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A CIDADE DE NÉVOA E GRANITO 

 

A BELEZA do Porto é um postal de “Recuerdo”. O Porto na sua neblina junto ao Douro e ao casario, nas aguarelas icónicas do pintor António Cruz. Essa luz única do entardecer que atinge os habitantes. E, claro, as gaivotas que sobrevoam a cidade, desesperadamente famintas. Talvez por isso o Porto seja uma cidade de poetas e pintores. Uma cidade enleada na prosa de Camilo. A tragédia, a sombra. Torturada por emoções enlameadas. Mesmo nas zonas favorecidas como a Foz, existe mendicidade. É como se o Porto de Camilo, Agustina, e Eugénio, continuasse no século passado. Mas estas são as verdadeiras características do Porto, seja na Foz, seja na Baixa. O Porto actual é outro. Os traços do seu carácter estão a ser branqueados, destruídos, grafitados. A Baixa repleta de mendigos. A Foz transformou-se num Arraial de Feiras Populares, a Festa do Marisco, da Cerveja, do Artesanato. O sossego fugiu. A praia transformou-se num local de Festivais. Os fins de semana são para esquecer. O ruído, os carros, o excesso de passeantes, desporto, corridas, bicicletas. Uma zona litoral desorganizada, entregue a negócios de Feira. É triste observar que a minha cidade perde os traços genuínos e transforma-se a pouco e pouco numa cidade formatada, igual a qualquer cidade europeia. A obsessão pelo dinheiro fácil do turismo afasta os habitantes reais da cidade, tudo se transforma em hotéis ou hostels e os Portuenses ficam em segundo lugar. Quando o Porto deixar de ser referenciado nos folhetos turísticos surgirá uma cidade fantasma. Porque a moda é efémera.

 

Graça Martins
Pintora, ilustradora e designer, natural de Vila do Conde. É  filha do pintor Martins Lhano, irmã das pintoras Isabel Lhano e Bárbara Martins. Formou-se em Design/Artes Gráficas na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Em Milão, tirou o curso de Modelismo/Estilismo na Escola Ars Utoria. Iniciou a carreira artística em 1977, na Galeria Alvarez, no Porto.

 

 

 

O QUE DE BEM E DE MAL SE ESTÁ A FAZER NA FOZ E NO PORTO

 

“A variedade é o prelúdio da monotonia, para evita-la repete o teu elemento” (Luigi Snozzi)
Quando perguntei aos colegas indianos que estão a fazer estágio no meu escritório qual foi o edifício que gostaram mais de visitar no Porto, estava à espera que identificassem uma obra contemporânea dos arquitectos consagrados que amamos.

Em vez disso, a resposta deles ia geralmente para os edifícios tradicionais da Ribeira e do centro histórico. Existem valores que são compartilháveis entre pessoas que não tenham os mesmos preconceitos culturais, e um destes valores é a beleza. Enquanto indianos a distância cultural faz deles juízes imparciais que, assim como o Conselho do Unesco de 1996, julgou que existe no Porto um valor notável.
Os edifícios do centro histórico do Porto compartilham algumas regras, poucas e simples e a repetição de edifícios que respeitam tais regras constitui a causa da beleza que um ponto de vista objectivo deve atribuir ao património construído da cidade.

Estas regras, são:

• Lotes com largura de 5-6 metros que dá origem ao ritmo das frentes com face para a rua e comprimento variável, dependente da distância entre as duas ruas confinantes;
• Materiais: cantaria prefabricada a marcar as aberturas e azulejos de cores fortes;
• Vãos com aberturas verticais, raramente horizontais;
• Vão de escada central que origina clarabóias típicas;
• Altura dos edifícios uniforme.

Apesar do respeito destas regras mantém-se muita liberdade expressiva na proporção compositiva dos alçados e nos pormenores construtivos e, além disso, existem locais peculiares que podem ser exonerados do respeito de algumas destas regras, por causas de relações urbanísticas com o contexto.

A arquitectura é feita de continuidade e baseia-se no melhoramento de um padrão. Por exemplo na Roma antiga por milhares de anos os templos foram feitos e refeitos sempre da mesma forma, melhorando um pouco em cada intervenção. Seria ingénuo pensar que um individuo possa desafiar um contexto com formas que o desrespeitem.

Até os melhores arquitectos do mundo respeitam as regras do contexto, como por exemplo Álvaro Siza fez na reabilitação do Chiado em Lisboa. Mesmo assim nos pisos mais altos do projecto dos terraços de Bragança, aproveitando o desnível da rua, alguns volumes podem adquirir uma plasticidade sem precedentes no contexto antigo, mantendo o diálogo.

O mesmo arquitecto num contexto de liberdade que um continente mais novo lhe permite, o Brasil, em Porto Alegre, criou um museu de forma nova e inesperada – a Fundação Iberê Camargo.

Existe também o exemplo dos clássicos de Antoní Gaudí em Barcelona, Casa Milá e Casa Batlló que respeitando as regras criaram um modelo tão diferente dos edifícios contíguos quanto difícil de reproduzir por causa da elevada qualidade construtiva e do talento de invenção formal do seu autor.

Contudo a arquitectura de Gaudí no seu tempo tornou-se moda e, como qualquer moda se for boa traduz-se depois em tradição, os poucos edifícios deles constituem o modelo sobre o qual a arquitectura de Barcelona se desenvolveu até hoje adquirindo um carácter de cidade artística.

Na base das reflexões anteriores, nos dias de hoje, o trabalho dos arquitectos do Porto é bom quando continua a respeitar estas regras. Existe ainda a possibilidade de reformular estas regras ou substitui-las, mas é difícil.

 

Alessandro Pepe 
Arquitecto italiano radicado no Porto. Formou-se em Arquitetura na Universidade Politécnica de Turim (Itália). Antes de abrir o próprio atelier em 2008, trabalhou para o arquitecto indiano vencedor do Prémio Pritzker 2018, Balkrishna Doshi (n. 1927), e para o arquitecto português, Álvaro Leite Siza Vieira (n. 1962). É membro da Ordem dos Arquitetos Portugueses e Ordem dos Arquitectos Italiana.

 

 

 

VISÃO SOBRE A ARQUITECTURA NO PORTO NOS DIAS DE HOJE

 

A arquitectura no Porto, principalmente nos últimos anos, tem tido exemplos muito positivos no que respeita à restauração de edifícios históricos.

A cidade tem tido um influxo muito grande de turismo nos últimos anos, o que se reflecte na economia da cidade e por consequência também na restauração de edifícios que de outro modo veriam o seu fim antecipado.
Isto é directamente perceptível na rápida expansão de hotéis, guesthouses e restaurantes. O Porto tem uma escola e tradição arquitectónica muito eficaz e apelativa e com um enorme respeito pela envolvente, o que se deve em parte a mentores como Álvaro Siza Vieira e Souto Moura. É possível vermos um conjunto magnífico de antigos edifícios que formam, por assim dizer, “reciclados” de modo a manterem todo o seu charme original, preservando a carismática identidade da cidade e satisfazendo ao mesmo tempo as necessidades contemporâneas.

Gostaria de nomear três exemplos em que colaborei directamente com o atelier Gauceme e J.Teixeira de Sousa Associados: o Hotel Carris Oporto na Ribeira, o restaurante Pizza Hut na Foz e a entrada do Hotel Boa Vista no Passeio Alegre. 

No Hotel Carris Oporto na Ribeira é possível observar uma mistura entre a arquitectura e a arqueologia, já que, no momento em que as fundações dos três edifícios a trabalhar começaram a ser escavadas, foram descobertas ruínas Romanas e, à medida que o projecto foi avançando, revelaram-se colunas e arcos do período Gótico. Aqui, o desafio foi preservar estas preciosidades arqueológicas e ao mesmo tempo converter o edifício num Hotel de 5 estrelas com todo o luxo e comodidades inerentes a esta categoria.

Assim, optou-se por integrar o lobby e restaurante nas ruínas góticas com um pavimento em vidro que permite observar os maravilhosos vestígios Romanos. Os pisos superiores foram renovados e decorados com todos os requisitos actuais, contudo respeitando a configuração do complexo dos 3 edifícios renovados, que foram conectados por pontes de modo a que fluíssem como um só.

O segundo exemplo é o restaurante Pizza Hut na Foz. Este edifício, que já era previamente um restaurante, continha características muito específicas que não estavam exploradas, nomeadamente a sua configuração em forma de “Barco” e a sua privilegiada localização com uma vista magnífica para o mar.

Neste projecto todas as funções do restaurante foram alteradas de modo a respeitarem a configuração peculiar da forma náutica do edifício e a estrutura original foi mantida, com excepção das paredes, que foram removidas e substituídas por grandes painéis de vidro reflector. Isto não só permite desfrutar-se da magnífica vista para o mar desde o interior, como atribui ao exterior do edifício uma leveza visual que se integra com a paisagem envolvente.

O terceiro exemplo consiste na restauração da entrada do Hotel Boa Vista no Passeio Alegre, em que reconfiguramos o lobby para enquadrar a vista marítima para o exterior, incluindo o Castelo da Foz, permitindo assim uma melhor comunicação entre exterior/interior.

Concluindo, acredito que grande parte das renovações, restaurações e novos edifícios na cidade do Porto reflectem um grande respeito pelo património histórico da cidade, assim como preservam uma fluida relação com a envolvente em que estão inseridos. Este resultado positivo vem sem dúvida dos bons conceitos arquitectónicos que foram passados de geração em geração na tradição da escola arquitectónica do Porto.

 

Tiago Azevedo
Arquitecto, pintor e ilustrador, natural da Ilha Terceira (Açores), vive entre Munique, Nova Iorque e Porto. Expõe em Paris, Nova Iorque, Dubai e Roma.

 

 

 

PATRIMÓNIO DA FOZ DO DOURO E NEVOGILDE

 

Desde que me conheço que ando por Nevogilde e pela Foz do Douro. Observo.

Ao longo dos séculos o progresso tem ditado muitas alterações, justificadas pela sua natural evolução. Durante o séc. XIX e XX, o espaço da Foz e Nevogilde tornou-se numa importante colónia balnear, levando à construção de habitações que foram destronando o espaço rural existente nestas localidades. No entanto, na última década e meia do séc. XX e nestes primeiros anos do séc. XXI, estas duas localidades estão a ficar completamente desfiguradas pela destruição desmesurada da sua paisagem arquitetónica única, com alguns exemplares de casas Arte Nova e Arte Déco. De modo a contrariar e proteger este crescimento desmesurado foram criadas algumas ferramentas de proteção dos imóveis já construídos e a identificação de áreas protegidas, tais como, o PDM (Plano Diretor Municipal) e a caracterização dos imóveis ou espaços de interesse municipal/nacional/público.

No entanto, este progresso não justifica todas as transformações que se têm vindo a constatar nestas duas localidades. Senão vejamos: A casa onde morreu o poeta António Nobre destruída e a casa contígua, um dos poucos exemplares de Arte Nova da avenida Brasil, a ser esventrada, para dar lugar a um prédio cuja fachada desvirtua totalmente as fachadas dos prédios da frente marítima. A descaracterização das avenidas Brasil e Montevideu, pela destruição das casas para dar lugar a prédios com volumetria muito acima das casas existentes, no caso da primeira e no caso da segunda, destruição dos jardins e espaços verdes envolventes das moradias do séc. XIX e do séc. XX para dar também lugar a prédios, hotéis semi-camuflados e condomínios de luxo com arquitetura que adulteram esteticamente a paisagem envolvente. Como exemplo, temos o prédio construído em frente à estação de Zoologia Marítima Dr. Augusto Nobre, na avenida Montevideu, e o Palacete dos Sousa Guedes, que ocupava um quarteirão entre as ruas da Cerca, do Alto de Vila e da Trinitária, na Foz do Douro e que deu lugar a um condomínio de luxo. Como se não bastasse, todas as ruas e ruelas de Nevogilde e Foz do Douro estão a sofrer “ataques” desenfreados das gruas e guindastes, desde casas representativas do período da Vilegiatura do séc XIX, a azulejos Arte Nova (início do séc. XX), destruídos sem dó nem piedade, sem sequer aproveitarem os seus elementos decorativos. Para além disso, a construção desmedida de condomínios de luxo, escolas e supermercados com volumetria duvidosa e, como exemplo, temos a escola de ensino privado CEBES e o Pingo Doce (destruíram duas vivendas por completo) na avenida Marechal Gomes da Costa, e na Foz Velha, junto aos Arcos Beneditinos da Foz, numa zona protegida, a construção de um lar para a 3ª idade que, neste momento, se encontra embargado. Pena é que estas obras só serem embargadas quando o património já foi destruído e as justificações para a sua destruição estejam assentes em pressupostos de que a Foz de antigamente já tinha sido destruída há muito tempo.

 

Rui de Souza Roza
Licenciado em Gestão de Marketing (IPAM). Mestre em Modelação, Análise de Dados e Sistemas de Apoio à Decisão (FEP)