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REDSKYFALLS: ALEXANDRE ESTRELA NO PAVILHÃO DE PORTUGAL BIENAL DE VENEZA 2026ANA CAROLINA ESTEVES2026-06-30
A paisagem montanhosa americana que se encontra no centro do espaço expositivo prende-nos a um cenário puramente ficcional, inóspito para a vida humana. No entanto, o deslumbramento da imagem pára quando tudo parece começar a tremer. As manifestações extremas da natureza fazem questionar a vida por de trás da representação banal de uma paisagem. Neste sentido, a noção de redskyfalls que o artista nos apresenta tem por base um estudo fisiológico e uma classificação visual das nuvens que nos permite descobrir que a natureza é, por si só, uma fonte credível de alertas ambientais. É aqui que a instalação começa, neste estado de alerta, neste céu avermelhado que cai sobre nós e se transforma num sinal de mudança. Apesar de termos conhecimento sobre estas evidências, a espécie humana é incapaz de antever o surgimento de um fenómeno natural. Reagimos ao contrário dos seres vivos, como a mosca e o peixe-gato, que através da aceleração das asas e da cauda, persentem a chegada de um sismo. Estamos perante um exercício de atenção, tendo como principal desafio compreender e criar analogias com o inesperado. Embora a instalação seja um sistema programado de vídeo e áudio em simultâneo, assemelha-se a um organismo vivo em constante mutação, expressando-se de forma espontânea à atividade e alteração do sistema terrestre.
Vista da exposição Redskyfalls, Alexandre Estrela - 61ª Bienal de Veneza. © Hugo Botelho Rodrigues
É através da atenção que podemos distinguir alguns momentos fundamentais da exposição. A área cravada nas pequenas placas de metal determina o estado inicial de cada representação, tratando-se de um local onde se pode permanecer em segurança. Posteriormente, estes seres são levados pela curiosidade e aprendem novamente a andar, a voar e a nadar, voltando gradualmente à sua atividade diária. Depois de uma coreografia orgânica entre silêncio e som, de movimento e inércia, torna-se espectável, através de um ritmo acelerado e ansioso, a chegada do grande sinal de alerta. Quando o som do Greenspeaker surge, tudo estremece e congela. Nos últimos dias, a questão Cómo no temblar? de Jacques Derrida impõe-se de forma constante, tendo sido uma sugestão de Marco Bene, a propósito do programa paralelo Survey on an S Wave. A partir de uma perspetiva diária, é inevitável prever o impacto da instalação no espectador. Graças à imprevisibilidade e ao segredo que a exposição reserva, talvez a experiência de fazer tremer, no seu sentido literal ou figurativo, começa à chegada da exposição, muito antes do próprio impacto sonoro. Tal como disse Derrida, “Un secreto siempre hace temblar.” [1], explicando que o tremor, por vezes, não é um comportamento do corpo lúcido, sendo uma reação imediata ao medo. Pela incapacidade de desmistificar o mistério na sua totalidade, trememos muito antes do evento acontecer. Em RedSkyFalls, a descrição na porta da exposição, o aviso antecipado sobre uma possível experiência e o escurecer gradual do espaço, prepara-nos para o desconhecido. Ao tomarmos consciência da nossa vulnerabilidade, deixamos de nos basear na razão como uma ordem lógica de pensamento e entregamo-nos à narrativa da exposição. As palavras de Derrida “Temblar hace temblar la autonomía del yo, lo instala bajo la ley del otro - heterológicamente.” [2], sugerem que a nossa autonomia é posta em causa quando somos confrontados com um outro que interpela, condiciona ou exige uma resposta. Este outro faz-nos repensar na nossa própria presença no mundo atual. Após a leitura do texto de Derrida, o impacto devastador de RedSkyFalls ganha um novo sentido, indo muito mais além da sua referência à catástrofe natural de 1755 em Lisboa. Os abalos sísmicos e as suas sucessivas consequências servem, também como uma metáfora para tudo o que muda, surpreende, abala e nos deixa sem chão. As palavras do autor, “parece que fuera preciso temblar” [3] remetem para a necessidade de haver mudança e voltarmos ao estado inicial do não saber. Alguns dias depois, o som de Miguel Abreu que surge no Greenspeaker acomoda-se ao ouvido e deixa de provocar repulsa, podendo finalmente usufruir do silêncio e dos pequenos detalhes que a atenção demora a percecionar. Cada dia é uma constante aprendizagem, um desbravar de novos caminhos na imaginação. Durante este longo exercício de espera, no período [entre] que separa cada atividade sísmica, os relógios de Daragh Reeves propositadamente sincronizados marcam o som do tempo, o canto do canário amarelo de Henning Christiansen transborda os limites da fotografia e, por segundos, perdemos o momento da queda da pedra de Julien Bismuth da parede. Estes são alguns dos artistas que compõem o programa paralelo e a investigação de Marco Bene sobre a exposição RedSkyFalls. Um Manifesto Instável desenvolve-se em cinco partes distintas ao longo da duração da bienal, propondo através de conferências, performances, concertos e visitas orientadas, sugerir múltiplos diálogos com o trabalho de Alexandre Estrela e os artistas convidados. Em grande parte, a investigação e o arquivo de Marco Bene cruzam-se com a investigação empírica e científica de RedSkyFalls, apresentando uma densidade de informação inesgotável. Pela perspetiva da obra Zen for Film de Nam June Paik, concluímos que, quando a imagem se esgota, ainda há espaço para observar a relevância dos resíduos de uma película de filme de 16mm. Logo, talvez seja através da curiosidade e da atenção que descobrimos o verdadeiro impacto do tremor de RedSkyFalls. A exposição encontra-se patente no Fondaco Marcello em Veneza, podendo ser visitada até 22 de novembro de 2026.
Ana Carolina EstevesLicenciada em Artes Plásticas - Escultura e mestre em Estudos Curatoriais, desenvolve investigação prática e teórica sobre a memória, a experiência e o livro de artista. Dedica-se à prática artística, à curadoria, à educação e à escrita.
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Notas [1] Jacques Derrida, “¿Cómo no temblar?”, trad. Esther Cohen, Acta Poetica 30-2 OTOÑO 2009, p.28.
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