqui?

NV: A ideia surgiu devido ao meu amigo Nuno Henriques que tem a empresa Toino Abel, que comercializa artigos de junco. Quando eu vim para cá, foi por causa dele. Porquê? Porque eu tinha acabado de sair de Berlim, estava à procura de um espaço, a situação estava sempre a complicar-se…para mim e acho que para a maioria das pessoas... E surgiu esta ideia, porque ele tinha uma discoteca, que era do pai. Aliás, aquilo inicialmente era um moinho, um moinho de água, porque é mesmo ao lado de um rio que atravessa aqui a aldeia, e tinha uma azenha. E depois o pai construiu em cima a discoteca. Nos anos 80 era uma discoteca, que ainda hoje é lendária, porque toda a gente a conhecia e vinha cá, por exemplo, o António Variações e uma boa parte das celebridades lisboetas. E como havia pouquíssimas discotecas nessa altura, esta foi muito famosa. Mas, entretanto, foi fechada, acho que nos anos 90, e ficou ao abandono. Nunca imaginei que um dia viesse parar aqui. Mas um dia vim cá visitá-lo. E então tivemos esta ideia de recuperar uma parte, que era a sala VIP da discoteca. E recuperámos esse bocado para fazer uma residência artística que ia ser patrocinada pela empresa dele. E pronto, foi isso que eu vim para cá fazer. Inicialmente era para vir quatro meses e depois o tempo foi passando e percebemos que ia demorar mais tempo. E tive de ficar cá dois anos até que o edifício ficasse minimamente recuperado. E durante esses dois anos, estive lá a viver. Foi até mais ou menos a altura da pandemia. E depois arranjei esta casa, onde estou agora.


AP: Encontraste esta casa, já estou a perceber. Tinha percebido que este local era ainda a discoteca. Olha, e a tua última exposição data de que altura?

NV: A minha última exposição em Lisboa foi em 2022, na Galeria Periférica. Estive quinze anos lá, na Periférica, com exposições regulares, mas já não estava muito contente com a situação. A coisa funcionava, mais ou menos, mas principalmente no período de pandemia, começou a funcionar mal. Entretanto, estive em Berlim e quando voltei de Berlim, a primeira coisa que fiz foi sair da galeria. Queria trabalhar noutras coisas, queria estudar, queria escrever, fazer outras coisas. Não era o que eu queria. E também não queria estar em Berlim. E a primeira hipótese que apareceu foi esta proposta de vir aqui fazer a residência.


AP: Mas surgiu sem qualquer apoio? Ou seja, foi algo a nível pessoal?

NV: Sim, completamente a nível pessoal. Também, na altura, aquilo que eu precisava, estando de novo em Lisboa, era de uma casa para mim. Vivi sempre em várias casas arrendadas e nunca dei o passo de comprar uma casa, nunca tive essa ousadia (risos). Mas também nunca foi um passo que me tivesse interessado. Quando voltei, só precisava de um atelier, porque estava a tentar reconstruir a minha vida. Precisava de um espaço para trabalhar, e era difícil de encontrar, mesmo com apoios, ou casas na Câmara. Também porque eu nunca fui muito de pedir apoios e subsídios, sempre tentei manter a minha liberdade de movimento, não estar dependente de instituições. Mas, em Berlim, por exemplo, tinha um atelier apoiado pela Câmara, lá era relativamente fácil. Havia cinco mil, para aí, na cidade, de todas as partes do mundo. E há uma coisa que é a BBK, que é uma associação cujo principal objetivo é criar condições favoráveis para os artistas se estabelecerem. E então tu candidatavas-te e recebias um apoio para estar num estúdio que tinha sido reconstruído. E eles patrocinavam metade da renda.


AP: Mudando aqui um pouco o tema, às vezes gosto de ouvir algumas TED talks. Em “The art of being yourself”, Caroline McHugh diz que já conviveu com muitos escritores, bailarinos, artistas, políticos, cantores de ópera e que chegou a uma conclusão. E pergunta à audiência: “Sabem o que é que eles têm em comum?...Nada”. No fundo estamos sempre à procura de algo em comum que nos aproxime, mas não achas que é precisamente aquilo que nos distingue, e que nos torna únicos, que nos aproxima?

NV: Sim, eu sempre estive mais inclinado a acreditar numa ideia de individualidade. Nunca fui assim muito ligado à necessidade de me aproximar do coletivo, de me identificar com o coletivo, antes pelo contrário. Eu sempre acreditei que, sei lá, no meu trabalho, na arte em geral, o que eu gosto mais é quando as coisas atingem uma tal subjetividade onde todos nos tocamos. Nós somos todos diferentes, não é? Mas a forma como sentimos e a forma como duvidamos ou como desconhecemos, no fundo, é a mesma.


AP: Mas então algumas pessoas conseguem ser artistas e outras não?

NV: Acho que, eventualmente, todas conseguiriam, mas nem todas têm vontade sequer de estar despertas para isso. Acho que é um mecanismo que está presente em toda a gente. Porém, há formas mais evidentes de fazer isso e dessas formas mais evidentes, no meu caso, por exemplo, resultou que eu sabia que adorava desenhar desde sempre. Eu diria que é uma coisa mais inata, claro, não fui castrado, não é? Nasci num sítio que não tinha bibliotecas, nem museus, nem nada. O que eu tinha era uma genética muito expressiva, assim como uma espécie de herança. Lembro-me de desenhar antes de falar e, como tal, foi sempre uma coisa que me acompanhou a vida inteira. Portanto, para mim era óbvio que eu tinha uma ferramenta que, eventualmente, me havia de fazer artista, não é? Não quer dizer que essa seja a única ferramenta. Acho que é essa vontade de expressão, essa necessidade de expressão, de fabulação interior, de construção do teu universo, deve estar presente em toda a gente, só que não é alimentada em geral, ou não era, principalmente no tempo em que eu cresci. As pessoas esperam mais que tu te uniformizes. Às vezes quando se pensa de forma diferente, quando se sai fora é-se considerado algo aberrante, potencialmente perigoso e uma ameaça para o coletivo. Eu tinha uma visão particular do mundo, e desde pequenino, cresci com essa ideia de que tinha um talento, de que fazia uma coisa que os outros não sabiam fazer, especialmente num meio tão pequenino. E eu sabia que tinha alguma coisa, que eu fazia qualquer coisa excecional e, para bem ou para mal, isso formou o meu carácter. E isso não foi problemático até eu tomar as rédeas dessa excecionalidade e fazer com ela aquilo que eu sabia que tinha de fazer. E isso levou-me a tomar posições, a afastar-me da massa, porque ia procurar caminhos. E essa necessidade de encontrares identificação, aconteceu-me quando cheguei às Belas Artes. Eu encontrei pessoas que, de facto, eram parecidas. Mas aquilo era uma ilha. Encontrei ali amigos numa ilha, muito pequeninha e muito protegida.


AP: E achas que é também por isso que o meio artístico parece, às vezes, estar à margem da sociedade ou não?

NV: Há essa tendência. A arte sempre foi uma coisa muito das elites. Pelo menos, a história da arte ocidental sempre foi cultivada e cuidada pelas elites, e feita pelas elites. Mas creio que se eu tivesse nascido no século XV, e se eu tivesse de encontrar um caminho, se nascesse a mesma pessoa, ainda sem…o impacto da indústria, eu ia ser artista, de qualquer maneira. Fosse ou não conhecido, fosse ou não visto, eu ia fazer a coisa. Porque vem de uma necessidade muito interior, de uma necessidade primária.


AP: Talvez os artistas estejam “fora da linha do tempo” …ou como alguém dizia, a propósito dos Rolling Stones, “quem faz música desta categoria pode-se vestir de qualquer maneira”… ou nascer em qualquer época.

NV: Sim, quer dizer, ser artista não foi uma coisa que eu percebi que queria ser, que tinha um bom estatuto social, e que ia tentar encaixar aí. Não era isso, nunca foi isso para mim. Isso acaba por ser um efeito colateral e para mim até é um bocadinho nefasto ter de lidar com esse “estatuto”. Eu tinha uma ambição muito grande, nós costumamos chamar de ambição, porque eu sentia-me empurrado a ser uma coisa, eu sentia-me responsável, responsável pelo talento. Tinha que o usar, senão era um desperdício. E tinha a ambição de fazer isso, mas era a ambição de poder fazer isso e poder viver disso, não mais do que isso, não precisava ser rico, não precisava de ter muitos fãs. Sei lá…se eu pudesse não ir às minhas inaugurações (risos) na maior parte das vezes era isso que teria feito, ou seja, para ali já não era chamado.


AP: Sim, estou a perceber o que estás a dizer. Mas ias?

NV: Eu sou de uma timidez profunda, muito grande, mas também de uma espécie de repelência por esse ambiente social. Ia sim.


AP: Eu fui ver a inauguração de uma exposição tua na Galeria Periférica, foi a “Parafernália”, não me esqueço, estava na faculdade, na altura. E lembro-me, por acaso, na altura em que te conheci, que estavas muito arranjado, tinhas o cabelo todo muito bem cortadinho. Não sei se estavas de gravata, acho que não (risos), mas estavas com um casaco de bombazine.

NV: Sim…houve ali uma altura que coincidiu com o tempo em que eu estava na galeria, que eu fiquei assim mais formal e mais discreto. Mais normalizado, por assim dizer. Eu achei, a dada altura, que devia ser assim. Há várias razões por isso. Uma delas era... era que eu achava que tinha mais piada ser assim. Achava que era mais subversivo ser assim, do que…do que ser parecido aos meus quadros (risos), percebes? Mas, essa versão esteve sempre intimamente ligada com aquilo que eu faço e que eu sou e, pronto, é tudo a mesma coisa. E na altura, essa opção estética, essa seriedade era, mais ou menos, irónica. Por outro lado, também estava a viver o problema de ter que lidar com a expectativa do meu trabalho e de ter uma imagem social e isso teve impacto em mim. Eu estava um bocadinho desconfortável nesse papel. Ainda estava no terceiro ano da faculdade e já tinha feito muitos conhecimentos e muitas obras já tinham sido vendidas. E, de repente, comecei a ganhar muito dinheiro e as exposições eram todas vendidas e, de um momento para o outro, passei de nada a alguém que apareceu num jornal, e de quem o primeiro-ministro falava, pronto, de repente. E todos os meus amigos eram mais underground, não é? Eu fazia as coisas de coração e, de repente, estava a fazer muito dinheiro. Hoje em dia acho que viveria de forma diferente com isso. E acho que é a coisa mais natural do mundo. E por isso é que começa a fazer sentido para mim, hoje em dia, voltar ao mainstream.


AP: Voltar a esses círculos, dizes? Com galerias e com essa visibilidade?

NV: Sim, com essa visibilidade, ou seja... Já não me iria intimidar, não me iria apagar... Naquela altura, eu próprio também não concordava muito com aquela especulação, não concordava muito com aquela fantochada social à volta. Daí vinha o desconforto de ter que estar a representar um papel e de sentir que uma coisa genuína não precisaria disso. O meu trabalho nunca deixou de ser genuíno por causa disso, mas eu protegi-me muito, a mim e a outras dimensões da minha vida. E depois também há aquela coisa do “quando corres por gosto, não cansa”, não é? E essa história de que quem faz as coisas pelo coração não devia receber dinheiro. E aliás, devia ser exatamente o contrário: tu só deverias receber dinheiro pelas coisas que fazes com o coração.


AP: Bem, mas então desculpa estares aqui também a representar hoje um papel (risos)… Mudando pronto de assunto, e então a questão da arte bruta, o que tem em comum com a tua forma de ver a arte?

NV: Não, não estás à vontade. Sim, no meu caso particular, eu identifico-me mais com essa turma. Eu sempre defendi, mesmo na faculdade, que a arte nascia de uma verdade interior e não da construção de um projeto ou de uma narrativa primeiro, e depois é que crias a arte. É o contrário, fazes a arte e depois tentas perceber o que é que fizeste. Eu sou mais dessa fação. Não tiro valor à outra. Se a arte, a justificação da arte e dos artistas é os cérebros funcionarem de uma forma diferente, não sei, então aí não poderia ser partilhada com todo o resto normativo. Porquê? Porque não estamos a jogar mesmo com o mesmo baralho, não é? Mas a questão é, sei lá, acho que cada vez mais vai ficando claro que não há ninguém normal. Mas eu sinto-me muito mais à vontade a fazer arte, do que a viver a vida real. Tenho um pé em cada um dos mundos. Consigo estar num mundo e no outro e consigo fazer a transição e ser independente. Acho que nunca estive no outro mundo na verdade, é mais difícil, é mais fácil estar no mundo da imaginação. Ou melhor estou mais confortável, mas também consigo estar muito na realidade. E é também nessas tropas todas que eu consigo depois criar uma comunicação. Porque depois faço pontes. O meu trabalho acaba por ser uma ponte entre essas duas realidades.


AP: E por exemplo, a determinada altura, num dos textos que acompanham os teus posts no Instagram, dizes “ter sido desde que me lembro de ser gente ou mesmo antes disso, bafejado e dirigido interiormente pelo talento”, mas que “(não duvidem, agraciado na mesma medida pela responsabilidade pelo mesmo)”. Num outro excerto escreves ainda: “não me vão ouvir falar, mas também não me apetece estar calado”. É aqui que reside a responsabilidade do artista, a de comunicar, mesmo que não seja a falar strictu sensu? Onde achas que reside a responsabilidade do artista pelo seu talento?

NV: Olha, eu acho que a responsabilidade pessoal… sei lá, no outro dia estava a ver um vídeo no YouTube sobre um tipo a defender que os artistas sempre tinham tido uma dimensão sagrada. Sempre tinham sido uma espécie de xamãs ao longo da história da sociedade. Desde as cavernas até agora, à arte digital. Lá está. Quando dizemos que os alienados no hospital dos doidos são incapazes de viver em sociedade, eu acho que a sociedade é que é incapaz de lidar com essas diferenças. Porque nas outras sociedades havia o xamã, que tinha um papel fundamental de conduzir, de inspirar e dar esperança e toda uma série de valores espirituais, sem os quais a sociedade seria um bocadinho mais pobre ou bastante mais perdida, ou bastante mais fútil. A verdade é que não nos podemos esquecer que não sabemos, não sabemos realmente o que é que estamos aqui a fazer, nem sabemos como é que isto vai acabar, ou onde nos devemos encaixar.


AP: E os artistas... sabem isso?

NV: E os artistas chegam e intuem ou inventam, pode-se dizer, imaginam hipóteses de lidar com esse desconhecido. Não como a religião, de uma forma sistematizada, de uma forma organizada, que cria uma espécie de ritual repetido, mas com a mesma postura de satisfazer essa insatisfação constante. A arte particularmente não se preocupa em resolver o problema, preocupa-se em lidar com o problema. E dá exemplos de como lidar com o problema. De como lidar com o desconhecido, de como lidar com a dúvida, de como lidar com a consciência de que é tudo um bocado absurdo, um bocado ilusório, tudo passageiro, e tudo terá um fim. Todos temos noção que a realidade não é tão sólida como quer parecer, ou que a sociedade não é tão séria, ou nada é assim tão verdadeiro e intransponível, acho que toda a gente intimamente sabe isso, não é? E a arte coloca-se muito honestamente nesse sítio, que é, “não, nós não sabemos, nunca vamos saber, mas nada nos impede de brincar com isso, e de ser felizes”.  Para mim estar aqui a fazer estas coisas é igualzinho a quando era criança e estava a brincar com Legos ou estava a brincar na terra. Se eu inventar, vais passando o tempo nessa imaginação e não há hierarquias de verdade e mentira. Claro, já não com a inocência de uma criança. Quando cresces, vais ter cada vez mais dimensões da complexidade do mundo, da seriedade do problema, mas continuamos a brincar da mesma maneira, com o mesmo prazer de fazer. Eu não sei para que é que isto serve, não sei o que é que estou aqui a fazer, mas posso inventar. E acho que a sociedade poderia tirar muito mais partido disso se se baseasse menos na funcionalidade das coisas e mais na felicidade e na brincadeira. No fundo, o que estamos a fazer é a brincar, todos a brincar. Não deixemos de estar a brincar, só que é com bombas nucleares e com jogos de poder, mas acaba por ser uma brincadeira. E nas brincadeiras também havia essas coisas, não é? Mas eram inofensivas... E há uma narrativa tão forte e histórica de séculos e milénios de construção de sentido que a arte refuta constantemente porque para a arte é tudo possível, não é? Entendo que há aquela narrativa, mas nada me impede de mudar a narrativa toda, ao contrário, ou de criar um desvio.


AP: Olhando para os teus trabalhos, acho que brincam muito também com a temática dos animais e das inúmeras figuras, que surgem de forma espontânea, quase em catadupa. Na obra “Os ensaios das Bacantes” consegui contar mais de 28 figuras. Como é que te surgem os temas na cabeça? Acordas de manhã e imaginas “uma noite de poesia em tutu” ou “um tigre muito gordinho” e decides que há um motivo para criar?

NV: É difícil de compartimentar. Portanto, a minha cabeça não é diferente quando estou a pintar do que quando não estou a pintar. Nas minhas pinturas as figuras são uma espécie de cogumelos, aparecem aqui, aparecem ali, mas estão numa floresta. Essas figuras todas são uma espécie de nuvem neuronal daquilo que está a acontecer na minha cabeça, ou seja, começo numa ponta, sei mais ou menos quais são os vizinhos, mas no meio do caminho apareceram uma série de outros vizinhos. Eu descrevo estas coisas mesmo como os meus mapas mentais. Delimito um bocado o território, claro, porque a folha tem um limite, não pode abarcar tudo. Tento criar uma nuvem temática, mas não quer dizer que não apareça uma ou duas ou três ou quatro coisas, que não têm absolutamente nada a ver. As coisas estão sempre a acontecer. Então, depois ter um pensamento de um desenho quando não estou a pintar, se calhar mais tarde vou tentar reproduzi-lo.


AP: E compartimentas? Pões numa pequena gaveta, é isso?

NV: Não, estou sempre aberto. Assim, nunca cristalizo. Eu posso ter a ideia do tigre a beber um copo de leite (risos) mas quando vou desenhar, tiro o copo de leite, e ele passa a beber um copo de Coca-Cola, sei lá, porque, nesse momento, faz mais sentido. A minha imaginação está sempre ativa, mas eu tenho uma “nuvem temática”. E há coisas até anotadas. Coisas que eu sei. Este desenho, por exemplo, vai se chamar, ou já se chama, “A protelação do despertar”. Que é quando carregas no “snooze” e assim para dormir mais um bocadinho. E todos estes desenhos são pequenas Cosmogonias ou universos muito complexos, e tentam reproduzir a complexidade descontrolada e criar uma coisa que não tem uma leitura de uma só vez. Mas há uma nuvem, ou seja, eu sei que há este tema, e este tema fala de quê? Fala de uma espécie de mundo zombie, onde as pessoas estão todas a dormir, agarradas aos telemóveis, aos computadores, ao mundo digital onde é constantemente adiado uma espécie de despertar espiritual do seu verdadeiro interior. Pronto, então eu brinco ironicamente com isso tudo neste desenho, que depois são assim muito coloridos e parecem brinquedos, mas estou a falar de coisas muito sérias.


AP: Exato. É isso que também percebo.

NV: E tem a ver com depois criar uma imagem lúdica desta paródia que é, no fundo, a realidade, que é, como estou a dizer ali: o mundo está a ir para as urtigas e tudo é cada vez mais fraudulento e fake, mas todos nós nos conformamos com isso também. Ou seja, hoje em dia acho que a realidade é muito mais louca do que a arte. A arte parece-me assim muito mais séria do que o mundo real.


AP: Mas, ao mesmo tempo, se tu fores uma pessoa extremamente consciente, isso vai obviamente também condicionar a forma como tu vês as outras pessoas. E vais achar que as pessoas que ainda estão “a dormir” são incómodas ou não?

NV: Acho que também é importante não perder de vista o ver dos olhos dos outros. Eu acho que a liberdade de todos aumenta quanto mais todos forem mais livres. Somos todos pontinhos de vista no universo. E somos todos responsáveis por esse ponto de vista. E esse ponto de vista é estruturalmente diferente dos outros todos. A imagem global seria muito mais rica se todos dessem o seu verdadeiro ponto de vista. E não apenas repetições. E também é importante ver os outros pontos de vista para ver o que não é o teu ponto de vista. Quando venho para aqui e me isolo do mundo de certa maneira, e faço coisas que vêm de dentro da minha cabeça e por aí fora, não quer dizer que me tenha esquecido do mundo lá fora ou que tenha perdido a responsabilidade com os meus pares. Tenho uma grande responsabilidade pela parte da humanidade que eu sou. Não perco de vista que sou uma experiência de ser humano também. E preocupo-me em dar esse testemunho do que é essa experiência de ser humano. Mas não de uma forma heroica, de uma forma honesta.


AP: Bruce Chatwin escreveu em "Anatomia da Errância" que todos procuramos "um sítio para pendurar o chapéu", o que é no fundo uma metáfora sobre a busca por um lugar de estabilidade ou de pertença. Já encontraste esse lugar? Nunca te sentes sozinho?

NV: Eu posso estar aqui às vezes semanas sem falar com ninguém. Não sei, acho que quando às vezes estou em contextos que não me identifico de todo e que são desconfortáveis aí é que eu me sinto sozinho, e pode ser rodeado de pessoas. Mas a verdade é que eu me sinto menos sozinho, quando estou sozinho (risos). Também tenho sorte de não me sentir sozinho com certas pessoas. São um número limitado de pessoas e acho que é assim um pouco para todos nós. Nessa vastíssima coleção de pontos de vista há uns mais vizinhos do que outros, não é? Não é suposto, nem possível (acho que o jogo não está feito dessa maneira) sermos entendidos por todos.
De resto, estar aqui, estar em Lisboa ou estar em Berlim, a arte que eu fiz é quase sempre a mesma. Do atelier para dentro é quase como da minha cabeça para dentro. É claro que se é influenciado por aquilo que está lá fora, se viver numa cidade, há de se repercutir de uma maneira, se viver aqui, há de se repercutir de outra, mas a química que acontece no meu cérebro é idêntica. É quase irrelevante a pessoa que eu sou socialmente. Não sei, eu sempre tive esta sensação. Desde muito pequenino lembro-me de desconfiar muito da realidade. A realidade não é uma coisa assim tão sólida. Qualquer coisa está off aqui, percebes? Há qualquer coisa que não me convence. Mesmo nos momentos em que estive mais apaixonado, nos momentos em que estive mais envolvido na vida real e com outras pessoas, nunca deixei de sentir que isto não é verdade. Sinto que a realidade é uma obra, que é um livro, que é um filme, que é um grande teatro, mas que um dia vai acabar e eventualmente será outra coisa, haja ou não continuação da vida. Sei lá, eu sou crente e sou cético, ao mesmo tempo sou todas as coisas, eu acho que também é esse o lugar do artista. Tudo é possível e tudo é impossível. Tudo pode ser utilizado, tudo interessa. O sítio verdadeiro onde eu me sinto em casa é dentro da minha cabeça. Isso vai comigo para todo lado. Isso é o que torna indiferente eu estar onde estiver, porque é na minha cabeça que eu me sinto confortável.


AP: Eu, quando olho, de uma forma geral, para os teus trabalhos, a primeira palavra que me vem à cabeça é “luminescente”. Luminescente não só pelos tons florescentes que usas, por vezes, mas também pela luminosidade e vitalidade que transmitem. Parece que agora os teus desenhos ficam a brilhar no escuro (risos). No entanto, creio que não existe esta característica nas tintas e pigmentos que usas. Ou há?

NV: Sim, tenho até tenho alguns quadros em que se apagares a luz, vês outra coisa. Lembro-me de pintar um quadro que se chamava “Fogo Fátuo” e tudo; de dia vias uns trocos e se apagasses a luz vias fogo. Usei aquelas tintas fosforescentes, que brilham no escuro.


AP: Por outro lado, existe também uma certa familiaridade, envolvência que consegues criar com quem observa os teus desenhos. Até mesmo nos títulos que, por vezes, parecem irónicos, outras vezes demasiado simples para a densidade e complexidade da composição. Achas que é nisto que reside um bocadinho a tua forma de comunicar, talvez?

NV: Eu acho que sempre estive preocupado com uma certa sedução. Não é muito consciente, mas tenho tendência a criar uma coisa apelativa, uma coisa sedutora, sensualmente atraente, uma coisa que te faça entrar. E isso é uma espécie de isco, porque depois lá dentro tu começas a ver coisas.... É este o feedback que eu tenho das pessoas. Começas por ver assim uma coisa quase querida e inocente. E depois és apanhada lá dentro e começas a ver coisas terríveis, cadáveres, morte, coisas terríveis, pronto. Sim, estou a perceber. E isto acontecia nestes desenhos e nas pinturas grandes e tal. Eu penso que muita gente, muitas vezes, associava-me à arte mexicana, porque é assim uma representação exuberante. Nesse sentido, de ser exuberante, mas estar a falar de uma coisa pesada.


AP: Engraçado, por acaso não acho. Pelo contrário, até acho que há uma certa leveza nesta linguagem visual quase psicadélica, apesar de os desenhos serem complexos. Mesmo que haja figuras grotescas, há um organismo coletivo que gera familiaridade. E depois também os animais e os títulos.

NV: Os animais são particularmente leves. Eu sei que facilmente geram a identificação das pessoas. Só que, pronto, acho que há sempre ali uma coisa envergonhada. Aliás, não necessariamente. Também pode não ser envergonhada.


AP: Mas a arte nunca é cruel, ou é?

NV: Eu acho que não. Acho que arte existe para não termos de ser cruéis. Eu lembro-que numa das primeiras exposições, uma pessoa, que por acaso era psicóloga, fez um comentário e disse que não devia ser permitido eu fazer estas coisas. Porque pôr os monstros cá fora era ofensivo para o público. Que a arte não devia servir para isso. Eu discordo. Mesmo quando eu trago monstros, estes monstros não são propriamente os meus. Os monstros que eu ponho lá são arquétipos dos monstros que nos atormentam a todos, creio eu. Na arte há essa liberdade, não é? É ali que nós podemos matar, podemos ser incorretos, podemos ser essas coisas todas. Aí é completamente seguro e até saudável. Acho que é para isso que ela serve. Teatro, pintura, sei lá, cinema. Porque não precisamos de viver a coisa realmente; realmente seria traumática. Artisticamente é educativa, é pedagógico, acho eu.

Agora, outra coisa sobre a luminosidade ou luminescência, e sobre esta histeria cromática (risos), acho que tem a ver com duas coisas. Uma é que, para mim, obviamente, gosto de desenhar e de trazer as coisas para a luz. Elas estão lá na minha escuridão e eu ponho-as à vista. E esse pôr à vista é muito exagerado. É exagerado de propósito e acho que tem a ver com o meu feitio, acho que sou assim um bocado histérico, de certa maneira. E por outro lado, tem a ver com achar que a realidade é um bocado cinzenta e que é preciso vencê-la. É preciso fazer diferente porque eu não respeito as cores da realidade. Tentar vencer, ser mais rico que a realidade, se pudesse pintar com cores que não existem, pintava de certeza. Estou sempre a procurar materiais e coisas que possam ser completamente artificiais, que assumem essa artificialidade da arte. Por isso é que eu uso as cores fluorescentes, porque não estou interessado em ser fiel à natureza, nem em respeitar a natureza, nem em imitar a natureza. Eu aceito-me completamente como sou. A ideia de ser humano é artificial. Acho que o ser humano tem qualquer coisa de anti-natureza. Há qualquer coisa por descobrir ou por entender, mas acho que nós estamos em conflito com a natureza. E é a nossa condição. Isso é triste, mas ao mesmo tempo, é o que eu acho que é. Porque desde o princípio, as nossas invenções, quando começámos a controlar o fogo, quando pusemos uma pedra em cima de outra de uma forma intencional, foi de uma forma que a natureza não faz. E a partir desse momento, a natureza da qual fazemos parte, tem um elemento que não encaixa perfeitamente. A própria ideia de consciência, acho que é uma coisa antinatural no universo. É o universo a ver-se a si próprio. Fazemos com uma intenção, e acho que na visão macroscópica da coisa, essa intenção depois acaba por se ler também como natureza. Mas é uma natureza artificiosa, artificial, não é natural. Não quer dizer que a natureza, pronto, uma ideia de natureza, não possa comportar também essa artificialidade como parte da natureza. Mas acho que há um grande mal-entendido nisso. Se nós aceitássemos a nossa artificialidade, acho que até por aí conseguíamos integrar-nos melhor na natureza, porque percebemos que somos um elemento estranho e percebemos o quanto isso pode ser perturbador. Em vez de entendermos que isto é conflito, no fundo, se virmos a coisa de distância suficiente, percebemos que a nossa ação é parte de um ecossistema, se calhar de galáxias, ou de planetas, faz tudo parte e que não está em conflito. É um bocadinho polémico isto que eu estou a dizer, mas para mim estar numa cidade e ver prédios em todo o lado é uma espécie de natureza também. Essa artificialidade é natureza também. Hoje parece que há um mundo natural ideal e inviolado e o planeta quer uma coisa e o homem quer outra. E isso parece-me uma visão um bocado limitada da coisa, porque se calhar o facto de o homem querer outra coisa e criar coisas artificiais, e criar coisas que entram em conflito com a natureza, faz parte de uma coisa maior.
 

AP: Tens mesmo uma noção muito grande dessa artificialidade. Parece que nós aqui é que estamos a mais, não é?

NV: Mas será que estamos a mais? Ou será que estar a mais é que é o nosso papel? Criamos a arte, criamos a cultura, criamos uma série de coisas fantásticas. E criamos uma série de coisas terríveis. Tanto as terríveis como as fantásticas são completamente artificiais na natureza, não têm nada a ver com os ritmos migratórios, ou com as baleias no oceano.


AP: Pois é.

NV: As ações dos homens podiam ser entendidas como as ações das formigas. Eventualmente acho que as formigas também poderiam destruir um formigueiro, destruir um ecossistema, se fossem demasiadas, talvez também, por razões que não entendemos. Qualquer grupo de animais, qualquer espécie que, de repente, houvesse imensos deles, ia destruir o ecossistema, não é? E é isto que está a acontecer connosco. Nós somos imensos e estamos a destruir o ecossistema. Não estamos em equilíbrio.


AP: Uma outra coisa que chamou a atenção naquilo que fui lendo do teu percurso e vendo das tuas publicações, é a tua grande capacidade de produção. Do teu “inventário” de desenhos há assim alguma fase mais produtiva ou na qual te tenhas sentido mais motivado a criar?

NV: Bem, acho que as coisas estão muito integradas, e aparecem assim facilmente. Se eu for para a rua, faço desenhos na rua, faço desenhos em qualquer lado e faço com um sentido de disciplina que não é em esforço, faço porque me apetece. Sempre que me perguntam pelo meu trabalho até me custa dizer, quando falo do meu trabalho, dizer “o meu trabalho”… porque não o entendo dessa maneira. Só estou a fazer o que é suposto. Nesse sentido, já trabalhava quando tinha seis anos. Estou a fazer a mesma coisa. É fantástico poder viver disso, claro, e é claro que tem as suas implicações viver daquilo que faço, e também já me custou viver com essa ideia, mas acho que faço por uma necessidade interior ou por um sentido de obrigação. Imagina se uma árvore que dá maçãs se recusar a dar maçãs, isso não está certo (risos).
Acho que há períodos em que fiz mais coisas, e períodos em que fiz um bocadinho menos, às vezes também motivado pelas circunstâncias, sei lá. Houve um período na minha vida em que minha arte era quase sempre digital, porque eu não tinha atelier. Então fazia tudo no iPad.


AP: Ah, ok, ok. Não sabia. Isso correspondeu a que altura, mais ou menos?

NV: Foi nos anos de Berlim, por exemplo, alguns dos anos de Berlim, enquanto eu não tinha atelier e depois este período entre o final de Berlim e até 2020, mais ou menos. Foi o período em que eu andava um bocadinho a lutar para ter um espaço físico.


AP: Olha, e o Erasmus em Oslo? Teve alguma influência o Erasmus? Sentes que foi importante ou nem por isso?

NV: O Erasmus…. O Erasmus foi um bocadinho fortuito. Eu tinha-me candidatado para ir para Inglaterra. Só que na altura eu tinha uma namorada e queria ir com ela. E Oslo acabou por ser o único sítio que tinha duas vagas. Se teve impacto? Era uma escola radicalmente diferente da FBAUL. A escola tinha 90 alunos, a nossa tinha 700 ou 800. Portanto, aqueles alunos que estavam ali tinham condições de trabalho e um propósito completamente diferente. Não havia ali mal-entendidos de pessoas que queriam dar aulas ou que queriam ser professores. Todos os que estavam ali tinham passado por uma peneira muito rigorosa e eram pessoas que estavam realmente motivadas para serem artistas. E grande parte daquelas pessoas eventualmente seriam, ou eram já. E eram educadas para fazer coisas nesse sentido. E nas Belas Artes parecia uma bizarria dizer que se queria ser artista. Isso foi uma das coisas que me chocou quando cheguei lá. Sentia mesmo que as pessoas iam para lá não com o objetivo de ser artistas. Iam para ali porque gostavam de arte, porque gostavam de desenhar, na esperança de aprender a ser artistas, talvez, mas ser artista é uma coisa que, de alguma forma, ou já se seria antes de ir para ali, ou dificilmente iria ser uma coisa que irias aprender a ser ali...


AP: Não achas que seja uma coisa ensinável, então, ser artista?

NV: Eu acho que é uma coisa partilhável, mas quando a maioria dos professores que estão lá são artistas frustrados, ou seja, pessoas que não foram artistas e que se tornaram professores e deixaram de fazer arte…. obviamente que eles vão transmitir-te muito mais a frustração de não terem sido artistas e tentarem convencer-te, mais ou menos conscientemente, de que se eles não foram, tu também nunca serás.
Mas há escolas como esta na Noruega, por exemplo, na qual os professores eram artistas realizados. Faziam o seu trabalho e alguns tinham, inclusivamente, um atelier na própria escola.


AP: Está na hora de seres professor? Ou não? (risos)

NV: Foi uma coisa que nunca considerei. Cheguei a pensar em ser professor de desenho, mas lá está, é a mesma coisa do que fazer coisas em grupo, não sei.


AP: Sim, mas pela influência, no fundo, também positiva que pudesses ter nessas pessoas.

NV: Sim, se se propiciasse, eu acho que nesse sentido poderia aportar alguma coisa de positivo, permitir a inspiração. Porque é isso que depois acontece nessas pessoas, nessas escolas como a de Oslo. Quando aprendes a ser artista com artistas. Também não vou condenar as Belas Artes completamente. Também houve artistas nas Belas Artes em Lisboa que foram importantes. Mas quando estás a lidar com artistas, a discussão, a motivação que tiras daí e o que podes aprender é muito mais positiva e interessante do que estares a lutar contra uma cabeça que se rendeu. E é um sistema um bocado apodrecido, não é? Um sistema de fraude. Mas isso é um bocadinho até na arte em geral. Esta ideia de ser artista e de ter talento é um bocado mal vista. Não estão à espera de que sejas uma pessoa inspirada, nem que sejas uma pessoa que faz coisas do nada. Estão à espera que tenhas um discurso e que sejas um trabalhador e que cumpras um determinado protocolo. Esta ideia do iluminado que vem com uma cassete que nunca foi ouvida, não sei o quê, é muito mal vista hoje em dia.


AP: Mas tu desmistificas um bocadinho isso, não é?

NV: Em muitos contextos, tornou-se um bocado aberrante, porque criou-se esta metodologia e tal, e há muitas pessoas que se tornam artistas e criam essa metodologia, que é fraudulenta também. Mas há outras em que não é. Há outras que não percebes de onde é que aquilo saiu, mas de facto é inegável e pronto. Olha, eu estive há pouco tempo em Halifax. E tinha visto há alguns anos um filme que se chama Maudie (Maud Lewis), que é sobre uma pintora de arte bruta. E é uma pintora que vivia numa aldeia de pescadores, que não tinha formação absolutamente nenhuma, e tinha uma vida terrível, cheia de dificuldades, mas pintava tudo, pegava em qualquer coisa e pintava. E hoje em dia até tem um museu. E isso é algo que não vem de lado nenhum, não vem da educação, não vem do contexto, não vem de nada. Vem daquela pessoa reagir à existência daquela maneira.


AP: Exatamente. Nem mais.

NV: E aquilo tem uma verdade, uma originalidade que é inegável. Não tem a ver com escolas. A arte institucional e a arte que se faz nas escolas também é interessante. Mas tende a materializar a coisa mais uma vez, a tornar a coisa um objeto, a tornar a coisa numa empresa, tornar numa coisa que se pode monetizar, que se pode capitalizar. Quando, na verdade, estamos a lidar com uma força que é, desde os primórdios, uma força estranha. Ou seja, a arte impulsiona a humanidade de uma maneira que vai sempre fugir a essas caixas, pronto. E estarmos a negar que tem a ver com o desconhecido, que tem a ver com uma certa magia, é estar a limitar um bocado, é estar a perder uma parte muito importante.


AP: Bem, só agora estou a reparar que até o teu sofá sofreu com as tuas pinturas.

NV: É assim, eu pinto tudo (risos). Conforme já tinha dito, as coisas a mim saem-me muito espontaneamente. E também tenho uma relação de aceitação muito grande com aquilo que sai. Quando fazemos projetos, às vezes achamos que a coisa tem de ser brilhante e muito definida. Para mim, pelo contrário, tem de haver uma consonância com o desconhecido, com o imprevisto; se tu já criaste uma ideia muito clara daquilo que vai ser a coisa se calhar não é preciso fazeres nada. Tem de ser uma coisa de alguma maneira acidental e inesperada. 


AP: E tens previstas novas exposições para breve?

NV: Vou fazer uma exposição na livraria “Arquivo”, em Leiria. Vai ser no dia 10 de outubro e vai-se chamar “Mulheres”. Será com os meus desenhos de mulheres que tenho feito. As mulheres normalmente não entravam no meu trabalho, só entravam assim, de uma forma muito secundária ou pequena. Eu não fazia mulheres e muito menos nuas porque eu via o mundo do meu ponto de vista e a maior parte das vezes apareciam sempre figuras masculinas.


AP: Mas era consciente?

NV: Não era uma coisa muito consciente. Mas não me sentia num lugar de representar a mulher porque era uma coisa que não entendia e nestes anos eu resolvi assumir isso tudo e pronto. Tem uma certa paródia e uma certa brincadeira também com o que é o feminismo. Espero que não seja polémico, mas pronto.


AP: Claro que não. Por é que havia de ser polémico?

NV: Porque, lá está, é a perspetiva do homem masculino a representar uma mulher nua, na maior parte das vezes. E isto é uma visão da arte machista, não sei. Mas eu resolvi pegar nisso de uma forma mais ou menos irónica. As minhas mulheres são sempre fortes.


AP: Eu reparei nisso, por acaso.

NV: E os homens são sempre ridículos (risos), os homens que aparecem junto aos desenhos dessas mulheres, são sempre enfezados, ou velhos, ou estragados, manietados, manipulados. Eu comecei a fazer isto como uma brincadeira, não é? Hoje em dia, se eu fizesse homens brutais e mulheres enfezadas o mundo caía bem em cima. Eu entendo que haja a necessidade de, de repente, defender as mulheres, muito mais do que defender os homens. Mas no fundo a coisa também não devia ser bem assim. Não devíamos era ter essa preocupação. Mas obviamente temos de nos preocupar enquanto a coisa estiver desequilibrada. E então eu criei este desequilíbrio de propósito. E pronto, também acaba por ter esse lado que acho que é novidade nos últimos anos do meu trabalho, que é essa a nudez explícita, uma certa pornografia. Mas sou só eu a brincar mesmo com essa ideia de objetificação da mulher. Neste e noutros também. Há um desenho muito grande que se chama “A grande orgia da democracia”, que é um grande bacanal, com as piadas políticas lá pelo meio. Mas é um grande conjunto de pessoas todas entrelaçadas. Enfim, sempre gostei muito desta ideia de todos construirmos a mesma coisa.

 

 


:::

 

 

 

Nuno Viegas 

Nasceu em Almeida em 1977. Estudou Artes Plásticas - Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. De 2001 a 2015 realizou anualmente exposições individuais na Galeria Arte Periférica em Lisboa. No mesmo período e até ao presente participou em várias exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro. Em 2005 ilustrou os números 166,167 e 168 da Revista Colóquio Letras da Fundação Calouste Gulbenkian. De 2013 a 2015, viveu e trabalhou em Berlim num atelier integrado na BBK (Berufsverband Bildender Künstler Berlin). Desde 2016 vive e trabalha na Castanheira. Também nesse ano, passou a integrar o Juncateatro - Teatro Regional do Juncal como cenógrafo, figurinista e actor e tem colaborado pontualmente com o Leirena, Companhia de teatro de Leiria. Nos últimos anos, tornou pública a sua faceta de exploração sonora, em composições em tempo real, a que gosta de chamar bandas sonoras para a palavra escrita ou improvisos de indução à verbalização espontãnea. O seu trabalho é maioritariamente figurativo, com recentes incursões na abstracção, com foco no lado material do desenho/pintura, tentando dar um testemunho processual, valorizando o improviso e a atenção aos acidentes, num envolvimento também narrativo dum ponto de vista comprometido sobretudo com o absurdo.
Está representado em várias colecções particulares em Portugal e no estrangeiro, na Graphotek de Berlim, a Fundação PLMJ e no Museu de Arte Contemporãnea de Elvas.

 

Ana Poeira

Licenciada em Ciências Jurídicas pela Universidade Nova de Lisboa e com formação em Jornalismo Digital pelo CENJOR, teve um percurso profissional multidisciplinar nas áreas da tradução, comunicação e produção de conteúdos. Colaborou com publicações digitais dedicadas à moda e à cultura, conjugando experiência editorial com um interesse pela fotografia e pelas expressões artísticas contemporâneas.