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PEDRO GOMES

LIZ VAHIA


 

Fomos conhecer o atelier de Pedro Gomes, aproveitando pelo caminho para visitar o recente monumento de homenagem aos 25 anos da meia maratona de Lisboa, um projecto da autoria do artista juntamente com o arquitecto João Regal. Pedro Gomes falou-nos da prática de atelier e como esta se vai alargando cada vez mais a outros espaços de trabalho.


Por Liz Vahia

 

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Acompanhámos Pedro Gomes numa visita ao monumento de homenagem aos 25 anos da meia maratona de Lisboa, um projecto de arte pública situado em Belém.

 

PG: Estudei arquitectura e escultura ao mesmo tempo. Acabei escultura no Ar.CO e depois fiz um mestrado em escultura no Chelsea College of Art and Design. Na altura já gostava imenso de desenho, era isso que fazia desde miúdo, desenhar, e foi o que me levou às duas disciplinas. Mas tenho um gosto particular por materiais e a maneira como as imagens se materializam. Nesta peça, o próprio desenho que está inscrito é um desenho que foi delineado no atelier, mas foi muito trabalhado a partir das condições físicas e técnicas das máquinas que o iam executar. Eu nunca dou o desenho por completo sem ter acesso à máquina, às questões técnicas. É nesse momento que eu sinto que estou a tomar decisões acerca do desenho. Esse processo é muito importante. Podemos ver marcas do instrumento na superfície, que não foram pensadas, mas o assumir essas marcas na superfície para mim é também desenho. São decisões técnicas que me fizeram alterar a concepção do desenho.
Esta peça [1] é um trabalho da minha autoria em colaboração com o arquitecto João Regal. O estímulo inicial e as ideias são minhas. Não queria que partisse de uma base escultórica tradicional, apesar de ter alguma ressonância na tocha olímpica e na tradição do obelisco, interessava-me antes que tivesse uma conexão com o design. Podemos dizer que o atelier deste objecto foram sítios muito diversos, desde as reuniões com as várias especialidades que interferiram na feitura do objecto até à fábrica. É um objecto iluminado, que faz lembrar os candeeiros e a decisão de inserir a peça nesta linha de candeeiros foi uma decisão minha. Este sítio também remete um pouco ao meu princípio na arquitectura.


LV: É quase um equipamento urbano.

PG: Aproxima-se ao design. Não me senti minimamente constrangido por ser um desafio que me é exterior, neste caso, assinalar os 25 anos da meia maratona de Lisboa. Isto é um monumento à meia maratona e tem que ter essa leitura. Não acho que isso seja contrário à natureza de um objecto artístico. Senti-me confortável a criar este objecto em sítios que não o meu atelier, nomeadamente o acompanhamento em fábrica. Muitas das decisões que se tomam normalmente no atelier tiveram que ser tomadas em reuniões com o arquitecto e com os técnicos. Penso nisto como comunicação, não vejo este trabalho como uma reivindicação pessoal, é um objecto que tenta comunicar.
Interessa-me poder ter momentos de recolhimento no atelier e momentos de partilha com outras condicionantes, sejam pessoas ou questões técnicas. Desde cedo preciso de interlocutores e gosto desse jogo – eu chamo-lhe um jogo porque é um desafio – e esse jogo é um jogo final, é comunicar uma determinada proposta. O meu atelier não é um sítio de reclusão, é um sítio realmente de concentração, é a primeira plataforma, onde me sinto bem e onde posso testar as minhas ideias, prepará-las para as confrontar com outras pessoas. Mesmo quando se tratava de desenhos, que eram desenhos tradicionais em papel, isso já estava presente.


De Belém seguimos para o atelier de Pedro Gomes.


PG: Se me perguntarem qual é a morada do meu atelier é esta, mas onde é que eu tenho um trabalho de atelier pode não ser necessariamente aqui. O sítio onde se executam as coisas é cada vez menos o atelier. Isto tem mais ar de escritório, de atelier de artes gráficas, do que um atelier de um artista “plástico”. O meu atelier agora podia ser um atelier de design ou arquitectura, porque vai mudando consoante a série de trabalhos que estou a fazer. Neste momento é muito trabalho em computador, só mais tarde irá ter uma existência física e se calhar noutro sítio.
Não me é difícil sentir-me próximo do atelier dos meus colegas, mas curiosamente eu sempre me senti próximo dos laboratórios de investigação científica. Sempre que falava com pessoas que faziam trabalho de bancada na investigação científica sentia-me próximo.


LV: Como é a tua relação diária com o atelier?

PG: O atelier é a base do projecto, o sítio onde me concentro, onde eu preparo a base do trabalho. Há uma espécie de lado projectual. A minha prática de atelier, como trabalho por séries, é muito diversa e eu gosto muito disso, não gosto de uma prática de atelier rotineira. Gosto de ter disciplina, isso é fundamental para qualquer pessoa, mas não gosto da rotina de estar sozinho no atelier ou com as mesmas pessoas à mesma hora. Não me sinto bem e nem isso me estimula. Eu preciso de um interlocutor para trocar e testar ideias. Até para testar se as imagens que eu estou a trabalhar são entendidas como eu as pensei. Gosto da fronteira das pessoas reconhecerem a imagem ou não e acho que nessa fronteira há qualquer coisa interessante, mas isso é uma coisa que eu não consigo fazer sozinho. Eu já tenho um cérebro muito viciado, sei qual foi a imagem inicial, por isso para trabalhar muitas vezes preciso de ir testando. Como toda a gente, vou chamando pessoas ao atelier em momentos cruciais e pessoas com perfis definidos que correspondem à pergunta que eu tenho naquele momento. Tenho um leque de pessoas para perguntas diferentes. Mas não gosto nada de mostrar o trabalho que ainda não tem consistência.


LV: Os assistentes são também um elemento importante no teu processo de trabalho?

PG: Ter um assistente no atelier, ter ajuda, é uma coisa importante. Não gosto de estar no atelier sozinho. Houve momentos em que não havia disponibilidade financeira para ter alguém permanentemente e considerei voltar a ter uma prática de atelier sem ninguém. Foi uma coisa que não resultou. Muito do trabalho era feito no atelier, executado por mim e por outras pessoas, porque as horas de trabalho eram absurdas para ser um trabalho solitário. Havia sempre a atenção de serem técnicas que eu dominava, para sentir que o trabalho era meu, mas era uma proposta de execução do desenho numa determinada materialidade e isso pode ser feito por outras pessoas e muitas vezes a mim interessava-me esse jogo. Eu determino os parâmetros e a execução é uma coisa que eu gosto que seja feita não necessariamente por mim e que haja até uma comparação entre aquilo que eu executo e aquilo que a outra pessoa executa.
Muitos dos meus trabalhos actuais implicam questões técnicas que têm que ser feitas fora do atelier. Cada vez mais isso me interessa também.


LV: Dizias-me na vinda para cá que gostas de ir às fábricas e às oficinas, mas o que te interessa não é o processo industrial, é encontrar alguém que perceba o que queres fazer. E que gostas das possibilidades do erro da matéria.

PG: Acho que se tem que contrariar o acto projectual. Isto não é um processo industrial de fabricação nem se aproxima do design, isto é um projecto de artes plásticas. O que me interessa é mesmo a maneira como uma determinada inscrição é feita no material, as possibilidades de erro, as variações que normalmente não seriam tomadas como um trabalho “perfeito”, isso é o que aproxima de uma manualidade das artes plásticas. É importante essa relação física com as coisas para as conhecer. O atelier é o sítio onde nós temos pela primeira vez essa relação física com os objectos que queremos criar, onde tornamos físicas determinadas ideias. Isso continua a acontecer também numa oficina, por exemplo, mas passa não pelo trabalho perfeitinho mas sim por esse espectro de possibilidades que as técnicas apresentam. A nossa autoria também tem a ver com o determinarmos o que é que diz respeito àquele trabalho. Isso não é da natureza de um processo industrial, é antes da natureza de um processo artístico. Para mim o erro é muito importante. Por exemplo, no desenho perfurado, o acto de perfurar é uma acto muito simples mas é muito difícil conseguir ser normalizado. Interessa-me o contrariar uma normalização em relação à maneira como se imprime ou inscreve uma imagem na superfície.
O facto das coisas serem executadas fora do atelier, que acaba agora por ser só um sítio de projecto, aproxima-me da situação na altura em que eu estudava. Na arquitectura isso é óbvio. Não me interessou continuar arquitectura porque o tempo entre o pensar o objecto e a execução era muito grande e não achei o imput do cliente, a fase inicial do trabalho, estimulante.
Tem vindo a acontecer mais frequentemente os projectos serem executados fora do atelier, ao contrário da minha prática de desenho que era toda feito no atelier. Eu pensava as séries de trabalho e depois iniciava-se um momento de execução, e esse momento também tinha a ver com criar acasos dentro de uma ordem. Naturalmente sou controlador na maneira como irracionalmente arranjo as coisas e precisava nessa parte na execução, um momento em que houvesse uma perda de controle, para as coisas terem uma nova leitura, mais interessante e ambígua. Sobretudo na manualidade do desenho. Se o projecto era muito controlado, a manualidade do desenho ia-se perdendo e estávamos já a trabalhar em artes gráficas ou essas coisas mais impessoais.
No entanto, neste momento o meu atelier tem uma vertente de projecto maior.


LV: Foi importante para ti ter logo desde o início um espaço de trabalho, um atelier.

PG: Sempre tive e nunca partilhei. Não imagino o que é não ter atelier. Ter um atelier é muito importante, mas não é um espaço de reclusão, como disse, é um espaço de protecção que eu posso controlar e onde tenho a liberdade de falhar. Uma parte muito importante deste trabalho é a liberdade de falhar. Tenta-se que as falhas não sejam muitas, mas o artista tem que ter o distanciamento necessário para filtrar o que é menos interessante. Muitas vezes essas ideias servem para trabalhos mais tarde. O atelier é o local onde nós guardamos e arquivamos as falhas. Há um lado de arquivo que é importante aqui, no guardar dos trabalhos que ficaram bem ou das ideias que ficaram pendentes.
O momento em que as coisas saem do atelier é um momento importante, nós tomamos a decisão de que aquele trabalho é válido para comunicar com os outros em determinado momento (há trabalhos que não fazem sentido sair naquele momento). A figura do atelier é importante nisto porque é um filtro de uma série de coisas e é uma protecção para quem gosta de trabalhar em diálogo com outras pessoas. São as paredes físicas que nos protegem, porque há uma exposição muito grande. Há um momento na construção do trabalho que implica fragilidades, muitas vezes pessoais. Só faz sentido fazermos aquilo que nos diz respeito, se não o trabalho não será tão interessante. Mas isso não tem que ser autobiográfico ou analítico.


LV: O atelier não é a galeria, onde todos podem ir.

PG: Não vai toda a gente e não vai quem quer. Mesmo quando vão, eu enceno, controlo, há uma edição da realidade. Mostrar tudo não é nada o meu ponto de partida.


LV: Tinhas um projecto chamado “Atelier”, em 2009.

PG: Foi um trabalho para o Empty Cube e como era um trabalho para ser mostrado só uma vez (havia um lado de carácter único em que a obra a seguir desaparece) permiti-me mostrar erros, ideias não totalmente fechadas. Parti dos restos dos desenhos que não correram tão bem, passando-os a negro. Estavam no purgatório. Eu tenho três momentos no atelier: os trabalhos que vão para o inferno, os que vão para o purgatório e que mais tarde se toma decisões sobre eles, e tenho os que estão acabados. O atelier serve para filtrar esses três. O mais interessante é o purgatório!


LV: O trabalho que estás a desenvolver neste momento têm a ver com um assunto frequente no teu percurso, que é a imagem do corpo captada pelos media do quotidiano.

PG: Interessa-me a pele. O facto de uma pessoa estar representada numa imagem tem muito pouco a ver com o conhecimento que possamos ter dessa pessoa. Há uma banalização disso que remete muito para a pornografia, não por explicitar actos sexuais, mas pela maneira como torna as coisas objecto e é agressiva. Nota-se muito mesmo no Facebook e outras redes sociais, plataformas de exposição das pessoas. A mim interessa-me a forma como conseguimos reconhecer as imagens quase de forma instintiva. Culturalmente já temos imagens familiares, a nossa capacidade de leitura é muito sofisticada. Se o rosto humano é um dos mais fáceis de identificar, a pele e a representação humana também é.

 

 


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Notas

[1] Mais informação sobre o projecto de arte pública de homenagem à meia maratona de Lisboa pode ser consultada no website do artista: www.pedrogomes.eu