Links

O ESTADO DA ARTE


Conversa de apresentação do livro Diários, de Rui Chafes. © Arte 351


Conversa de apresentação do livro Diários, de Rui Chafes. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Vista da exposição do Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Performance de Cecília Costa, no Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351


Performance de Cecília Costa, no Prémio Desenho FLAD 2022. © Arte 351

Outros artigos:

2022-11-17


FALAR DE DESENHO: TÃO DEPRESSA SE COMEÇA, COMO ACABA, COMO VOLTA A COMEÇAR
 

2022-10-07


ARTISTA COMO MEDIADOR. PRÁTICAS HORIZONTAIS NA ARTE E EDUCAÇÃO NO BRASIL
 

2022-08-29


19 DE AGOSTO, DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA
 

2022-07-31


A CULTURA NÃO ESTÁ FORA DA GUERRA, É UM CAMPO DE BATALHA
 

2022-06-30


ARTE DIGITAL E CIRCUITOS ONLINE
 

2022-05-29


MULHERES, VAMPIROS E OUTRAS CRIATURAS QUE REINAM
 

2022-04-29


EGÍDIO ÁLVARO (1937-2020). ‘LEMBRAR O FUTURO: ARQUIVO DE PERFORMANCES’
 

2022-03-27


PRATICA ARTÍSTICA TRANSDISCIPLINAR: A INVESTIGAÇÃO NAS ARTES
 

2022-02-26


OS HÁBITOS CULTURAIS… DAS ORGANIZAÇÕES CULTURAIS PORTUGUESAS
 

2022-01-27


ESPERANÇA SIGNIFICA MAIS DO QUE OPTIMISMO
 

2021-12-26


ESCOLA DE PROCRASTINAÇÃO, UM ESTUDO
 

2021-11-26


ARTE = CAPITAL
 

2021-10-30


MARLENE DUMAS ENTRE IMPRESSIONISTAS, ROMÂNTICOS E SUMÉRIOS
 

2021-09-25


'A QUE SOA O SISTEMA QUANDO LHE DAMOS OUVIDOS'
 

2021-08-16


MULHERES ARTISTAS: O PARADOXO PORTUGUÊS
 

2021-06-29


VIVER NUMA REALIDADE PÓS-HUMANA: CIÊNCIA, ARTE E ‘OUTRAMENTOS’
 

2021-05-24


FRESTAS, UMA TRIENAL PROJETADA EM COLETIVIDADE. ENTREVISTA COM DIANE LINA E BEATRIZ LEMOS
 

2021-04-23


30 ANOS DO KW
 

2021-03-06


A QUESTÃO INDÍGENA NA ARTE. UM CAMINHO A PERCORRER
 

2021-01-30


DUAS EXPOSIÇÕES NO PORTO E MUITOS ARQUIVOS SOBRE A CIDADE
 

2020-12-29


TEORIA DE UM BIG BANG CULTURAL PÓS-CONTEMPORÂNEO - PARTE II
 

2020-11-29


11ª BIENAL DE BERLIM
 

2020-10-27


CRITICAL ZONES - OBSERVATORIES FOR EARTHLY POLITICS
 

2020-09-29


NICOLE BRENEZ - CINEMA REVISITED
 

2020-08-26


MENSAGENS REVOLUCIONÁRIAS DE UM TEMPO PERDIDO
 

2020-07-16


LIÇÕES DE MARINA ABRAMOVIC
 

2020-06-10


FRAGMENTOS DO PARAÍSO
 

2020-05-11


TEORIA DE UM BIG BANG CULTURAL PÓS-CONTEMPORÂNEO
 

2020-04-24


QUE MUSEUS DEPOIS DA PANDEMIA?
 

2020-03-24


FUCKIN’ GLOBO 2020 NAS ZONAS DE DESCONFORTO
 

2020-02-21


ELECTRIC: UMA EXPOSIÇÃO DE REALIDADE VIRTUAL NO MUSEU DE SERRALVES
 

2020-01-07


SEMANA DE ARTE DE MIAMI VIA ART BASEL MIAMI BEACH: UMA EXPERIÊNCIA MAIS OU MENOS ESTÉTICA
 

2019-11-12


36º PANORAMA DA ARTE BRASILEIRA
 

2019-10-06


PARAÍSO PERDIDO
 

2019-08-22


VIVER E MORRER À LUZ DAS VELAS
 

2019-07-15


NO MODELO NEGRO, O OLHAR DO ARTISTA BRANCO
 

2019-04-16


MICHAEL BIBERSTEIN: A ARTE E A ETERNIDADE!
 

2019-03-14


JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO – O JOGO DO INDIZÍVEL
 

2019-02-08


A IDENTIDADE ENTRE SEXO E PODER
 

2018-12-20


@MIAMIARTWEEK - O FUTURO AGENDADO NO ÉDEN DA ARTE CONTEMPORÂNEA
 

2018-11-17


EDUCAÇÃO SENTIMENTAL. A COLEÇÃO PINTO DA FONSECA
 

2018-10-09


PARTILHAMOS DA CRÍTICA À CENSURA, MAS PARTILHAMOS DA FALTA DE APOIO ÀS ARTES?
 

2018-09-06


O VIGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA BIENAL DE BERLIM
 

2018-07-29


VISÕES DE UMA ESPANHA EXPANDIDA
 

2018-06-24


O OLHO DO FOTÓGRAFO TAMBÉM SOFRE DE CONJUNTIVITE, (UMA CONVERSA EM TORNO DO PROJECTO SPECTRUM)
 

2018-05-22


SP-ARTE/2018 E A DIFÍCIL TAREFA DE ESCOLHER O QUE VER
 

2018-04-12


NO CORAÇÂO DESTA TERRA
 

2018-03-09


ÁLVARO LAPA: NO TEMPO TODO
 

2018-02-08


SFMOMA SAN FRANCISCO MUSEUM OF MODERN ART: NARRATIVA DA CONTEMPORANEIDADE
 

2017-12-20


OS ARQUIVOS DA CARNE: TINO SEHGAL CONSTRUCTED SITUATIONS
 

2017-11-14


DA NATUREZA COLABORATIVA DA DANÇA E DO SEU ENSINO
 

2017-10-14


ARTE PARA TEMPOS INSTÁVEIS
 

2017-09-03


INSTAGRAM: CRIAÇÃO E O DISCURSO VIRTUAL – “TO BE, OR NOT TO BE” – O CASO DE CINDY SHERMAN
 

2017-07-26


CONDO: UM NOVO CONCEITO CONCORRENTE À TRADICIONAL FEIRA DE ARTE?
 

2017-06-30


"LEARNING FROM CAPITALISM"
 

2017-06-06


110.5 UM, 110.5 DOIS, 110.5 MILHÕES DE DÓLARES,… VENDIDO!
 

2017-05-18


INVISUALIDADE DA PINTURA – PARTE 2: "UMA HISTÓRIA DA VISÃO E DA CEGUEIRA"
 

2017-04-26


INVISUALIDADE DA PINTURA – PARTE 1: «O REAL É SEMPRE AQUILO QUE NÃO ESPERÁVAMOS»
 

2017-03-29


ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO CONTEMPORÂNEO DE FEIRA DE ARTE
 

2017-02-20


SOBRE AS TENDÊNCIAS DA ARTE ACTUAL EM ANGOLA: DA CRIAÇÃO AOS NOVOS CANAIS DE LEGITIMAÇÃO
 

2017-01-07


ARTLAND VERSUS DISNEYLAND
 

2016-12-15


VALORES DA ARTE CONTEMPORÂNEA: UMA CONVERSA COM JOSÉ CARLOS PEREIRA SOBRE A PUBLICAÇÃO DE O VALOR DA ARTE
 

2016-11-05


O VAZIO APOCALÍPTICO
 

2016-09-30


TELEPHONE WITHOUT A WIRE – PARTE 2
 

2016-08-25


TELEPHONE WITHOUT A WIRE – PARTE 1
 

2016-06-24


COLECCIONADORES NA ARCO LISBOA
 

2016-05-17


SONNABEND EM PORTUGAL
 

2016-04-18


COLECCIONADORES AMADORES E PROFISSIONAIS COLECCIONADORES (II)
 

2016-03-15


COLECCIONADORES AMADORES E PROFISSIONAIS COLECCIONADORES (I)
 

2016-02-11


FERNANDO AGUIAR: UM ARQUIVO POÉTICO
 

2016-01-06


JANEIRO 2016: SER COLECCIONADOR É…
 

2015-11-28


O FUTURO DOS MUSEUS VISTO DO OUTRO LADO DO ATLÂNTICO
 

2015-10-28


O FUTURO SEGUNDO CANDJA CANDJA
 

2015-09-17


PORQUE É QUE OS BLOCKBUSTERS DE MODA SÃO MAIS POPULARES QUE AS EXPOSIÇÕES DE ARTE, E O QUE É QUE PODEMOS DIZER SOBRE ISSO?
 

2015-08-18


OS DESAFIOS DO EFÉMERO: CONSERVAR A PERFORMANCE ART - PARTE 2
 

2015-07-29


OS DESAFIOS DO EFÉMERO: CONSERVAR A PERFORMANCE ART - PARTE 1
 

2015-06-06


O DESAFINADO RONDÒ ENWEZORIANO. “ALL THE WORLD´S FUTURES” - 56ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARTE DE VENEZA
 

2015-05-13


A 56ª BIENAL DE VENEZA DE OKWUI ENWEZOR É SOMBRIA, TRISTE E FEIA
 

2015-04-08


A TUMULTUOSA FERTILIDADE DO HORIZONTE
 

2015-03-04


OS MUSEUS, A CRISE E COMO SAIR DELA
 

2015-02-09


GUIDO GUIDI: CARLO SCARPA. TÚMULO BRION
 

2015-01-13


IDEIAS CAPITAIS? OLHANDO EM FRENTE PARA A BIENAL DE VENEZA
 

2014-12-02


FUNDAÇÃO LOUIS VUITTON
 

2014-10-21


UM CONTEMPORÂNEO ENTRE-SERRAS
 

2014-09-22


OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS: Quando a arte entra pela vida adentro - Parte II
 

2014-09-03


OS NOSSOS SONHOS NÃO CABEM NAS VOSSAS URNAS: Quando a arte entra pela vida adentro – Parte I
 

2014-07-16


ARTISTS' FILM BIENNIAL
 

2014-06-18


PARA UMA INGENUIDADE VOLUNTÁRIA: ERNESTO DE SOUSA E A ARTE POPULAR
 

2014-05-16


AI WEIWEI E A DESTRUIÇÃO DA ARTE
 

2014-04-17


QUAL É A UTILIDADE? MUSEUS ASSUMEM PRÁTICA SOCIAL
 

2014-03-13


A ECONOMIA DOS MUSEUS E DOS PARQUES TEMÁTICOS, NA AMÉRICA E NA “VELHA EUROPA”
 

2014-02-13


É LEGAL? ARTISTA FINALMENTE BATE FOTÓGRAFO
 

2014-01-06


CHOICES
 

2013-09-24


PAIXÃO, FICÇÃO E DINHEIRO SEGUNDO ALAIN BADIOU
 

2013-08-13


VENEZA OU A GEOPOLÍTICA DA ARTE
 

2013-07-10


O BOOM ATUAL DOS NEGÓCIOS DE ARTE NO BRASIL
 

2013-05-06


TRABALHAR EM ARTE
 

2013-03-11


A OBRA DE ARTE, O SISTEMA E OS SEUS DONOS: META-ANÁLISE EM TRÊS TEMPOS (III)
 

2013-02-12


A OBRA DE ARTE, O SISTEMA E OS SEUS DONOS: META-ANÁLISE EM TRÊS TEMPOS (II)
 

2013-01-07


A OBRA DE ARTE, O SISTEMA E OS SEUS DONOS. META-ANÁLISE EM TRÊS TEMPOS (I)
 

2012-11-12


ATENÇÃO: RISCO DE AMNÉSIA
 

2012-10-07


MANIFESTO PARA O DESIGN PORTUGUÊS
 

2012-06-12


MUSEUS, DESAFIOS E CRISE (II)


 

2012-05-16


MUSEUS, DESAFIOS E CRISE (I)
 

2012-02-06


A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE DIGITAL (III - conclusão)
 

2012-01-04


A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE DIGITAL (II)
 

2011-12-07


PARAR E PENSAR...NO MUNDO DA ARTE
 

2011-04-04


A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE DIGITAL (I)
 

2010-10-29


O BURACO NEGRO
 

2010-04-13


MUSEUS PÚBLICOS, DOMÍNIO PRIVADO?
 

2010-03-11


MUSEUS – UMA ESTRATÉGIA, ENFIM
 

2009-11-11


UMA NOVA MINISTRA
 

2009-04-17


A SÍNDROME DOS COCHES
 

2009-02-17


O FOLHETIM DE VENEZA
 

2008-11-25


VANITAS
 

2008-09-15


GOSTO E OSTENTAÇÃO
 

2008-08-05


CRÍTICO EXCELENTÍSSIMO II – O DISCURSO NO PODER
 

2008-06-30


CRÍTICO EXCELENTÍSSIMO I
 

2008-05-21


ARTE DO ESTADO?
 

2008-04-17


A GULBENKIAN, “EM REMODELAÇÃO”
 

2008-03-24


O QUE FAZ CORRER SERRALVES?
 

2008-02-20


UM MINISTRO, ÓBICES E POSSIBILIDADES
 

2008-01-21


DEZ PONTOS SOBRE O MUSEU BERARDO
 

2007-12-17


O NEGÓCIO DO HERMITAGE
 

2007-11-15


ICONOLOGIA OFICIAL
 

2007-10-15


O CASO MNAA OU O SERVILISMO EXEMPLAR
 

FALAR DE DESENHO: TÃO DEPRESSA SE COMEÇA, COMO ACABA, COMO VOLTA A COMEÇAR

LIZ VAHIA

2022-11-17




 


Numa das Millennium Art Talks, que ocorreram na última edição da feira de arte Drawing Room, que teve lugar de 26 a 30 de outubro na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, José Luís Porfírio dizia que “o desenho tão depressa se começa, como acaba, como volta a começar”. Poder-se-ia dizer o mesmo do falar sobre desenho. O desenho é aquele assunto que só parece que se pode rodear, como o título da colecção “Conversas em torno do desenho” (sublinhado meu) de Cristina Robalo, nunca se chegando a agarrar definitivamente. Como diz Pedro A. H. Paixão numa dessas conversas, o desenho deixa-nos “algo sempre por pensar” [1]. O desenho é demasiado material e demasiado etéreo ao mesmo tempo, tanto prático como teórico, tanto exterior como interior, tanto privado como público.

“É muito difícil definir o que é desenho”, disse Nuno Faria numa das conversas. Para o curador, o desenho não é uma coisa exterior a nós, e a escola mata o que é o desenho porque não percebe que este é uma coisa interior - o papel, no desenho, é algo que é muito mais. “Há algo de portátil e imóvel, uma resposta muito transparente e imediata ao nosso entorno”, sugeriu a artista Francisca Carvalho, e alguém do público perguntou depois: “Não acha que o desenho é uma forma de atenção às coisas?”, ao que a artista respondeu “Sem dúvida! É uma forma de gerar sentido através da atenção.”

Uma atenção ao desenho, à prática diversificada do desenho, foi o que este ciclo de conversas tentou fazer. Com programação da curadora Maria do Mar Fazenda, as quatro conversas e a apresentação do livro de Rui Chafes, Diários, juntaram artistas, curadores e críticos para falar desse tema que nunca se fecha: o que é o desenho?

A primeira conversa começou logo com Emília Ferreira a afirmar que "o desenho está em todo o lado, em tudo à nossa volta. Mas o desenho é muito humilde, apaga-se. É o pai de todas as artes, mas foram as suas filhas (pintura, escultura, arquitectura) que se destacaram.“ Para Emília Ferreira, a linha está em tudo e o que se pode fazer com ela tem uma potência incrível.

Na conversa intitulada “O exercício experimental do desenho”, moderada por Pedro Calhau e com os artistas António Bolota, Marco Franco, Maja Escher, Maria Ana Vasco Costa e Vera Mota, falou-se sobretudo da relação do desenho com a prática artística de cada um.

A primeira pergunta de Pedro Calhau foi directa: “Como é que o desenho entra na vossa prática?” Para Vera Mota, o desenho permite manter um contacto directo com os materiais e o processo de produção e composição — uma relação directa com o corpo. Também para Maria Ana Vasco Costa, o desenho surge com o contacto com o material (no seu caso, surge na modulação da cerâmica), diz que o desenho aparece no fim, como uma procura pela “matéria”. A questão dos materiais é igualmente referida por Marco Franco, como aliados do lado primordial de transmitir algo a que o desenho se presta. E para Maja Escher, o desenho é mesmo a forma de se relacionar com o mundo, de o compreender melhor.

“Quando dizemos que uma coisa ‘tem desenho’, tem desenho porquê?”, perguntava depois Pedro Calhau, e disse que para si um desenho quando tem desenho tem vida, “anima”. Para Maria Ana Vasco Costa, quando ‘há desenho’ há equilíbrio entre todos os elementos, as coisas que não têm desenho são pesadas e enfadonhas, aborrecem-nos. “Quando há desenho é porque houve mais cuidado”, disse Vera Mota, para quem o desenho tem sempre uma marca da inscrição do tempo, uma coisa que fez um trajecto, algo que pode ser lido como uma partitura, algo que fica lá. Esta ideia de linha inscrita pelo tempo que permanece, é também referida por Maja Escher quando diz “Onde é que eu vejo desenho? Por exemplo, no crescimento de uma planta, há uma linha invisível que ela traça.”

António Bolota afirmou que à medida que vamos amadurecendo o pensamento, o desenho se vai tornando cada vez mais importante. Para este artista, o desenho tem o lado directo do fazer, mas também há nele um lado projectual que é importante.

A ideia de projecto é também referida por Rui Sanches, na conversa que houve sobre a presença do desenho na actividade da Fundação Carmona e Costa (FCC) e que juntou, além deste artista, o curador Nuno Faria e a artista Francisca Carvalho (bolseira da FCC entre 2014-2016). Para Rui Sanches, são as mesmas questões que são tratadas na sua escultura e no seu desenho. Apesar dos seus desenhos terem uma autonomia, estes são feitos a partir das esculturas ou são preparatórios das esculturas. Mas não são facilmente identificáveis, como o trabalho da escultura, diz que se poderia pensar que são de artistas diferentes, no entanto, subjacente às duas actividades estão as mesmas questões. Para Rui Sanches, há uma ideia de projecto, algo que vem de dentro e é projectado rapidamente, algo imediato e que abre pistas e caminhos para outras hipóteses.

Rui Sanches reconheceu que o desenho aparece na actividade dos artistas de forma muito diferente. Muitos artistas desenham, uns mais secretamente, outros mais publicamente, mas as oportunidades para expôr desenho não são muitas. Para este artista, o trabalho da FCC contribuiu para revelar essas práticas que expandem as fronteiras do desenho.

 

Diários, de Rui Chafes. © Pierre von Kleist editions

 

Houve ainda lugar na feira para uma conversa de apresentação do livro de desenhos de Rui Chafes, Diários, que contou com a presença do artista, de Nuno Faria e dos representantes das edições Pierre von Kleist. A relação de Rui Chafes com o desenho não é fácil de definir também:

“Não vendo desenho, não exponho desenho. A minha actividade de desenho faz parte da minha actividade diária [como pessoa]. A minha linguagem pública é a escultura, o desenho faço para viver, para respirar, pois não consigo viver sem desenhar. Não é um “trabalho” como é a escultura. Faço desenhos, não diariamente mas quase, e ponho na gaveta. Enquanto escultor, para mim a prática do desenho é constante, o desenho é a afirmação mais rápida do que a escultura vai ser. Todos estes desenhos [incluídos no livro] são desenhos de esculturas e todas as esculturas estão nestes desenhos.
Mas como eu construo a escultura é completamente diferente de como construo o desenho. Há um lado de transe na actividade do desenho que não pode haver na actividade de escultura, senão corre mal. Os tempos também são diferentes, no desenho o tempo é muito rápido, obsessivo, a escultura passa por um processo técnico grande. São quase dois mundos, por isso nunca mostro os dois aos mesmo tempo e no mesmo sítio.”

Nuno Faria completou dizendo que “quando falamos de desenhos não falamos de imagens. O Rui diz que os desenhos são espaços de intimidade, projecções interiores e não um exercício de virtuosismo. São extractos temporais que coincidem com o trabalho do Rui — paralaxe. O desenho é uma espécie de arqueologia, uma tarefa complexa, psicanalítica. Aparece ligada ao papel como a imagem fotográfica se revela no papel. Há uma revelação, uma confirmação, projecção de coisas que são interiores. O desenho está no meio, entre o visível e o invisível, entre a vida e a morte.”

Para Nuno Faria, ao falarmos de desenho estamos a falar de fantasmas, de emergência. Sendo o desenho uma espécie de origem da arte, o desenho será sempre misterioso, diz-nos. “O desenho tem sempre alguma profecia, algo de vidente, e estes desenhos [do Rui Chafes] viviam na escuridão, por isso falo de um aparecimento que é misterioso. Os desenhos do Rui não são desenhos de representação, estão num outro campo, estão mais próximos da imaginação do que da representação.”

José Luís Porfírio, que participou na conversa sobre o projecto editorial de Cristina Robalo “Conversas em torno do desenho”, trouxe à discussão “o problema do ver”: “há a ideia de que o ver é instantâneo, mas o ver não tem fim, há coisas que não se acabam de ver. Eu vejo quando escrevo (isso é “o trabalho da escrita”), o ver não acaba quando se fecha os olhos.” Para José Luís Porfírio, o desenho acontece um pouco por toda a parte, tem a ver com o surgir das coisas, não interessa o quê. Cristina Robalo também comentou “a facilidade com que se pode desenhar, o lado simples e de fácil recurso, onde não é preciso ter muitos meios para o fazer e por isso mesmo o desenho se pode desdobrar em muitos modos de fazer.” Daí que tenha convidado para a colecção “Conversas em torno do desenho” pessoas que não são artistas como, por exemplo, Maria Filomena Molder. Apesar de haver formas diferentes de desenhar, “o desejo de desenhar tem qualquer coisa de encantatório”, é um desejo diferente, no processo em si, de outras expressões artísticas.

Este ciclo de conversas mostrou como as práticas e explorações do desenho, como pensamento e não tanto como disciplina, são ainda um diálogo sem fim entre artistas e curadores, críticos e instituições. Como se afirmava no texto de apresentação das Millennium Art Talks, a junção destes agentes pretendeu que se “desenhassem espaços de conversa”, sempre a repetir, sempre novos.

 

 

Liz Vahia
Licenciada em Antropologia, pela Universidade de Coimbra. Doutoranda no programa Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

 

 

:::

 

Notas

[1] Robalo, Cristina, Paixão, Pedro A. H. (2019), Pela bruma dentro. Conversa com Cristina Robalo em torno do desenho, Lisboa : Documenta, p.9.

 

:::

 

Mais informação sobre esta edição das Millennium Art Talks aqui.