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“O ESTADO DO MUNDO” – TRIUNFO DO PÓS-COLONIAL?



JOANA LUCAS

2007-07-15




Antes de mais, e será esta uma das premissas de “O Estado do Mundo”, é necessário baralhar e voltar a dar os conceitos de fronteira, de nação, de cultura e de raça, e outros que possam ter contribuído no passado para a criação e reificação de identidades “étnicas”. É no hibridismo e na mestiçagem que pode assentar a compreensão deste novo mundo, que para lá de globalizado (palavra gasta no vocabulário da contemporaneidade), será mais do que nunca desterritorializado.

Pensar “O Estado do Mundo” e não o “estado da nação”, revela à partida uma preocupação globalista que não encontra uma finalidade redutora nos umbiguismos nacionalistas, e que questiona entre muitas outras coisas os modelos até agora utilizados para lidar com a diferença e com a heterogeneidade nas sociedades que habitamos. A premissa, surge também como indicadora de uma certa ideia de ponto da situação, de balanço necessário após longos anos de convivialidade com alguns conceitos que foram ganhando forma, espessura e peso no vocabulário gasto do “multiculturalismo”.

Assim, na programação apresentada, a ideia de desterritorialização da cultura e da produção artística está presente por exemplo em algumas criações de dança. Assim temos um “Return to Sender” onde a criadora alemã Helena Waldmann parte de um trabalho concebido em Teerão com mulheres iranianas, para o reformular em Berlim ainda com mulheres iranianas, mas desta vez na condição de exiladas, imigrantes ou filhas de emigrantes. Ou também um “Quiet Please” onde a coreógrafa Nina Rajarani de origem indiana a viver em Londres, reinterpreta as danças Bharatanatyam que são tidas como tradicionais em contexto indiano e acelera os seus movimentos em velocidade estonteante no corpo de bailarinos que desafiam os estereótipos entre o que é tido como ocidental e o que é tido como oriental.

Dois exemplos que apenas ilustram a forma como a programação de “O Estado do Mundo” conseguiu manter no geral, mas mais concretamente no decorrer da Plataforma 2, recentemente terminada, uma coerência nas escolhas e nas propostas apresentadas, onde alcançou a proeza de não recorrer à grande loja dos clichés multiculturalistas, que se pautam na maior parte dos casos pela aposta num exotismo essencializado que acaba por reificar a ideia de que as culturas “exóticas” estariam concentradas dentro das fronteiras dos “países longínquos”. Pelo contrário, a programação de “O Estado do Mundo” apostou na ideia de diáspora cultural e de transnacionalismo, onde perpassa uma nova leitura da palavra “migração” que poderá vir a revelar-se de bastante utilidade para um futuro muito próximo.

Também no que toca à programação das conferências estas foram diversificadas nas áreas representadas, se bem que com alguma predominância de temas ligados ao multiculturalismo e ao pós-colonialismo. O mote foi dado aliás na conferência proferida por Homi Bhabha em Outubro passado, onde as contradições e as ambivalências das sociedades globalizadas e pós-coloniais, agora em processo de transição, foram exploradas de forma crítica. Será talvez no seguimento da conferência de Homi Bhabha que ganha particular interesse a afirmação de António Pinto Ribeiro a propósito da pertinência da realização de um Fórum como “O Estado do Mundo”: “o projecto multiculturalista falhou, mas o mesmo não se pode dizer do projecto pós-colonial”(1).

Efectivamente o “projecto multiculturalista” pode ser hoje amplamente criticado tanto pela sua vertente hegemónica, como pelo seu teor marcadamente “tolerante” em relação à diferença o que acaba por contribuir para a “outrificação” quer das comunidades quer dos sujeitos migrantes. Na realidade as políticas multiculturalistas negam na sua génese a possibilidade de serem enriquecidas ou transformadas pelo “outro” do qual pretensamente enaltecem a “diferença”, constituindo-se em efeito num mecanismo de afirmação de uma certa arrogância cultural. Mas se o projecto “multiculturalista” pode ser desta forma criticado e desafiado, será porventura excessivo tentar substituí-lo por um “projecto pós-colonial” sem previamente desafiar o seu conteúdo. Na verdade talvez seja melhor começar por pensar na densidade deste tipo de conceitos utilizados por vezes exaustivamente, ao mesmo tempo que devemos tentar pensar também no que poderá caracterizar este denominado “projecto pós-colonial” que agora se nos afigura.

É preciso relembrar que é o binário “nós – outros” que marca profundamente o terreno colonial e acaba por o caracterizar na sua génese. Assim, a construção de um “outro” faz-se às custas da formação identitária do mundo ocidental, para perpetuar esta divisão binária – e frequentemente redutora, porque dela permanece refém, dissipando eventuais diálogos culturais que a análise da produção discursiva imperial não concedia. É através da obra de referência de Edward Said, “Orientalismo” (1978) que as questões da alteridade, da produção de conhecimento sobre o “outro”, se colocam nos seus exactos termos, e tornam clara a percepção de que o “outro” só existe a partir do “nós”, assim como o “oriente” só existe quando nos colocamos no “ocidente”.

Esta construção e manutenção da oposição e da dicotomia entre o “nós” e o “outro” pelos regimes coloniais é desta forma fundamental para a compreensão das questões e das contradições do colonialismo ele mesmo. A noção dessas contradições torna-se essencial, para que ele possa ser agora trazido para uma arena de estudos em que se deseja que a análise, na produção teórica, dos acontecimentos que fizeram do colonialismo um momento de dominação e imposição sem par na história não perpetuem o silêncio a que as vozes dos colonizados são perpetuamente condenadas. Por isso surgem correntes como os subaltern studies ou os cultural studies que dão voz ao que se pode eventualmente considerar como um contributo para o “projecto pós-colonial” que lentamente vai ganhando forma.

No entanto se há algo que deve ser trazido para a arena do contexto pós-colonial é precisamente a urgência em diluir tudo aquilo que o colonialismo contribuiu para reificar. Assim torna-se imperioso: 1) Repensar a ideia de fronteira num cenário em que o conceito de estado-nação se encontra anacrónico e disfuncional; 2) A diluição da ideia que toma as categorias identitárias como estanques e essencialistas, num cenário em que as mesmas só podem ser estratégicas e situacionistas.

É este o verdadeiro desafio do “projecto pós-colonial”, assumir a decadência dos nacionalismos que marcaram o século XX, e dotar de capacidade de agência todos os actores sociais para os quais, migrantes ou não, os seus mecanismos de auto-representação no mundo global em que vivemos passam muito por um exercício de bricolage permanente, onde as identidades se sobrepõem e são geridas de forma a proporcionarem uma mais-valia situacional.

Com este “O Estado do Mundo” a Fundação Calouste Gulbenkian conseguiu de alguma forma superar os lugares comuns que pautam muitas vezes os “eventos multiculturais”. Trata-se agora, a partir das inquietações suscitadas, pensar em muitas outras formas de poder construir um novo estado do mundo.


Joana Lucas
Investigadora na área de Antropologia



NOTAS
(1) in Suplemento Ípsilon do Jornal Público de 15 de Junho de 2007, p. 30.