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Vista da exposição de Filipa César, Meteorizações, Museu de Serralves. © nvstudio - Fundação de Serralves


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METEORIZAÇÕES, DE FILIPA CÉSAR ET AL.



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Uma das melhores coisas da arte é quando ela nos permite duas coisas em simultâneo: 1) conhecer e 2) reconhecer. Quando 1) se aprende sobre o que nos foi até então desconhecido e distante, e quando 2) se descobre que também nós estamos representados e de uma maneira que não tínhamos previsto, gera-se um momento emocionalmente marcante.

A exposição da artista Filipa César et al no Museu de Serralves convocou essa relação em mim de forma surpreendente, por motivos pessoais: porque 1) deu-me a conhecer um período importantíssimo do país da minha família paterna, a Guiné-Bissau, que o viveu , e porque 2) reconheci que também eu estou representada de uma maneira que não tinha previsto. Foi um momento de revelação e aprendizagem sobre as origens do meu sangue paterno.

Naquela que é a sua primeira exposição antológica em Portugal, Filipa César reúne um conjunto de trabalhos com cerca de duas décadas de investigação e produção em torno de questões relacionadas com o colonialismo e as suas repercussões no pós-, movendo-se entre os meios do cinema e da instalação. Falar da sua prática implica abordar os processos colaborativos que a atravessam, interessados em expor e expandir a realidade da descolonização e da resistência a regimes fascistas e opressivos. Neles, a ativação da memória, a escuta e a partilha de experiências individuais e coletivas, desviantes das narrativas oficiais, tornam-se metodologias úteis para pensar húmus, humana e humildemente (2024) um presente que está em risco em várias frentes, por exemplo, com a crescente normalização de discursos de extrema-direita ao colapso ambiental.

Desde cedo, a prática de Filipa César examina o campo da imagem em movimento na relação com a percepção e o dispositivo, acabando por transitar essas questões para uma abordagem de índole documental. É na intersecção de acontecimentos políticos com a prática cinematográfica produzida nesses contextos que irá utilizar como principal objeto de estudo a Guiné-Bissau e a formação da sua nacionalidade. Quando Amílcar Cabral (1924-1973), líder do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo-Verde) e da Guerra da Independência (1963-1974), enviou quatro jovens guineenses - Flora Gomes, José Bolama Cobumba, Josefina Crato e Sana na N’Hada - para Cuba, em 1967, para estudar cinema, com a intenção de virem a documentar a revolução aquando do seu regresso, permitiu o nascimento do cinema militante no país. A convicção no poder do cinema enquanto ferramenta pedagógica e política - enquanto ato de descolonização -, além de divulgar a luta interna como externamente, foi capaz de contribuir para a construção de uma identidade revolucionária num território composto por mais de 40 grupos étnicos, reunidos em torno de um objetivo comum: a formação de uma nação independente. O material filmográfico que daí surgiu e sobreviveu é ponto de partida para a Luta ca caba inda (A luta ainda não terminou), um projeto amplo de Filipa César que continua a informar todo o seu percurso artístico e comunitário até hoje.

Em Serralves, com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento, César combina material audiovisual do arquivo, filmes, objetos, documentos e testemunhos numa exposição organizada a partir dos 4 elementos da natureza: Água, Terra, Ar e Fogo. Uma estratégia que recusa a ordem cronológica para se aproximar da estrutura rizomática do mangal (caracterizador das selvas guineenses) quer seja na disposição orgânica das obras no espaço, quer seja como metáfora de um (ecos)sistema de transições entre diferentes contextos de luta e resistência aí apresentados. 


Começa-se pela Água onde 4 filmes são apresentados com esse elemento em comum - desde as passagens clandestinas no Rio Trancoso na época da ditadura do Estado Novo em Le Passeur (2008), à recriação de uma escola de guerrilha nos mangais guineenses - Mangrove School (2022), fundamentais para proteger e educar crianças e adultos em contexto de guerra como forma integrante da luta pela libertação.

Em Terra, os blocos de cânhamo que desenham o espaço expositivo adquirem uma maior presença e densidade uma vez que sustentam a consciência ambiental e o pensamento político de Amílcar Cabral, profundamente ancorado nos seus estudos em agronomia. O título da exposição - Meteorizações - advém da apropriação deste conceito geológico por Cabral para pensar o solo como um corpo histórico resultante de múltiplas e contínuas transformações, convocando-o como campo de reflexão sobre as condições de vida da população e as políticas do território. Por sua vez, Filipa César serve-se deste mesmo conceito para “pensar os arquivos e saberes que se perdem e desgastam e como, da sua erosão e lacuna, resultam possibilidades de ativação de práticas, vozes e silêncios (...) intrinsecamente ligados à defesa da terra”, lê-se na folha de sala. Agropoetics of Liberation (2019) desenha-se no solo e eleva-se numa cartografia composta por livros, cartas, desenhos e outros objetos que mapeiam a revolução guineense. Spell Reel (2017), Cacheu (2012) e Conakry (2013) fazem uso dos arquivos da Guiné-Bissau não apenas para transmitir e preservar as imagens do passado, mas para as reativar e discutir na contemporaneidade.

Ar: a secção dos pensamentos e das ideias apresenta a instalação e filme Quantum Creole (2020), um ensaio complexo que resultou de uma pesquisa a várias vozes sobre as dinâmicas da crioulização enquanto fenómeno cultural altamente intrincado nas suas relações com o património têxtil guineense dos Panu di Pinti (panos de pente), os seus códigos subversivos e as lógicas binárias da computação.

A sala da última secção - o Fogo -, parece destoar das restantes pela súbita mudança de tom mas rapidamente se percebe que participa nas mesmas preocupações a partir de outro ponto de vista - o da luz. O filme Sunstone (2018), juntamente com Refracted Spaces (2017), explora as tecnologias da visão e da ótica no contexto da navegação e vigilância marítima, onde o farol emerge como estrutura de um pensamento derivado da expansão e domínio colonial. Aos depoimentos do faroleiro do Cabo da Roca, Roque Pina, juntam-se imagens subaquáticas e de modelação 3D que sinalizam procedimentos contemporâneos de captação de imagem, dialogantes com a exploração tecnológica da visualidade e visibilidade nas disputas atuais pela possessão e controlo do espaço, neste caso, o do oceano e dos seus recursos. Refracted Spaces, uma colagem do material de pesquisa para a realização de Sunstone e que se desenrola ao longo de 6 metros, é sedutora nos seus jogos de luz, transparência e distorção: um lembrete de como é que as lentes, enquanto receptores e projectores de luz, foram usadas historicamente e em várias combinações para alterarem modos de ver, percepcionar, conhecer e obter conhecimento sobre o passado, o presente e o já amanhã futuro.

É a partir destes cruzamentos que a prática de César se alimenta: da história, do território, do arquivo, do dispositivo fílmico, e da imaginação. O desafio permanece na utilização do arquivo sem que a sua condição documental seja estanque ou limite o seu potencial em informar e afetar o presente. Nesse processo, estabelece relações entre distintos processos históricos de resistência, transformação e emancipação. O cinema, mediação simultaneamente científica e poética, permite reanimar esse material através do encontro entre imagens, texto, voz e objetos “mágicos”, atravessados por dimensões ficcionais e mitografias. Os seus filmes e instalações assumem, assim, a forma de ensaios que tornam produtivo - e não problemático - o ato de aceder a imagens de outro tempo, explorando as contradições e deslocamentos implícitos na construção de novos sentidos para questionar a nossa relação com a história e o conhecimento.

O que é impressionante no trabalho de Filipa César et al é a forma como inscreve estas operações na contemporaneidade para refletir sobre as histórias e estórias do colonialismo português, sem qualquer vaidade e sem ser intrusiva na sua posição. Ela própria assume a sua irrelevância no “emaranhado” conflituoso que é a “relação constante com a diferença”. Uma relação que define a vulnerabilidade do ser humano perante si mesmo e o outro: o mundo.

“O que procuras, Filipa?”. O que procuramos, todos nós?

 

 

 

Cláudia Handem
(n. 1992, Murtosa) Licenciada e mestre em Arquitetura pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e licenciada em Artes Plásticas - Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Articula a atividade laboral na área da arquitetura e design de interiores, com a prática artística no campo do desenho e da pintura. Escreve, de forma independente, sobre exposições de arte.

 

 

 

 

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METEORIZAÇÕES - FILIPA CÉSAR ET AL
Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea
15 de Janeiro - 31 de Maio