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“Women artists. There is no such thing — or person. It’s just as much a contradiction in terms as ‘man artist’; or ‘elephant artist.’ You may be a woman and you may be an artist, but the one is a given and the other is you.

Dorothea Tanning (1910-2012)  

 

 

2018, foi um ano de exposições marcantes da obra de Paula Rego, nomeadamente, a retrospectiva "Les contes cruels de Paula Rego", no Musée de l'Orangerie em Paris (17 out 2018 a 14 jan 2019), e "Paula Rego: Anos 80", na Casa das Histórias em Cascais (13 dez 2018 a 26 de maio 2019), duas exposições notáveis, que me suscitaram uma nova interpretação crítica da sua obra!

Ficou-me claro que Paula Rego combina o imaginário das fábulas e narrativas das histórias com as suas aventuras pessoais: Paula inspira-se na leitura de contos admiráveis da literatura universal e no jogo real da história pessoal. Ficou-me igualmente claro que as diferentes práticas que a artista foi experimentando ao longo das inúmeras obras que foi criando e que se traduziram em reformulações do seu processo de trabalho, são parte do universo narrativo das obras e do tratamento formal das personagens ao mesmo tempo que estabelecem a distinção entre colagem, pintura e desenho na obra da Paula Rego.

Retrospectivamente, Paula Rego, trabalhou a colagem nos anos 70, e a pintura a acrílico nos anos 80. Nos anos 1990, a artista caracteriza-se pelo desenho em pastel: o lugar da pintura e do desenho não é o mesmo. A partir de 1994, Paula Rego reorientou a prática da pintura para preferir desenhar a pastel, "Com o pastel, é um trabalho de superposição, com camadas que evoluem constantemente", numa técnica viragem de práticas da tinta para o pastel. O princípio da liberdade absoluta da pintura dos anos 80 tornou-se progressivamente numa obra académica ao encontro do desenho a pastel e da narração formal! Talvez a decisão de Paula Rego fosse apropriada para o momento: a artista revela o que encontra e a atrai no pastel, "Com o pastel, não há pincel entre ti e a superfície. A mão cria o desenho. É virtualmente escultura. Tu crias realmente a personagem". Fosse qual fosse a razão, a verdade é que no pastel as personagens falam mais alto do que a pintura. A linguagem da pintura falava mais alto do que as personagens: era o irracional quem dava forma às personagens: mais do que Paula Rego dominar as personagens, as personagens eram dominadas pela pintura. Nos anos 80 a pintura é primordial às personagens!

E o segredo das obras dos anos 80 reside precisamente na pintura, na sua energia, no seu tipo específico de energia. A energia da tinta com respeito à pintura de Paula Rego não encontra paralelo no pastel literalmente algo de académico (são as questões da forma que se tornam predominantes)! O pastel nunca é fluido nem improvisado, mas antes algo de fixo.

Na Paula Rego dos anos 80 há o vínculo à pintura: a tinta carrega de energia, movimento e intensidade, as pinturas da artista marcadas por uma emoção sem limites, que termina com os primeiras obras a pastel em 1994. E assim se passaram as coisas - é por isso que na obra da Paula Rego me interessa especialmente o ponto de vista da pintura dos anos 80, de uma construção livre das formas: tecnicamente a tinta é um material líquido, permite construir as formas livremente, reforçar a estrutura emocional das historias, ao contrário do pastel (óleos espessos e secos).

Neste período a obra da Paula Rego tornou-se numa projecção da psique com acentos autobiográficos; a artista combina em si uma multiplicidade de personagens; desenvolveu a ideia de um paralelismo entre a vida humana e o mundo animal e vegetal simbolicamente associados a características morais, virtudes e vícios próprios da natureza humana! Os bichos são criaturas com qualidades e adoptam comportamentos humanos e as pessoas animalescas, criando um universo de complexidade psicológica e ambíguo. Animais, plantas e pessoas são pensados alegoricamente / metaforicamente na sua composição, o que lhe permite contar histórias de uma forma mais directa e regressar à infância.

Quando olhamos para as inúmeras personagens envolvidas nas suas pinturas, como de um teatro de máscaras usadas no teatro grego, a artista revela toda a teatralidade do antigo paganismo - a vida é um teatro e a artista a dramaturga; neste aspecto pode dizer-se que Paula Rego encontrou maneira (no início dos anos 80) de estabelecer uma nova linguagem conceptual, criadora de metamorfoses - a metamorfose é o núcleo imaginativo de todo o conceito. A essência é o processo não é o objecto de arte -, um visível desejo proteico de viver e sentir. Paula Rego trata a história contemporânea como alegoria, em busca de transformações mágicas - de humanos em animais e vice-versa. As pinturas tornam-se vivas, orgânicas, têm estados de espírito! Tudo nela flui, pensamento, pintura, acção.

É o caso destas duas obras, de título desconhecido (representadas em anexo), de 1984, em que a pintora explora uma metodologia muito simples, de enorme liberdade criativa, totalmente deliberada. A artista utiliza uma combinação de luxuria, temor, anseio, sexo e a metamorfose - sublime perversidade? Porque onde está o esplendor dos seres híbridos também está, na totalidade, a sua perversidade -, para desafiar as formas do clássico da moral, da autoridade e da harmonia. As figuras das pinturas são delineadas a tinta preta para depois preencher a sua superfície com uma enorme diversidade de tintas de cor. O macaco é simbolizado pelo vermelho: há uma dialéctica entre vermelho e macaco. O vermelho carnal representa emoção, sexo, a vida do corpo aqui e agora. O macaco é o marido de Paula Rego. A obediente Paula Rego tem que se submeter.

A pintura dos anos 80 da Paula Rego é um exercício do olhar para dentro; é da vida pessoal da Paula Rego que se trata, a artista a representar-se a ela com crueza e ironia; pensamentos de histórias familiares, da vida conjugal, ou sentimentos, a paixão, o ciúme, a infidelidade, a vingança, são temas que a artista vai criando através de encenações. É possível que o observador não se aperceba do significado das personagens e da descrição dos enredos, porque a nossa compreensão das pinturas é limitada, mas Paula Rego tem a energia proteica de Diónisos; a alucinação, a embriaguez, o sexo, a dança e a música.

Ela personifica recorrentemente a psique feminina de muitas formas na sua obra: como amante, mulher poderosa, física, esposa obediente, mulher submissa, mãe e mulher de sensibilidade feminina para as situações sociais. Paula Rego é uma das artistas femininas mais complexas da história de arte contemporânea!

É exímia a compreender a identidade entre sexo e poder, a compreender a dialéctica sexual, que trata como arte. Aqui (nesta pulsão sexual) há nela igualmente uma medida freudiana; Paula Rego sente o conceptualismo existente no pensamento freudiano: uma das teses nucleares e praticamente fundacional da psicanálise freudiana, era a insistência na grande importância que a sexualidade tinha na vida do homem e da mulher. Freud considerava que a natureza humana obedecia preferencialmente a impulsos de origem sexual... Também, claro está, encontravam-se na origem de todo o tipo de psicopatologias, especialmente na neurose.

 

 

De maneira que o leitor não se surpreenderá ao encontrar neste artigo desenhos feitos no final do século XIX por Paul Richar (Chartres,1849 - Paris,1933) a partir da observação dos estudos clínicos com mulheres que apresentavam sintomas de nevroses, uma doença que a ciência, reconhecia como de origem sexual... Desenhos estes de uma semelhança nada negligenciável com o conhecimento de algumas obras de Paula Rego, se estendermos a visão até à série "Dog Women", apresentada na galeria Marlborough em 1994.

Paula Rego é da facto uma artista muito inteligente, a olhar o mundo arredada de qualquer moralidade convencional, de um certo número de tabus culturais que nos afastam do prazer de "viver e sentir", livre para criar como ela pretende ser vista, quebrando os limites da ordem, com emoção! A ética cristã é assim assolada na sua obra pelo instinto pagão (a sua obra é uma análise altamente original dessas tensões na cultura ocidental).

Para Paula Rego, a pintura é libertação!

 

 

Victor Pinto da Fonseca