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OPINIÃO


Fig. 1. Vista geral de Elegy. Foto Leonor Veiga


Fig. 2. Fiona Pardington, PavilhĂŁo de Aoteoroa, Nova ZelĂąndia. Foto Leonor Veiga


Fig. 3. Le Yi-Fan, Screen Melancholy, evento colateral de Taiwan. Foto Leonor Veiga


Fig. 4. Simone Post, vista da instalação She Knew She/It/They Would Melt (2026). Still Joy, evento colateral da Bienal de Arte de Veneza. Foto Leonor Veiga


Fig. 5. Vista geral do PavilhĂŁo da ArĂĄbia Saudita. Foto Leonor Veiga


Fig. 6. Vista Geral de In Minor Keys. Foto Leonor Veiga


Fig. 7. Michael Harmitage, The Raft (II), 2024. Óleo sobre tecido de casca do Lubugo. Coleccção do Glenstone Museum. Foto Leonor Veiga


Fig. 7a. Pormenor da pintura The Raft (II), em que se pode observar a plasticidade e defeitos da casca de årvore, material de eleição de Michael Armitage*. Foto Leonor Veiga

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2006-04-12
VIENA, 22 a 26 de Março de 2006


BIENAL DE VENEZA DE 2026: O QUE VER E O QUE ESPERAR



LEONOR VEIGA

2026-05-31




 


A mediatização da 61.ª edição da Bienal de Arte de Veneza começou muito antes desta abrir portas. A morte da curadora Koyo Kouoh em 2025 marcou profundamente o processo curatorial; o pavilhão da África do Sul foi alvo de censura; e o júri decidiu excluir da atribuição do Leão de Ouro os países cujos líderes enfrentam acusações de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional – uma medida dirigida sobretudo à Rússia e a Israel, alinhada com a visão de Kouoh de dar protagonismo a vozes historicamente marginalizadas.

Por fim, o júri demitiu-se em bloco, sem apresentar explicações substanciais.

Perante a crise, a Bienal reagiu, adiando a atribuição dos prémios para o final da edição e criando simultaneamente um novo prémio, decidido pelo público. A decisão gerou contestação imediata, com muitos artistas e pavilhões nacionais a boicotar esta modalidade, retirando-se da candidatura ao sufrágio.

A escassos dias da pré-abertura, o Irão cancelou a sua apresentação. Durante o mesmo período, vários pavilhões, entre os quais o de Portugal, suspenderam actividades em solidariedade com os protestos contra a presença de Israel. Em paralelo, realizaram-se inúmeros manifestações contra a presença do pavilhão da Rússia e, em contraponto, multiplicaram-se os movimentos pró-Ucrânia nos Giardini.

O ambiente era de rebeldia e de contestação do status quo que permeia o mundo da arte, fortemente dividido por questões (geo)políticas. Se há algo que a exposição In Minor Keys conseguiu, foi pôr a nu a instabilidade das regras que regulam a Bienal de Arte de Veneza e a forma como a entendemos. Realizada numa cidade pressionada com o fluxo interminável de visitantes, mesmo após a introdução de uma taxa turística diária, a edição de 2026 anunciou um mundo em transformação e em que as regras impostas são cada vez mais contestadas.

 

 

O que ver

Para quem visitar Veneza até 31 de Julho, impõe-se uma visita a Elegy, de Gabrielle Goliath, que deveria ter representado a África do Sul. Esta exposição itinerante esteve no centro de um episódio de censura tão absurdo quanto revelador. O seu conteúdo remete a 2015, é continuado no tempo e é profundamente humano: reúne mães de diferentes partes do mundo que sofrem com a perda dos seus filhos e de mulheres que vivem episódios de violência em contextos extremos. Se a inclusão de Gaza na narrativa concebida pela artista foi o motivo da censura, a forma como transformou a dor humana em algo sagrado, através da instalação na Chiesa di Sant’Antonin, em Veneza, tornou a sua mensagem ainda mais poderosa. A partir de Outubro, Elegy estará patente no espaço Ibraaz, em Londres, e será apresentada no ICA de Milão em Janeiro de 2027. [Fig. 1]

Próximo deste, o Pavilhão de Aoteoroa Nova Zelândia traz uma exposição individual da fotógrafa Fiona Pardington, Taharaki Skyside. Artista de ascendência Maori e escocesa, Pardington apresenta dezassete retratos de aves taxidermizadas de espécies ameaçadas e extintas pertencentes a colecções de museus da Nova Zelândia e da Austrália. Nestes retratos, Pardington isola cada ave contra fundos escuros, chamando a atenção para as texturas da plumagem, dos bicos, dos olhos e da postura. Embora os sujeitos sejam espécimes de museu, a iluminação suave e o enquadramento em grande plano permitem que as aves taxidermizadas pareçam quase vivas. [Fig. 2]

Screen Melancholy, o evento colateral de Taiwan promovido pelo Taipei Fine Arts Museum of Art e exposto no Palazzo delle Prigioni, é igualmente imperdível. O artista Le Yi-Fan e o curador Raphael Fonseca, ambos pertencentes a uma geração que assistiu ao nascimento e à evolução da internet, apresentam uma instalação de cariz profundamente tecnológico, com uma duração de sessenta minutos, que toca o absurdo. O humor e o sarcasmo da narrativa são transmitidos por um humanóide que interpela o visitante sobre os efeitos que os omnipresentes algoritmos têm nas nossas vidas, especialmente na forma como concebemos o amor, a amizade, e mesmo a nossa alimentação – no fundo, tudo o que faz de nós humanos. [Fig. 3]

A instalação RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, em representação de Portugal, explora a forma como o mundo animal reage à iminência de um terramoto. Concebida a partir de Lisboa e exibida em Veneza, a obra revela uma realidade não antropocêntrica, em sintonia com o tema da exposição In Minor Keys (Em Tons Menores), que procura tornar visíveis as frequências mais baixas num mundo cada vez mais incerto. Activada em tempo real, a instalação funciona em ciclo contínuo de cerca de dois minutos. Os animais representados nos ecrãs comportam-se segundo padrões naturais, mas tornam-se agitados perante uma sonorização abrupta. Em simultâneo, a paisagem projectada altera a sua coloração, reforçando o carácter multissensorial da obra. Para além da visão e da audição, o visitante experiencia uma dimensão táctil, provocada pelo impacto físico do som. Inspirada no terramoto de Lisboa de 1755, a obra transmite uma mensagem de alerta sobre a vulnerabilidade do presente e a importância de escutar e interpretar os sinais da natureza.

Muito perto do pavilhão de Portugal, encontra-se Still Joy – from Ukraine into the World, um evento colateral da Bienal de Veneza organizado pela Victor Pinchuk Foundation. A exposição colectiva reúne artistas ucranianos e internacionais para explorar a alegria enquanto força vital e acto radical de humanismo. O projecto parte dos testemunhos recolhidos pelo contador de histórias ucraniano Hlib Stryzhko – fuzileiro, veterano e ex-prisioneiro de guerra. Instalada num palácio veneziano, a mostra convida a sonhar a beleza perdida de Mariupol, cidade devastada pela guerra com a Rússia. À entrada, uma instalação vídeo do duo ucraniano Malashchuck & Khimei apresenta imagens de duas raves em Kyiv, uma em 2019 e outra em 2023, sugerindo que há vida e alegria para lá da guerra. Noutra sala, os candeeiros de açúcar, criados pela holandesa Simone Post para a instalação She Knew She/It/They Would Melt (2026), evocam doces memórias de infância. No fundo, a mensagem constitui uma recusa feroz em deixar que a guerra se torne a única frequência através da qual uma vida pode ser vivida. Ao longo da exposição, o visitante é também confrontado com frases do historiador escocês Niall Ferguson, que exprimem a sua admiração pela resiliência do povo ucraniano. [Fig. 4]

The Spirits of Maritime Crossing, 2026, um evento colateral apresentado no Palazzo Rocca Contarini Corfù, e com curadoria de Apinan Poshyananda, reúne vinte artistas do Sudeste Asiático, da Sérvia e da Irlanda, para explorar temas como migração, diáspora, identidade, espiritualidade e a crise ambiental do presente. O mar é tido como símbolo central, representando simultaneamente ligação entre culturas e espaço de tragédia e transformação. Os artistas abordam questões como ancestralidade, alterações climáticas, desigualdade social, patriarcado e experiências migratórias. Apesar do tom melancólico predominante, a exposição termina com uma mensagem de Esperança, através da performance da irlandesa Amanda Coogan, inspirada na Ode à Alegria de Beethoven, sugerindo renovação, solidariedade e futuro.

O Pavilhão das Bahamas traz um diálogo intergeracional entre os artistas John Beadle (1964-2024) e Lavar Munroe (nascido em 1982). Sob a visão curatorial de Krista Thompson, esta é uma colaboração póstuma entre o artista falecido e o artista vivo. Tanto o trabalho de Beadle como o de Munroe estão profundamente enraizados nas práticas artísticas e sociais das Bahamas, como o Junkanoo, o festival processional nacional que continua a inspirar gerações de criatividade neste arquipélago. Fundamentado na cultura nacional e abordando questões prementes enfrentadas em muitas partes do mundo, o uso de materiais descartados e os processos de colaboração artística por Beadle e Munroe chamam a atenção para o oculto e o subvalorizado – as notas menores propostas por Koyo Kouoh – na sociedade e no mundo da arte.

Este ano, o Kiran Nadar Museum of Art trouxe uma exposição individual da indiana Nalini Malani, também um evento colateral oficial da Bienal de Veneza. Com curadoria de Roobina Karode, a exposição Of Woman Born revisita o mito de Orestes para reflectir sobre os conflitos actuais, a violência justificada em nome da autodefesa e o impacto das guerras sobre as mulheres. Através de projecções animadas e sonorizadas, Malani cria uma instalação imersiva que combina memória, mitologia e tecnologia. Apresentada nos Magazzini del Sale, a obra integra as paredes históricas deste edifício na experiência visual, reforçando o diálogo entre o espaço, história e narrativa.

Dentro da Bienal, os pavilhões da Argentina e da Arábia Saudita, apresentados lado a lado no Arsenale, merecem igualmente destaque. É interessante observar que ambos optaram por intervenções assentes no solo expositivo: a Arábia Saudita, através de um vasto tapete de mosaicos que recuperam tradições artesanais em perigo, devido à proliferação de conflitos bélicos na região do Médio Oriente; a Argentina, por meio de uma superfície composta por sal e carvão, que remete para a importância destes elementos naturais. Esta coincidência formal permite estabelecer um diálogo entre propostas distintas e modos diferentes de pensar o território, a memória e a paisagem. [Fig. 5]

O pavilhão de Marrocos, pela primeira vez no certame, apresentou uma impressionante instalação têxtil, da autoria de Amina Agueznay, arquitecta tornada artista, que trabalhou com centenas de mulheres artesãs para elevar as artes tradicionais do país. Ao seu lado, a República de Timor-Leste expôs uma instalação multimédia composta por um trabalho histórico, Tais Don (1994-99), da autoria de Verónica Pereira Maia – um painel têxtil concebido para honrar a memória das vítimas do Massacre de Santa Cruz, ocorrido a 12 de Novembro de 1991 – a par de uma projecção vídeo de Juventino Madeira, Fraze ne’ebé seidauk hotu (Uma frase inacabada), concebida para a Bienal de Veneza. Durante a abertura, Edson Caminha, trajado como guerreiro tradicional, deu voz a uma nação cuja existência política tardou a concretizar-se. Com CUALE (Fluxo), igualmente um trabalho realizado para o pavilhão da Bienal de Veneza, o artista sobrepôs sonoridades provenientes das línguas faladas no país (entre as quais o português), revelando a sua diversidade cultural.

Embora a autora deste texto não tenha conseguido visitar alguns destes espaços devido às longas filas de espera, recomenda igualmente uma visita aos pavilhões da Santa Sé, da Índia, do Qatar, do Uzbequistão, de Singapura, do Peru, do Panamá e do Equador – estes três últimos focados em ontologias indígenas –, da Alemanha e do Canadá, bem como ao espaço do colectivo indonésio Taring Padi no Sale Docks e aos pavilhões da Espanha, da China, da Grécia e dos Emirados Árabes Unidos.

 

 

O que esperar

A exposição principal, iluminada à semelhança de vários museus etnográficos europeus – com focos de luz centrados nas obras e o espaço envolvente mergulhado na penumbra –, dificulta a leitura das legendas, escassas e frequentemente difíceis de encontrar. A reduzida quantidade de textos explicativos, uma característica já observada na 36.ª Bienal de São Paulo, parece anunciar uma nova abordagem curatorial oriunda do Sul Global: a de apresentar produções artísticas não familiares ao público ocidental (sempre maioritário), da mesma forma como a arte ocidental foi, durante muito tempo, exposta: dentro do modelo white cube, com reduzida mediação e escassa contextualização.

Assim, a exposição revela-se mais gratificante, quando percorrida como uma experiência sensorial e intuitiva, com perfumes vários, do que como um exercício de identificação e catalogação dos artistas participantes. Embora esta opção possa parecer contraproducente à primeira vista, tudo indica que este é o caminho que uma nova geração de curadores pretende afirmar. [Fig. 6]

 

 

Para além da bienal

Um dos aspectos que mais enriquece a Bienal de Veneza é a concentração de exposições paralelas espalhadas pela cidade. No Palazzo Grassi, as mostras individuais de Michael Armitage e Amar Kanwar reflectem sobre vidas marcadas pela adversidade, embora através de linguagens muito distintas. Em The Promise of Change, Armitage apresenta pinturas sobre tecido de casca de árvore proveniente do Uganda e da Indonésia, cujas costuras evocam as cicatrizes da sociedade queniana. Abordando temas como a migração no Mediterrâneo, a discriminação da comunidade LGBTQ+, a pobreza e a violência, as suas obras combinam crítica social e ironia, revelando a realidade sem estetizar o sofrimento. [Fig. 7 e 7a] 

A exposição Co-Travelers de Amar Kanwar apresenta duas instalações multimédia que exemplificam a sua abordagem poético-política às questões sociais contemporâneas. The Torn First Pages (2004–2008) documenta a luta pela democracia em Myanmar através das primeiras páginas propositadamente retiradas de todos os livros vendidos por Ko Than Htay. Naquele país, estas páginas continham doutrina da ditadura militar. Assim, a exposição constitui uma homenagem à resistência dos cidadãos comuns perante o regime. Já The Peacock's Graveyard (2023) propõe uma meditação sobre a morte, a memória, a violência e a moralidade através de uma narrativa visual imersiva composta por textos, imagens e música. Apesar de separadas por quase vinte anos, ambas as obras dialogam em torno da justiça, da resistência e das contradições do mundo contemporâneo, e confirmam a capacidade de Kanwar de comunicar questões políticas locais em experiências universais e profundamente humanas.

Na Punta della Dogana, a exposição Algebra do brasileiro Paulo Nazareth apresenta uma ampla retrospectiva, reunindo mais de vinte anos de trabalho. O título remete para a ideia de reparar fracturas históricas e sociais, uma preocupação central na prática do artista, marcada por longas caminhadas pelas Américas e pela África que investigam os legados do colonialismo, da escravatura e da violência racial. Uma linha de sal atravessa toda a exposição, evocando simbolicamente os navios negreiros que cruzaram o Atlântico e as memórias silenciadas desse passado. Sem seguir uma ordem cronológica, a mostra reúne fotografias, objectos, textos e instalações, que questionam fronteiras, migração e identidade, propondo uma reflexão sobre tudo aquilo que a história oficial e os sistemas de poder não registaram.

A 61.ª edição da Bienal de Arte de Veneza será lembrada como uma edição menos ‘neutra’ e mais exposta ao ruído político do presente, levando a que a própria estrutura do evento se tenha tornado num prolongamento das tensões internacionais que atravessam o mundo e o mundo da arte.

 

 

 

 

Leonor Veiga‹

Historiadora de arte e curadora residente em Montpellier, França. Investigadora integrada no Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes (CIEBA), foi investigadora e docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2020–2023). Obteve o seu doutoramento na Universidade de Leiden (2018) com a dissertação The Third Avant-garde: Contemporary Art from Southeast Asia Recalling Tradition, actualmente em processo de edição.

 

 

 

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Notas às legendas


* Fig. 7a. Pormenor da pintura The Raft (II), em que se pode observar a plasticidade e defeitos da casca de árvore, material de eleição de Michael Armitage. A casca de árvore era tradicionalmente usada como indumentária na Indonésia e no Uganda, mas foi largamente estigmatizada durante a colonização ocidental. A sua utilização contemporânea enquadra-se na vontade de recuperar ancestralidades quase perdidas. Fotografia de Leonor Veiga