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ALICE NEEL: BEAUTIFULLY IMPERFECTLEONOR GUERREIRO QUEIROZ2026-09-03
Ao longo de quinze salas são apresentadas inúmeras pinturas, agrupadas pela curadora Inês Grosso segundo temas e fases da vida da artista, em vez de uma ordem cronológica, uma lógica que nem sempre é óbvia. As salas brancas e a arquitetura limpa características de Serralves encontram uma nova vida ao acolher retratos tão verdadeiros e vivazes. Uma vida, de facto. Se o observador seguir o percurso sugerido na folha de sala, talvez sinta, como eu, uma proximidade quase familiar com certas etapas da vida da artista. Uma intimidade que, enquanto artista mulher, poucas vezes é possível sentir.
Alice Neel, Self-Portrait (1980). Vista da exposição Beautifully Imperfect, Museu de Serralves, 2026. © nvstudio
Logo no início, como forma de boas-vindas, é-nos apresentado um dos seus poucos autorretratos. Numa idade já avançada, no ano de 1980, totalmente despida, a figura segura um pincel e um pano, olhando para nós, espectadores, que lhe devolvem o olhar; ao mesmo tempo que se observa a si própria, refletida no espelho de que possivelmente se serviu para pintar. É bonito este início em que começamos pelo fim. Em frente ao autorretrato, sobre um balcão, é disposta uma série de cartas de artistas e de pessoas próximas da pintora, algumas das quais nunca se encontraram em terra, mas que estavam ligadas por espírito. O paralelismo de devolver o mesmo carinho e o mesmo destaque numa sala de exposição a quem uma vida inteira se dedicou a retratar os outros, é um dos pormenores mais generosos da exposição.
Vista da exposição Alice Neel: Beautifully Imperfect, Museu de Serralves, 2026. © nvstudio
O título da exposição sugere o antónimo de uma expressão idiomática portuguesa, "Quem vê caras, não vê corações". Aqui, enquanto “colecionadora de almas”, a pintora não se limitava a ver rostos e a representá-los de forma simultaneamente doce e fria; procurava também fixar aquilo que é inefável em cada pessoa, o que escapa à compreensão humana total – o espírito. É precisamente por considerar a beleza como algo profundo, inerente à alma humana e não à superfície da pele, que a sua pintura se revela singular. Existe uma beleza que não procura a perfeição. A beleza das pessoas reais, dos corpos que se mexem, vivem e amam, basta por si só. Mais do que retratos de indivíduos, são retratos de uma vida e de uma época e das relações que se estabelecem nos vários contextos económicos e socioculturais. A crueza da realidade mistura-se, e por vezes até se opõe, à paleta cromática vivaz e saturada com que constrói os seus quadros. Porém, há algo que atravessa toda a sua vida enquanto pintora: a liberdade da pincelada, a forma como o pincel desliza sobre a tela em gestos fluidos e pouco hesitantes. Na época em que viveu no “Spanish Harlem”, essa liberdade convive com meios-tons numa paleta mais terrosa e avermelhada. Apesar da pobreza da comunidade onde a própria artista também vivia, a pincelada mantém uma grande expressividade e um brilho peculiar. A partir da década de 1960, a pintura de Alice Neel muda de rumo. A paleta intensifica-se e ganha luminosidade; os fundos das composições ficam por finalizar, acentuando o contraste com as figuras, trabalhadas de forma pormenorizada; e um azul recorrente contorna corpos e objetos bem delineados, influenciado também pela tradição fauvista. Esse gesto foi ficando cada vez mais marcado, acompanhando a recusa das correntes e normas da época. Enquanto o expressionismo abstrato dominava a cena americana, Neel manteve-se fiel ao figurativo. Dizia ela que o expressionismo abstrato era uma tentativa de fugir da condição humana, uma forma de medo: eliminar as pessoas da arte não era um passo em frente, mas uma fuga da realidade. “Man is the catalyst (...) Man is everything” [1], afirmação que viria a tornar-se célebre. A evolução da sua obra, tanto a nível plástico como temático, acompanha assim a evolução do mundo à sua volta. Há retratos em que olhar para a pessoa representada é também olhar para a história da própria artista. “Isabetta” (1934-35) é um deles. Segunda filha de Neel, foi levada pelo pai para Cuba ainda criança, quando o casamento da artista com Carlos Enríquez chegava ao fim — separação que coincidiu com um período de grande fragilidade psicológica. É difícil olhar para este retrato sem pensar na ausência que o antecede. Anos depois, quando a pinta, Isabetta olha diretamente para nós, observadores, estupefactos e indefesos, ocupando o lugar da mãe de quem, se calhar, já não tinha memória. De mãos na cintura, há algo pouco infantil na forma como a criança ocupa o espaço da tela. Não parece estar ali apenas para ser observada. Olha-nos de volta, olha-lhe de volta. Quase quarenta anos depois, Neel pinta Olivia, a primeira neta, "com as mãos apoiadas atrás do corpo e o olhar dirigido ao observador” [2]. Olivia torna-se um eco de Isabetta. O que na primeira pintura está ligado à separação reaparece na segunda como continuidade.
Alice Neel, Olivia in Blue Hat (1973). Vista da exposição Beautifully Imperfect, Museu de Serralves, 2026. © nvstudio
Por falar em ser-se mãe e ser-se filha, a maternidade surge na pintura de Neel de forma pouco idealizada. Em “The Pregnant Woman”, de 1967, o que vemos é um corpo vulnerável e em metamorfose, mas forte e sensível. E quando observo os seus nus femininos, é difícil não pensar na longa tradição do nu reclinado, o corpo da mulher despido, colocado durante séculos diante do olhar de quem o observa. A escolha desta pose horizontal não é acidental. Como explica Laura Mulvey, a figura feminina ocupa tradicionalmente o lugar de objeto de desejo, encontrando-se numa posição passiva, enquanto a figura masculina, ativa, é quem observa e possui o poder. Aqui, porém, algo se desloca. A mulher representada devolve o olhar e, sem sair completamente dessa lógica, introduz uma relação visual que desafia a assimetria entre quem observa e quem é observado. Essa inversão torna-se ainda mais evidente quando pinta corpos masculinos. O corpo masculino, que tantas vezes ocupou na história da arte o lugar de sujeito, aparece também exposto e disponível ao olhar. É o caso do quadro "John Perreault" (1972). O homem, na sua pintura, pode ser tudo menos uma presença neutra: marido, amante, filho, artista, escritor, etc. Pode estar no centro da imagem sem ser necessariamente o centro da pintura. Em Neel, os homens também envelhecem, engordam, ficam desconfortáveis, tornam-se frágeis; também eles deixam de ser ideias para se tornarem pessoas. Essa mesma atenção ao corpo real, despido de pose, estende-se também às crianças, e é nesse território que volta a cruzar a vida privada com a pintura. “Hartley on the Rocking Horse” (1943) revela essa dualidade também na relação que estabelece com “Las Meninas”, de Velázquez, através da presença do espelho, da criança e da consciência do lugar de onde o artista observa. Mas existe uma outra camada. Alice Neel pinta o filho enquanto trabalha dentro de casa, tornando visível o lugar que ocupa enquanto mãe e enquanto pintora. O espaço doméstico é simultaneamente atelier e casa, lugar de presença e cuidado. A exposição começa assim a deslocar o olhar das pessoas que Neel pintou para uma questão mais ampla, a de quem teve, ao longo da história da arte, o direito de olhar, pintar e representar os outros. Na biblioteca pessoal da artista encontra-se, entre outros, “Woman as Sex Object”, editado por Thomas B. Hess e Linda Nochlin. É curioso pensar neste livro na casa de uma mulher, cuja vida foi passada a pintar corpos que a história da arte ensinou a olhar de um outro modo. A mesma biblioteca parece revelar, em surdina, aquilo que a pintura de Neel viria depois a tornar explícito: devolver às pessoas retratadas, e sobretudo às mulheres, a autoridade sobre a própria imagem. O trabalho de Alice Neel revela-se também como um ato de justiça, por insistir em ressignificar o desejo enquanto dispositivo de poder e reivindicar a autoridade feminina sobre a própria imagem. Recuperar a dignidade significa recuperar o controlo sobre a própria imagem, sobre o próprio corpo. EÌ essa uma das principais semelhanças que reconheço em ambos os nossos corpos de trabalho [3]: retirar do controlo masculino aquilo que nunca foi dele – a posse sobre a identidade e a imagem da mulher. É difícil não pensar nisso diante de “Cindy Nemser and Chuck”, de 1975. Os dois apresentam-se nus, um casal; mas Cindy Nemser encontra-se à frente, ocupando o primeiro plano, com nome e apelido. Enquanto Chuck, em segundo plano e parcialmente escondido, é apenas Chuck, deslocado para o lugar onde tantas vezes foram colocadas as mulheres. É como se Neel pegasse numa relação que conhecemos demasiado bem e trocasse por um instante os lugares, sem precisar de transformar a pintura numa declaração. Talvez seja isso que mais me interessa na sua obra: não precisa de nos dizer quem deve ocupar o lugar de sujeito. Basta dar a alguém um nome, uma posição, um rosto e o corpo que estamos habituados a ver devolve-nos o olhar. Contou-me um amigo, presente na inauguração, que algumas das pessoas retratadas pela pintora voltaram a posar, muitos anos depois, diante das próprias pinturas: as mesmas pessoas que, décadas antes, se tinham sentado diante da artista, estavam agora diante da imagem que ela guardara delas. Gosto particularmente desta ideia. O corpo mudou, o tempo passou, mas a pintura ficou, e, por alguns instantes, a pessoa que envelheceu olha para a pessoa que foi. Uma das coisas mais bonitas do trabalho de Alice Neel está precisamente aí, não impedir que o tempo passe, mas dar-lhe um lugar onde permanecer.
Leonor Guerreiro Queiroz(Porto, 1999) é artista plástica e integra, atualmente, o Mestrado em Artes Plásticas, na ESAD.CR. Formada em música clássica (fagote) pelo Conservatório de Música do Porto e licenciada em Artes Plásticas (Pintura) pela FBAUP, expõe regularmente desde 2015 na companhia de artistas estabelecidos. Organizou projetos e mesas redondas com personalidades do meio artístico internacional, tendo desenvolvido publicações em revistas de arte e teatro. Trabalha como professora convidada na DTK - Fine Arts School in Bærum (Noruega), desde 2023 e com a artista Paulina Olowska, desde 2020 na Academia de Belas Artes de Praga. Na área da escrita curatorial colabora, desde 2024, com outros artistas e curadores, escrevendo textos de apoio a exposições e reflexões sobre as mesmas.
Notas [1] Citação retirada do documentário “Alice Neel”, de Andrew Neel, de 2007 e apresentado na exposição “Beautifully Imperfect”.
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ALICE NEEL: BEAUTIFULLY IMPERFECT
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