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CORPOS RECOMPOSTOS



MARC LENOT

2017-09-03




 
Num grande octógono de tijolos, três transitáveis, e sobre cada um, uma pele, Marsyas esfolado, ou, olhando mais de perto, uma combinação côr de carne estranha: distinguimos aí demasiadas manchas, demasiadas pernas. Não nos atrevemos a tocá-la e desdobrá-la para perceber a articulação. Três dançarinas, também vestidas de combinação, mas mais fina, mais moldada, que as deixa quase despidas, vêm desprender estes despojos e, no chão, enfiam-os, deslizando as suas pernas, os seus braços no interior. É então que compreendemos que ainda há ai um vazio, uma espera; restam manchas vazias, há espaço para um outro corpo no interior desta roupa.

 

 

Então avançam outras três dançarinas, o corpo completamente exposto ao nosso olhar, todas revestidas por uma máscara ocultando a sua cara, depois em cada casal a segunda dançarina vem se juntar à primeira, entrando na sua combinação, unindo o seu braco à perna da outra, formando um ser híbrido e monstruoso, um animal casto de dois dorsos, uma boneca estranhamente articulada (e pensamos logo em Die Puppe de Bellmer). Uma vez reunidos os três casais de irmãs siamesas, num silêncio total, estes seres estranhos, meio homens meio quimeras, vão evoluir no espaço do octógono. 

Apoiados em mãos ou pés que não atribuidos mais a um do que a outro, estes monstros deslocam-se, voltam-se, contorcem-se, por vezes aproximam-se, compondo um animal ainda mais monstruoso e complexo, depois afastam-se. Por vezes uma das cabeças desaparece no interior da membrana, como uma tartaruga assustada, e às vezes ela torna a sair da fenda na qual se tinha escondido, como um nascimento tranquilo.

Por vezes a pose é magestosa, como uma estátua de Néréide onde o outro corpo não é mais do que um sustentáculo/apoio, que uma vaga; às vezes é atormentada e cremos ver um uivo à Bacon; outras vezes, cheia de carícias evoca o acasalamento e por vezes o nascimento. Algumas vezes os dois parceiros parecem andar de acordo, lentamente, harmoniosamente, e por vezes acreditamos ver uma luta, combate de um corpo que quer dominar o outro ou um
confronto sexual.

Sem dúvida, para além da sua beleza formal, ao mesmo tempo fascinante e um pouco inquietante, trata-se de um trabalho sobre o híbrido e o informe. É também para o espectador uma experiência de proximidade: as dançarinas vestem-se e despem-se sob do nosso olhar, ao alcance de nossas mãos e podemos nos movimentar no meio delas, sem constrangimentos, sem que um palco nos separe (um pouco como les gens d´Uterpan).

Esteve em cena nos fins de semana de Agosto, na Pinacoteca de São Paulo, esta peça intitulada Deslocamentos da coreógrafa Marta Soares.

 

 

 

Marc Lenot