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ANTONIO FIORENTINO

LIZ VAHIA


 

 

Chegou há uns meses para trabalhar naquela que seria a sua primeira exposição em Portugal, depois de ter visitado Lisboa em Novembro do ano passado e de se ter deixado fascinar pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MNHNC).

 

Em residência no espaço Hangar foi, no entanto, no antigo laboratório químico do museu que “montou” o seu atelier e adaptou a exposição “Vis Attractiva”, que é possível visitar até 10 de Setembro. Todos os dias ia para lá fazer experiências na forma de instalar as peças, num processo de partilha entre o artista e o espaço. Naturalmente, veio com uma ideia que se foi alterando à medida que começou a interagir com o laboratório. Diz que foi uma experiência nova a todos os níveis: primeira vez que expôs em Portugal, primeira vez que trabalhou num espaço deste género.

 

Há quatro anos atrás decidiu concentrar o trabalho no atelier e não se dispersar por outras actividades. Desde então as entrevistas em formato “tradicional” estão fora de questão. “Os artistas agora fazem tudo, desde produção até fotografias, por isso decidi enveredar nesta direcção, a do trabalho em vez da fala.”

 

Começou em Carrara (e que melhor sítio para contactar com a arte e as suas matérias) na Academia de Belas Artes e depois no IPSAM, “Istituto Professionale di Stato per l’Industria e l’Artigianato del Marmo”, onde estudou escultura. A fábrica do mármore era o único ponto de contacto com o mundo das artes ali naquele sítio, por isso teve necessidade de expandir geografias e visitar novas formações. Atenas, Amesterdão, Londres, mais concretamente um workshop na Tate, e Milão foram o seu treino no mundo da arte contemporânea. Desde então tem exposto com regularidade “por aí”.

 

Em 2014 desenvolve “Dominium Melancholiae”, peça que o levou a apresentar a proposta para expor no laboratório químico do MNHNC, em Lisboa. Na génese da obra está o convite a outros artistas para modificarem a forma de uma folha de zinco com as mesmas dimensões da gravura Melancholia I (1514), de Albrecht Durer, onde se representa a influência do temperamento melancólico na criação artística. A folha com a nova forma é introduzida depois numa solução com reagentes químicos que, através de um processo de electrólise, vão originar um depósito de cristais sobre toda a superfície da chapa, processo esse que continua “em crescimento” durante toda a exposição da peça, criando assim uma espécie de vegetação de formas imprevisíveis e em constante mutação.

 

Antonio Fiorentino cria então um processo generativo que não pode ser interrompido e cuja forma final é impossível de prever, numa mistura de materiais que confundem a nossa percepção e distinção entre o que é inerte e vivo, entre o mineral e o vegetal. “Queria criar um mundo que as pessoas não reconhecessem” diz.

 

“Quando faço estas esculturas com o zinco perco o domínio sobre o resultado final da forma. Hoje os artistas têm o controlo sobre tudo, e as pessoas em geral fazem muitas expectativas sobre as coisas. Eu, no entanto, quero perder esse controlo e deixar várias possibilidades em aberto. Tento criar isso envolvendo outros elementos, como por exemplo a água. Trabalho em parceria com a água, o fogo, o ácido. Mesmo quando trabalho com mármore tento perder esse controlo sobre a forma, porque isso para mim se torna mais interessante, mais surpreendente.” No seu recente trabalho em vídeo “Opusmaris”, vemos o artista a mergulhar no Mediterrâneo com um pedaço de barro. À medida que o vai moldando debaixo de água, esta vai fazendo também o seu trabalho de dissolução.

 

 

Na sua prática, o papel do artista está reduzido a uma intervenção mínima. As formas e as imagens criadas vêm da transformação “natural” dos elementos, muitas vezes assemblados por outros que não o artista, como a forma da chapa de zinco em “Dominium Melancholiae”. É sobre a possibilidade de transformação do material que o artista actua, neste caso sobre os três elementos que compõem e originam estas esculturas – a água, o metal e o reagente.

 

Nesta montagem da exposição “Vis Attractiva” no MNHNC, que se dispõe toda no mesmo nível, sobre as bancadas do antigo laboratório (excepto a cadeia de mandíbulas que nos olha de cima), Antonio Fiorentino quer explorar o que liga os mundos mineral, vegetal e animal. A cadeia de mandíbulas de tubarão que pende sobre as nossas cabeças, refere-se visualmente à cadeia que liga estes mundos representada na imagem de Athanasius Kircher, “Vis Attractiva”. As mandíbulas são assim um material natural que cria na mente do visitante a associação à cadeia imaginada por Kircher.

 

A escultura em mármore assemelha-se a um crânio. A ideia é parecer um artefacto que pode ser um fóssil animal ou qualquer coisa vegetal, mas que não se percebe o que é com exactidão. “Isso gera maravilhamento”, diz Antonio Fiorentino, acrescentando que ”as esculturas presentes nesta exposição não têm referência ao tempo actual. Não quero fazer referência à minha época, pois assim poderei gerar um trabalho que dure para sempre, que não tem tempo nem se percebe de quando vem, se do passado se do futuro. São relíquias contemporâneas.”

 

Entretanto, as mandíbulas de tubarão deixarão de pender do tecto do antigo laboratório químico e viajarão depois para a próxima exposição do artista que terá lugar em Dezembro deste ano, fazendo assim o ponto de contacto entre as acções passadas e as futuras, entre o material e o imagético.

 

 

 

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Artigo escrito a partir de uma conversa com o artista depois da inauguração da exposição "Vis Attractiva", patente no Museu Nacional de História Natural e da Ciência de 6 de Julho a 10 de Setembro de 2017.