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LES RENCONTRES D'ARLES 2026ADRIANA TIPOLD DELGADO MARTINS2026-07-30
Inserindo-se no espírito da 57.ª edição do festival Les Rencontres d'Arles — que sob o tema "Des mondes à relire" (Mundos a Reler) se divide nos eixos Rotas e Passagens, Linhas de Tensão e Identidades, O Mundo Vivo e Arquivos Incertos —, a fotografia surge como instrumento de memória, revisão histórica e transformação. Entre arquivos coloniais, narrativas de independência, identidades marginalizadas, diferentes formas de vida e experiências que cruzam processos analógicos e inteligência artificial, o festival interroga simultaneamente o mundo representado e a própria natureza da imagem. Neste cenário, um conjunto de nove fotógrafos debruça-se, de forma independente, sobre a complexidade das relações humanas e geográficas, desafiando as categorias tradicionais da fotografia documental.
1. Pieter Hugo O fotógrafo sul-africano Pieter Hugo (1976), conhecido pelos seus retratos frontais de grande formato e cores intensas, centrados nas complexidades da África pós-colonial, abre esta seleção. Situado entre o registo documental e a composição encenada, o seu trabalho aborda comunidades marginalizadas e subculturas urbanas, refletindo sobre tensões raciais, desigualdades sociais e as marcas deixadas pela história no quotidiano. Na série realizada na Nigéria, The Hyena & Other Men (2005–2007), [fig. 1] Hugo fotografa tratadores itinerantes de animais acompanhados por hienas e outros animais considerados ferozes. Apresentados frontalmente, seres humanos e animais partilham o mesmo espaço, unidos por uma relação moldada pela restrição, pela dependência e pela encenação. As fotografias revelam uma coexistência inquietante, na qual dominação, espetáculo e proximidade física se entrelaçam. Longe de uma mera documentação exótica, estas imagens confrontam os estereótipos ocidentais sobre a África contemporânea e transformam o choque inicial numa reflexão sobre a marginalidade económica urbana. O flash em plena luz do dia acentua o carácter performativo deste quotidiano precário, enquanto o olhar direto dos retratados inverte a dinâmica tradicional entre o observador e o observado. Através deste ecossistema marginal, Hugo mapeia as complexas redes de sobrevivência na Nigéria periférica, onde o perigo físico se transforma em mercadoria e espetáculo de rua.
2. Bruno Boudjelal O fotógrafo franco-argelino Bruno Boudjelal (1961) desenvolve uma abordagem pessoal e subjetiva que funde biografia e autodescoberta. Rejeitando as convenções do fotojornalismo tradicional, trabalha a partir de diários de viagem marcados pela intimidade visual e pelas tensões identitárias entre o Norte e o Sul global. Goudron: Tanger–Le Cap (A Estrada Asfaltada: de Tânger à Cidade do Cabo) reúne imagens produzidas ao longo de mais de vinte anos de viagens pelo continente africano. O título ancora-se num duplo sentido linguístico: na África francófona, a palavra goudron designa genericamente a estrada asfaltada, entendida aqui como infraestrutura vital e símbolo de circulação, e não apenas o material «alcatrão». Contrariando o formato tradicional, muitas fotografias surgem sem legendas individuais, surgindo organizadas apenas pelo nome do país correspondente para servir de orientação geográfica na sequência expositiva. O retrato da jovem [fig. 2] lembra o Pictorialismo através de formas enevoadas que aproximam a fotografia da pintura. O rosto emerge de um fundo escuro com nitidez imperfeita, concentrando a força na intensidade do olhar. A iluminação dramática elimina distrações espaciais, enquanto a desmaterialização dos contornos transforma a figura numa aparição de forte dimensão poética e espiritual. A referência aos retratos oitocentistas de Julia Margaret Cameron e aos mestres da pintura flamenga reforça a ligação entre fotografia, pintura e projeção psicológica, dotando a esta imagem misteriosa de uma forte carga poética e espiritual
3. Alain Keler: Diário de um fotojornalista O fotógrafo francês Alain Keler (1945) é uma referência no fotojornalismo e na fotografia documental. Dedicou grande parte da sua carreira à documentação de minorias perseguidas, refugiados e comunidades marginalizadas. construindo um percurso internacional centrado em acontecimentos políticos e sociais, sobretudo na América Latina. A fotografia [fig. 3] realizada no Uruguai, em 1974, nasceu espontaneamente após um piquenique nos arredores de Montevideu. Motivado pela satisfação do seu amigo Pedro com a aquisição de um automóvel — um DKW Junior, veículo pouco comum no Uruguai da época —, o fotógrafo registou o instante em que o amigo Pedro surge deitado à sombra, junto do seu automóvel com o capô aberto. O automóvel torna-se sinal de mobilidade e realização pessoal, enquanto a postura descontraída revela o orgulho por uma conquista desejada. A descrição autobiográfica funciona como um excerto do diário de bordo que acompanha America Americas – Latina, narrativa visual itinerante das primeiras reportagens de Keler na região. Na paisagem andina [fig. 4], uma estrada de terra organiza a composição e conduz o olhar para o horizonte. O preto e branco acentua o isolamento do cenário, onde figuras humanas diminutas sublinham a monumentalidade da natureza. O caminho afirma-se como metáfora da viagem geográfica e existencial. Captada em Stepanakert, no Alto Carabaque, em 1994, a fotografia [fig. 5] retrata um funeral coletivo durante a guerra de 1988–1994. Keler centra-se nas consequências humanas do conflito e na dor das mulheres que perderam maridos, noivos e filhos. À esquerda, um violinista toca um último adeus aos mortos, reforçando a dimensão ritual da despedida. O fotógrafo descreveu a região como «um lugar perdido do mundo, para onde ninguém vai», acrescentando: «Gosto destes lugares afastados de tudo, de difícil acesso, onde o tempo parece ter parado.» Após a ofensiva do Azerbaijão em 2023 e o êxodo da população arménia local, a imagem conserva um profundo valor documental e memorial. A fotografia suspende o tempo perante o sofrimento e aproxima-nos do interior da experiência humana, expondo a vulnerabilidade e conferindo dignidade à dor individual e coletiva. Em Letanovce, na Eslováquia, Keler volta-se para as margens da Europa e para as comunidades romani [fig. 6]. A vastidão do cenário gelado contrasta com a proximidade dos rostos infantis. Os olhares diretos e os gestos espontâneos valorizam a individualidade dos retratados e contrariam representações marcadas pelo preconceito e pela exclusão social.
4. Wade Guyton O artista norte-americano Wade Guyton (1972) investiga as relações entre pintura, fotografia e imagem digital através da impressão por jato de tinta. Apropria-se de páginas de livros, fotografias e capturas de ecrã, atribuindo-lhes novas configurações visuais. Herdando a tradição do objet trouvé e das práticas de apropriação, o artista transforma imagens preexistentes em novas superfícies visuais, num processo que permite reinterpretar metaforicamente o objeto encontrado como objet approprié: não apenas descoberto, mas selecionado, deslocado e reinscrito num novo contexto artístico [fig. 7]. As obras seguem uma lógica de «reprodução da reprodução», em que cada imagem deriva de outra. Ao explorar os limites técnicos da impressão, Guyton transforma erros, falhas e sobreposições em linguagem visual, questionando as fronteiras entre original e cópia, bem como as noções de autoria.
5. Joachim Schmid Joachim Schmid (1955), artista alemão descrito como o «fotógrafo que não tira fotografias», recolhe e reutiliza imagens descartadas, questionando autoria, originalidade e arquivo fotográfico. Em Photogenetic Drafts [Esboços Fotogenéticos] (1991) [fig. 8], Schmid parte de negativos de um estúdio comercial da Baviera, deliberadamente cortados ao meio para impedir a sua reutilização. Ao reunir metades de rostos de pessoas diferentes, cria identidades inexistentes e converte fragmentos descartados em ficções visuais. Cada retrato resulta da junção rigorosa de duas metades de negativos distintos. Embora pertençam a indivíduos diferentes — com idades, géneros e fisionomias diversas —, os traços faciais alinham-se de forma surpreendente, produzindo a ilusão ótica de um único rosto. O procedimento evoca jogos de recomposição de figuras, sugerindo que a identidade não é fixa, mas uma construção aberta a múltiplas combinações. Schmid mantém visíveis as marcas de corte, tornando explícitos a apropriação e o carácter construído da imagem. A fotografia recompõe fragmentos e desafia categorias tradicionalmente entendidas como estáveis. Ao combinar idades, géneros e fisionomias distintas, a obra antecipa leituras contemporâneas sobre a fluidez da identidade. As obras integram a coleção reunida pelo estilista francês Christian Lacroix.
6. Lara Tabet Apresentada no Claustro de Saint-Trophime, a instalação Le corps vitré (Corpo vítreo) foi concebida pela artista e médica libanesa Lara Tabet (1983) em colaboração com a curadora francesa Yasmine Chemali (1985), no âmbito do programa BMW ART MAKERS. Caixas de luz retroiluminadas transformam-se em vitrais contemporâneos: a luz intensifica cores e texturas produzidas pela ação de microrganismos sobre a emulsão do filme analógico. As manchas resultam de processos químicos e biológicos de corrosão, tornando os organismos participantes do processo criativo. Como sintetiza Tabet: «Eu crio as condições, depois os organismos vivos desenham.» À distância, as obras [fig. 10] evocam composições abstratas; de perto [fig. 9], revelam um universo biológico impercetível ao olhar humano, formado por redes ramificadas geradas pelo crescimento de microrganismos. Le corps vitré pode ainda ser lida como um diálogo com o Homem Vitruviano. Ao corpo ideal e proporcional do Renascimento contrapõe um corpo entendido como ecossistema vivo, habitado por organismos microscópicos. A geometria dá lugar à biodiversidade e à matéria em permanente mutação. A monumentalidade dos painéis [fig. 10] recorda também os monólitos de 2001: Odisseia no Espaço, conduzindo, porém, o olhar para o universo microscópico da película. A matéria da película torna-se, assim, uma paisagem microscópica viva em constante transformação.
7. Ming Smith A fotógrafa norte-americana Ming Smith (1947), pioneira da fotografia contemporânea, foi a primeira artista afro-americana no acervo do MoMA e a primeira mulher no Kamoinge Workshop. O Kamoinge Workshop, fundado durante o Movimento dos Direitos Civis, combatia estereótipos e ligava fotografia abstrata e jazz. O seu estilo recorre a longas exposições e a desfoques intencionais (flou), na câmara escura, técnicas que define como «pintura de luz» para investigar memória e espiritualidade da cultura negra. Em Invisible Man, Somewhere, Everywhere (1991) [fig. 11] uma figura atravessa uma rua noturna quase deserta, parcialmente dissolvida na escuridão. O contraste entre sombra e luz e as formas enevoadas fazem o corpo oscilar entre presença e desaparecimento, criando uma atmosfera de solidão e memória. O título remete para o romance de Ralph Ellison. Tal como na obra literária, a invisibilidade é social e simbólica, resultando da exclusão e do racismo estrutural. Ao dissolver os limites entre figura e fundo, Smith transforma o corpo numa aparição vulnerável e resistente. Inscrita na tradição da Black photography, a composição aproxima-se da lógica do jazz, em que as pausas e os silêncios participam ativamente na construção do ritmo. Do mesmo modo, aquilo que permanece oculto ou apenas sugerido intensifica a força visual da fotografia. Embora fixa, a imagem parece respirar e conservar um movimento interior, privilegiando uma presença sensível e atmosférica em detrimento da descrição factual. Confirma-se, assim, a premissa de que «a imagem está sempre em movimento, mesmo quando estamos parados».
8. Phan Quang O artista vietnamita e antigo fotojornalista Phan Quang (1976) explora as relações entre verdade, imagem e memória individual. Questionando a câmara como prova documental objetiva, transforma o plano visual num espaço de encenação e reconstrução poética do passado colonial e geopolítico da Ásia. Na série Re/cover [Recuperar/Recobrir], o título funciona como um véu: recupera uma memória silenciada, mas também a volta a cobrir. Ao deixarem-se ver através da transparência, os retratados reclamam uma identidade durante muito tempo negada. A série aborda as mulheres vietnamitas que constituíram família com soldados japoneses após a Segunda Guerra Mundial. O mosquiteiro translúcido torna-se metáfora do silêncio, da ausência, da memória e da proteção de identidades marginalizadas, remetendo para uma união interrompida e um passado ocultado. Nesta fotografia encenada [fig. 12], uma família vietnamita surge diante da casa. O grupo, formado por várias gerações e acompanhado pela fotografia de um familiar ausente, surge parcialmente coberto pelo véu. O jogo entre ocultação e desvelamento mantém as figuras reconhecíveis, mas envolvidas numa atmosfera de distância e camuflagem. O véu reúne pessoas, objetos e espaço doméstico numa memória íntima e histórica.
9. Lisa Oppenheim O trabalho da artista norte-americana Lisa Oppenheim (1975) desenvolve-se na interseção da fotografia, do cinema e das práticas de arquivo, fundindo processos analógicos com ferramentas digitais. A exposição Monsieur Steichen, de Lisa Oppenheim (1975), parte da paixão de Edward Steichen pela botânica e centra-se na recriação de uma variedade de íris extinta em 1910, sem registos a cores. A partir de fotografias, arquivos e dados históricos, a artista utiliza inteligência artificial para gerar hipóteses cromáticas da flor e gerar uma aproximação digital da flor desaparecida. Oppenheim combina a reconstrução digital com processos analógicos de laboratório. Inspirando-se na solarização, recorre ao dye-transfer e altera a ordem de aplicação dos corantes primários, afastando as cores do referente original e revelando a dimensão construída da imagem. A íris ocupa o centro da composição, destacada por azuis [fig. 13], violetas e amarelos intensos [fig. 14]. A paleta artificial e os contrastes luminosos subvertem o realismo fotográfico [fig. 15] e aproximam a imagem da pintura. Ao cruzar arquivo, inteligência artificial e câmara escura, Oppenheim apresenta a fotografia como matéria instável, passível de reconstrução e transformação.
Fig. 15 - Lisa Oppenheim, Mons Steichen, Version VIII, 2024.
Um Mundo a Reler
A análise deste conjunto mostra como o festival de Arles nos recebe de coração aberto e nos convida a olhar para a realidade com outros olhos. Sob o lema «Um Mundo a Reler», a memória histórica surge como um campo aberto à reflexão e à transformação. Nos trabalhos de Alain Keler e Bruno Boudjelal, a fotografia afasta-se da pressa das notícias para se concentrar na experiência do tempo. Os caminhos difíceis e os silêncios pedem-nos que paremos e olhemos, devolvendo lugar a rostos e vozes esquecidos pela história oficial. No centro destas obras encontra-se também a questão da representação. Através de formas enevoadas, sobreposições e véus, Ming Smith e Phan Quang afastam-se de uma leitura direta. O mosquiteiro que cobre as famílias vietnamitas e as figuras que atravessam a noite de Nova Iorque funcionam como proteção, filtro e matéria poética. A identidade constrói-se, preserva-se e reivindica-se no jogo entre o que se revela e o que permanece oculto. Wade Guyton, Joachim Schmid, Lisa Oppenheim e Lara Tabet revelam diferentes formas de produzir e reconstruir imagens. Uma falha de impressão, a combinação de negativos, a inteligência artificial ou o cruzamento entre investigação biológica, bacteriografia, impressão sobre vidro e caixas de luz tornam o processo tão importante como o resultado. A fotografia deixa de ser apenas um espelho da realidade e afirma-se como espaço de descoberta e invenção. Para concluir, e retomando o ponto de partida deste percurso, Pieter Hugo [fig. 1] introduz uma súbita desaceleração. Depois das tecnologias e das diferentes formas de mediação da imagem, o olhar regressa à matéria, à terra, à natureza e à sobrevivência. Mais do que documentar os chamados tratadores de hienas, a fotografia propõe uma reflexão sobre a condição humana e sobre a nossa pertença ao mundo animal. A proximidade entre o homem e a hiena, marcada simultaneamente pela força, pelo controlo e pela dependência, questiona os limites da domesticação: será o ser humano verdadeiramente capaz de dominar uma criatura feroz ou terá, afinal, algo a aprender com a sua força e capacidade de sobrevivência?
Adriana Tipold Delgado Martins
Licenciada em Tradução pela Universidade Nova de Lisboa (1995), é também licenciada e mestre em História da Arte pela Goethe-Universität (2006), em Frankfurt. É mestre em Curadoria pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e pela Fundação Calouste Gulbenkian (2010) e doutoranda em Fotografia, na área de Ciências da Arte e do Património, na FBAUL. Em 2009, recebeu, ex aequo, o Prémio Jovens Curadores com a exposição Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Em 2012, comissariou exposições de fotografia como Para Além da Luz, de Nuno Calvet, na galeria Arte Contempo, e Paisagem Humana, no BES Arte & Finanças. Foi programadora cultural no Goethe-Institut Portugal (2012-2020) e escreveu sobre fotografia para a revista Atlas Improvável e para o Le Monde diplomatique. Realizou traduções literárias para a Relógio d’Água e traduziu catálogos de arte.
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Les Rencontres d'Arles 2026 6 de Julho a 4 de Outubro Arles, França |
































