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SNAPSHOT. NO ATELIER DE...




Estudos de diário. © João Gomes Gago (2021)


Estudos de diário. Grafite sobre páginas de diário, 29,5 x 21 cm. © João Gomes Gago (2021)


Indício (acumulação). Tinta da China sobre papel, 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Indício (ovoide). Manotipia sobre papel 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Paisagens (Diário Arqueológico). Carvão e pastel seco sobre papel 79 x 54 cm. © João Gomes Gago (2021)


Sem título (composição). Tinta da China e caco de cerâmica sobre papel 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Sem título (elementos para uma construção imaginada) #1. Carvão e grafite sobre papel 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Sem título (elementos para uma construção imaginada) #2. Carvão sobre papel 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Sem título (elementos para uma construção imaginada) #3. Carvão sobre papel, 32 x 24 cm. © João Gomes Gago (2021)


Paisagens (Diário Arqueológico). Carvão e pastel seco sobre papel 79 x 54 cm. © João Gomes Gago (2021)


Objeto de futuro. Placa de poliestireno extrudido encontrada e pintada 22 x 9 cm. © João Gomes Gago (2023)


Energia (camadas). Marcador sobre folha de acetato sobreposta em papel com desenho a carvão 30 x 42 cm. © João Gomes Gago (2023)


Registo de Continuidade. Sobreposição de papel kraft com mancha a Tinta da China e esboço a esferográfica sobre página de diário 24 x 19 cm. © João Gomes Gago (2023)


Registo de Divergência. Sobreposição de papel kraft com mancha a Tinta da China e caco de cerâmica sobre página de diário 24 x 19 cm. © João Gomes Gago (2023)


Sem Título (figura feminina) #1. Monotipia sobre papel kraft 29 x 19 cm. © João Gomes Gago (2023)


Sem Título (figura feminina) #2. Tinta da China e acrílico sobre papel kraft, 29 x 19 cm. © João Gomes Gago (2023)


Sem Título (figura oculta). Tinta da China sobre papel kraft 19 x 20 cm. © João Gomes Gago (2023)

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JOÃO GOMES GAGO

PEDRO DA SILVA


02/07/2023

 

João Gomes Gago (Lisboa, Portugal, 1991) é um artista plástico que trabalha com desenho, gravura, performance e instalação. Com uma abordagem que intersecta a cultura material, a ecologia e diversas áreas das ciências sociais e humanas, o seu trabalho evidencia uma sensibilidade performativa que nos relembra a ideia de transitoriedade. A partir de um extenso léxico de signos, é encontrada uma relação entre o espírito e ritmos de um mundo que é próprio. Concluiu o Mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão pela Faculdade de Belas-Artes do Porto em 2018 e foi o vencedor do primeiro prémio (BPI) na Bienal Internacional de Arte Jovem de Vila Verde no mesmo ano. A sua obra está representada em coleções privadas e institucionais em Portugal e no estrangeiro. Em pleno lockdown de 2021, decidi enviar-lhe por correio uns fragmentos de ‘cerâmica comum’ de época proto-histórica (daquela que pisamos quando visitamos um determinado sítio arqueológico) e lancei-lhe o repto: o que nos contam estes artefactos considerados ‘lixo’ pelos arqueólogos? Após meses de diálogo sobre narrativas cristalizadas na arqueologia, o resultado foi a produção de um diário arqueológico do artista, que partilhamos de forma inédita na ArteCapital. Este seu trabalho de especulação artística questiona a prática arqueológica do descarte, a reciclagem contínua dos materiais, e insere-se no estudo de curadoria em arte/arqueologia, no âmbito do projeto de investigação "Arqueologias da Presença", financiado por Bolsa FCT UI/BD/151198/2021.


Por Pedro da Silva

 

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João Gomes Gago / Cortesia do artista

 


Pedro da Silva: Como começaste a tua carreira na arte e como descreverias a tua trajetória como artista plástico?

João Gomes Gago: Desde muito novo que sinto uma vontade de procurar a continuidade da liberdade. Aí comecei a praticar o surf, que me transmitia e transmite alguma dessa sensação, mas desde cedo entendia que a arte podia dar-me algo maior. Ou seja, sempre desenhei, por necessidade, e nunca segui outra área. Talvez por isso tenha uma curiosidade quase ingénua por todas as outras… Concluí a Licenciatura em Desenho pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa em 2013 e nesse ano ingressei na University of East London, em Fine Arts, pelo programa Erasmus. Exponho regularmente desde 2011, ainda que a minha primeira exposição individual tenha sido naquele ano de 2013.


Pedro da Silva: Quando te conheci, uma das primeiras coisas que me falaste foi sobre o mar. Essa ligação que sentes com esse elemento, influencia, de alguma forma, o teu trabalho?

João Gomes Gago: Completamente! Sempre procurei a natureza, mas o mar tem uma energia diferente, transformadora. Toda aquela energia das ondas faz-me desconectar da terra… No mar tudo desaparece e tudo se renova, e no meu trabalho há esse ciclo, de renovação… Por exemplo, em 2022 produzi obras para edições limitadas em pranchas de surf, mas a verdade é que me interessava mais pelos restos de XPS industrial da fábrica onde eram produzidas as pranchas. Ou seja, acabei por utilizar aquele ‘lixo’ para instalações expositivas, o que me deixou bastante satisfeito. Outro exemplo é encontrar materiais que vêm do mar, ou que estão presentes na paisagem, como pedras, madeiras… E usar essa materialidade em novos trabalhos e projetos.


Pedro da Silva: Podes contar-nos um pouco sobre as tuas exposições individuais e coletivas em Portugal e no estrangeiro, e como defines a tua visão pessoal sobre a arte contemporânea nas tuas obras?

João Gomes Gago: O meu trabalho tem sido exposto a nível nacional e internacional, incluindo países como Espanha, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e Eslovénia, com apresentações em feiras internacionais, como a Drawing Room em Madrid e Lisboa, ou a Draw Art Fair na Saatchi Gallery, em Londres. Para além das galerias e dos museus, também as salas de teatro permitiram-me mostrar algum trabalho, como por exemplo o Teatro São João, ou o Teatro Rivoli. Estas experiências vieram pontualmente subverter o modelo que me era mais familiar de expor desenhos ou pinturas. O meu processo tende a ser autorreflexivo e, por norma, relaciono-me com as transições da prática artística. Ou seja, é a ação performativa em si! Porque para a minha prática artística é tudo um mesmo evento. Aliás, encaro a própria obra como um objeto de prova disso mesmo, um testemunho daquele ato. Em 2021, quando apresentei o “Plano Fulgor” na Galeria Monumental, o gesto ampliado sobre a própria parede com desenhos de grande escala veio revitalizar esse processo performativo!


Pedro da Silva: Como caracterizas a tua abordagem experimental na arte, explorando a relação entre a arte e outras disciplinas em órbita?

João Gomes Gago: Se pensarmos acerca do sentido de uma obra, as relações que se estabelecem nascem a partir da imaginação, da sensibilidade, de um espírito que é inquietante… A extensão fenomenológica de pontos de convergência que assumo no meu trabalho são referências que atravessam a própria prática e ocupam um lugar vago. Como escreveu Antoni Tàpies em “A Prática da Arte”, de 1970, ao lado das várias disciplinas humanistas, dirijo o meu olhar para um outro mundo, onde a libertação e o aperfeiçoamento irrompem no tempo! Sinto que a minha abordagem orbita por essas ideias.


Pedro da Silva: O teu trabalho é frequentemente descrito como exploratório e especulativo, abordando temas com uma poética bastante característica… Podes falar um pouco mais sobre as tuas inspirações e como desenvolves as tuas ideias criativas?

João Gomes Gago: A verdade é que todas as experiências são fragmentadas e talvez isso explique a tal poética que falas. Porque quando crio, não estou consciente do que estou a produzir, porque tudo nasce a partir de uma inteligência do gesto, do próprio fazer… Se num determinado espaço de tempo e num determinado local as coisas acontecem de uma forma, noutros momentos acontecem de uma outra que será distinta da primeira. Gosto de pensar que o próprio trabalho transparece essa mesma deslocação, acontecimento e momento. Ainda assim, há relações que se estabelecem entre séries e projetos ao longo do meu percurso. Aliás, os mecanismos utilizados nesses processos ficam gravados na memória.


Pedro da Silva: Ao longo da tua carreira participaste em várias exposições e projetos artísticos. Podes destacar alguns desses trabalhos e partilhar a tua abordagem criativa?

João Gomes Gago: Todos os meus trabalhos assinalaram momentos-chave importantes para mim enquanto artista, fazendo parte de um processo contínuo. Eu acho que estas etapas de exposição não se encerram em si mesmas, porque mais tarde posso voltar a um processo específico, um trabalho, ou uma série que tinha deixado de parte e que olho novamente com outro olhar... Por exemplo, a série “Sombras”, de 2018, foi mostrada em diferentes contextos expositivos. Esse projeto recuperava uma técnica antiga da fotogravura, utilizando tinta litográfica em papel fotossensível e, nesse núcleo, explorava um léxico com formas simples que anulavam zonas do papel através de uma mancha negra. Recentemente, fiz uso - não desses trabalhos originais - mas dos estudos que fiz na altura para a sua conceção! Tratavam-se de folhas de acetato pintadas a pastel de óleo negro, com as quais experimentava composições sobre diversos suportes. Ou seja, pude retomar a estes registos pela sua qualidade de transferência da mancha, originando novas descobertas e ensaios visuais.


Pedro da Silva: Podes partilhar algumas das tuas experiências mais significativas como artista e como essas oportunidades têm impactado a tua carreira e o teu desenvolvimento artístico?

João Gomes Gago: Sim, têm sido uma sequência de eventos e contactos que vão surgindo ao longo do trajeto e que complementam indiretamente uma dinâmica no próprio trabalho… Somos seres sociais e acredito que nada acontece de forma isolada… Então lembro-me de algumas conversas importantes com outros artistas ou pessoas envolvidas no meio que me estimularam bastante, desde cedo! Qualquer exposição, individual ou coletiva, origina, na maioria das vezes, novas oportunidades, ou eventos que vão marcando o nosso trajeto. Como as residências, por exemplo! Ocorre-me agora, fruto de uma residência que fiz em Berlim, em 2016, o contacto que estabeleci com alguns artistas da cena Berlinense, que de forma descomprometida me mostraram o seu atelier e me convidaram para exposições nas suas próprias casas. Então lembro-me de me levarem ao espaço de um colecionador particular, que tinha uma vasta coleção de peças do Dieter Roth! Fiquei bastante impressionado na altura, porque era notável o bom estado de conservação daquelas peças… Foi um momento bastante emocionante. Relativamente às exposições que fiz, as mais marcantes talvez tenham sido aquelas em que mais saí da minha zona de conforto. Talvez porque o risco de falhar era bem mais elevado, então sentia que dava um novo salto qualitativo. Por exemplo, a performance “Auto-Deus”, que realizei em conjunto com o Miguel Jaques, em 2019 no teatro Rivoli, no Porto: todo o processo de elaboração daquele projeto demorou cerca de um ano e meio a concretizar! Tudo tinha de ser bem delineado e planeado com a equipa de montagem, de produção e de comunicação. Sempre que ensaiávamos era como se fosse uma apresentação isolada. Tratava-se de todo um ritual, que envolvia pintar sobre panos de grande escala, ou queimar desenhos de forma controlada para não pegar fogo a tudo (risos), e recuperar o folgo para voltar a acertar posicionamentos e ações importantes, em consonância com a música e o desenho de luz… Foi uma experiência mesmo muito boa.


Pedro da Silva: Em 2021 lancei-te o repto para especulares sobre a proto-história na região norte de Portugal e, a partir do resultado do teu trabalho, surgiu a ideia de “pós-escavação arqueológica” enquanto método de curadoria em arte-arqueologia. Podes falar um pouco sobre como aqueles fragmentos de cerâmicas proto-históricas e as metanarrativas políticas na arqueologia portuguesa influenciaram aquele teu trabalho?

João Gomes Gago: Desde o primeiro momento que recebi aqueles fragmentos de cerâmica para analisar, achei que a ideia seria ampla. Talvez me tenha interessado inicialmente por aspetos de fragilidade, fisicalidade e temporalidade daquele material. Mas ali ficaram, uns largos meses, no meu atelier, como objetos estáticos… A verdade é que eu não me estava a conectar com aqueles cacos, mas lembrava-me visualmente deles e sentia-os como algo ausente. Como matérias distantes! Queria fazer algo com aquilo, enquanto imaginava no papel arquiteturas vernaculares de tempos antigos. Essas visões opacas resultaram numa reunião de factos, entre séries de desenhos exploratórios. Era simples, mas era extremo ao mesmo tempo! Alguns desses ensaios visuais pareciam abrir uma espécie de janela de tempo. O ponto originário destas imersões já nada correspondiam à minha ideia simples e prática de diálogo… Era uma sensação de vazio, mas essa estranheza contradizia com uma vontade de querer alcançar algo, que voltava sempre a perder! Foi então aí que percebi que estava preso num deambular cíclico… Nasceu uma espécie de narrativa fenomenológica, ao que em fotografia se poderia aproximar de um olhar paradoxal, através da atenção e da perceção. Os cacos daquela cerâmica, a que os arqueólogos chamam de “comum”, e que pisamos quando visitamos sítios, reconduziram-me à ideia de que também o lixo contemporâneo terá um futuro parecido! Essa ideia acabou por ritualizar o meu próprio processo criativo e o resultado foi o “diário arqueológico”.


Pedro da Silva: Fala-nos sobre esse Diário.

João Gomes Gago: Este diário, delimitava a substância das minhas escolhas… O exercício do registo em formato de diário, passou por uma procura democrática mais objetiva da forma, pela sua função, página após página, na medida exata. São registos rápidos, caligrafias cheias de tinta, linhas simples ou mais complexas, de cadências gestuais e interdependentes… Interessava-me um discurso direto que espelhasse sensações visuais simples, ou elementos de prova de uma linha temporal. Quando senti aquelas arquiteturas circulares da pré-história no norte de Portugal fiquei mesmo preso à imaginação.


Pedro da Silva: Qual é a importância da reflexão sobre o presente e a exploração dessas linhas temporais indefinidas na tua prática artística?

João Gomes Gago: Os resíduos que ficam de trabalhos anteriores e que contaminam sequências seguintes, expandem-se e vão conquistando o que costumo chamar de “espaço de uma natureza interior”. Porque essa contínua transformação, envolve uma dimensão energética fundamental. No cruzamento de vocabulários entre o desenho, a pintura, a performance e a instalação, nascem sempre trabalhos com um sentido de drama e teatralidade que parecem fazer parte de um todo mais abrangente. Ou seja, a ideia paradoxal de ir ao encontro de um tempo suspenso, recupera a marca do corpo como encontro simbólico. Exemplo disso foi a performance “Invocação” que realizei na Ilha do Pico, em dezembro de 2022. Nela, foram deixados desenhos de linhas contínuas, executados a tinta branca sobre o chão de cinza vulcânica, e que confluíam entre si numa área delimitada por uma instalação de troncos queimados. Essa dança foi realizada num local onde em tempos a natureza hostil da lava, que por ali corria, consumia terras e ameaçava vidas! Ou seja, esta performance encenou também um ciclo efémero, aquele estado entre a vitalidade do corpo e a transcendência da forma. Para mim importa mesmo aquele testemunho de um confronto indefinido, como por exemplo, entre o caos e o transitório… Ou entre o espírito e os ritmos de um mundo interior…


Pedro da Silva: Para mim, enquanto arqueólogo, o teu trabalho apresenta uma relação entre o passado e o presente, através de traços que sugerem algo de… arqueológico! Como é que tu vês essa interação?

João Gomes Gago: Eu sinto que o meu trabalho encontra muitas vezes projetos de intervenção na paisagem ou em cenários pouco convencionais. Ou seja, fora de um espaço de eleição como o atelier, onde o controlo sobre cada ação é maior. Acho que, por estar motivado em tentar estabelecer um discurso reflexivo nestes ambientes, a capacidade de improviso é determinante. Aliás, exemplo disso foi a nossa recente intervenção in situ no Monte Ovil, em Espinho. Aquele espaço arqueológico e histórico serviu de palco para uma especulação artística…


Pedro da Silva: Queres partilhar essa performance-arqueologia?

João Gomes Gago: Sim, quando me convidaste para participar num take-over a um sítio arqueológico fiquei muito entusiasmado com a ideia. Quando lá chegamos ao topo do monte senti que cada pedra contava uma história com milhares de anos, e onde se erguiam monumentos fantasmas com uma intensidade profunda… Levei comigo um rolo com vários metros de tecido, cortámos à medida no local, e pintei sobre aquelas ruínas circulares de época proto-histórica. A partir daí, foi um percurso que culminou na instalação dos panos nas ruínas da antiga fábrica de papel, que terá sido construída com aquelas pedras antigas pré-históricas. Ou seja, estava intrínseca a ideia de reciclagem dos materiais nesta performance. Senti mesmo que este processo de convivência com artefactos procurava construir um discurso em volta de coincidências. A natureza ambígua da obra-artefacto permitiu-me ver uma conexão ancestral que senti ser cíclica nos meus gestos. Penso que muito do que hoje se faz, ao nível artístico, tende a estar mais próximo de um conceito amplo de cultura, e diria mesmo, um posicionamento político! Acredito que, tal como na arqueologia, na esfera da arte, regressamos sempre à forma autónoma, onde encontramos o valor da subjetividade e a capacidade de gerar discussões, reinscrevendo dúvidas fundamentais e significados mutáveis! Aquele acontecimento no Monte Ovil foi realmente marcante…


Pedro da Silva: E para a arqueologia, esse teu trabalho deixou uma marca única pelas experiências artísticas e as especulações arqueológicas que delas resultaram. Mas, já agora, como desejarias que as tuas obras se relacionassem com o público geral?

João Gomes Gago: Quero contribuir para uma ampliação da disciplina, criar algo que tenha em vista a abertura do olhar e da mente para novas possibilidades e perspetivas… Onde a experimentação e a exploração de diferentes materiais, conceitos e ideias possam desafiar convenções e expectativas pré-estabelecidas. No caso daquele take-over ao Monte Ovil, as instalações artísticas ficaram expostas no local para usufruto dos visitantes e da população local. Ou seja, o interesse da colaboração, entre diferentes disciplinas, só nos permite chegar a um público vasto e heterogéneo que ativa as próprias obras e que se relaciona com elas! Acredito que seja necessário encontrar soluções criativas para os desafios atuais. Aliás, é necessário expandir a própria experiência da arte, de forma abrangente e inclusiva! Tal como fazemos com conversas sobre a arte contemporânea e a arqueologia. O caminho para ultrapassar a ideia de rigidez das instituições de arte requer essa procura por um diálogo próximo entre os veículos da cultura e uma abrangência de públicos maior. O nosso país tem um setor cultural tão rico que é obsceno mantê-lo precário. Portanto, acredito que a arte deve participar nessa reformulação sociopolítica e tentar eliminar este fosso entre as instituições, entre a economia e a sociedade… Que deve contribuir para devolver ferramentas necessárias para uma sociedade que precisa entender e valorizar a sua identidade cultural contemporânea para que possamos finalmente fazer as pazes com um passado histórico carregado de erros.

 

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Pedro da Silva
Estudante de Doutoramento em Arqueologia pela Faculdade de Letras Universidade de Coimbra com Bolsa FCT (UI/BD/151198/2021). É Investigador Integrado no Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP). Licenciado e Mestre em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Colaborou com os serviços administrativos da Fundação de Serralves e teve apoio de diversas instituições para desenvolver os seus projetos e investigação, tais como a Universidade da Basileia, o Instituto Arqueológico Alemão de Madrid e a C. M. de Santa Maria da Feira. Conta com trabalhos e publicações no âmbito do desenvolvimento de novos mecanismos de transmissão de conteúdo histórico e científico para o público geral, desenvolvimento de modelos interpretativos e instalações artísticas para exposição do conhecimento arqueológico. + info