|
|
“Hand in hand we take a caravan to the marble land.”
– The Housemartins
Entrei na caravana a medo, pois o autor é poeta e a possível contaminação de um texto teatral por poesia nem sempre tem resultados agradáveis. Quase nunca têm. Certos géneros literários não são compatíveis mesmo porque nascem de formas comunicantes diferentes e têm objectivos diferentes. A poesia vive num mundo próprio, um mundo só seu, e nele nasce e pode morrer sem sequer dar-se a conhecer, ao invés, o texto teatral nasce para ser visto e ser ouvido, só assim ele pode viver, só assim tem a sua razão de existir. Fechado numa gaveta um texto poético sobrevive, mas um texto teatral não. É por isso que um autor de teatro nunca deve escrever para as gavetas, elas não sabem ler, e muito menos vão ao teatro.
Entrei na caravana a medo, num dia de verão com calor intenso, mas desta vez enganei-me, felizmente enganei-me, o autor é poeta mas escreveu um dos mais belos textos teatrais que já presenciei em palco. Ou então escreveu tudo de rabo virado para a lua – o que por acaso até foi. João Luís Barreto Guimarães decididamente não escreveu teatro para as gavetas do seu escritório.
E parece que no seu escritório cabe poesia, teatro e tradução. Publicou o primeiro livro de poemas em 1989, depois em 2019 editou O Tempo Avança por Sílabas, uma antologia com cem poemas escolhidos para comemorar os trinta anos de poesia. Entretanto continuou sempre a publicar ora em nome individual ora em antologias e recebeu vários prémios, entre eles o Prémio Pessoa e o norte-americano Willow Run Poetry Book Award pelo livro Mediterrâneo, traduzido para inglês, e além do inglês está traduzido e publicado em outras línguas e países. No sentido contrário traduz ele outros poetas para português. Tem um blog com seu nome e actualizado, e outro chamado Poesia & Lda que se encontra bastante desactualizado, ou quiçá abandonado, o que é pena, pois os espaços críticos de poesia encontram-se numa quase extinção. Pior talvez só mesmo os espaços críticos de teatro. Aproveitando a deixa, e já que além desta peça escreveu mais algumas, regressemos a Caravana, texto este galardoado com o Prémio de Teatro Carlos Avilez 2025 e cuja representação e publicação em livro fazem parte do merecido prémio – E o livro tem um excelente posfácio da Vera San Payo de Lemos.

Caravana, de João Luís Barreto Guimarães. © Filipe Figueiredo / Cortesia TNSJ
Luís diz que tudo começou com uma imagem, neste caso a de uma caravana estacionada na orla de um bosque, perto de uma quinta, e depois aparece um homem – o morador da caravana – com uma mulher que engatou num bar. E de facto é assim que começa. Será caso para afirmar e confirmar o clássico “Uma imagem vale mais que mil palavras”? Sim e não. Ora experimente-se descrever a peça somente com imagens. Essa mesma primeira imagem, que sentido teria? A imagem existe para auxiliar a ideia, é um canal da mensagem a transmitir, por vezes – como neste caso – é o catalisador – mas sem o código linguístico perde a razão ou a força. Toda esta peça é um diálogo, o autor é um homem de palavras, e este crítico adora teatro cheio de diálogos. A imagem, essa primeira, é alguém que – tal como a personagem masculina – o autor convidou para beber um copo e a curiosidade por saber mais da vida dela fez o resto, e o resto fez-se de palavras. O autor, uma imagem e a imaginação entram num bar e… Dividem a peça em quatro partes, quatro actos: as quatro fases da lua: Em Quarto Miguante vemos um carro a chegar. É ele com uma mulher, um pouco mais nova, sensual, que engatou num pub onde é habitué às sextas-feiras. “Afinal qual é o seu nome?” – pergunta ele – “Precisa mesmo de saber?” – responde ela – “Não.” – Silêncio. São estas as primeiras frases da peça e mostram de imediato a situação. Mais do que um simples mal estar, há um enigma. Não se tratam por tu. Em Lua Nova continua-se a ouvir os grilos e a coruja. Como está mais escuro vê-se melhor os pirilampos. O espaço envolvente da caravana está mais desarrumado. Esta mulher que engatou tem outro estilo, tem o cabelo comprido. Continua o esquema de ninguém se chamar pelos nomes, mas ela chama-o de “professor” – e também descobre um soutien na cama que lhe serve perfeitamente. Tem uma aliança de casada, nada é verdadeiramente revelado, mas existe a sensação de existir outra camada por debaixo da superfície: o que se vê, o que se diz. Em Quarto Crescente o espaço está ainda mais desarrumado (tal mente e espírito), porém dizem nomes: Ele Tomás, ela Helena. Ele terá problemas, como… perder um filho único? Pergunta ela, e o verniz estala, e apercebemo-nos que algo está mais errado do que errado já estava.

Caravana, de João Luís Barreto Guimarães. © Filipe Figueiredo / Cortesia TNSJ
Em Lua Cheia o cenário está limpo e já nada é subliminar mas sim explícito, tudo é revelado, e ficamos a saber que até aí, inclusive, temos assistido a um metateatro. Ele e ela, personagens sem nome, representavam papéis dentro da peça, é esse o genial plot twist quase no final da peça: afinal os engates não são mulheres desconhecidas só para dar uma queca, elas são: Tcharammm! Ela e Ele, sendo que Ela é a esposa dele, mais, é a mãe do filho de ambos que faleceu num acidente e cujo trágico acontecimento ele não consegue ultrapassar sentindo-se de alguma forma culpado por ter deixado o filho levar o carro naquela noite, e a caravana é onde Ele decidiu esconder-se, é um não-lugar, a sua própria natureza e razão de existir é essa, a possibilidade de estar num local e ao mesmo tempo não estar em local nenhum, assim como a mente dele não está, é-lhe mais cómodo. No entanto, não está suficientemente afastado de um local fixo, certo, e esse é a casa deles, não muito distante, fronteira com o terreno da caravana que é o seu actual lugar de segurança, mas um falso abrigo, tal quarto de hotel que sabemos não ser nosso e estar apenas de passagem. Esse estratagema psicológico com a intenção terapêutica de ele conseguir ultrapassar o trauma e recuperarem a sua relação carrega também em si um jogo erótico, mas um jogo erótico que advém da morte. A velha questão da morte e o erotismo?
Um jogo erótico pode tornar-se um jogo perigoso (mas não nos vamos pôr agora a falar de Bataille, não há espaço). Ele nega-se, esconde-se, deseja esquecer-se e tenta diluir-se renegando o que se passou e fazendo de conta que é outra pessoa. Torna-se anti-social. Acontece que do outro lado está a sua esposa travestida de outras mulheres, porém não existe o travesti perfeito e existe sempre uma costura mal cosida ou uma peruca mal colocada que mais cedo ou mais tarde fica à vista, eis o caso quando ela aborda o problema deles por vezes de forma indirecta por vezes de forma directa, e ele então retrai-se. Quanto tempo leva a cicatrizar uma ferida? A cicatriz interior é sempre a mais lenta. Quantas pessoas arrastamos no nosso luto particular? O luto demasiado particular pode ser uma forma de egoísmo.

Caravana, de João Luís Barreto Guimarães. © Filipe Figueiredo / Cortesia TNSJ
Os tempos em palco estão perfeitos, não apenas entre as luas mas entre as falas, as hesitações e os silêncios – os tais silêncios que tanto falam e que são parte fundamental de um bom texto teatral. A linguagem perfeita, realista e credível, sem perder um perfume poético aqui e ali. É este encontro de águas que a maioria dos poetas que se metem a escrever teatro falham. A poesia no teatro soa sempre prepotente, hermética, elitista. Aqui não. Quanto à encenação, João Pedro Vaz faz tudo bem, com um excelente texto à disposição dirige a batuta como um maestro inspirado. Pediu ao autor para efectuar pequenos cortes no texto de modo a encaixar melhor. E quem nunca fez adaptações que atire o primeiro Nolan.
O cenário está perfeito, a iluminação, e o som idem – e as escolhas sonoras – que piano melancólico é aquele? Chopin? Brahms? Lizt? Mahler? Einaudi? Debussy? Satie? Que importa? Importa que as – também quatro – e únicas – personagens, são a Rita Calçada Bastos – que se divide em três, e Ele é o Joaquim Horta, e estão excelentes nos seus papéis.

Caravana, de João Luís Barreto Guimarães. © Filipe Figueiredo / Cortesia TNSJ
Uma peça teatral é composta por cinco elementos: ideia, texto, encenação, representação e aceitação. Nasce de uma ideia, mas se o texto não for bom a ideia pode ser um nado-morto, ou o texto pode ser bom mas a encenação deixar a desejar, ou então a representação deitar tudo por terra. É difícil ter os primeiros quatro elementos em sintonia e harmonia, mas quando se consegue eis o que designo por Teatro do Acontecimento Total (do qual já tinha falado, e acontecido, em Rei Lear, pelo Teatro do Bairro). Em resumo: o Santo Graal do Teatro. Porém, é só com o quinto elemento que tudo isto é validado. Tudo pode estar muito bom, mas o quinto elemento, o público, é que irá ou não dizer se está ou não está, pois é para o público que a peça foi apresentada. Um poema, tanto faz, já está habituado a ser desprezado, ou pior, ignorado. É a vida, certo, Vonnegut? E caro leitor, se esta minha fórmula vos parece básica e simplista, é porque é mesmo. E porque é assim que o Teatro merece ser. João Luís Barreto Guimarães também é médico, mais concretamente cirurgião, e ainda mais concretamente cirurgião plástico, e lá poderia haver melhor simbiose do que alguém que trabalha no corpo humano e no corpo de texto?
Ao contrário da poesia, a escrita para teatro elimina o ego e este crítico pela primeira vez culpabiliza-se por ter contado a história da peça correndo o risco de tirar o prazer único da surpresa a alguém que leia isto antes de a ver, aquilo que as novas gerações chamam de spoiler, mas este é o risco da crítica lenta, analítica, da review, porque de previews está o teatro cheio. Ao sair do teatro ainda estava calor e a luz ainda podia cegar. Mas estava feliz. Foi tudo simples como deve ser, e tão bom. Mais tarde, de noite, apeteceu-me uivar. E uivei.
Ela: Quem sabe se não foi isso o que eu aqui vim fazer.
Ele: Encontrar-se?
Ela: Perder-me… consigo.
In Caravana
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
:::
Caravana, de João Luís Barreto Guimarães
Encenação de João Pedro Vaz
(Estreia a 19 de Junho no Teatro Aberto)
Teatro Nacional São João
18 a 27 de Setembro