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œARRANCAR DA TERRA OS SEUS SEGREDOS�: UNEARTHED CONVERSATION, FRANCISCA GARCÍA E MARIO NAVARROISABEL STEIN2026-10-09
[Citação no título retirada do filme Aquí Vivieron (1964)]
- Patricio Guzmán
Quando Hamlet tem em suas mãos o crânio de Yorick, ele pergunta para Horácio — o coveiro — se Alexandre, o Grande, teria aquele mesmo aspecto apático depois de enterrado. Hamlet procura no objeto inanimado algum sinal que o identifique com o querido Yorick, um indício que o personalize: “era aqui que se encontravam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes”. A estupefação inconformada do personagem de William Shakespeare é direcionada a uma questão tópica: “aqui” designa o material que reúne o mistério da ausência e do reconhecimento do amigo — o local específico, feito de massa óssea, que entra em discrepância com a sua memória. A tensão entre memória e lugar é precisamente o que investiu a exposição Unearthed Conversation (2026), dos artistas Francisca García e Mario Navarro. Com foco iminentemente político, a mostra ganha importância neste setembro de 2026, que assinala não apenas os cinquenta e três anos de golpe de Estado no Chile, mas também a perda inestimável de um de seus maiores críticos no campo artístico: o cineasta Patricio Guzmán. García e Navarro confrontam de forma singular algumas questões que assombraram a obra de Guzmán e, também, parte da produção artística e literária do país nas últimas décadas: as intrincadas relações entre memória, história e paisagem — especialmente, a do deserto do Atacama. Unearthed Conversation ocupou três salas contíguas do S.M.A.K, em Ghent, entre abril e setembro de 2026. Inspirados pelo filme Aquí Vivieron (1964), de Pedro Chaskel e Héctor Ríos — membros do Centro de Cine Experimental da Universidade do Chile, fundado em 1957 —, García e Navarro assumem uma abordagem que, em um primeiro momento, parece contraditória: por um lado, as obras são especulativas, por outro, incorporam um paradigma forense. Ao tecer essas duas chaves críticas a respeito de um único território, entretanto, os artistas fabulam uma linguagem poética que acessa camadas inauditas da história chilena. Na primeira sala, a instalação 687 días (2026) consiste em uma projeção de dois canais que ocupa uma parede, onde são mostradas imagens do deserto do Atacama filmadas por García e Navarro. No díptico, prevalecem duas cores primárias: vermelho e azul. A obra incorpora as características geográficas do território na sua estética e discurso: deserto mais alto e árido do planeta, o Atacama apresenta tanto as condições perfeitas para a conservação de materiais arqueológicos, que sofrem pouco com os processos de erosão e decomposição, quanto para a observação celeste, abrigando importantes observatórios astronômicos. É nesta intercessão do cosmos que se inscreve a instalação. A conexão com o espaço extraterrestre já ocorre no título, que referencia o período de um ano em Marte: 687 dias na Terra. As cenas reproduzem enquadramentos e movimentos de câmara do Perseverance, o rover enviado pela Nasa em 2020 àquele planeta com o objetivo de investigar potenciais bioassinaturas em amostras geológicas: vestígios de vida microbiana extintas. A imersão na grande instalação de García e Navarro é potencializada pelo áudio, que combina sons manipulados eletronicamente e ruídos gravados na superfície de Marte. Os artistas captaram as imagens na foz do rio Loa, lugar onde Chaskel e Ríos filmaram o documentário Aquí Vivieron, que acompanhou escavações arqueológicas em antigos cemitérios do povo Chango.
Francisca García e Mario Navarro, Unearthed Conversation, (2026), Digital print on paper. © Francisca García e Mario Navarro
Essa complexa temporalidade da obra é manifestada pelas cores saturadas, que referenciam por um lado, a aridez que compõe Marte e o Atacama e por outro, o remoto passado marciano, quando a presença de água podia ser encontrada em sua superfície. Em relação ao Atacama, a metáfora da cor azul em contraste com o imaginário inóspito já aparece em El desierto de Atacama III, do poeta Raúl Zurita, como parte de Purgatorio (1979), livro que incorpora a experiência violenta da ditadura chilena. Um verdadeiro “portal para o passado” — como o define Guzmán —, o solo do deserto abriga rastros da população que ali viveu entre 10.000 e 6.000 a.C., mas também os restos mortais de vítimas do terrorismo de Estado. Todos os anos, as mujeres de Calama buscam vestígios ósseos de seus parentes exterminados pela “Caravana de la Muerte”: uma operação de perseguição aplicada logo no início da ditadura chilena, em 1973. Sem apresentar um discurso explicitamente político, 687 días imagina o deserto enquanto um espaço que possui agência, cujos tecidos heterocrônicos são estratificados tanto até o centro da Terra, quanto em direção aos astros celestes. O astrofísico Sergio Cristallo nos lembra que somos, em alguma medida, “filhos das estrelas” [1]: o cálcio que estrutura os ossos humanos teve origem em explosões estelares. Ossos — não apenas humanos — são o centro da obra Conversación desenterrada (2026). A imensa instalação consiste em dez esculturas que representam esqueletos humanos e animais, além de alguns utensílios de pesca. Posicionado abaixo das peças, o espectador é convidado a compartilhar a vivência subterrânea dos objetos, enquanto um áudio reproduz conversas ficcionais entre eles, evocando memórias de um tempo em que estavam vivos. A obra convoca, assim, a individualização dos seres ali dispostos e “escuta a eloquência da morte” [2]. Allan Sekula já nos alertou para os perigos da identificação e das técnicas forenses enquanto ferramentas de controle [3]. Por outro lado, a estética forense — expressão utilizada por Eyal Weizman e Thomas Keenan [4] — instaura nos objetos uma fisionomia política fundamental através de deslocamentos sensíveis. É significativo, nesse sentido, observar como a antropologia forense, por meio da identificação de indivíduos e grupos historicamente silenciados — com destaque para o trabalho do Equipo Argentino de Antropología Forense (EAAF) —, deslocou radicalmente os paradigmas de compreensão dos desaparecimentos políticos: prática recorrente dos projetos ideológicos das ditaduras na América Latina da segunda metade do século XX, entre elas a de Augusto Pinochet. Na própria história da arte chilena é possível encontrar uma vertente que aborda o deserto enquanto elemento forense: como exemplo, El cadáver, el tesoro (Pintura aeropostal No. 90) (1991), de Eugenio Dittborn, referencia uma notícia de jornal sobre um cidadão desaparecido — vítima da ditadura — que havia sido exumado na parte norte do Atacama. Além da inserção nesta linhagem de artistas que dialogam com a história recente sob uma perspectiva material, Conversación Desenterrada insere-se, ainda, em uma crítica à manipulação de materiais arqueológicos que frequentemente os fetichiza, submetendo-os a uma lógica de “extrativismo de bens culturais” e de “reificação dos mortos”, nos termos empregados pelo arqueólogo Benjamín Ballester [5]. É, também, a partir dessa mesma visão subterrânea que emerge a próxima obra, ocupando uma parte do terceiro cômodo da exposição: Tumba de arena (2026) é uma composição têxtil em algodão, linha e feltro que incorpora uma estética de montagem através do cutout. A paisagem criada apresenta silhuetas de objetos que desempenhavam função significativa nos rituais funerários da comunidade pesqueira Chango. Os mortos eram enterrados junto a seus barcos, cerâmicas, têxteis e ferramentas. Esses elementos eram depositados como instrumentos de continuidade: acompanhavam os falecidos para que pudessem seguir com a sua atividade na vida após a morte. Aqui, é sublinhada a insistência das matérias mundanas — vivas ou inertes — em se fazerem visíveis. A última obra, que divide o espaço com Tumba de arena, é, talvez, a mais intrigante, justamente por ser a única que não faz menção direta àquilo que constitui o eixo central de Unearthed Conversation: o deserto do Atacama. Rocas Flotantes (2026) é composta por vinte aquarelas, dispostas horizontalmente em duas paredes. Elas retratam rochas fotografadas em Marte na tentativa de investigar a possibilidade de vida no planeta. García e Navarro substituem os registros digitais produzidos por equipamentos de ponta pelas aquarelas, nas quais se deixam entrever o gesto e a hesitação do ato de pintar. Entre a precisão da captura científica e a indeterminação da imagem pictórica, a obra se configura como um arquivo de rochas imaginadas, que funciona como um índice gestual onde o próprio movimento fica plasmado na imagem — assim como a vida é necessariamente inscrita nas rochas. Nesse sentido, em um relatório oficial do projeto Jezero Margin Campaign, que explora as bioassinaturas em Marte, pode-se ler, como conclusão dos estudos sobre a Amostra 22 - Pelican Point: “a presença de carbonatos e sílica nessas rochas torna Pelican Point um local de grande interesse para a investigação astrobiológica” [6]. Mais uma vez, em Rocas Flotantes, os artistas colocam em tensão especulação e técnica, invenção e inventário. Talvez o que mais tenha me chamado a atenção nesta série sejam as cores saturadas e contrastantes das aquarelas, que contradizem o imaginário de um terreno árido. Recordei-me que ainda neste setembro de 2026, o Atacama se viu revestido de flores, em um fenômeno raro provocado pela intensidade pluviométrica: um desequilíbrio que, lamentavelmente, também gerou destruição. Sob a superfície, o solo desértico reserva uma diversidade de espécies que resistem a logos períodos de seca em estruturas subterrâneas, como bulbos, rizomas e raízes. Em um diálogo imprevisível, Unearthed Conversation insere-se nesse contexto ao depurar a força radicular, edáfica, semeada em cada imagem.
Isabel SteinÉ doutoranda em Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa. Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, integra os grupos de pesquisa Observatório de Estudos Visuais e Arqueologia dos Media (NOVA FCSH) e Imagem/Tempo (UFRJ). Sua investigação e prática centram-se na fotografia, explorando suas articulações com a história, a arte e a política. Tem participado de conferências e publicações acadêmicas sobre a imagem fotográfica. Além disso, desenvolve projetos curatoriais e artísticos, como a exposição Imagens intangíveis (2025) e a fundação do InterStruct Collective.
Notas [1] Evolutionand nucleosynthesis in low mass Asymptotic Giant Branch stars (2008). |






























