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OPINIÃO


Fotografia: João Pádua


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CONSTANÇA BABO

2018-07-29




 

O espaço público é o lugar do comum, do acontecimento, da ação, do movimento, da velocidade e da visibilidade. É um ambiente de liberdade, expressão, manifestação, diálogo, mas também, de convenções, contenção e lei. O espaço público é o lugar do homem e da arte.

Na contemporaneidade, a produção artística tem-se alargado e instalado em lugares exteriores aos institucionais de um modo que sugere reflexões próprias e novas vertentes de estudo e de análise. A validação das intervenções artísticas fora das imediações dos museus e das galerias foi impulsionada, principalmente, por movimentos como a land art, a street art ou a performance, propondo situações e quadros alternativos e dinâmicos. Revelaram-se novas possibilidades de produção e de desenvolvimento da arte e intensificou-se o cruzamento dessa esfera com as esferas social, política, económica e ambiental.

Hoje, há uma crescente estetização do espaço público e, quando a criação e a expressão artísticas ocupam esse lugar de maior visibilidade, aumenta o impacto das obras e dos artistas. É nesses contextos de vida pública que se dá uma aproximação a um espectador mais plural e a um público mais alargado, não somente o habitual, mais instruído e elitista visitante das instituições culturais.

Desde o dia 22 de junho que a arte incorpora, ocupa e habita o urbano, na cidade do Porto, num lugar de circulação, transição e passagem. O metro é, pois, onde se apresenta Ver as vozes dos artistas que, após E agora e Floating Islands, constitui o terceiro momento do projeto Emergência, lançado pela associação cultural Saco Azul e pelo espaço de intervenção cultural Maus Hábitos, onde ocorreu, recentemente, uma outra exposição [1], integrando o mesmo programa. O sentido do emergente, selecionado para este ano, está aberto à interpretação individual de cada um dos quatro curadores convidados para lhe dar forma. Ao mesmo tempo, incentiva-se a colaboração entre artistas nacionais e internacionais e propõe-se a criação de contextos e espaços de reflexão crítica.

No caso da ação no metro do Porto, reclama-se a emergência da voz, da palavra e da opinião sobre as várias esferas e dimensões públicas, desde a política à social, à económica e à ecológica. A ocasião é concretizada por Miguel von Hafe Pérez, o único curador português que participa no projeto, convocado para responder a este desafio particularmente complexo. Por seu lado, o comissário revela que se moveu por uma particular preocupação com a atual escassa oportunidade de expressão dos artistas e dos pensadores em Portugal. Refere a exposição estades preparados para a televisión? (2011), organizada no Museu d' Art Contemporani de Barcelona (MABCA) e no Centro Gallego de Arte Contemporáneo (CGAC), onde exerceu as funções de diretor. Essa ocasião consistiu, precisamente, num apelo à fraca visibilidade que os mass média dão à classe mais intelectual. Miguel von Hafe Pérez explica que, principalmente em Portugal, esse setor da sociedade tem vindo a ser, progressivamente, desvalorizado e substituído por vozes menos valiosas e relevantes. Como resposta, sugere o metro do Porto como uma nova plataforma, um espaço alternativo de discursividade, comunicação e ação.

As estações de metro, espaços públicos, controlados e regulamentados mas livremente frequentados, revelam-se, como o curador compreende, elementos de coesão social. Os sistemas de transportes públicos pertencem a toda a comunidade, locais onde todos são iguais e se relacionam através de uma idêntica mobilidade. Tratam-se de não-lugares que, apesar de tudo, têm uma expressividade própria e, sendo constituídos por paredes lisas de betão, funcionam tanto como suportes para a colocação de cartazes publicitários, como para a instalação de outros conteúdos e imagens. Paralelamente, ao mesmo tempo que a exposição das obras resulta visualmente, formalmente e esteticamente, este lugar de constante fluxo e mobilidade acentua a temporalidade e a efemeridade já características da arte.

A inauguração decorreu no Campo 24 de Agosto, com música a ecoar pelos corredores e túneis da estação. Nesta, pode destacar-se uma fotografia da autoria de Pedro Tudela, exposta na zona de passagem do metro do piso inferior. O artista conta que foi contactado, pelo curador, somente com a referência das dimensões necessárias e que toda a obra seria convertida em poster, algo que não só facilita a instalação dos objetos como lhes fornece união e coerência visuais. A pensar na velocidade e na circulação próprias destes espaços, Pedro Tudela selecionou uma fotografia que, até então, mantida em arquivo, parecia aguardar por uma ocasião à qual se adequasse, caso da presente exposição.

Esta iniciativa estabelece, assim, diálogos entre os artistas, as obras e os espectadores e entre a arte e a comunidade. Exercita-se, ainda, a capacidade de questionamento do objecto artístico de formas diretas, como na obra de Cristina Lucas (2018), no Marquês, ou de Isabel Carvalho (2012), na Trindade, ou modos mais subtis, abertos a leituras e interpretações, tal como é o caso do trabalho de Julião Sarmento (2018), nos Aliados. Podem, ainda, referir-se as participações de Mauro Cerqueira, Miguel Palma, Pedro Cabrita Reis ou Von Calhau!, o que demonstra a pluralidade, heterogeneidade e decorrente qualidade do projeto.

É nas estações de metro dos Aliados, Campo 24 de Agosto, Casa da Música, Combatentes, Heroísmo, Marquês e Trindade que se contam as obras de mais de 40 artistas de 12 nacionalidades, passíveis de serem descobertas entre viagens ou através do download da aplicação [2] para smartphone, que indica as várias localizações e constitui um guia ideal para esta incursão.

O modo como toda a proposta se materializou revela, da parte do curador, uma profunda consciência não só estética e artística, mas também pública e social. Dando visibilidade a um elemento fundamental da cidade, dinamiza a sua vida pública e o espaço urbano, ao mesmo tempo contribuindo para a projeção da criação artística contemporânea. O convite está feito à cidade e a todos aqueles que por ela passam e as portas estão abertas, todos os dias, das 6h à 1h. E, como Miguel von Hafe Pérez afirma, "que se ouçam essas vozes"!

 

 

Constança Babo

 


:::


Notas

[1] Mais informações em https://www.artecapital.net/exposicao-570-thiago-martins-de-melo-barbara-balaclava

[2] Download da aplicação em https://www.sacoazul.org/app-ver-as-vozes-dos-artistas/