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BELEZA APESAR DE TUDO — AIRES MATEUS E A ARQUITECTURA QUE SE MOSTRA AUSENTE
JOÃO ALMEIDA E SILVA
Expor arquitectura num museu constitui, necessariamente, um confronto com aquilo que nunca se poderá mostrar por completo: o edifício. E expor arquitectura num museu essencialmente dedicado à arte contemporânea acrescenta uma camada adicional de complexidade, dado que o público de um Museu de Arte Contemporânea difere, em parte, do público de um Centro de Arquitectura. Da conjugação destas duas premissas resultam duas circunstâncias: por um lado, é imperioso lidar com a ausência do edifício; por outro, é necessário reconhecer que os elementos expostos terão sempre uma escala distinta da do objecto real.
Foi precisamente este o desafio lançado pelo Museu de Serralves e pelo curador Nuno Crespo aos arquitectos Manuel (1963) e Francisco Aires Mateus (1964). O resultado transforma essa dupla impossibilidade em matéria crítica. Mais do que resolver o problema de expor arquitectura, a exposição, patente na Ala Álvaro Siza, assume-o como condição inevitável — e faz dessa limitação o seu argumento central.
Ao longo das últimas décadas, os arquitectos Aires Mateus construíram um dos percursos mais coerentes da arquitectura portuguesa contemporânea, marcado pela insistência em princípios abstractos, pela depuração formal e por uma reflexão persistente sobre arquétipo, matéria ou limite. Nesta exposição, segundo Nuno Crespo, o edifício — e com ele a experiência concreta do habitar — é substituído por objectos de grande abstracção, tratados como entidades autónomas, capazes de condensar a singularidade da obra.
Essa operação apresenta os elementos do edifício desligados das condições que lhes deram origem. As representações autonomizam-se, adquirindo estatuto artístico — por vezes com grande eficácia, outras com resultados mais ambíguos, pois a substituição nunca é neutra. A ausência do edifício reconduz inevitavelmente à exibição das suas representações: plantas, cortes, alçados, maquetes e fotografias. Expor arquitectura é sempre expor a sua ausência, pelo que, no museu, a arquitectura não habita; apenas se anuncia.
Não são, portanto, os edifícios que ocupam as salas — na verdade, nunca o são — mas as suas sombras, os seus registos, os gestos que lhes dão forma. Os instrumentos de trabalho da arquitectura convertem-se em peças de arte contemporânea. Tal como o título remete para uma ideia de simplicidade enquanto operação crítica: eliminar o excesso como via para a clareza, onde a mestria reside na depuração. A arquitectura emerge no espaço entre os constrangimentos que dão forma ao edifício e a busca da beleza, até alcançar, no limite, o estatuto de obra de arte.

AIRES MATEUS: Beleza apesar de tudo, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto, de 27 de novembro de 2025 a 19 de abril de 2026.
Fotografia © nvstudio
As grandes telas, com quatro, cinco e mais metros, que apresentam plantas, cortes e alçados, impressionam à distância pela leitura quase abstracta e dicromática de jogos de cheios e vazios. De perto, revelam o rigor dos desenhos técnicos, maioritariamente à escala 1:20, reinstalando a tensão entre contemplação estética e instrumento disciplinar. As maquetes, partilhando escalas e abstracção semelhantes, reforçam essa autonomização: capturam a lógica formal dos projectos, mas afastam-nos da experiência concreta do habitar. Esta operação não é apenas expositiva. Reflecte uma condição mais ampla da disciplina contemporânea, cada vez mais mediada por imagem e representação. No museu, essa mediação torna-se visível — mas talvez não seja aí que ela começa.
Mais do que mostrar a obra dos Aires Mateus, Beleza Apesar de Tudo expõe a arquitectura enquanto problema: a sua resistência à musealização, a tendência para a autonomia formal e a dificuldade em reconciliar pensamento abstracto e experiência vivida. Funciona como ensaio crítico sobre a impossibilidade — ou limite — de expor arquitectura.

AIRES MATEUS: Beleza apesar de tudo, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto, de 27 de novembro de 2025 a 19 de abril de 2026.
Fotografia © nvstudio
Logo à entrada, uma longa mesa apresenta uma série de cadernos de desenhos como registo contínuo de um pensamento em processo. Na parede sobre essa mesa, uma peça de carácter quase enciclopédico reúne todos os projectos expostos, funcionando como atlas e índice. Mais do que ordenar cronologicamente a obra, este conjunto afirma uma lógica de repetição, variação e método, essencial para compreender o trabalho da dupla.
Ainda na entrada, destaca-se a peça Seoul, instalação circular que condensa, de forma abstracta, uma leitura da história da arquitectura: do clássico às experiências modernas, das massas recortadas por lanternins ou óculos aos pilares cruciformes de Mies van der Rohe. Exemplos como a Casa em Monsaraz sugerem aproximações ao Panteão de Roma; o projecto de Berlim remete para os quatro apoios “apropriados” de Mies e para o edifício adjacente da sua autoria. Não se trata de narrativa linear, mas de um campo expandido de referências estruturais.
A exposição organiza-se em cinco núcleos: Jardim, Matéria, Tempo, Lugares e Geografias.
No núcleo Jardim, maquetes de programas distintos dispõem-se sobre estruturas verticais que evocam caules. A arquitectura surge como flor, suspensa antes da inscrição no território. Ao separar os edifícios do chão — lugar da contingência e do uso — a exposição aproxima-os de um campo tipológico, onde cada projecto se apresenta como variação de um mesmo sistema formal. A diversidade programática dilui-se numa leitura unificada da obra, marcada pela repetição e pela busca do arquétipo.
Esta suspensão produz ambiguidade: permite observar afinidades formais entre projectos distantes, mas reforça a condição autónoma da maquete, afastando-a da relação com o sítio e com o corpo. O jardim construído é, assim, um jardim abstracto, campo onde a arquitectura se contempla a si própria. Essa auto-referencialidade é simultaneamente risco e oportunidade crítica: ao suspender a arquitectura da contingência do uso, a exposição aproxima-a perigosamente de um regime formalista — mas é precisamente nessa suspensão que se revela a coerência radical do método da dupla. Dessa forma, o método assume-se como a verdadeira forma; o edifício, apenas consequência.
Em Matéria, o foco desloca-se da forma para a substância. Projectos como Porto Palafita, Melides, Barreiro ou Monsaraz sublinham a arquitectura como construção de espessura, peso e textura. A matéria não surge como revestimento, mas como princípio organizador do espaço. Muro, massa e continuidade definem interior e exterior. Contudo, mediadas por maquetes e desenhos, arquitecturas pensadas para serem tácteis tornam-se visuais, convertendo a matéria em imagem — quase em simulacro da sua própria densidade. É aqui que a resistência da arquitectura à exposição se torna mais evidente, pois aquilo que deveria pesar e envolver o corpo reduz-se inevitavelmente a superfície observável.
O núcleo Tempo reúne projectos como Benavente, Alhambra, Berlim e Cairo, articulando contextos distintos através da relação com a história. O tempo surge como espessura cultural e simbólica, não como cronologia. O diálogo faz-se por aproximação estrutural: a história é sistema e permanência. Contudo, ao tratar o passado como estrutura abstracta e continuidade formal, corre-se o risco de neutralizar a sua dimensão política e contingente, reduzindo-o a repertório disciplinar. A coerência do método sai reforçada — mas a fricção histórica tende a diluir-se.
Em Lugares, explicita-se a tensão entre arquétipo e sítio. Projectos como Tournai, Sines, Toulouse e Lausanne funcionam como variações dessa relação. Em Tournai, o arquétipo aproxima-se da tautologia — uma casa é uma casa é uma casa. Em Lausanne, uma variação da instalação Fenda evidencia a tensão entre volumes maciços — tal como acontecera na Casa de Alenquer, projecto-viragem na obra da dupla, onde o confronto entre muro e volume produz fricção entre limites.
Geografias amplia a discussão à escala global, reunindo projectos em Melbourne, Puerto Escondido, Ilha do Fogo, Nova Deli e Pinheirinho. Mais do que demonstrar estilo, revela-se a capacidade de aplicar um mesmo método conceptual a contextos diversos. O projecto para a Ilha do Fogo é exemplar: responde a condições extremas sem abdicar da coerência formal, demonstrando que a arquitectura dos Aires Mateus responde mais a questões de método do que de forma. Mais do que mostrar edifícios, a exposição revela o que a arquitectura quer ser — e o que o mundo faz dela.

AIRES MATEUS: Beleza apesar de tudo, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto, de 27 de novembro de 2025 a 19 de abril de 2026.
Fotografia © nvstudio
No final, ainda em Geografias, estabelecem-se duas ligações. A primeira remete para a Bienal de Veneza de 2016, com a reprodução de Fenda, sublinhando o regresso à essencialidade do espaço enquanto relação com o corpo. A segunda apresenta um atlas fotográfico das obras — fotografias dos locais, das maquetes, da obra e do edifício concluído — mas nunca da vida posterior desses espaços. E essa ausência é decisiva.
Questionar os métodos canonizados de expor arquitectura — sempre através de representações de um objecto ausente — constitui condição estrutural da exposição. Maquetes, desenhos e imagens oscilam entre documento e objecto autónomo. O que permanece fora é a arquitectura enquanto palco da vida, como amiúde referem os próprios autores: o edifício transformado pelo uso e pelo tempo.
Beleza Apesar de Tudo não resolve essa ausência — nem o poderia fazer. Mas, ao torná-la explícita, assume que a arquitectura, quando exposta, é sempre outra coisa: pensamento cristalizado, forma suspensa, promessa sem corpo. É no reconhecimento dessa disrupção — mais do que em qualquer tentativa de restituição ilusória do edifício — que reside a força crítica da exposição. Ao aceitar que a arquitectura exposta é sempre outra coisa, Beleza Apesar de Tudo transforma a ausência não numa falha, mas num método. E talvez o mais inquietante seja perceber que o museu não distorce a arquitectura — apenas torna visível uma condição que já lhe é própria.
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A exposição Beleza Apesar de Tudo, dos arquitectos Aires Mateus, é organizada pela Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, tem curadoria de Nuno Crespo e coordenação de Cassandra Carvas, Atelier Aires Mateus, e Diana Cruz, Fundação de Serralves, e estará patente na Ala Álvaro Siza até 19 de Abril.
A Fundação de Serralves publicará o catálogo da exposição que inclui ensaios de Marta Bogeá e Ricardo Carvalho, uma conversa entre o curador Nuno Crespo e Manuel e Francisco Aires Mateus e um ensaio fotográfico de Andre Cepeda.
João Almeida e Silva
Arquitecto e Investigador no CEAU da FAUP, Visiting Scholar na Universidade de Princeton.
























