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TURN AROUND - UM OLHAR SOBRE A COLEÇÃO DE ARTE FUNDAÇÃO EDPMIGUEL PINTO2026-06-29
Turn Around recebe-nos com a obra homónima de Luísa Cunha, um mantra dito até ao infinito que simultaneamente valida e convida à replicação: You are so beautiful – turn around. O gesto de olhar para trás, de ver melhor o que nos rodeia, sobre o qual somos interpelados, é impelido por uma recompensa anterior. A voz é convidativa, mas ordeira, repete e repete-se, numa tentativa de produção de um reflexo condicionado. O que ouvimos, questiona ou anestesia? É sintomático que a exposição comece por Luísa Cunha – a última vencedora do Grande Prémio EDP Fundação Arte, aquando do início do primeiro momento da exposição (já lá iremos) no início de fevereiro (entretanto fora atribuído, no final de abril, o novo galardão quinquenal a João Penalva). Isso indica-nos ao que vimos: uma tentativa de coroamento, ou se preferirmos, de demonstração do valor desta coleção EDP, através de um percurso pela sua história – e é, aliás, curioso o paradoxo entre discrição e veemência que anima esta obra de Luísa Cunha, e que é tão bem transposto, intencionalmente ou não, para o pretexto desta exposição. Uma subtil reiteração. Enquanto reiteração, são poucos os nomes verdadeiramente surpreendentes nesta exposição, tal como não são surpreendentes as consequentes omissões. Até mesmo Mário Cesariny, que poderia ser destacado como nome histórico da Coleção (e a quem fora atribuído também o prémio cimeiro da Fundação EDP) é colocado de fora, dando sobretudo destaque a obras produzidas nos últimos 50 anos. De um ponto de vista cronológico, a coleção começa, aqui, no final dos anos 60, mais ou menos a meio do segundo núcleo. São nestas origens que veremos algumas das produções mais marcantes da mostra, nas quais se destacam a etérea Sombra Projectada de Milvia Maglione de Lourdes Castro, de 1967, e os dois desenhos Sem Título de António Areal, ambos de 1966, de um traçado nitidamente individualizado, um amalgamar de perspetivas tecno-futuristas que parece banhado no cyberpunk das décadas posteriores, capaz de estabelecer um diálogo pertinente com o espaço, e com o que se expõe nesta Central Tejo. Mais recentes, e enumerados algo dispersamente, destacamos os desenhos espectrais Sem Título de Ana Jotta, a cenografia hipermasculina de Hero, Captain and Stranger de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, os deliciosamente enigmáticos Sem Título de Álvaro Lapa, ou a inclusão de um belíssimo trabalho de José Barrias, Sombra, Reprodução Proibida. A opção por uma disposição não cronológica é claramente sintomática de uma vontade de encontrar relações formais ou temáticas entre as obras. Neste sentido, o piscar de olho mais bem-sucedido será, provavelmente, à entrada da segunda parte da exposição, quando a ordem de Luísa Cunha é confrontada com o rosto escondido de Jorge Molder, como quem, timidamente, não se quer confrontar com o belo a que se propõe. No entanto, as obras seguir-se-ão por uma disposição que se estabelece, fundamentalmente, por critérios cromáticos (logo a seguir, com Rui Chafes, Eduardo Batarda, Diogo Pimentão ou Julião Sarmento) ou de escala, numa curadoria previsível, que atinge a monotonia nas últimas salas desta segunda parte. É, sobretudo, no âmbito museográfico/curatorial, que não compreendemos algumas soluções empregues neste Turn Around. Com isto, refiro-me principalmente às legendas das obras, replicadas nas duas folhas de sala (uma para a primeira parte, e outra para a segunda, provavelmente devido a cada uma delas ter começado em momentos diferentes – mas porquê?), e que parecem justificar a sua ausência de estilo ou critério, com a assinatura de cada uma por um conjunto de nomes. Que nomes são estes? Alguns são parte dos curadores (João Pinharanda, Margarida Almeida Chantre), ao qual falta o nome de Sérgio Mah, também curador da exposição. Juntam-se, no entanto, Bruno Marchand (que substituíra Mah como diretor-adjunto do MAAT no início deste ano) e Carolina Marques, inscrita na folha técnica da exposição como Assistente Curatorial, numa modalidade de estágio. Não fosse já esta disposição confusa, são as legendas de João Pinharanda e de Carolina Marques que, consistentemente, são capazes de oferecer a contextualização devida às obras que apresentam. No caso de Margarida Almeida Chantre, muitas destas “contextualizações” condensam-se em parágrafos de quatro ou cinco linhas, que ao tentarem uma descrição poética do que observam, são nitidamente incapazes de enquadrarem as obras que acompanham, parecendo partir do pressuposto que o público já conhecerá todos os artistas cujos trabalhos aqui se expõem (e, aqui, destaco as legendas atribuídas aos trabalhos de Maria Capelo, Diogo Pimentão ou Maria José Oliveira, nomes menos reconhecidos – e, por isso, pensamos, merecedores de um texto que enquadrasse os seus trabalhos numa perspetiva histórica e temático-formal – face, por exemplo, a Lourdes Castro ou Helena Almeida, ainda assim sujeitas a tratamento semelhante). Também Bruno Marchand, nome cimeiro na curadoria feita em Portugal, e com um ótimo trabalho provado nos últimos anos na Culturgest, é capaz de introduções risíveis em algumas das suas legendas como “Susanne S.D. Themlitz tem um mundo privado” ou “Não é difícil achar que Ângelo de Sousa é minimalista”. Este pequeno-grande à parte, porque são nestes gestos ensimesmados que se situa e fundamenta muita da desconfiança do público (português, e não só) para com as produções de arte contemporânea, até mesmo (ou sobretudo) quando dispostas em grandes instituições, sendo o MAAT um caso exemplar no panorama português. De um ponto de vista de clareza e transparência, e tendo em conta visar-se o trabalho expositivo sobre uma coleção reflita-se, também, sobre a ausência de referências à proveniência destas obras, tendo em conta muitas delas terem partido, por exemplo, da incorporação da coleção de Pedro Cabrita Reis na coleção da Fundação EDP. O website da coleção dá-nos algumas pistas, mas numa interpretação comparada, não assumida, em que deduzimos que as obras incorporadas em 2016 tenham partido da coleção de Cabrita Reis, tendo em conta ter sido esse o ano dessa concretização (deixamos o exemplo de Diogo Pimentão). No fim de contas, quem tinha razão era Luísa Cunha: por vezes, é mesmo necessário to turn around. Escutem-se os artistas.
Miguel PintoNascido em 2000. Mestre em Jornalismo pela Universidade Nova de Lisboa, redigiu uma tese sobre a ética noticiosa no Portugal do século XVII e as suas interseções com uma mundivisão barroca. Licenciado em História da Arte, colaborou com publicações como Hyperallergic, Público ou Umbigo. Trabalha em comunicação. Escreve nas horas vagas.
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Turn around. Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP Curadoria: João Pinharanda, Margarida Chantre e Sérgio Mah 29/04/2026 - 11/01/2027
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