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OPINIÃO


Dive In, Plataforma Revólver. Instalação, Gustavo Sumpta e Pedro Cabral Santo, Untitled (Over My Dead Body), 2013. Imagem: Fabio Salvo

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CORAÇÃO REVELADOR



VICTOR PINTO DA FONSECA

2016-02-16




 

"Sim! Tinha andado e ando muito enervado, mortalmente enervado; mas por que haveis de dizer que estou louco? A doença aguçou-me os sentidos; nem os destruiu nem os embotou. O sentido da audição foi o mais exacerbado. Ouvi tudo do céu e da terra. Ouvi muitas coisas do Inferno. Como posso, pois, estar louco? Escutai... e observai a maneira saudável, a maneira calma como vos conto toda a história." In, Edgar Allan Poe, Coração Revelador.


Não tem futuro, a visão da economia dissociada da cultura, para libertação das consciências que ignoram a arte e a cultura! Teremos sempre problemas com o desenvolvimento económico - sustentado - se a economia não for modulada pela arte. Teremos sempre dificuldades como sociedade se não pensarmos na História, e se não compreendermos, antes ignorarmos, a influência da arte e da literatura.

Em Portugal, a generalidade dos empresários e empresas privadas - não me parece difícil de generalizar - demonstra uma apática indiferença pela cultura artística. Revelador, é a falta de interesse e participação das empresas na acção de subscrição da pintura "A Adoração dos Magos" de Domingos António Sequeira, obra exemplar da beleza da arte - a beleza também é conhecimento. E trata-se de um conceito que tem as suas raízes... -, e da importância de falarmos de História. Desencorajador, se compararmos com os numerosos exemplos (de responsabilidade) das empresas europeias e dos Estados Unidos da América em financiar acções de cidadania semelhantes (pela arte e pela cultura), consideradas como investimentos que nutrem os museus e, por conseguinte, as novas gerações, fazendo-as pensar na História e a não esquecer a cultura.

Portanto, não há razão para nos espantarmos, com a histórica falta de apoio financeiro privado para a produção de arte contemporânea, e especialmente para a criação e desenvolvimento de espaços independentes de arte contemporânea, cujo maior desafio é obter recursos para construir projectos alternativos (às instituições e às galerias comerciais), e cuja força e prestígio realmente deve ser sem fins lucrativos!

A dramática ausência de financiamento privado para a arte contemporânea, além de colocar em risco a produção de arte e o funcionamento estável dos espaços independentes - considerados espaços alternativos que solucionam necessidades programáticas que sabemos serem sem fins lucrativos -, intensifica o número de projectos artísticos totalmente intermediados pelo Estado, dependendo a produção artística exclusivamente dos apoios (precários) da Direcção Geral das Artes, e de apoios pontuais de um reduzido número de instituições privadas, especialmente a Fundação Calouste Gulbenkian e a fundação edp, instituições que, principalmente, se estruturam em produções próprias de arte e exposições.

Instituições privadas que habitualmente não criam as mesmas oportunidades e condições de sucesso para todos: que praticam estratégias de poder que encontram as suas condições de exercício numa rede de relações de amizades.

Esta visão da estratégia de poder das instituições privadas de arte contemporânea em Portugal, não estará longe da ideia de poder de Michel Foucault, "De um modo geral, penso que é preciso ver como as estratégias de poder se praticam, como encontram as suas condições de exercício em micro-relações de poder (...) Uma rede de micro-poderes que se distribui por toda a sociedade e organiza tacitamente o sistema de dominação (...) A microfísica do poder pratica-se independentemente do aparelho do estado".

As estradas, mesmo as mais intransitáveis, vão dar sempre aos mesmos nomes

No final de 2015, com uma aparente surpresa, a fundação edp cometeu a proeza de comprar a coleção privada de arte contemporânea do artista plástico Pedro Cabrita Reis. Na mesma altura, exibiu no Museu da Electricidade, uma segunda colecção de arte contemporânea privada, propriedade de outro artista plástico, Julião Sarmento.

Em suma, num abrir e fechar de olhos, a fundação edp anunciou a compra - em circunstâncias ditas especiais - de uma colecção de arte contemporânea, propriedade de um artista, ao mesmo tempo que promovia uma outra colecção de arte, propriedade de um também artista - se eu não fosse um colecionador independente que penso ser, perceberia porquê -, fazendo crer que os referidos artistas, aqui na qualidade de coleccionadores, são os únicos detentores da consciência de coleccionar arte, e que as escolhas e o gosto particular dos mesmos designam os interesses da classe!

Não poderá constituir-se um facto estranho - em consequência disto –, considerar-se que a colecção e a programação da fundação edp se constrói com um sentido de conveniências electivas, e haverá razão para acreditarmos que a colecção se venha a apresentar sob a falsa linha de uma escolha exigente, transparente e criteriosa.

O conceito da consciência de classe e das instituições que regulam a sociedade mereceu no passado século XIX um prolongado exercício de reflexão por parte de Marx e Engels, investigação determinante para a compreensão da divisão de classes. No entanto, este artigo, não trata de perceber o famoso conceito da luta de classes, antes e só, é uma opinião crítica sobre o modo individual de ser português, um modo que favorece as manobras tácticas do jogo dos interesses pessoais.

Para seguir as vias do céu basta ler o movimento dos astros*

Este estranho sistema de um Estado da arte em que no centro aparece um pontificado e senhores feudais, reproduz um tempo que já não é o nosso, como não será o deles, uma estratégia de prosseguimento de grupos dominantes - é uma conclusão quase matemática –, e de devoção às respectivas doutrinas como fonte da verdade!

Deste esquema clássico, que salta da renascença, para a contemporaneidade portuguesa (de que a fundação edp é um exemplo), resulta um género de isolamento partilhado de ser português, “A comunidade daqueles que não têm comunidade”; razão principal da falta - de interesse - de competitividade internacional da arte contemporânea que se produz em Portugal!

Este paraíso de uma falsa religião, de reunião dos mesmos amigos onde quer que se encontrem - de um só artista, de um só museu, de uma só colecção -, que favorece quem tem a verdade no bolso, deve ser verdadeiramente posto em causa, com uma nova ordem mental de verdade e transparência, que faça renascer, a ideia do mérito como o lugar da esperança, a genuína mudança, a inovação e a variedade, num tempo em que todos já deveríamos ser mais elegantes e menos previsíveis. Além de ser um aborrecimento.

É vital para a arte contemporânea portuguesa criarmos uma ideia de comunidade artística que transcenda a pequena democracia, com instituições públicas e privadas exemplares, transparentes, desafiando um modo previsível e pouco exaltante de ser português. A competitividade no que diz respeito à arte só existe quando não estamos limitados pelas amizades!

 

victor pinto da fonseca

 


:::

* p. 90 (trad). In Dario Fo, A filha do papa (La figlia del papa, trad. por Maria do Carmo Abreu, 2014)