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UM CASO DE CENSURA: O PAVILHÃO DA ÁFRICA DO SUL NA 61ª BIENAL DE VENEZALAURA BUROCCO2026-01-17
Para a 61ª edição da Bienal, a África do Sul, entre os países africanos com uma das participações mais longas, havia adotado uma abordagem inovadora por meio de uma parceria entre o Ministério do Esporte, das Artes e da Cultura e a ONG Art Periodic South Africa (A°P). A ideia era “oferecer transparência, inclusão e propriedade compartilhada do Pavilhão”, mas o processo terminou com a decisão unilateral do ministro Gayton McKenzie de censurar o conteúdo do projeto vencedor, curado por Ingrid Masondo, que deveria apresentar o trabalho de Gabrielle Goliath, “Elegy”, um projeto de longa duração sobre o feminicídio na África do Sul e na Namíbia, e de retirar o pavilhão. A versão destinada à Bienal deveria refletir sobre as milhares de mulheres e crianças mortas em Gaza pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). De acordo com os acordos, o Ministério era responsável pelo pagamento do aluguel da prestigiada localização do Arsenale, enquanto os demais patrocinadores entrariam em fase posterior. O que o ministro alega é que teria havido um patrocinador estrangeiro interessado na aquisição de obras no pós-Bienal, o que configuraria o risco de que a plataforma da África do Sul fosse utilizada por uma potência estrangeira como instrumento para sustentar uma mensagem política sobre as ações de Israel em Gaza. O que não se sustenta é que não há dúvidas quanto à posição política da África do Sul sobre as ações de Israel em Gaza. Ao contrário, o problema parece ser de política interna e, talvez, de natureza econômica. O ministro afirma ainda que, enquanto patriota, aproveitará toda oportunidade para promover o país no mundo, ecoando as diretrizes trumpistas do pavilhão americano da Bienal de 2022: a ênfase nos “valores americanos” e no “excepcionalismo americano”. Segundo relato de Niren Tolsi, em 4 de janeiro, Goliath, Masondo e Macdonald [James, integrante da equipe responsável pelo projeto] responderam a McKenzie, denunciando abuso de poder e violação do devido processo legal, incluindo a violação do direito à liberdade de expressão e a imposição de um foco redutivo e politicamente desviado no “melhor da África do Sul”, silenciando aquilo que o próprio presidente Ramaphosa definiu como “uma catástrofe nacional” (as taxas de violência e assassinato de mulheres). A resposta do ministro foi: “Não foi exercida qualquer censura, mas mantenho minha discricionariedade enquanto autoridade executiva do Departamento para promover a arte e os/as artistas sul-africano/as e para desconfiar de artistas pagos que se envolvam em narrativas geopolíticas capazes de causar divisões desnecessárias e desacreditar o DSAC e o meu Ministério”. A questão parece envolver dois aspectos: um internacional e outro nacional. A suposta cooptação de artistas sul-africanos por capitais estrangeiros para financiar “narrativas geopolíticas” contra o Estado de Israel e para uma representação do país “não vendável” a possíveis investidores estrangeiros. Isso ocorre sobretudo em um campo particularmente caro aos governos nacionais quando se fala de Veneza: a atração do mercado turístico. Algo muito semelhante já havia sido observado em 2022 no caso do pavilhão da Namíbia, patrocinado e “curado” por uma rede de empresários do turismo de safaris de luxo. A cidade lagunar, transformada em um grande parque temático e, em breve, submersa pela água, funciona quase como um espelho de um mundo promovido pelo luxuoso bem de consumo que é a arte. Em resposta à insinuação de instrumentalização dos profissionais envolvidos, o comitê responsável pela escolha do projeto divulgou uma declaração afirmando o respeito a todos os protocolos administrativos, denunciando o abuso do poder executivo e a grave violação dos princípios consagrados pela Constituição da África do Sul, bem como rejeitando qualquer forma de censura e intimidação. Pelo contrário, confirmou “o apoio ao projeto, à artista e à curadora, reiterando que estão na melhor posição para representar a África do Sul e que atendem amplamente aos mais altos padrões dos pavilhões nacionais na Bienal de Veneza”. Para completar a situação ambígua, a Goodman Gallery, que representa Goliath há uma década, comunicou à artista a retirada de sua representação, alegando a necessidade de enxugar seu portfólio em razão da crise do mercado de arte. Parece difícil acreditar que se comece a cortar custos justamente na artista escolhida para representar o país no prestigioso parterre da última Bienal (2024). Na edição de 2022 da Bienal, os artistas e o curador do Pavilhão da Rússia haviam renunciado, anulando, assim, a participação em protesto contra a invasão da Ucrânia, o que levou ao fechamento do espaço expositivo. Em fevereiro de 2024, a Art Not Genocide Alliance (ANGA), criada para a ocasião, lançou um apelo pedindo a exclusão de Israel para não “legitimar suas políticas de genocídio em Gaza”. Apesar das 12.500 assinaturas recolhidas, a Bienal manteve o pavilhão, interrompido apenas pela decisão da artista Ruth Patir e das curadoras Mira Lapidot e Tamar Margalit, tomada nos dias da pré-abertura da mostra. Na porta do pavilhão, foi afixado um cartaz no qual se lia: “A artista e as curadoras do Pavilhão Israelense abrirão a exposição quando for alcançado um acordo de cessar-fogo e de libertação dos reféns no conflito em Gaza”. Gayton McKenzie possui um currículo bastante peculiar. Além de recentemente ter respondido à Comissão Sul-Africana de Direitos Humanos (SAHRC) por comentários racistas e de ter se manifestado publicamente contra a ação judicial movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, antes de fundar, em 2013, o partido Patriotic Alliance (PA), passou oito anos na prisão (da qual foi libertado antecipadamente por ter filmado comportamentos ilícitos de funcionários penitenciários) por um assalto à mão armada. Assumiu o cargo em 2024, quando a PA passou a integrar o atual Governo de Unidade Nacional (GNU) junto com a Aliança Democrática (DA), outros partidos e o Congresso Nacional Africano (ANC), que, pela primeira vez desde o fim do apartheid, perdeu a maioria parlamentar. A Aliança Democrática distanciou-se da decisão de retirada do pavilhão, declarando que “não se trata do conteúdo da obra ou da política, mas do processo”, e que “a interferência política retroativa, à qual nenhum ministro tem direito, mina fatalmente a credibilidade das instituições culturais da África do Sul”. Até o momento, o ANC não divulgou declarações públicas, mas, segundo um assessor de relações internacionais que falou ao Daily Maverick sob condição de anonimato, “a confusão de mensagens entre ministros de diferentes partidos representa um problema constante dentro do GNU, colocando-o em uma posição precária”. Um grupo de trabalhadores da arte e da cultura sul-africanos lançou uma petição na qual, além de expressar solidariedade a Goliath, Masondo e à equipe curatorial, manifesta preocupação com a preservação do setor cultural, com a liberdade de expressão e com os direitos constitucionais, evocando a seção 16 da Carta de Direitos da África do Sul. A petição denuncia a atuação do ministro ao longo de seus dois anos de mandato, marcada por uma gestão autoritária, personalista e não profissional, que resultou no corte não apenas de recursos destinados ao pavilhão sul-africano em Veneza, mas também a dois dos principais eventos culturais anuais do país: o National Arts Festival, realizado em Makhanda há 50 anos, e o Cape Town Book Festival, existente há 15 anos. O documento expressa ainda uma preocupação explícita com o uso personalista de seu mandato em favor de Israel, citando uma declaração de McKenzie, em nítido contraste com a posição adotada pelo governo sul-africano: “A minha Bíblia me obriga a estar ao lado do Estado de Israel […] Não ouvirei o ANC, mas, como cristão, ouvirei a palavra da Bíblia”.
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Laura Burocco
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