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O ESTADO DA ARTE


© La Biennale di Venezia


Koyo Kouoh. © La Biennale di Venezia


Pietrangelo Buttafuoco e 'La Squadra di Koyo'. © La Biennale di Venezia


"POETRY CARAVAN", composta por poetas e músicos, prestou homenagem à visão de Koyo Kouoh. © La Biennale di Venezia


Victoria-Idongesit Udondian, Obroni Wawu. © La Biennale di Venezia


Exposição In Minor Keys. © La Biennale di Venezia


The Council of the Mother Spirits of the Animals (2020–23), Célia Vásquez Yui. Exposição In Minor Keys. © La Biennale di Venezia


Pavilhão do Brasil. © La Biennale di Venezia


Catz da edição da 61ª La Biennale di Venezia.

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61ª BIENAL DE VENEZA - IN MINOR KEYS

LAURA BUROCCO

2026-05-31




 

 

In Minor Keys está, sem dúvida, entre as Bienais mais rumorosas dos últimos anos. Um ruído que talvez supere até o de 2022, quando a pandemia de COVID-19 obrigou ao adiamento da exposição por um ano, interrompendo a intocável periodicidade institucional. A Bienal de Veneza fundada em 1895, apenas uma década após a Conferência de Berlim, foi interrompida ao longo da sua história apenas duas vezes: entre 1942 e 1948, devido à Segunda Guerra Mundial, e em 1993, quando foi atrasada para fazer coincidir a data com o centenário. A morte súbita da curadora, a sucessão de disputas políticas internas, e a crescente decadência do setor cultural em Itália, as guerras em curso, a natureza cada vez mais grotesca das relações internacionais europeias e das respostas políticas que delas decorrem, bem como o mal-estar generalizado entre o/as trabalhadora/es da arte, contribuíram para que a inauguração decorresse sob uma atmosfera distante da habitual que costuma marcar este evento.

A exposição abriu sem a presença de quem a concebeu, imaginou e, acima de tudo, a construiu a partir de relações com artistas, curadores e pensadores com quem Koyo Kouoh manteve diálogo ao longo de muitos anos. Apesar dela não estar fisicamente presente, a sua presença parece acompanhar-nos no percurso entre as obras dos artistas que reuniu pessoalmente em Veneza, distribuídas pelas duas principais sedes da Bienal: o Arsenale, o estaleiro que, desde 1999 expandiu o espaço expositivo dos Giardini, e o Pavilhão Central, antigo Pavilhão Itália, nos Giardini, o marco zero de onde tudo começou. Em uma entrevista Kouoh diz que ‘curadoria também é criação. Mas não criamos com trabalhos que produzimos; precisamos de artistas, directores e escritores. Por isso, frequentemente, na lista de artistas, você encontrará aqueles que já participaram de diversas exposições comigo. Para mim, criar uma exposição é como uma jornada, um trabalho em equipe que se desenvolve ao longo do tempo’. A solidez desta jornada é possivelmente o que tornou esta Bienal possível: não apenas como um projeto por ela concebido, mas generosamente compartilhado.

Como se lê no texto curatorial: ‘A 61ª edição da Bienal de Arte se fundamenta na profunda convicção de que os artistas são os intérpretes essenciais da condição social e psíquica e catalisadores de novas relações e possibilidades’. Parece que todas e todos os que Koyo convidou — artistas e membros do júri internacional — assumiram um compromisso tácito de não a decepcionar afirmando a possibilidade de novas relações e de outros modos de colaboração, mesmo dentro de um sistema da arte profundamente complexo e de uma instituição como a Bienal de Veneza, atravessada por contradições estruturais. Assim, os artistas tornam visível a impossibilidade de fingir que nada estivesse a acontecer, contrariando o silêncio imposto pelo valor de mercado das obras expostas na Bienal. No dia da greve, sábado 9, a exposição assume uma outra configuração. Tanto no Arsenale como nos Giardini, muitos artistas decidem aderir à greve — a primeira desde a Bienal de 1968 — e vários pavilhões são encerrados, incluindo os da Holanda, Espanha e Áustria, entre outros. Outros projetos incorporam bandeiras palestinianas dentro das próprias obras. Algumas das obras, como as de Tabita Rezaire, Sofia Gallisá Muriente e do Monument Group, parecem transformar-se em resposta direta ao contexto. Outras, como as de Alfredo Jaar, parecem ter sido concebidas precisamente como amplificadores desta “condição social e psíquica”. Talvez, se tivesse estado presente, Koyo tivesse tentado fechar as sedes por algumas horas. Talvez não.

Koyo Kouoh sempre manteve uma relação explícita com o dinheiro. Dirigia uma instituição que dispõe de recursos financeiros que muitos museus europeus dificilmente conseguem igualar. Não há nada de modesto no Zeitz MOCAA, nem existe qualquer tentativa de ocultar essa realidade. Para Kouoh, o dinheiro nunca foi um tema a evitar: era antes uma condição necessária para realizar projetos de forma profissional e, no contexto africano, um instrumento fundamental para tornar as coisas possíveis.

Nesse sentido, a relação de força com a Bienal de Veneza — uma instituição cujo selo continua a amplificar o prestígio e o valor de mercado das obras — e que permanece, mais do que um evento de arte, um espaço atravessado por interesses e relações geopolíticas, não deverá ter sido diferente. Ainda assim, a forma como Kouoh conciliava business a arte possuía algo de singular e parece refletir-se na relação estabelecida entre a curadoria e a própria instituição Bienal nesta 61.ª edição. Num vídeo de Nairobi Contemporary Art Institute - NCA ela mesma explica: ‘Tornou-se muito claro e muito importante para mim trabalhar em torno das instituições como prática curatorial’. É isto que ela fez aceitando o desafio do mandato do Zeit MOCAA magistralmente. É isso que ela fez em Veneza.

Koyo afirmava que a sua formação como curadora vinha de ler muito, de se expor às pessoas e às coisas e de ser profundamente comunicativa e curiosa, o que explica a presença recorrente da escrita ao longo da exposição. Logo à entrada do Arsenale, o visitante depara-se com as palavras de Refaat Alareer, poeta, professor e ativista palestiniano assassinado, com nove membros da sua família, num ataque direcionado do exército israelita em 2023. Ao longo do percurso, extratos de textos reaparecem em grandes panos azuis, atravessando os espaços expositivos. Esta valorização da leitura encontra uma das suas expressões mais evidentes em Ideal Seeds for Fertile Ground, uma instalação site-specific do RAW Material. Concebida como uma biblioteca, a obra remete para uma ideia de formação que não se limita à visão institucional do conhecimento, mas que passa pela alimentação contínua da curiosidade e práticas pedagógicas coletivas e cuidadosas. Integrada na secção Schools, reúne seis “locais vitais de engajamento crítico” que incorporam esta filosofia: RAW Material Company, Denniston Hill, Guest Artists Space (GAS), Lugar a Dudas, Nairobi Contemporary Art Institute (NCAI) e BlaxTARLINES KUMASI. Por além dos textos da biblioteca (BlaxTarlines também apresenta a própria) os artistas convidados e os pavilhões nacionais doaram publicações próprias. Enquanto a biblioteca regressará a Dakar no final da Bienal, os livros doados pelos artistas passarão a integrar o acervo do Arquivo da Bienal, de acesso livre e consulta pública. Talvez resida aí um dos legados desta edição: um instrumento valioso para a alfabetização de curadores e profissionais europeus para lá dos limites do seu próprio jardim.

A força dessa mulher ilumina a luz sombria dos ambientes do Arsenale, ao mesmo tempo que as notas menores ressoam entre as majestosas colunas de tijolo da estrutura original, e as diversas paredes construídas estabelecendo um diálogo harmonioso e coerente com a arquitetura preexistente. Tudo é acompanhado por uma experiência olfativa, amplificada pela humidade do espaço, que atravessa a maior parte do percurso expositivo desde a recepção através do trabalho do artista Khaled Sabsabi. A presencia é tão intensa quanto incontornável, envolvendo o visitante e tornando-se parte integrante da experiência espacial. Ambos os espaços em Veneza evocam as grandes exposições do Zeitz MOCAA, embora estas pareçam inevitavelmente modestas quando comparadas à escala da Bienal. A escolha de tonalidades escuras e a predominância do azul-índigo no percurso expositivo tanto no Arsenale como nos Giardini, estabelecem a continuidade desta experiência entre os dois núcleos. A monumentalidade do Arsenale faz dele um espaço particularmente difícil de habitar curatorialmente. Aqui, porém, a arquitetura intervém com subtileza. O espaço é redesenhado através de engenhosas estruturas de papelão, resultante em uma aparente alvenaria leve, e de enormes superfícies têxteis que evocam o veludo, sem nunca cair na redundância cenográfica das cortinas barrocas. Nada pesa. Tudo parece funcionar em conjunto, ao mesmo tempo que transforma profundamente a experiência do espaço e lhe confere uma identidade distinta. Mais uma vez, entram em cena relações de longa data. O estúdio Wolff Architects, sediado na Cidade do Cabo, reconfigura a monumentalidade do Arsenale colocando-a a serviço da prática curatorial.

É impossível, para quem não participou do processo, comentar em profundidade a complexidade de projetos curatoriais do tamanho da Bienal de Veneza. Neste ano, essa dificuldade torna-se ainda maior. Quando, em maio de 2025, a notícia da morte de Koyo Kouoh foi tornada pública, a tristeza foi acompanhada quase imediatamente por uma pergunta inevitável: ‘E agora, Veneza?’. A reação não foi insensível, mas refletia o tamanho das expectativas que esta Bienal vinha acumulando, tanto no continente africano como na sua diáspora (e além), um tamanho que também espelhava as relações e a trajetória de Koyo. A notícia, meses depois, da passagem de testemunho para La Squadra di Koyo foi recebida com alegria, mas também reativou expectativas enormes. E, no entanto, estas não foram frustradas. Ao descrever o encontro desta Squadra debaixo de uma mangueira no RAW, em Dakar, que precedeu de apenas um mês a partida da curadora, se lê: ‘conceitos como encantamento, semeadura, compartilhamento e práticas generativas que convidam à coletividade surgiram organicamente’. Esta organicidade é palpável no atravessamento dos espaços da exposição. Os atravessamentos se tornam múltiplos, os diálogos emergem às vezes mais ou menos evidentes, mas sempre presentes. São tantos que é fácil se perder neles.

A sensação ao percorrer a exposição — e também as ruas de Veneza durante a semana de abertura — é a de que estes artistas não são convidados, não precisam preencher uma lista de representatividade, mas são os patrões da casa, os anfitriões. Não pedem permissão para entrar: esperam que se bata à porta para poderem receber. E recebem sem necessidade de agradar a ninguém. Talvez por isso, pela primeira vez em anos, apesar do bombardeamento mediático nas redes sociais e nos jornais, foram poucos os posts a celebrar o elevado número de artistas Africanos, Indígenas, Mulheres ou Queer. Estas pessoas simplesmente estavam ali, sem necessidade de serem enquadrados como exceção. Como disse Koyo Kouoh em uma entrevista um ano atrás, ao ser nomeada a primeira mulher africana a liderar a Bienal: “não me interessa ser a primeira, interessa-me abrir a porta”. Esta é uma bienal para ser vista. Não no barulho da semana de abertura.

 

 

Laura Burocco


É pesquisadora no Centro de Pesquisa em Antropologia CRIA do ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa. Possui doutorado em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pós-doutorado em História e Teoria Visual pelo Center for Humanities Research da University of the Western Cape, na Cidade do Cabo, e em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu trabalho explora a interseção entre cultura e poder, com foco na descolonização do conhecimento, engajando-se de forma crítica tanto com a academia quanto com as artes.