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JOSÉ PEDRO CORTES

CARLA HENRIQUES


 

De forma intuitiva, José Pedro Cortes começou a fotografar na Costa da Caparica. As imagens de um contexto singular, que registou ao longo dos últimos anos, originaram a série Costa, inicialmente pensada para editar em livro. A obra com o mesmo título, recentemente publicada, é referida em algumas listas internacionais como um dos melhores livros de fotografia de 2013. Com o trabalho Costa, apresentado no European Exhibition Photo Award, José Pedro Cortes é um dos finalistas do BES Photo 2014, cuja exposição, para o qual está a preparar um trabalho inédito, inaugura a 28 de Maio, no Museu Colecção Berardo. É num terceiro andar nos Anjos, com o Tejo como horizonte que o artista, natural do Porto, trabalha uma parte do tempo, sempre acompanhado de música, onde a partir do computador, ouve-se Bob Dylan, Violent Femmes ou Enrico Caruso. Mas, para José Pedro Cortes o atelier é “o mundo que está lá fora”.


CH: A tua formação teve início no Porto, onde estudas cinema, foi essa a tua primeira opção de carreira profissional?

JPC: Para te dizer a verdade nunca pensei muito em carreira profissional, mas o momento em que estive mais próximo disso foi ter estudado Gestão de Empresas, algo bastante diferente do que faço agora, sem dúvida. Eu cresci a ver filmes, a ouvir música e a ler, o que me influenciou muito. Era uma época diferente, em que descobrir algo dava trabalho e em que ir a um concerto ainda tinha uma aura mística. E à medida que ía vendo coisas novas ía sentindo que também queria procurar imagens, investigar o mundo... Mas na altura, nos 15, 16, 17 anos, por influências familiares, queria estudar algo que me levasse a trabalhar em publicidade... Foi daí que veio a Gestão por incrível que pareça. Antes disso ainda fiz os primeiros cursos de fotografia aos 17 anos, no Instituto Português da Juventude e depois, ainda antes de acabar o curso de gestão, faço esse curso de cinema no Cineclube do Porto. Portanto aos 21 ou 22 anos, tendo já deixado de lado a ideia de trabalhar em publicidade, estava dividido entre cinema e fotografia, sendo que já fotografava regularmente nessa altura. O curso de cinema durou um ano. Era uma coisa, com pouca organização e bastante informal, mas que me fez descobrir filmes e como fazê-los. Chegámos a realizar uma curta-metragem de 3 minutos em película de 16 milímetros, sem som. E acho que aos pouco fui percebendo que há uma décalage grande entre o momento em que existe uma ideia e o momento em que algo se concretiza, o número de pessoas envolvido... A fotografia, por outro lado, é mais rápida, e também mais solitária, o que tem a ver comigo. Mas mesmo estudando Gestão não pensava em ser fotógrafo ou cineasta. Estava longe desse lado mais profissional. Ainda não tinha acabado o curso e candidatei-me à Escola Superior de Teatro e Cinema, frequentei umas duas semanas de aulas e acabei por desistir. Fui viajar por algum tempo. No regresso ao Porto trabalhei durante nove meses em cinema de animação na Filmógrafo, com o Abi Feijó e a Regina Pessoa, onde que fiz um pouco de produção. Foi uma experiência bastante interessante porque era a primeira vez em que via uma estrutura criativa a funcionar. Posteriormente, comecei a trabalhar num estúdio de fotografia comercial, como assistente, ainda com película e sem Photoshop. E foi bom porque percebi que tipo de fotografia não queria fazer, mas aprendi bastante a nível técnico. Ao sair do estúdio é que coloquei em questão o que queria realmente fazer e decidi vir para Lisboa estudar no Ar.Co. Já tinha feito uma ou outra exposição, coisas pequeninas no Porto, num registo um pouco acima do amador, mas, e por razões burocráticas da Escola, como não tinha formação académica em artes, queriam que começasse do zero ( aprender o que é uma máquina, um obturador, profundidade de campo, as escalas de cinzentos, etc), o que fez com que a minha passagem pelo Ar.Co durasse quatro a cinco meses. Depois, trabalhei para uma revista do jornal Público, a fazer retratos, e eu gostava dessa dinâmica de estar com uma pessoa, fotografá-la. Em 2002, senti que queria sair de Portugal para estudar fotografia, aprender mais e candidatei-me a um mestrado em Inglaterra (Kent Institute of Art and Design). Foi extremamente importante, porque conheci uma realidade e uma forma de trabalhar que desconhecia.

CH: Foi nessa altura que olhaste para a fotografia como arte?
JPC: Essa questão nunca me preocupou muito. Eu sentia que a fotografia era uma espécie de desculpa para ver coisas novas. Acho que esta ideia mudou um pouco hoje, mas não sei bem se a fotografia é arte ou não. A fotografia tem este problema congénito de estar sempre ligada à realidade, de ser uma cópia do que vemos. A ida para Inglaterra ajudou a perceber isso. Para além de estar num novo país, estar a estudar com pessoas boas e com sensibilidade, fez-me sentir mais responsável pelo que fazia, a procurar uma linguagem que se ia organizando entre a minha história e o mundo. Uma linguagem da qual é tão difícil falar..

CH: Essa experiencias britânica abriu portas? Consolidou o que querias fazer?
JPC: Acabou por chamar a atenção da Tereza Siza, na altura directora do Centro Português de Fotografia, que me propôs uma exposição lá e no Silo, ambos no Porto. E com isso o lançamento do meu primeiro livro, Silence. Foi um momento excitante, tinha 28 anos, e coincidiu também com o meu regresso a Portugal para fazer o programa de Criação e Criatividade Artística na Fundação Gulbenkian.

CH: Foi o inicio do teu percurso, e estás agora entre os finalistas do Prémio BES Photo, o que é que isto representa para ti?
JPC: É um momento importante, claro. Uma surpresa pelo facto da nomeação ter vindo de uma pessoa que não conhecia, o João Fernandes, antigo director de Serralves. É uma boa altura para ver o que andei a fazer nos últimos tempos.

CH: És escolhido por causa do trabalho Costa, feito na Costa da Caparica, qual é a tua relação com esse lugar?
JPC: A minha relação com a Costa da Caparica é a mesma que uma grande parte das pessoas tem.. ir à praia e pouco mais. A diferença é que eu nasci e vivi muitos anos no Porto e, antes de vir morar para Lisboa, nunca tinha ido à Costa. Quando vi a luminosidade, a vegetação, o pó, a própria arquitectura, atraiu-me imediatamente – a luz tornava aquele espaço muito frágil e árido. E remetia-me para lugares muito mais a sul, para uma luz muito pouco urbana, quase desértica, onde me interessava trabalhar. Eu comecei a fazer imagens naquele lugar sem um destino, há já vários anos: primeiro de uma forma muito aleatória, às vezes a fotografar à noite e, nos últimos anos, a fotografar situações específicas quando havia uma luz que me interessava. A Costa foi um território que fui descobrindo ao longo dos últimos seis, sete anos.

CH: Em que partes é que estiveste a fotografar?
JPC: Há imagens espalhadas por quase toda a Costa da Caparica, se bem que não há quase nenhuma feita na parte mais urbana. Fotografei algumas partes junto aos parques da campismo, também junto à arriba, nas entradas das praias e uma zona que segue a linha de comboio onde há muitas casas, quase barracas, que são usadas por pescadores, muitas delas desocupadas.

CH: Fotografavas numa altura específica do ano? Como era o processo de trabalho?
JPC: No início as primeiras imagens foram feitas muito aleatoriamente porque não ia à Costa com o propósito de fotografar, só mais tarde quando comecei a dar alguma importância àquelas imagens é que comecei a controlar a altura do ano em que fotografava e acabei por o fazer nos meses mais quentes. Antes e durante o Verão – até mais antes - porque eram épocas do ano em que ainda havia muitos detritos, as praias não estavam completamente limpas, chovia menos e a luz era bastante forte. Tenho imagens no livro com seis ou sete anos e outras com seis meses. Só quando comecei a pensar que isto poderia ser um livro é que comecei a trabalhar de uma forma mais controlada, porque fazia listas mentais do que queria fotografar, com uma determinada luz, e por isso concentrei-me mais numa altura do ano.

CH: Há uma relação emocional com essas opções?
JPC: No meu modo de fazer imagens, a relação emocional com um sítio novo aparece de uma forma estranha. Normalmente não vem da fotografia.. Os trabalhos de Israel (Things here and Things still to come) e da Costa acontecem por razões circunstanciais. Em Israel, fiquei lá por motivos pessoais, a essência do trabalho nasce de eu lá estar, de pessoas que conheci acidentalmente, de questões que só surgiriam naquele local. Mas nada disto foi pensado. De uma formal natural, se as imagens vão aparecendo, ligo-me mais a um local ou a pessoas. E depois há decisões mais universais, mais pensadas, que têm a ver com a forma como os livros são pensados, na selecção das imagens, e o trabalho da Costa também é um pouco assim. Comecei a ir a esse local que me fascinou sem saber verdadeiramente o que queria de lá; depois aparece uma imagem e depois outra e depois instintivamente volta-se aos mesmo sítios.. às vezes para fotografar, outras só para andar. É verdade que se cria uma relação emocional, mas muito solitária, como a fotografia.

CH: Mas o Costa, no caso da exposição, tem como conceito inicial a questão da identidade europeia.
JPC: Sim, mas é uma espécie de parênteses no processo todo, porque este projecto aparece num momento em que já fotografava na Costa. Há três anos, participei no European Photo Exhibition Award ( mais dois fotógrafos portugueses e outros nove europeus) onde nos convidaram para fazer um trabalho sobre a ideia de identidade europeia. Algo extremamente complexo e vago. Na altura não usei imagens antigas, apenas novas e o próprio corpo do trabalho final é diferente do que tenho no livro, mas foi todo feito na Costa. A relação deste território com uma qualquer identidade Europeia não era para mim muito pacífica. A lógica mais normal era olhar para as imagens como vindas de um local no extremo da Europa, pobre, com uma arquitectura de subúrbio... E estava tudo certo, mas não era só isso que queria. Só mais tarde é que me cheguei à conclusão de que se há alguma coisa que podemos dizer que é nosso, é a luz. É algo muito primário.. mas muito nosso. Por isso é que depois alterei a seleção de imagens desta exposição para o livro.


CH: O processo de selecção é das partes mais difíceis?
JPC: É o momento em que defino o que quero que o trabalho seja.

CH: Neste caso tens dois tipos de selecção, o trabalho que foi exposto e o livro.
JPC: Sim e não. Sim, porque quando expus o trabalho pela primeira vez, tinha imagens que não estão agora no livro. Havia pessoas, umas na areia, outras na água, por exemplo. Mas foi ao olhar para as imagens na parede que percebi o que queria no livro. E por isso depois de expor continuei a fotografar. E desde que expus o trabalho pela primeira vez e o livro saiu, passou um ano e meio. Quando comecei a escolher imagens para o livro, a questão que se impunha era definir o tipo de território que queria que a Costa fosse. A minha edição para a exposição tinha um sabor mais documental, o que não me interessava. Queria que a Costa fosse outra, com uma presença ausente, com uma luz que queima e desertifica e que torna difícil a existência de pessoas.
Portanto, neste momento só tenho uma edição, a do livro.

CH: E é esse momento de selecção para o livro que acaba por ser o mais difícil?
JPC: Eu não sabia qual era o meu ponto de partida a única coisa que iria definir através da edição de imagens era o meu ponto de chegada. É nesse momento que se torna mais difícil. Sabia que queria que o livro levasse essa deambulação naquele espaço, baseada pela luz, a fragilidade dos elementos e que andássemos numa espécie de limbo a subir uma duna, encontrar vegetação, ver uma casa: definir um território e não sair dele. Editar imagens, ou um livro, é um processo de difícil explicação porque tem tanto de racional, como de intuição. E é bom que seja assim. Que as imagens nos levem, mas que nem sempre se seja levado pela mão… é preciso as pessoas se percam. Depois, a partir do momento em que se percebe qual é o esqueleto de um livro, em que sei quais são as imagens fundamentais, há uma espécie de selecção natural em que aquelas que são mais fracas na sequência saem.

CH: O COSTA é editado pela editora que criaste com o André Príncipe. A Pierre von Kleist nasce de uma lacuna e de uma necessidade?
JPC: Sim, de ambas. Mas mais de uma necessidade. Portugal não tem uma grande tradição editorial, não só em fotografia, mas em arte, e não há tradição do livro enquanto objecto pensado de início a fim. A primeira edição com o carimbo da editora é o meu primeiro livro, Silence, lançado em 2006. Oficialmente a Pierre von Kleist só aparece em 2009. Mas sim, vem de uma necessidade que tínhamos de fazer livros, de publicar, de pensar o nosso trabalho numa sequência de imagens e dar-lhe um suporte que seja mais portátil, que se relacione com o tempo de outra maneira que uma exposição não se relaciona, e que ecoe nas formas de arte mais democráticas como o cinema, a literatura, a música.

CH: No início desta conversa falaste do teu gosto pela literatura e pelo cinema, quais são as tuas referências e se de alguma forma influenciam o teu trabalho artístico?
JPC: Houve livros que me influenciaram há muito anos e que ficaram aí, e há outros autores que continuo e ler como o Paul Bowles e os “seus” autores marroquinos, que traduziu. No cinema, lembro-me quando descobri os filmes do Michelangelo Antonioni, das suas personagens e das mulheres que parecem estar sempre ausentes. Mas também os primeiros filmes do Wim Wenders, do Werner Herzog, da argentina Lucrecia Martel ou um filme que continua a ser um mistério para mim, o Sans Soleil, do Chris Marker. Mais recentemente, isto até vai parecer mal, é que vi quase tudo do Pedro Costa – acho que só tinha visto o Ossos no momento em que saiu. E tocaram-me muito, são filmes bastante fortes, com poesia e sobre o nosso tempo.

CH: Há uma fronteira muito ténue entre o cinema e a fotografia?
JPC: No início, quando comecei a fotografar, parecia-me que sim. Principalmente na forma como tentava organizar sequências de imagens, como procurava que uma história fosse narrada.. mas também, por exemplo, nos enquadramentos... A ideia de uma imagem ser um still de um filme. Mas à medida que o tempo passou, começaram a interessar-me mais as “falhas” da fotografia, a sua fragmentação, a falta de objectividade. O “tempo” fotográfico tem mais buracos que o tempo cinematográfico, que devem ser preenchidos pelo espectador, e num livro talvez se esteja mais perto do cinema. Há uma sequência de imagens, que criam ritmo, que guiam o leitor e que através do título, tamanho, papel, etc., situam o trabalho num território, às vezes mais físico, outras vezes mais mental. Essa é uma das questões que mais me preocupa num livro. Por exemplo, é importante para mim, que ao folhear o Costa, se saiba que estamos num lugar a 14 km de Lisboa. Mas depois, como não pretendo descrever o local, a experiência do livro é sempre pessoal – talvez a fotografia esteja mais próxima da poesia...

CH: E o que mais te inspira, as artes “democráticas” ou o quotidiano?
JPC: É uma confluência das duas coisas. A minha história está sempre em contacto com o que vejo, leio ou sinto... com os acasos e com o nosso tempo. É isso que eu procuro, que o meu trabalho seja baseado no tempo em que vivo.