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LUÍS RAPOSO

2017-10-08




 

Confesso que ia de pé atrás e por isso fui por mim próprio, sozinho, deixando para depois recepções, cumprimentos da praxe e beberetes. De pé atrás porque sabia que nesta Casa tudo tinha sido excessivo: o tempo que demorou a fazer, as verbas que consumiu e sobretudo o estilo iluminado, centralista e “politicamente correcto” que promoveu.

Com este ponto de partida, reconheço que fiquei agradavelmente surpreendido. A museografia parece-me adequada e criativa, dentro de limites razoáveis, ainda que se sinta ocasionalmente (e massivamente no último piso) uma impressão de casa a mais para mensagens, colecções e mobiliário a menos. Uma espiral de fitas de sopa de letras compondo frases fundacionais da cultura europeia, desenvolvida em toda a altura do edifício, constitui uma solução apelativa e até plasticamente bonita – mas não consegue disfarçar o expediente que constitui para o oco exagerado das escadas. O recurso a novas tecnologias, principalmente o sistema de “tablets” geo-posicionados, muito ricos em informação, é bastante útil – não obstante irritantes problemas de funcionamento que estão sempre a surgir e somente a simpatia inexcedível de alguns dos vigilantes permite ultrapassar. E existem, claro, outros motivos de irritação: por exemplo, cada lanço de escada para o piso superior começa no lado oposto àquele em que se termina a visita do piso. Mas… trata-se de detalhes somente.

Quanto a conteúdos. Aqui confesso desilusão. Eles existem e são substantivos. Todavia, para meu gosto, fixam-se demasiado nos tempos contemporâneos (mas afinal essa era e encomenda política, não é?) e concentram-se além disso num eixo de “Europa do meio” que nos incomoda na condição de “povos da periferia”. Será que o sentido de ser europeu existe apenas depois da Revolução Francesa ou até desde a emergência do Capitalismo, sendo antes tudo equívoco, mais da ordem do Mito do que da História (como se refere no início, quando se não pôde evitar dizer algo sobre a própria palavra “Europa”)? Será que os longos séculos anteriores, desde a Antiguidade até à idade Contemporânea não serviram em nada para definir o sentido de “ser europeu”? E será que, mesmo na contemporaneidade, temas como o da Guerra Civil Espanhola, por exemplo, apenas mereçam ser tratado em vitrina como que apostilhada, que mete dó? A Grande Guerra, ao contrário, e em parte da 2ª Guerra, essas são tratadas relativamente bem e constituem o ponto alto do Museu. Mas são por demais evidentes os contorcionismos de linguagem para apresentar visões “equilibradas”, “balanceadas”, “neutras”… Uma espécie de canção de embalar para sossegar consciências, omitindo a verdadeira dinâmica social dentro da Europa e, claro, na relação colonial ou imperial desta com o Mundo – opções quase patéticas quando se celebram as “vitórias do bem-estar” sobrevindas ao pós-guerra e à guerra fria e se faz por esquecer o quanto tal “bem-estar” (aliás iniquamente repartido) se baseou, e baseia, na exploração das matérias-primas e da mão-de-obra além-europeias.

 

 

No todo, surge-nos uma visão de plástico da História. De pouco servem as tais frases fundadoras da Europa; de pouco servem alguns dos conteúdos dos “tablets”, sejam vídeos históricos, sejam textos onde se chamam os verdadeiros nomes às coisas. Aquelas simplesmente flutuam sem verdadeira contextualização; estes, poucos se darão ao trabalho de pesquisar e afiguram-se ser mais decorativos do que substanciais. Uma narrativa asséptica, pois, ao estilo “tudo bons rapazes”, como se a história não fosse feita pela acção criativa e contraditória dos povos e dos grupos que neles sem movimentam. Mas isto poderia soar demasiado a luta de classes, senão até a comunismo – esse “fantasma que ronda e Europa”… em 1848, quando Karl Mark tal observou, em afirmação que flutua no ar nesta Casa como fantasma da mesma, ainda hoje se bem observarmos o horror que parece instalado num centro de poder que tem pudor em a si próprio se chamar de capitalismo (embora use e abuse dos “ismos” para classificar todos os outros), preferindo usar a metáfora púdica de “economia social de mercado”.

Enfim, questões de conteúdo à parte, um museu razoável que merece ser percorrido. Mas, tudo somado, será que valeram a pena os mais de cinquenta milhões de euros que custou? Tenho grandes dúvidas. Não porque não considere que se justifique politicamente a construção de uma “Casa da Historia Europeia” – sobretudo se fosse verdadeiramente europeia, do Atlântico aos Urais. Mas, enfim, poderia até admitir que fosse uma Europa mais pequenina, a da União Europeia. Sendo paga por quem foi, situada onde está tal seria expectável e até admissível. Não é isso que verdadeiramente me incomoda, mas sim a sensação de que muitos europeus, mesmo muitos europeus defensores genericamente da construção da União Europeia, saiam com um sentimento de logro depois de visitarem a narrativa ali apresentada. Ou pior ainda, ganhem a convicção de estarem, na sua geografia, nas suas convicções nacionais e sobretudo nas suas utopias e nas suas vivências quotidianas... excluídos desta Europa.

Aquando da inauguração, em Maio passado, a BBC resumia a notícia que deu do acontecimento com a informação de que “critics call it an EU vanity project”. Pode haver muito de Brexit nesta avaliação, mas antes fosse apenas isso. Pode ser pior, infelizmente. Pode mais ser um projecto de nomenclatura, divorciado da Europa dos povos, que realmente nos animaria.

 

 

Luís Raposo
Presidente do ICOM Europa