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LISBON BY DESIGN E LISBON DESIGN WEEK
CARLA CARBONE
29/06/2026
Em trinta anos muda muita coisa. Naquele tempo, quando se falava em design e nas contaminações da arte, de forma envergonhada, algum pudor se impunha. Apesar de surgirem, esparsos, alguns textos aqui e ali sobre estas duas áreas e as suas interconexões (estava a pensar num artigo da revista Art Press, de 1998), o design, na sua essência e individualidade, mantinha-se cativo do seu programa e da sua imediata resposta a acontecimentos concretos, fossem eles de ordem técnica, fossem do domínio da produção, para dar resposta à indústria, ou ao fortalecimento da mesma, no seio português.
Muito se escreveu sobre o enfraquecimento do tecido industrial português (ou de um total desconhecimento da importância do design, baseando-se numa prática de produção da cópia), e de como dificultava o protagonismo dos designers portugueses e a intensificação do seu trabalho, bem como o seu desempenho e operacionalidade no contexto social. Designers, como Daciano da Costa, nos seus textos sobre o estado do design português, batalhou por um reconhecimento da disciplina e evidenciou preocupações concretas sobre a sua sobrevivência cultural e económica.
Em outros países, centro europeus, nomeadamente os Países Baixos, os designers enveredavam por um caminho experimental (e artístico) do design, justamente em reacção à eficácia da sua cultura técnica e industrial robusta, profusamente racionalista e calvinista.
Em Portugal, os anos noventa e dois mil viram surgir, por parte dos designers, uma inversão nos princípios. Se a indústria não ia ao encontro dos designers, os designers tinham de ir ao encontro da indústria [1]. E é a partir daqui, desta autonomização do papel do designer e do desenvolvimento de um corpo de trabalho [2], que não depende exclusivamente da indústria, que o design português se começa a formalizar e a ganhar corpo próprio. Os pequenos ateliers e as pequenas séries [3] tomavam forma neste tempo, inaugurando uma fase interessante de descoberta, experimentação e reflexão sobre o design, estabelecendo também novas cambiantes e conexões com outras áreas, nomeadamente as artes plásticas.
Pouco a pouco a divisão das áreas foi-se atenuando. E hoje encontramos frequentemente eventos de design onde comungam pacificamente, e proactivamente, o artesanato, as artes plásticas e o design. Uma das últimas áreas a ver ser reconhecido o seu valor foi o artesanato (encarado socialmente e culturalmente como uma actividade menor). O artesanato português, e as matérias-primas a elas associadas, têm vindo a crescer na sua valorização, e surgem agora (os artesãos) como parceiros fundamentais, a colaborarem lado a lado com os designers. O medo da perda de identidade material e da extinção de algumas técnicas tradicionais, levou a que os designers abraçassem a causa da conservação e preservação do artesanato. As potencialidades dos saberes ancestrais e diversidade dos materiais constituíram, também, um incentivo para a sua adopção e aplicação criativa na disciplina do design. Património, identidade, regionalidade, ecologia, passaram a ser referenciais nas escolhas projectuais dos designers.
Adélia Borges, em 2002, já falava, no seu livro Designer não é personal trainer, do namoro promissor entre artesanato e design. No livro, a autora também alertava para uma urgente revigoração do artesanato, e que só fazia sentido uma colaboração entre estas duas disciplinas se o artesanato também soubesse reinventar-se, transformar-se, com a ajuda do design.
A edição Lisbon Design Week deste ano, que compreendeu 80 espaços na cidade durante 5 dias, comprovou a eficácia dessa aliança. Pudemos assistir à colaboração da dupla Sam Baron X Maria, com as belas jarras em terracota. Maria é o nome dado à empresa que produz cerâmica da região de Mós, e que utiliza os recursos naturais da região.
A edição é marcada, no seu extenso programa, pelo princípio do “feito à mão”, como se pôde comprovar na exposição “Design Feito à Mão”, uma exposição com curadoria de Astrid Suzano, Vasco Águas e André Matos. Esta exposição teve lugar no Arquivo Aires Mateus, e consistiu, mais uma vez, numa colaboração entre o design contemporâneo e o artesanato, partindo de uma ideia exploratória de jarra, um dos mais antigos objectos criados pelo homem.
O eclectismo, a interdisciplinaridade do evento, é também assegurado pela participação dos 3TWINS (ou ZTWINS), uma dupla de artistas e arquitectos oriundos da Rússia, que têm desenvolvido um intenso corpo de trabalho em torno do graffiti e da arquitectura urbana. A intervenção da dupla estende-se, de modo amplo, a uma linguagem abstracta e site-specific.
As demonstrações de intersecção entre disciplinas diversas podem ser observadas, também, de forma acentuada na obra do grupo de arquitectos AB+AC. Uma equipa multidisciplinar concentrada em operar entre a arquitectura, o bem-estar e o futurismo: A prática é pioneira numa abordagem neuro-arquitetónica que integra design, investigação e ensino para criar espaços e objetos para a atenção plena, cura e transformação. [4]
Lisbon Design Week também se concentrou em produzir uma curadoria global que centrasse as suas preocupações num design orientado para o futuro: como a aplicação de tecnologia inovadora e novos materiais, além da conservação da manualidade. Prova disso é a participação em projectos que envolveram o recurso a ferramentas de impressão 3D, como a marca portuguesa Porventura e o projecto Spectroom, que exploraram novos materiais e processos. Constatando, por isso, a importância que tem para o evento Lisbon Design Week a sustentabilidade, a tradição, a tecnologia e a inovação.
Destaca-se, no evento, também a colaboração e parcerias com instituições como o museu MUDE. Parcerias estas que compreendem a aproximação do design à cidade e às comunidades criativas, bem como o apoio a projectos de design contemporâneo.
Esta parceria é reforçada pela presença de Lisbon Design Week na ARCOlisboa 2026. Uma LDW lounge foi criada à entrada da feira, pela arquitecta, artista e designer Joana Astolfi, membro do Conselho de Consultores da LDW. Uma intervenção que, segundo as palavras do certame LDW26, mais parecia uma instalação de arte.
LDW26 apostou nas parcerias colectivas, e contou com preciosas participações como Luso Collective, Sotaque, arquitecto Duarte Caldas e designer Constança Entrudo, BÉHEN e a Bordal- Bordados da Madeira; bem como projectos que merecem uma atenção redobrada, como os desenvolvidos por Nick Valentim, Bombony, Maind Edition @ Coleção João Cabaço, João Gameiro e a galeria Antuérpia St. Vincents, Ramón Esteve, Fabrício Ronca, Bernardo Figueiredo, Rafaek Oliva, entre muitos outros. Correndo o risco, dada a dimensão do evento, de cerca de 150 criadores, de não conseguir mencionar todos os participantes.
Outro evento que merece destaque, e que teve lugar na mesma altura de Lisbon Design Week e ARCOlisboa, foi o certame Lisbon by Design.
Lisbon By Design também tem marcado uma forte posição de afirmação do artesanato contemporâneo e do design em Portugal.
A edição deste ano contou com a presença de Igor Louis de Kerchove, a marca Thilburg, Joana Teixeira, Ahenea em colaboração com Collector Group, o artesão Paulo Pinto, Eduardo Orúe Barceló, a marca de Ricardo Costa Poémia, Lobo Atelier, Sam Einstein, Camille Hug, Filipe Condado, Olga Ermol, Bibelo.

© Camille Hug
O evento Lisbon By Design teve a oportunidade de revelar também trabalhos de designers consagrados, e contou com a presença de Toni Grilo, LUM, Alan Louis, Audric e Oliveira, Amande Haeghen, Oficina Marques, Hamrei, o duo Macheia, e o estúdio EstadoBruto.
Lisbon by Design, um evento que teve como principal intenção a divulgação de peças de design e artesanato que fossem potencialmente criativas, experimentais, transversais, contou ainda com a colaboração de nomes como Fuschini x Ferreira de Sá, Rosana Sousa, Henriette Arcelin, Fantasque e Mathilde Gallien, Baptiste de Silva e OHXOJA, Martinho Pita, Grauº Cerâmica e João Guimarães, Kylie Marie e Acru, reforçando a intenção de parcerias deste género no evento, e ainda Diogo Amaro, Clotilde de Kersauson e Margaux Carel, e Caio Superchi e Mariana Raio.
À semelhança do evento Lisbon Design Week, o certame Lisbon by Design reforçou a intenção de aliar a tradição, a história material portuguesa e a sua herança artesanal ao olhar contemporâneo do design, numa parceria em que as duas realidades, pela partilha e confluência de saberes, só puderam ficar a ganhar.
Uma das duplas mais carismáticas deste evento (entre muitos outros bons criativos presentes) foram os artistas Gezo Marques e José Aparício Gonçalves, que trabalham no estúdio multidisciplinar de Arte e Design “Oficina Marques”. O gesto, a manualidade, adquirem nesta dupla uma proporção e intensidade especial. O registo é manual, mas atinge uma depuração tal e uma excelência digna de ser mencionada.
No Lisbon by Design, os materiais evocados, como a madeira, o mármore, a cerâmica, os têxteis, a palha, os materiais diversos, surgiram, como é evocado no seu programa, num “diálogo ao longo de todo o Palacete Gomes Freire, celebrando a energia das técnicas tradicionais portuguesas integradas em novas linguagens contemporâneas”.
Carla Carbone
Estudou Desenho no Ar.Co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
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Notas
[1] Conceito abordado por Pedro Silva Dias.
[2] Preocupação originária nos primeiros anos da década de 80.
[3] Grupo Ex-Machina (1989-1990) (Paulo Parra, José Viana, Raul Cunca e Marco Sousa Santos) e atelier Protodesign (1991-2002).
[4] Texto de divulgação do evento.


























