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© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
“A perfeição não existe; conceber isso é o triunfo da inteligência humana; desejá-la para a possuir é a mais perigosa das loucuras.” - Alfred de Musset
Ninguém foi enganado, pois a verdade é que no Teatro Variedades o público era variado: gente nova e gente idosa, homens, mulheres e não binários, carecas e cabeludos, louras e morenas, míopes e profetas, mas uma coisa em comum: quase todos vestiram-se para “ir ao teatro” – essa tradição tão bonita e que se tem perdido. Nada disto está dissociado de uma coisa: era um Musical, e os musicais parecem ser uma espécie à parte dentro do teatro, e mais ainda do que um simples musical, era uma Ópera, coisa que por si só ganhou um estatuto ainda mais diferenciado – e que derivou numa perversidade elitista. Se é certo que nasceu elitista, a partir de 1637 em Veneza, abriu-se para o popular devido aos inúmeros teatros da cidade lagunar e da sua filosofia mais moderna e integrada. Depois, bem, depois voltou ao elitismo, seja por manobras da intelligentsia (embora a maioria que vá ao São Carlos assistir é apenas porque “fica bem” ir à ópera, porque dá “status”) seja pelo bilhete a preço elevado. Desse mal tanto sofre a ópera clássica como a moderna, mas felizmente não é esse o caso de Pigmalião, e melhor ainda, não é essa a intenção da sua produção, a Associação Plataforma Cultural, que fez assim a sua estreia. Que se mantenha assim, tal como o Teatro Variedades, com público e espectáculos variados desde 1926 e que mesmo com a decadência do Parque Mayer e o seu fechar de portas regressou em 2024 após longo interregno de trinta anos, regresso este que se deu durante a presidência da Câmara de Lisboa por Fernando Medina. A César o que é de César. O Homem sonha, a ópera nasce.

© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
Pigmalião é baseado no mito grego em que Pigmalião, rei de Chipre, desgostoso com as mulheres libertinas da ilha, esculpe ele mesmo a sua mulher ideal e acaba por se apaixonar pela estátua, e tem a sua versão conhecida mais antiga nas Metamorfoses do poeta romano Ovídeo. Este mesmo livro também iria inspirar O Asno de Ouro, outro clássico da Antiguidade, de Apuleio. Fazendo jus ao nome, o tema foi-se metamorfoseando até que em 1913 ganhou uma espécie de forma moderna definitiva quando o famoso dramaturgo irlandês George Bernard Shaw decide actualizar e adaptar o mito para uma simples e rude mulher do povo que se transforma numa sofisticada mulher da alta sociedade. Deu polémica, provavelmente até pateada – outra tradição teatral esquecida. O público, e parte da crítica, queria um final feliz, romântico, tal como o mito, mas o dramaturgo preferiu que fosse uma sátira às classes sociais britânicas. Apesar disso foi um dos maiores sucessos de Shaw. Outro George, desta vez, Cukor, realizador, pegou na versão de Shaw e a metamorfoseou para cinema. My Fair Lady de 1964 tinha como estrelas Audrey Hepburn e Rex Harrison. Antes deste, em 1938, já tinha aparecido um filme inglês chamado Pygmalion. Sobre a questão do final feliz – o do mito – versus a intenção de crítica social, existe um bom artigo de Janeiro de 2026 escrito por Paulo Cesar Jakimiu Sabino de seu título “Pigmalião na indústria cultural: a ausência de crítica nas adaptações da obra de George Bernard Shaw” que é muito interessante e pode ser lido na internet. My Fair Lady, um musical entre o drama e a comédia, e passado na Era Eduardina, ganhou oito óscares da Academia. A adaptação da peça para guião cinematográfico foi feita por Alan Jay Lerner, autor de letras para música e libretista – de libretto, que em italiano significa “livreto”, pequeno livro com o texto de uma peça musical.

© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
E o libreto deste nosso Pigmalião é interessante pois é novo e fresco, ressalvo apenas que podia ter ido ainda mais longe, ter sido mais ousado e acrescentado ainda mais elementos a um mito já por si permeável a adaptações – até deu origem a duas telenovelas brasileiras, o que dá para ter a ideia de como um mito é universal e intemporal. Também a demasiada simplicidade faz com que ironicamente perca alguma pertinência, objectivo esse que penso ser o dos autores nesta sua versão do mito. Se uma narrativa já está modificada do original porque então não acrescentar novos elementos, desde que coerentes? Ninguém se chateava, acho, e se caso fosse, que desse pateadas. O problema seria delas, com os seguranças do teatro. Com mais variedade – passe a piada – talvez não fosse necessário prolongar tanto algumas cenas e o conjunto ficasse mais rico, mesmo porque num Musical o ritmo, os tempos, as mudanças de cena, são mais tramadas do que no teatro normal. Variado, curto e incisivo, é o truque. Mas Mane-Quim/Pig-Malião, libreto da autoria de Tiago Schwäbl, satisfaz, e foi-nos apresentado um bom espectáculo. Tanto a soprano Sara Afonso como o contratenor António Lourenço Menezes estão muito bem nas suas performances vocais e também de representação. António inclusive actua com umas andas e sai-se muitíssimo bem e o efeito duplo quando levanta ou baixa a cabeça está muito bem conseguido. Houve teatro de sombras, houve coro – Grupo Vocal Arsis – houve música electrónica, houve um ensemble, houve um cenário com tralha tecnológica vintage, houve vídeo… E em tudo isto todos os intervenientes fizeram um bom trabalho. O teatro é a mais completa das artes porque nela cabem todas as outras: Pintura, escultura, dança, performance, vídeo, cinema, literatura, música… Tudo cabe dentro de uma peça de teatro e tudo é mostrado ao vivo, em directo para um público, sem filtros, sem rede, sem medos, e muitas vezes, sem meios. É por isso que o coração de um crítico tem sempre de ser enorme e bater loucamente tum tum tum tum.

© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
E lá estavam elas, as pessoas, que vieram de propósito assistir a uma ópera, e uma ópera moderna, e eis outra das qualidades deste Pigmalião, é ópera que consegue chegar às pessoas. Entre os muitos familiares e amigos dos participantes creio que também estavam outros “civis” como eu. Embora um crítico seja um civil disfarçado, um infiltrado. O facto de não ser uma peça longa também ajuda a que o público (e eu) não se enfade, pois tem apenas sessenta e cinco minutos – A isto não é inocente o facto de ter sido uma encomenda do FIO - Festival Informal de Ópera, e da sua excelente política de óperas de pequeno formato para as fazer chegar às pessoas. No entanto, é impossível não deixar uma última e muito importante crítica: as cadeiras no Variedade são… Excelentes.

© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
Sobre o mito, e wokismo à parte, resta dizer que nele está imbuído uma certa visão machista, pois é a realização do desejo de um homem que considera todas as mulheres à sua volta umas galdérias. E se fossem? O que é uma galdéria? O que é a mulher perfeita? Além disso, a mulher que nasce da estátua, a tal perfeita, ganha vida – graças aos favores da deusa Afrodite – e casa com o rei, mas não ganha nome, sendo só bastante mais tarde que literariamente ganha o nome de Galateia (significando mulher de pele muito branca – estátua/manequim). O efeito sombrio ao longo da peça foi bem conseguido, e o designado “Efeito Pigmalião”, que significa um fenómeno psicológico onde as expectativas de uma pessoa sobre outra influenciam de tal forma o comportamento que estas acabam por tornar essas expectativas numa realidade, está bastante actual. Há quem pretenda impor a sua visão autoritária e para isso manipule a massa também ávida de que as suas expectativas pessoais de perfeição sejam satisfeitas. Existe na Psicologia uma versão um pouco mais positiva deste efeito, mas…

© Filipe Ferreira – EGEAC, Teatro Variedades & Capitólio
… Diz o livro de sala que “Num futuro devastado onde pigmaliões caçam e devoram manequins errantes, um sucateiro encontra uma figura silenciosa que desafia a ordem estabelecida.” – A premissa é pertinente nestes tempos em que os velhos de espírito tentam tomar conta do Poder e nem sequer usam máscaras. Talvez um dia se tornem em estátuas.
“Face oculta mostra-me quem és.” - in Pigmalião
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
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Pigmalião, ópera com produção de Plataforma Cultural e libreto de Tiago Schwäbl Martins.
17.09 – 20.09.2026, no Teatro Variedades, em Lisboa