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INEZ TEIXEIRA

PALMINA D’ASCOLI


 

A convite da Artecapital, Palmina d'Ascoli conversou com Inez Teixeira, que se encontra actualmente em residência artística na Cité Internationale des Arts em Paris com um projecto seleccionado pelo Instituto Francês. Já em 2010 a artista tinha sido selecionada pelo Departamento de Desenvolvimento e Relações Exteriores do Governo de França, e foi com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.
Decidiu voltar em 2014. Para Inez, a residência é sair da habitual zona de conforto, um momento de introspecção, um encontro de lugares e cruzamentos inesperados e cita William Hazlitt quando este descreve o que é a viagem em On going a journey “é a liberdade, a perfeita liberdade, de pensar, sentir e fazer exactamente como desejamos... partimos para nos vermos livres de impedimentos e obstáculos, para deixarmos para trás nós mesmos muito mais do que para nos livrarmos dos outros”.

 


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PA: Já anteriormente tinhas realizado uma residência na Cité des Arts em Paris; porque motivo desejaste regressar a Paris para uma segunda residência?

IT: Bem, a primeira vez que vim em 2010 vim à descoberta. Conhecia bem Paris, ou achava que conhecia, porque de facto só ficamos a conhecer uma cidade depois de se viver nela. Os primeiros tempos não foram fáceis, porque ao enfrentarmos uma realidade diferente, que não a nossa, encontramos dificuldades e obstáculos, de que não estamos à espera. A Cité des Arts é um grande projecto, com mais de duas centenas de ateliers... artistas das mais variadas áreas e que vêm de todos os cantos do mundo... até ao momento em que começas a perceber como funciona este enorme “empreendimento” o caminho não é evidente.
É preciso tempo... aliás é sempre a questão do tempo que acho o mais interessante numa residência, muda a cadência do tempo, a sua duração, muda a tua vida e muda tudo. Eu dou muita importância ao tempo... ele define a tua forma de estar no mundo, a tua forma de pensar, a forma de nos relacionarmos com o outro. A pintura “obriga-te” a isso... a encontrares o teu tempo... senão é impossível lá chegares... aqui o tempo do atelier ainda é mais lento do que aquele que consigo em Lisboa, tal como os momentos de solidão ainda são maiores, podem ser terríveis mas são imprescindíveis para o meu trabalho. À parte de tudo o resto, de gostar da cidade, da enorme oferta cultural, do resultado do trabalho, acho que foi essa questão do tempo que me fez voltar com um novo projecto.


PA: Imagino que este teu atelier tem um significado diferente do teu habitual espaço de trabalho em Lisboa, pelo facto de simultaneamente viveres e trabalhares nele; no dia a dia, reages bem ao viver e trabalhar no mesmo espaço, sabendo que em Lisboa pensas o viver e trabalhar como uma bipolaridade, porque vais de casa para o atelier?
A residência na Cité des Arts levou-te a uma nova experimentação?

IT: Vivo precisamente num outro tempo... não sou tão disciplinada como em Lisboa. Faço grandes caminhadas... é a caminhar que me vêm as ideias, que questiono o meu trabalho e me surpreendo... posso passar dias inteiros num museu, uma tarde numa livraria ou no cinema... depois posso estar dois dias seguidos fechada no atelier a trabalhar... em Lisboa tenho atelier separado de casa, aqui vivo no atelier... deixo completamente de ter horários, corto completamente com a minha rotina de atelier... consigo uma liberdade que dificilmente tenho em Lisboa mas também me importa perceber que essa “liberdade” não vai durar sempre, senão rapidamente se transformaria em tédio.
Aqui o meu processo de trabalho é diferente... isso tem a ver com o facto de não estar no meu atelier, de estar numa outra cidade por um período que sei que vai ser limitado e que quero que me dê muito mais do que um projecto realizado. Trabalho muito mais sem horários, às vezes pela noite fora, o que só acontece em Lisboa quando estou a organizar uma exposição... muitas vezes o dia é passado fora.. fiz sobretudo muito desenho e o resultado foi uma grande peça site-­‐ specific. Uma das “vantagens” de se ser artista é podermos organizar o “nosso” tempo e aqui como já disse o tempo é outro talvez mais propício à experimentação...


PA: Como é que orientaste a tua pesquisa?

IT: Eu não fiz propriamente uma pesquisa. Para te candidatares à residência é necessário um projecto que demonstre a tua “vontade” mas também “necessidade” de uma residência em Paris, e não num outro qualquer lugar do mundo. Este será ou não seleccionado por um júri e a concorrência é feroz... há tempos que me interessava perceber o que se passava na “banlieue” parisiense, um interesse que nos últimos anos me veio através de algum cinema francês que ai se passa. Como o meu trabalho está sempre ligado ao tempo, ao espaço, à Natureza e à paisagem como uma espécie de cartografia ou mapeamento do mundo achei que através da abordagem de uma realidade mais concreta, seguindo um processo de apropriação desse espaço dos subúrbios da cidade como um “site” de transformação da paisagem urbana contemporânea, podia organizar um bom projecto. É evidentemente um assunto que me interessa mas também foi uma espécie de “alibi” para me propor a uma segunda residência. Logo a pesquisa não é uma pesquisa, é tomar o lugar nesse espaço numa tentativa de compreensão, de conhecimento do que ali se passa. Depois se isso tem ou não influência directa e visível sobre o meu trabalho não sei mas acredito que terá... se calhar de uma forma menos óbvia... Ao lado da consciência do que pretendemos e tentamos fazer é essa irracionalidade no processo de trabalho, que foi incorporado pela primeira vez pelo Romantismo Alemão, que torna o momento único.


PA: A língua francesa tem influência sobre a obra in situ?

IT: Não sei se tem propriamente uma influência na obra que aqui desenvolvo mas terá certamente uma influência numa espécie de forma de estar... se gramaticalmente o francês tem a ver com o português, vocalmente, ritmicamente é diferente... é uma língua muito adjectivada. É um facto, de que utilizamos a língua para pensar... é uma forma de organizar também o nosso pensamento... se ao viveres numa outra cidade falas uma outra língua que não a “tua” ela vai organizar‐te o pensamento e as ideias de uma forma diferente... a língua é enraizada na cultura de um país... por isso e resumindo... se o conhecimento e o uso da língua são formas de pensamento muito mudará mas não sei se me condiciona e influência o trabalho.


PA: Vê alguma diferença entre o ambiente artístico francês e o português?

IT: Não sei bem... a verdade é que não tenho uma opinião formada. Depois da primeira residência em 2010 fiquei com a ideia de que os artistas franceses tinham um dinamismo de grupo que não existe em Portugal. Neste momento não tenho tanta certeza que assim seja. A cultura em França tem uma importância que não tem em Portugal e por isso o contexto é completamente diferente. França é um pais grande com um poder económico que não é comparável ao português. Os artistas são muito apoiados e “mostrados” e sobretudo é um país que tem orgulho e defende o que é seu e isso dá‐lhe força... ao contrário do que poderia parecer não é uma cultura presa ao peso da tradição numa Europa que envelhece.
A verdade é que a arte contemporânea francesa não me interessa enormemente... estou a falar das artes plásticas... acho que têm um cinema interessante, claro que não comparável ao passado, bom teatro e bons artistas ligados à dança. As artes plásticas tornaram‐se demasiado conceptuais e isso não me interessa nem me chega... não é o que eu espero e quero que a arte me dê. O Ugo Rondinone, diz que a arte é maior do que tudo aquilo que possamos pensar ou falar dela, e eu não posso estar mais de acordo. As artes visuais são para ser vistas, se ao nível do olhar nada te dizem, se não te transformam nesse momento, se precisam de ser explicadas porque é a ideia que prevalece sobre o “objecto”, na minha opinião é a negação da arte.
Acho que Portugal tem excelentes artistas mas o meio é muito pequeno e isso pode tornar-se perverso. Acho que a cena artística francesa é realmente muito dinâmica mas é um dinamismo que não se prende directamente com a qualidade da obra.
No fundo como em qualquer parte do mundo os artistas têm que conquistar o seu espaço, o seu lugar e saber mantê-lo.


PA: Expandir o universo artístico viajando e trabalhando em diferentes contextos, vai-se tornando uma prática na cena contemporânea: sendo Paris um centro de poder na arte actual, qual o impacto que a cidade exerceu no teu trabalho?

IT: Acho que é a surpresa e a curiosidade que me entusiasma em Paris. Antes do trabalho está a vida. Paris é uma grande cidade, com muita migração, a diversidade é enorme e é interessante ver o que esse fenómeno gera e isso falta em Portugal... Esta cidade não é só a Paris da carte postal... tem vindo a crescer e a criar novas realidades... há a “banlieue” onde se passam “coisas” interessantes, mesmo na cidade a diversidade é muita... não precisas de estar longe basta ires ao mercado de Belleville para perceberes isso.
Depois há os museus e as extraordinárias exposições que tenho visto... “Aujourd’hui, le monde est mort (Lost human genetic archive)” do Sugimoto foi uma exposição que vi e que mais me marcou nos últimos anos... A herança da pintura é uma referência para o meu trabalho e aqui tenho muito a ver.
O que procuro numa residência é sair da minha zona de conforto... criar uma instabilidade, um “desfasamento” no meu tempo... a “vida” diária pode estrangular-nos... é seguir os meus motivos interiores que me motiva... uma espécie de revisão mental....no outro dia estava a ler uma afirmação do Don DeLillo que diz que é na solidão que a verdadeira vida se passa... claro que isto tem várias leituras mas, de facto, é quando estamos sós que encontramos o nosso lugar, à custa da reflexão, da relativização, de nos confrontarmos com a nossa própria existência... é o olhar para dentro...

 

 

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Palmina d'Ascoli
Responsável do Pôle Résidence et Recherche
Département Développement et Partenariats

Institut Français, Paris