Links

ARQUITETURA E DESIGN




Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.


Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.


Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.


Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.


Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.


Conferência de Bijoy Jain, Studio Mumbai, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Fotografia: Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Outros artigos:

2017-09-10


“VINTE E TRÊS”. AUSÊNCIAS E APARIÇÕES NUMA MOSTRA DE JOALHARIA IBEROAMERICANA PELA PIN ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE JOALHARIA CONTEMPORÂNEA


2017-08-01


23 – JOALHARIA CONTEMPORÂNEA NA IBERO-AMÉRICA


2017-06-30


PASSAGENS DE SERRALVES PELO TERMINAL DE CRUZEIROS DO PORTO DE LEIXÕES


2017-05-30


EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS


2017-04-18


“ÁRVORE” (2002), UMA OBRA COM A AUTORIA EM SUSPENSO


2017-03-17


ÁLVARO SIZA : VISÕES DA ALHAMBRA


2017-02-14


“NÃO TOCAR”: O NOVO MUSEU DO DESIGN EM LONDRES


2017-01-17


MAXXI ROMA


2016-12-10


NOTAS SOBRE ESPAÇO E MOVIMENTO


2016-11-15


X BIAU EM SÃO PAULO: JOÃO LUÍS CARRILHO DA GRAÇA À CONVERSA COM PAULO MENDES DA ROCHA E EDUARDO SOUTO DE MOURA


2016-10-11


CENAS PARA UM NOVO PATRIMÓNIO


2016-08-31


DREAM OUT LOUD E O DESIGN SOCIAL NO STEDELIJK MUSEUM


2016-06-24


MATÉRIA-PRIMA. UM OLHAR SOBRE O ARQUIVO DE ÁLVARO SIZA


2016-05-28


NA PEGADA DE LE CORBUSIER


2016-04-29


O EFEITO BREUER – PARTE 2


2016-03-24


O EFEITO BREUER - PARTE 1


2016-02-16


GEORGE BEYLERIAN CELEBRA O DESIGN ITALIANO COM LANÇAMENTO DE “DESIGN MEMORABILIA”


2016-01-08


RESOLUÇÕES DE ANO NOVO PARA A ARQUITETURA E DESIGN EM 2016


2015-11-30


BITTE LEBN. POR FAVOR, VIVE.


2015-10-30


A FORMA IDEAL


2015-09-14


DOS FANTASMAS DE SERRALVES AO CLIENTE COMO ARQUITECTO


2015-08-01


“EXTRA ORDINARY” - JOVENS DESIGNERS EXPLORAM MATERIAIS, PRODUTOS E PROCESSOS


2015-06-25


PODE A TIPOGRAFIA AJUDAR-NOS A CRIAR EMPATIA COM OS OUTROS?


2015-04-14


O FIM DA ARQUITECTURA


2015-03-12


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE II/II)


2015-02-11


TESOURO, MISTÉRIO OU MITO? A ESCOLA DO PORTO EM TRÊS EXPOSIÇÕES (PARTE I/II)


2015-01-11


ESPECTADOR


2014-12-09


ARQUITECTAS: ENSAIO PARA UM MANUAL REVOLUCIONÁRIO


2014-11-10


A MARCA QUE TEM O MEU NOME


2014-10-04


NEWS FROM VENICE


2014-09-08


A INCONSCIÊNCIA DE ZENO. MÁQUINAS DE SUBJECTIVIDADE NO SUPERSTUDIO*


2014-07-30


ENTREVISTA A JOSÉ ANTÓNIO PINTO


2014-06-17


ÍNDICES, LISTAGENS E DIAGRAMAS: the world is all there is the case


2014-05-15


FILME COMO ARQUITECTURA, ARQUITECTURA COMO AUTOBIOGRAFIA


2014-04-14


O MUNDO NA MÃO


2014-03-13


A CASA DA PORTA DO MAR


2014-02-13


O VERNACULAR CONTEMPORÂNEO


2014-01-07


PÓS-TRIENAL 2013 [RELAÇÕES INSTÁVEIS ENTRE EVENTOS, ARQUITECTURAS E CIDADES]


2013-11-12


UMA SUBTIL INTERFERÊNCIA: A MONTAGEM DA EXPOSIÇÃO “FERNANDO TÁVORA: MODERNIDADE PERMANENTE” EM GUIMARÃES OU UMA EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA NUMA ESCOLA EM PLENO FUNCIONAMENTO


2013-09-24


DESIGN E DELITO


2013-08-12


“NADA MUDAR PARA QUE TUDO SEJA DIFERENTE”: CONVERSA COM BEYOND ENTROPY


2013-08-11


“CHANGING NOTHING SO THAT EVERYTHING IS DIFFERENT”: CONVERSATION WITH BEYOND ENTROPY


2013-07-04


CORTA MATO. Design industrial do ponto de vista do utilizador


2013-05-20


VÍTOR FIGUEIREDO: A MISÉRIA DO SUPÉRFLUO


2013-04-02


O DESIGNER SOCIAL


2013-03-11


DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?


2013-02-08


O CONSUMIDOR EMANCIPADO


2013-01-08


SOBRE-QUALIFICAÇÃO E REBUSCO


2012-10-29


“REGIONALISM REDIVIVUS”: UM OUTRO OLHAR SOBRE UM TEMA PERSISTENTE


2012-10-08


LEVINA VALENTIM E JOAQUIM PAULO NOGUEIRA


2012-10-07


HOMENAGEM A ROBIN FIOR (1935-2012)


2012-09-08


A PROMESSA DA ARQUITECTURA. CONSIDERAÇÕES SOBRE A GERAÇÃO POR VIR


2012-07-01


ENTREVISTA | ANDRÉ TAVARES


2012-06-10


O DESIGN DA HISTÓRIA DO DESIGN


2012-05-07


O SER URBANO: UMA EXPOSIÇÃO COMO OBRA ABERTA. NO CAMINHO DOS CAMINHOS DE NUNO PORTAS


2012-04-05


UM OBJECTO DE RONAN E ERWAN BOUROULLEC


2012-03-05


DEZ ANOS DE NUDEZ


2012-02-13


ENCONTROS DE DESIGN DE LISBOA ::: DESIGN, CRISE E DEPOIS


2012-01-06


ARCHIZINES – QUAL O TAMANHO DA PEQUENÊS?


2011-12-02


STUDIO ASTOLFI


2011-11-01


TRAMA E EMOÇÃO – TRÊS DISCURSOS


2011-09-07


COMO COMPOR A CONTEMPLAÇÃO? – UMA HISTÓRIA SOBRE O PAVILHÃO TEMPORÁRIO DA SERPENTINE GALLERY E O PROCESSO CRIATIVO DE PETER ZUMTHOR


2011-07-18


EDUARDO SOUTO DE MOURA – PRITZKER 2011. UMA SISTEMATIZAÇÃO A PROPÓSITO DA VISITA DE JUHANI PALLASMAA


2011-06-03


JAHARA STUDIO


2011-05-05


FALEMOS DE 1 MILHÃO DE CASAS. NOTAS SOBRE O CONCURSO E EXPOSIÇÃO “A HOUSE IN LUANDA: PATIO AND PAVILLION”


2011-04-04


A PROPÓSITO DA CONFERÊNCIA “ARQUITECTURA [IN] ]OUT[ POLÍTICA”: UMA LEITURA DISCIPLINAR SOBRE A MEDIAÇÃO E A ESPECIFICIDADE


2011-03-09


HUGO MADUREIRA: O ARTISTA-JOALHEIRO


2011-02-07


O QUE MUDOU, O QUE NÃO MUDOU E O QUE PRECISA MUDAR


2011-01-11


nada


2010-12-02


PEQUENO ELOGIO DO ARCAICO


2010-11-02


CABRACEGA


2010-10-01


12ª BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA — “PEOPLE MEET IN ARCHITECTURE”


2010-08-02


ENTREVISTA | FILIPA GUERREIRO E TIAGO CORREIA


2010-07-09


ATYPYK PRODUCTS ARE NOT MADE IN CHINA


2010-06-03


OS PRÓXIMOS 20 ANOS. NOTAS SOBRE OS “DISCURSOS (RE)VISITADOS”


2010-05-07


OBJECTOS SEM MEDO


2010-04-01


O POTENCIAL TRANSFORMADOR DO EFÉMERO: A PROPÓSITO DO PAVILHÃO SERPENTINE EM LONDRES


2010-03-04


PEDRO + RITA = PEDRITA


2010-02-03


PARA UMA ARQUITECTURA SWISSPORT


2009-12-12


SOU FUJIMOTO


2009-11-10


THE HOME PROJECT


2009-10-01


ESTRATÉGIA PARA HABITAÇÃO EVOLUTIVA – ÍNDIA


2009-09-01


NA MANGA DE LIDIJA KOLOVRAT


2009-07-24


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR (Parte II)


2009-06-16


DA HESITAÇÃO DE HANS, OU SOBRE O MEDO DE EXISTIR


2009-05-19


O QUE É QUE SE SEGUE?


2009-04-17


À MESA COM SAM BARON


2009-03-24


HISTÓRIAS DE UMA MALA


2009-02-18


NOTAS SOBRE PROJECTOS, ESPAÇOS, VIVÊNCIAS


2009-01-26


OUTONO ESCALDANTE OU LAPSO CRÍTICO? 90 DIAS DE DEBATE DE IDEIAS NA ARQUITECTURA PORTUENSE


2009-01-16


APRENDER COM A PASTELARIA SEMI-INDUSTRIAL PORTUGUESA OU PORQUE É QUE SÓ HÁ UMA RECEITA NO LIVRO FABRICO PRÓPRIO


2008-11-20


ÁLVARO SIZA E O BRASIL


2008-10-21


A FORMA BONITA – PETER ZUMTHOR EM LISBOA


2008-09-18


“DELIRIOUS NEW YORK” EXPLICADO ÀS CRIANÇAS


2008-08-15


A ROOM WITH A VIEW


2008-07-16


DEBATER CRIATIVAMENTE A CIDADE: A EXPERIÊNCIA PORTO REDUX


2008-06-17


FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, DEFEITO E FEITIO


2008-05-14


A PROPÓSITO DA DEMOLIÇÃO DO ROBIN HOOD GARDENS


2008-04-08


INTERFACES URBANOS: O CASO DE MACAU


2008-03-01


AS CORES DA COR


2008-02-02


Notas sobre a produção arquitectónica portuguesa e sua cartografia na Architectural Association


2008-01-03


TARZANS OF THE MEDIA JUNGLE


2007-12-04


MÚSICA INTERIOR


2007-11-04


O CIRURGIÃO INGLÊS


2007-10-02


NÓS E OS CARROS


2007-09-01


Considerações sobre Tempo e Limite na produção e recepção da Arquitectura


2007-08-01


A SUBLIMAÇÃO DA CONTEMPORANEIDADE


2007-07-01


UMA MITOLOGIA DE CARNE E OSSO


2007-06-01


O LUGAR COMO ARMADILHA


2007-05-02


ESPAÇOS DE FILMAR


2007-04-02


ARTES DO ESPAÇO: ARQUITECTURA/CENOGRAFIA


2007-03-01


TERRAIN VAGUE – Notas de Investigação para uma Identidade


2007-02-02


ERRARE HUMANUM EST…


2007-01-02


QUANDO A CIDADE É TELA PARA ARTE CONTEMPORÂNEA


2006-12-02


ARQUITECTURA: ESPAÇO E RITUAL


2006-11-02


IN SUSTENTÁVEL ( I )


2006-10-01


VISÕES DO FUTURO - AS NOVAS CIDADES ASIÁTICAS


2006-09-03


NOTAS SOLTAS SOBRE ARQUITECTURA E TECNOLOGIA


2006-07-30


O BANAL E A ARQUITECTURA


2006-07-01


NOVAS MORFOLOGIAS NO PORTO INDUSTRIAL DE LISBOA


2006-06-02


SOBRE O ESPAÇO DE REPRESENTAÇÃO MODERNO


2006-04-27


MODOS DE “VER” O ESPAÇO - A PROPÓSITO DE MONTAGENS FOTOGRÁFICAS


share |

BIJOY JAIN, STUDIO MUMBAI

PEDRO CASTELO


 

 

Bijoy Jain é o arquitecto fundador do Studio Mumbai, um escritório de arquitectura com sede na Índia que tem alcançado nos últimos anos reconhecimento mundial com a construção de casas privadas impressionantemente situadas nas paisagens luxuriantes da Índia, numa prática desenvolvida por artesãos locais e arquitectos. A obra do Studio Mumbai evidencia uma grande atenção ao detalhe e uma ambição de atingir uma qualidade de construção elevada, trabalhando de perto com os recursos, produtores e artesãos locais. Esta preocupação tem sido entendida pelos agentes da arquitectura ocidentais como uma aproximação extremamente sensível à arquitectura. Representando uma mistura de um ideal ocidental de exotismo e sofisticação, o trabalho do Studio Mumbai empenha-se na elevação de uma sabedoria local profundamente ligada a uma cultura e economia de auto-construção. Este apelo aparece, segundo Mario Botta, na entrega do BSI – Swiss Architectural Award, num momento em que as forças da globalização são “mais vezes interpretadas como forma de estandardização do que oportunidade de interacção e enriquecimento”. As ideias e linguagem de Jain possuem um encanto próprio, quase como se de um guru se tratasse, usando palavras como fluidez, diálogo, mudança, tolerância, agilidade e participação. Outra prova deste encanto foi demonstrada perante um auditório cheio, na conferência que Bijoy Jain proferiu na segunda edição do ciclo Distância Crítica organizado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa e que teve lugar no Centro Cultural de Belém no dia 14 de Abril. Nessa mesma tarde, Jain falou-nos do seu trabalho.

 

Londres, Maio de 2015
Pedro Castelo


::::

 

Entrevista a Bijoy Jain [1]

 

A sua prática profissional é bastante particular quando comparada com as práticas que tendencialmente encontramos nos nossos dias pelo mundo fora. Apesar deste carácter particular, é uma prática muito bem sucedida e reconhecida internacionalmente. Como é que isso tudo aconteceu?

BJ: Acho que se tratou mais de uma evolução do que uma ideia precisa ou de um grande plano. Tudo apareceu por uma questão de necessidade. A determinada altura, mudei-me para uma pequena cidade, não muito longe do sul de Mumbai. Tivemos de criar algumas habitações para nós próprios, bem como para alguns dos jovens arquitectos que então trabalhavam comigo. Algumas pessoas da comunidade local envolveram-se no projecto. Tudo começou com seis ou cinco pessoas, essencialmente pedreiros, um especialista em telhados. Tudo começou aí, pouco a pouco. Mas antes disso, imediatamente depois de ter voltado dos Estados Unidos, ou mesmo antes, enquanto ainda estava em Mumbai, eu trabalhava de uma maneira clássica, muito parecida com a maneira com a qual os arquitectos em geral tendem a trabalhar, isto é, elaborando desenhos técnicos, etc. Passei muito tempo a trabalhar assim, mas cedo descobri que ninguém realmente olhava para esses desenhos. Tem de se perceber que em Mumbai muitas das pessoas envolvidas na indústria da construção não sabe ler desenhos técnicos. De maneira que uma coisa levou à outra. Mas foi essa a minha intenção? De todo. Esse é o modo como eu gostaria de continuar a trabalhar? A resposta é não. Porque para mim o que é realmente importante é encontrar uma infra-estrutura empenhada numa ideia de interesse e cuidado por um bem ou ideal comum. No nosso escritório estávamos todos ligados pela ideia do que gostaríamos de produzir, com as habilitações ou habilidades que tínhamos, fossem elas muitas ou poucas. Portanto, o escritório cresceu daí. Para mim, o escritório funcionou como um centro de pesquisa, como um laboratório. Os trabalhos que tínhamos não eram muito grandes e isso permitiu-nos trabalhar nos projectos nós próprios. Foi a sequência lógica. E essa foi realmente a base a partir da qual o escritório emergiu tal como é hoje. É claro que agora somos um grupo muito mais pequeno, somos apenas vinte. De mais de duzentos reduzimos para vinte pessoas, mas ainda usamos o mesmo tipo de recursos locais.

 

Portanto, o escritório não começou com as duzentas pessoas, foi crescendo. Como angariou os primeiros colaboradores?

BJ: Aconteceu por passa-a-palavra, pelo tio ou pelo primo de alguém, ou por um amigo. Cresceu assim, de um modo natural.

 

E isso só aconteceu quando regressou à Índia?

BJ: Sim, quando regressei à Índia.

 

Mas, antes disso, já tinha um escritório em Londres. São contextos muito diferentes. Como aconteceu essa transição?

BJ: A maneira como eu trabalhava era muito semelhante em Londres e em Mumbai. Nos projectos iniciais achámos que não éramos capazes. Não que não fossemos capazes de o fazer, mas simplesmente achámos que as pessoas intermediárias não eram muito profissionais. Ou criavam mão-de-obra, ou eram elas a própria mão-de-obra.

 

Ou seja, não estava satisfeito com o papel dos intermediários.

BJ: Não, não estava satisfeito com o facto de existirem intermediários. Nessa altura éramos: eu, as pessoas que construíam, e o intermediário, que no final era quem acabava por consumir todo o dinheiro. E eu acabava enterrado com a responsabilidade sobre toda a gente. Não fazia sentido. Não que eu recusasse a responsabilidade. Mas, ao cortar caminho, eu conseguiria uma relação mais directa e mútua. Para além disso, tinha também a vantagem de assim ter a oportunidade de me envolver mais com o trabalho que eu estava a fazer e de assim conceber um trabalho que eu sabia poder ser feito. Porque, de uma maneira ou de outra, eu diria algo a uma pessoa que por sua vez diria a uma outra. E o modo como esta a interpretaria acabaria por não ser profissional. Especialmente quando muitas destas pessoas envolvidas não sabem nada sobre o acto de construir. Ou, a sabê-lo, apenas através da experiência alheia. Portanto, o que acontecia numa situação destas era a do conhecimento ser simplesmente transferido. Eu aprenderia contigo mas, caso eu aprendesse bem ou não, isso seria secundário. Uma pessoa saberia mais ou menos montar as coisas mas, saber de facto o porquê de as montar assim, era irrelevante. No final, tudo veio desta necessidade de me libertar disso tudo, e do facto de estar a ter de me responsabilizar por acções que não eram necessariamente as minhas.

 

De que maneira a experiência na Universidade de Washington influenciou o seu trabalho? Como é que transportou os seus tempos de escola para a sua prática?

BJ: A escola é uma fundação. A escola é como uma seta que te mostra as diferentes possibilidades e maneiras com que te podes aproximar da arquitectura. Eu ainda dirijo o meu escritório como os estúdios de uma universidade. A arquitectura é um processo de aprendizagem constante. Digo sempre que estou a treinar para vir a ser um arquitecto. Não é por se ter um diploma de arquitectura que se é arquitecto. O que significa ser-se arquitecto? A prática do desenho? A prática de se construir algo? A prática de se medir algo? A prática de se tirar fotografias? Tudo isto faz parte da prática de um arquitecto.

 

O que definiria como sendo os momentos chave da sua carreira? Quais foram as etapas mais marcantes que, de alguma maneira, o ajudaram a definir as suas ideias? Houve algum projecto ou exposição em particular que tenha sido fundamental para o seu trabalho?

BJ: Sim. Nesse sentido, a Bienal de Arquitectura de Veneza com a Sejima, em 2010, foi um limiar importante. Também anteriormente a isso tivemos uma instalação no museu Victoria & Albert em Londres. Portanto, houve um par de coisas que aconteceram nesse período. Mas isso foi mais do ponto de vista da exposição mediática, enquanto que os limiares ou avanços realmente importantes acontecem de projecto para projecto. Cada projecto é um limiar que uma pessoa atravessa. Eu acho que isso é muito importante em termos de prática. Não se trata somente de se abrir uma janela, ou uma porta, mas de facto de a atravessar e não se ficar preso ou limitado a um lugar. Portanto, e mais uma vez, esta ideia de limiar é muito importante para mim. É uma ideia que se traduz em investigação e pesquisa, na procura de métodos e meios específicos àquilo que fazemos e através daquilo que fazemos. Cada projecto é olhado de forma independente. A ideia principal talvez permaneça consistente através de todos eles, mas o processo de abordagem pode variar.

 

Em relação à exposição mediática, de que forma afectou o seu trabalho? Qual a sua importância?

BJ: Acho que trouxe sobretudo um novo entendimento ao que eu estava a fazer. Tive de examinar mais cuidadosamente o meu trabalho porque, por vezes, fazemos coisas sem saber muito bem porque razão as fazemos. Pessoalmente, acho que de vez em quando é melhor não saberes o porquê de as fazeres. Há uma certa ingenuidade, uma certa abertura e frescura nisso. Mas, ao mesmo tempo, também me parece importante perguntarmos o que é que cada um faz e porque razão o faz dessa forma. A exposição foi importante na medida em que levantou uma série de questões acerca da direcção daquilo que era pretendido, ou do que advinha desta ideia ou modo de trabalhar. Eu já sabia, nessa altura, na Bienal de Veneza, que não queria manter uma grande infra-estrutura. Tinha apenas de testar se éramos capazes de produzir este tipo de trabalho. É preciso perceber que na Índia, por vezes, operamos com uma baixa auto-estima. E não estou a dizer que este é sempre o caso. Mas somos em geral cépticos relativamente àquilo de que somos capazes. Estamos sempre a olhar para outros sítios e tentamos mimetizar isto ou aquilo. E eu simplesmente procurei os óptimos recursos, o potencial, a qualidade e o talento que estavam disponíveis ali. Para mim, a questão colocava-se em como controlar e usar tudo isso. Como pegar nisso? Como trazer isso para o trabalho?

 

Está portanto a dizer que a sua filosofia de trabalho emerge através destes momentos de limiar, que acontecem em cada projecto, como também através da exposição mediática, que de algum modo o forçam a reconectar-se retrospectivamente com o seu trabalho anterior. Mas qual é exactamente a filosofia que está por detrás desse trabalho? Quais as ideias principais que procura sempre alcançar?

BJ: Estou principalmente interessado nesta ideia de negociar o tempo, na capacidade de cada projecto absorver as forças de mudança e de as acomodar em cada esquema, não tanto enquanto uma posição de resistência, mas antes como uma posição de tolerância.

 

Gostaria também de falar sobre a questão da sustentabilidade, um tema recorrente a propósito do seu trabalho.

BJ: Sustentabilidade em que sentido?

 

Hoje em dia estamos perante duas escolas de pensamento opostas em relação ao modo de abordar a questão da sustentabilidade. A primeira, que por exemplo podemos encontrar em muita da arquitectura feita em Portugal e que entende a arquitectura como sendo intrinsecamente sustentável, pela sua durabilidade, ou pela sua eternidade.

BJ: Mas será que a arquitectura é eterna?

 

Bom, não necessariamente. Estava a referir-me ao acto de se conceber ou pensar a arquitectura como algo que perdura, usando menos recursos ao fazê-lo de uma determinada maneira. Isto em contraste com a atitude generalizada que se encontra actualmente de projectar para períodos de validade muito curtos. Claro que há certos climas que não levantam tantos problemas em relação a isolamentos térmicos e afins, mas estou a dispersar. Voltando àquilo que estava a tentar explicar, encontramos também uma atitude exactamente oposta e que confia plenamente na tecnologia. Uma posição em que se acredita ser sobretudo através da tecnologia que se pode reduzir o impacto ambiental a quase zero. Portanto, eu acho que estamos entre estas duas posições: uma que acredita na tecnologia como a única via de avançar e uma outra que usa recursos locais, os conhecimentos e talentos locais, tal como faz o Studio Mumbai — e aqui aparecem mais uma vez as semelhanças com certos aspectos da arquitectura portuguesa. Gostaria ainda de acrescentar a isto algo que li no Wall Street Journal, relativamente ao facto de ter de momento alguns projectos a decorrer em Espanha e na Suíça. Também soube que está a planear uma torre em Mumbai. Portanto, considerando aquilo que foi dito, gostaria de saber como lida com esta mudança de escala e localização.

BJ: Chamar-lhe-ia mais uma mudança de tamanho e não de escala, porque escala tem que ver com proporções. E as proporções são passíveis de serem transportadas por todas as dimensões. No entanto, percebo o que quer dizer com escala, no sentido de ser criada uma maior complexidade e de como se negoceia com tudo aquilo com que temos de lidar. Neste caso, um conjunto mais complexo de condições, por exemplo, com licenciamentos, autoridades locais, empresas, cooperações, mão-de-obra, recursos humanos, etc. Penso que a estratégia é a mesma, caso se tratem de cem metros quadrados ou de dez mil. No final, a estratégia estabelecida é a mesma. Estou sempre interessado nesta ideia de fluxo, de forças que estão sempre em mudança. Porque, desde o dia em que se concebe um projecto até ao momento em que este é construído, há tantas coisas que acontecem. Agora, como é que se antecipa e se acomoda no esquema essas forças que têm a capacidade para tolerar, absorver, de aguentar, de participar na acção de dar forma a um edifício?

 

Sim, isso em relação à ideia do projecto. E em termos da metodologia?

BJ: A torre, por exemplo, implica uma estrutura, uma armação. Existem empresas envolvidas. E nós trabalhamos com esse tipo de empresas. Mas, no que diz respeito ao modo como o edifício é habitado, tudo o que tem que ver com os aspectos da habitação — portas, janelas, fachada —, tudo isso é feito de dentro. Portanto, num determinado sentido, começamos por viver o edifício. Como temos uma armação estrutural, a ideia é a de sobrepor estes dois sistemas: um mais formalizado e um outro menos organizado, por exemplo, quando temos um grupo de pequenos empreendedores que se junta para prestar um determinado serviço.

 

Convocaria alguns dos seus colaboradores de Mumbai para Espanha, por exemplo?

BJ: Já não trabalho mais dessa forma. Mas sim, juntaria diferentes agentes.

 

De fora do escritório?

BJ: Sim. Não teria de ser de dentro do escritório. No entanto, o escritório ainda tenta ser uma espécie de laboratório de teste, ou um campo de treino. É o que eu chamo de um laboratório de pesquisa. A questão agora é de como aplicar isso externamente. Ou de como se podem usar os modelos que foram usados para desenvolver estas ideias, e de como se conseguem convocar outros grupos individuais para participar do mesmo modo.

 

Acha que os projectos, como o do Chile, vão levar o escritório para um outro sítio? Ou seja, sente que o escritório se encontra num período de transição?

BJ: O mais importante é operarmos num sistema que exista para nos guiar e não para nos dirigir ou ordenar. Estou interessado em trabalhar num sistema que participe, construtivamente, mas com abertura. Estou a falar disto de uma forma vaga. Eu lutei contra um sistema que é muito dogmático, porque nesse sistema já se sabe a priori o que o projecto vai ser. E eu não quero saber o que o meu projecto vai ser ainda antes de ter começado. Isto faz algum sentido?

 

Sim, está a falar do processo.

BJ: O processo é um instrumento que dá forma, mas quando eu digo processo, refiro-me ao momento em que se expõe uma ideia ao tempo (clima), e uso a palavra de um modo metafórico, ou poderia dizer também ao ambiente, ou ao meio. Seria óptimo se pudessemos permitir ao meio participar no acto de dar forma de modo que os obstáculos que vão aparecendo nos forcem a desenvolver uma agilidade e rapidez não muito diferentes das que se ganha numa arte marcial, ou da do boxer no ‘ring’, sempre em movimento para se esquivar às pugiladas. Isto com o único intuito de nos mantermos livres, e de que os valores essenciais do projecto se mantenham relativamente intactos. Ele talvez se transforme mas somente para encontrar a sua expressão. Este talvez seja um pequeno exemplo, mas é suficiente para ilustrar o que estou a dizer. Quando construímos a casa ‘Palmyra’ a minha ideia original era na verdade de a construir em betão, nunca foi concebida como uma casa em madeira. Eu queria que as paredes tivessem quatro polegadas de espessura, mas eu não sei como projectar em betão. Eu chamei um engenheiro e ele disse-me que tinha de as fazer pelo menos com nove polegadas de espessura. Ainda falei com mais duas pessoas mas acabei por encontrar os mesmos problemas. Portanto, tinha a escolha de, por um lado, continuar por essa via, de absorver e reconsiderar o esquema, ou então, e como o fiz, de ver o que poderia fazer com o que tinha. Comecei à procura. Os recursos que eu na altura tinha eram maioritariamente carpinteiros. Fazia sentido de usar madeira ao longo da costa por esta não ser corroida pelo sal do mar. Pensei que poderia funcionar bem. Para além de também envelhecer bem — existe um mito acerca desta ideia de que a madeira não aguenta com o sal do mar — mas olhamos para os barcos e embarcações, toda a indústria marítima... Tendo dito isto, eu tinha os recursos, tinhamos também exemplos de outras estruturas ao longo da paisagem que usavam parcialmente madeira e portanto eu fui capaz de estudar e de aprender com o que vi e realmente desenvolver o projecto inteiro através daquilo que era possível fazer.

 

Para terminar, qual o sentimento perante o estado em que a profissão se encontra nos dias que correm? Muitas pessoas têm uma visão pessimista. Qual é a sua?

BJ: Não sou pessimista. Acho que existe actualmente muito trabalho interessante a ser feito por todo o lado.

 


::::

 

NOTAS

[1] Entrevista realizada por Pedro Castelo a Bijoy Jain por ocasião da segunda conferência da segunda edição do ciclo Distância Crítica organizado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa e que teve lugar no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no dia 14 de Abril de 2015. [http://www.trienaldelisboa.com/pt/#/intervalo/distancia_critica]

 


::::

 

Bijoy Jain
(Mumbai, 1965) Fundador do Studio Mumbai. Trabalha actualmente em Mumbai, na Índia, depois de ter trabalhado em Los Angeles e Londres entre 1989 e 1995. O trabalho do Studio Mumbai foi apresentado na 12ª Bienal de Arquitectura de Veneza, em 2010, e distinguido com o Prémio Global de Arquitectura Sustentável do Institut Français d’Architecture (2008), o BSI – Swiss Architectural Award e a Grande Médaille d'Or da Academie d'Architecture (França, 2014). Leccionou em Copenhaga e na Universidade de Yale, e é desde 2014 professor convidado na Escola de Arquitectura em Mendrísio.

 

Pedro Castelo
(Porto, 1976) Arquitecto e professor sediado em Londres. Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (2000) e Mestre de História e Teoria da Arquitectura pela Architectural Association (2004). Professor convidado na University for the Creative Arts in Canterbury desde 2008. Candidato no programa de doutoramento do London Consortium.