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RENCONTRES DARLES 2026: RELER MUNDOS ATRAVÉS DA FOTOGRAFIALEONOR VEIGA2026-07-31
Inaugurada nos primeiros dias do quente mês de julho de 2026, a 57.ª edição dos Rencontres d’Arles, intitulada “Reler Mundos”, convida a um revisitar de histórias, geografias e imaginários através da fotografia. Mais do que um simples tema agregador, esta ideia atravessa toda a programação, que apresenta uma multiplicidade de exposições dedicadas a questionar a forma como olhamos, representamos e construímos o mundo. Entre grandes retrospectivas, exposições temáticas e projetos de investigação, o festival reafirma-se como o mais importante certame internacional dedicado à fotografia. Uma das suas maiores contribuições reside exactamente na capacidade de apresentar a fotografia como medium actual e histórico, relatando a forma como a fotografia se foi infiltrando em inúmeras esferas da vida. A combinação do histórico com o contemporâneo é uma marca definidora deste festival. Em Arles, onde a fotografia é simultaneamente arquivo, documento e objecto artístico, a edição de 2026 focou-se sobre temas ausentes do discurso dominante. Uma das características mais evidentes desta edição é a diversidade dos públicos para quem foi pensada. Aqui, a combinação entre histórico e contemporâneo é evidente na atenção que 2026 deu às crianças. A exposição retrospectiva de Alain Keler apresenta-nos crianças como ‘Párias’ do continente europeu. Nestas imagens, produzidas entre 2008 e 2014, Keler mostra crianças de etnia Roma – segundo ele, os actuais judeus da Europa –, a viver em condições miseráveis em campos de refugiados na região italiana de Calábria e na Eslováquia. (FIG. 1) Na exposição “Imagens que não fazem sonhar”, baseada nos arquivos da dupla Marie-Claire Deffarge e Gordian Troeller, a série Crianças do Mundo merece especial destaque. A dupla, que trabalhou entre 1950 e 1984 em mais de setenta países, deixou um arquivo monumental, actualmente no acervo fotográfico do Museu Folkwang, em Essen, na Alemanha. O seu trabalho documental assume uma forte dimensão crítica em relação ao capitalismo, ao patriarcado e aos legados coloniais. De ressaltar que a exposição – uma selecção desta vasta obra fotográfica e cinematográfica – começa com imagens do Irão. (FIG. 2) A exposição “R comme Regarder” (“L is for Look”, na versão inglesa), no espaço Van Gogh, apresenta um dos projetos curatoriais mais originais desta edição. Dedicada ao livro de fotografia para crianças, a exposição acompanha a evolução deste género editorial desde os anos 1930 até à actualidade, revelando como a fotografia desempenhou um papel fundamental na construção do olhar infantil e nas transformações da pedagogia moderna. (FIG. 3) Em Arles, a representatividade e a inclusividade andam de mãos dadas com a criação de públicos. Assim, no Musée Reattu, onde se situam algumas exposições do festival, a exposição “Museu Paralelo” focou-se nos invisuais que não têm acesso à fotografia. A tradução exímia de fotografias em formato táctil – um enorme avanço em relação ao braille, também presente nas legendas da exposição – constitui um dos elementos mais inclusivos da mostra expositiva. Cada fotografia é cuidadosamente transferida para a textura táctil, que permite a um invisual ‘ver’ a composição. (FIG. 4) Outro eixo fundamental da programação é a presença de África. À primeira vista, pode parecer apenas mais um episódio da crescente visibilidade das práticas artísticas africanas nas grandes exposições internacionais, tendência já evidente na Bienal de São Paulo de 2025 e na Bienal de Veneza de 2026. Contudo, Arles distingue-se por privilegiar a circulação de arquivos, de fotógrafos e de histórias visuais produzidas no próprio continente africano, deslocando o foco da curadoria para as imagens e para os seus autores. O resultado é uma abordagem menos celebratória e mais crítica, interessada em compreender de que modo a fotografia participou na construção das identidades nacionais, das memórias colectivas e das narrativas pós-coloniais. A exposição “Ghana! Sonhar a independência 1957-1976”, no Palais de l’Archevêché, é também ela baseada em inúmeros livros e revistas publicados a partir da independência do Ghana, em 1957. A cuidadosa curadoria de Damarice Amao começa com uma cronologia da independência desde 1947, quando o Pan-Africanismo despertou no país a partir da figura tutelar de Kwame Nkrumah (1909-1972). Os livros “The Roadmakers: a Picture Book of Ghana”, de Efua Sutherland e Willis E. Bell, e “Ghana: an Africain Portrait”, de Paul Strand, são exemplos marcantes de uma documentação rigorosa de um país em plena efervescência política e social. (FIG. 5)
Paul Strand, Samuel J.K. Essoun, Shama, Gana, 1964. Cortesia dos Arquivos Aperture e Paul Strand e Rencontres d’Arles
As imagens transmitem um sentimento de optimismo e de confiança na construção de um futuro promissor, reflectindo o entusiasmo que acompanhou os primeiros anos da independência e o desejo de afirmar uma identidade nacional autónoma através da cultura visual. Por meio de livros, revistas, cartazes e diferentes objetos impressos, a exposição mostra como a imagem participou na afirmação da identidade ganesa após a independência. Mais do que ilustrar um período histórico, evidencia a forma como a fotografia se tornou um instrumento activo na invenção simbólica de uma nação recém-emancipada. A exposição “Photoromance” de Paul Kodjo constitui outro dos momentos centrais do festival. A primeira grande exposição individual do fotógrafo, oriundo da Costa do Marfim, em França, reúne um conjunto de fotonovelas produzidas em Abidjan durante as décadas de 1970 e 1980, revelando a importância deste género na construção de uma cultura visual urbana africana. Para além do seu valor documental, estas imagens demonstram como linguagens, inicialmente associadas ao entretenimento popular podem desempenhar um papel decisivo na formação de imaginários colectivos. A modernidade visível nos interiores fotografados e a sofisticação dos retratados contrastam com representações mais mediatizadas e estereotipadas do quotidiano africano, frequentemente marcadas por uma visão tradicional das sociedades e dos povos do continente. Assim, a obra de Kodjo desafia narrativas redutoras, evidencia a diversidade, a urbanidade e a complexa experiência africana no período pós-independência. (FIG. 6) O último ponto de foco fundamental da programação é o do mundo para lá da esfera humana. Aqui, a exposição “Nous ne Sommes Pas Seules”, no espaço Croisière remonta para arquivos sobre a crença na vida para lá do Planeta Terra. A exposição conta com algumas interessantes contribuições, como a de Jean-Yves Casgha e a sua Aparição de triângulo vermelho no ventre do ‘Doutor X’, depois de ser sujeito a radiação provinda de dois ovnis ao redor de sua casa, na noite de 1 de Novembro de 1968. Igualmente interessante é o trabalho de Érik Bullot, um tributo à longa tradição de “falsos” ovnis. Os dípticos revelam o truque usado para o fabrico das imagens. (FIG. 7)
Jean-Yves Casgha, Aparição de triângulo vermelho no ventre do ‘Doutor X’, 1984.
A atenção dedicada às plantas, outra esfera do olhar para lá do registo antropocêntrico, é visível em “Flower Power”, situada no Jardin d’Été. Naquela que é uma das surpresas mais inesperadas da programação, os curadores Beata Nowak e Michel Poivert utilizam o motivo floral para discutir ecologia, política e experimentação visual. Seleccionada a partir do livro homónimo, publicado pela editora Textuel, em 2025, a exposição reúne cinco artistas internacionais, cujos trabalhos demonstram como um dos temas mais tradicionais da história da arte continua a oferecer possibilidades críticas no contexto contemporâneo. A exposição demonstra como a fotografia contemporânea pode transformar um motivo aparentemente esgotado num poderoso dispositivo de reflexão sobre o Antropoceno. As flores deixam de falar apenas de delicadeza ou romantismo para se converterem em testemunhos das profundas alterações ecológicas produzidas pela acção humana. A instalação ao ar livre transforma radicalmente a experiência do visitante. As imagens ampliadas alteram a escala habitual das flores, convertendo organismos frágeis em monumentos visuais. Esta alteração de dimensão obriga-nos a reparar em detalhes normalmente invisíveis, criando uma sensação simultânea de maravilhamento e estranheza. (FIG. 8) As fotografias de Anaïs Tondeur recuperam processos experimentais que evocam os primeiros tempos da fotografia, aproximando-se dos fotogramas e da manipulação directa da matéria fotossensível. A artista trabalha frequentemente com ambientes marcados pela radioactividade ou pela contaminação industrial, revelando formas inesperadas de vida, onde, aparentemente, nada poderia sobreviver. A flor deixa de ser apenas um objecto belo para se tornar um índice da resistência da natureza. Também Alice Pallot propõe uma leitura crítica da relação entre flores e paisagem. Na série Oasis, o visitante é confrontado com os ecossistemas invisíveis que sustentam a produção industrial das flores comercializadas para decoração ou oferta. Vermes, águas poluídas e resíduos tornam-se protagonistas de imagens que recusam qualquer idealização da natureza. A beleza continua presente, mas surge inevitavelmente contaminada pelas condições ambientais e económicas que permitem a sua existência. Já a exposição “Modèle Animale”, no espaço La Méchanique Générale, propõe uma reflexão abrangente sobre a representação dos animais na fotografia desde o século XIX até aos dias de hoje. Em vez de organizar as obras cronologicamente, a curadoria estrutura o percurso através de diferentes modos de olhar: científico, performativo, emocional, ético, estético e digital. Esta organização permite compreender como a fotografia não apenas documentou os animais, mas igualmente participou na construção da forma como observamos, domesticamos, exploramos ou protegemos estes seres. Na exposição, obras históricas convivem com imagens contemporâneas e produções oriundas das redes sociais, mostrando como a circulação massiva das imagens alterou profundamente a relação entre realidade e representação. Ao reunir autores, como Elliott Erwitt, Martin Parr, William Wegman ou Rinko Kawauchi, ao lado de imagens históricas e anónimas, a exposição evita construir uma narrativa linear da fotografia animal. Em vez disso, apresenta um vasto panorama onde convivem humor, ciência, afecto, espectáculo e crítica política. (FIG. 9) Ao longo do percurso, torna-se evidente que a força desta edição dos Rencontres d’Arles reside menos na acumulação de grandes nomes internacionais do que na consistência das propostas curatoriais. Cada exposição resulta de um longo trabalho de investigação e constrói um argumento sólido, estabelecendo relações entre arquivo e contemporaneidade, documento e ficção, ciência e imaginação. “Reler Mundos” revela-se, assim, muito mais do que um título. Constitui um método de trabalho e uma proposta ética para olhar a fotografia. Em vez de procurar respostas definitivas, o festival convida-nos a questionar os modos como vemos e interpretamos as imagens que nos rodeiam. Das flores aos animais, da infância às independências africanas, das práticas documentais às experiências visuais mais contemporâneas, todas as exposições partilham a convicção de que olhar nunca é um gesto neutro. É precisamente nesta capacidade de transformar a observação em reflexão crítica que reside a maior qualidade dos Rencontres d’Arles 2026. Num momento em que somos diariamente confrontados com um excesso de imagens, o festival lembra-nos que ver continua a ser um exercício de atenção, de memória e de descoberta.
Leonor VeigaHistoriadora de arte e curadora residente em Montpellier, França. Investigadora integrada no Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes (CIEBA), foi investigadora e docente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2020–2023). Obteve o seu doutoramento na Universidade de Leiden (2018) com a dissertação The Third Avant-garde: Contemporary Art from Southeast Asia Recalling Tradition, actualmente em processo de edição.
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