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ARQUITETURA E DESIGN




Série “Everything in the Garden is Rosy”


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EVERYTHING IN THE GARDEN IS ROSY: AS PERIFERIAS EM IMAGENS

LIZ VAHIA


 

 


Desde 2008 até ao presente, ou seja, desde a primeira exposição individual de João Serra na galeria Vera Cortez, que o trabalho do fotógrafo tem vindo a aprofundar o encontro entre um público urbano, distanciado dos ambientes periféricos que povoam a sua obra, e uma certa criatividade marginal presente nas casas auto-construídas, nos abrigos de chapa, na permanente construção e destruição, numa reciclagem constante de materiais e espaços.

 

Apesar das diversas séries que vai alimentando actualmente - “Everything in the Garden is Rosy”, “How to Keep humans From Eating Each Other´s Food” ou “Notebook” - a continuidade temática mantêm-se em todas: a casa, o entorno da casa (o jardim, o pátio, o baldio), as construções efémeras, as singularidades arquitectónicas, a mistura entre o rural e o urbano, os espaços não normalizados.
A arquitectura é central à sua prática artística. Recentemente, o ponto focal nas características formais das arquitecturas periféricas e marginais deu lugar a um afloramento da dimensão etnográfica daqueles ambientes e da própria presença do fotógrafo neles.

 

Se no período inicial da sua carreira havia uma tentativa de isolamento, apropriação e descontextualização dos objectos como entidades fotográficas, onde as cores sólidas, as linhas e as texturas chegavam a uma quase abstracção pictórica, tem havido no seu trabalho recente um olhar mais denso e não tão plástico sobre esses universos. A bidimensionalidade da imagem fotográfica de João Serra, no seu percurso inicial, tem vindo então a dar lugar a uma investigação matizada pela introdução de referências sociais e culturais, políticas e económicas. O território ganhou uma dimensão plena, passou de um campo visual regido pela forma para uma existência como local, como espaço do quotidiano, marcado por uma vivência onde a confluência entre o tempo, o espaço e o social se materializam. Não é que estas preocupações não existissem na sua obra inicial, elas estavam lá, era esse isolar que permitia pensar sobre elas, no entanto, o que está a acontecer agora é que começam a aparecer os agentes dessas transformações, começam a ter visibilidade não só as suas pessoas físicas, mas os seus rastos pessoais, os seus pequenos objectos, as suas marcas individuais. Essas imagens de destruição suburbana, de construções sobre construções, de vidas remendadas, micro-realidades fora de portas, dizem mais do que os estudos sociológicos, são testemunhos dos interstícios da cidade moderna.

 

Os territórios na prática de João Serra têm-se diversificado e ganhado preponderância. Importa agora perceber onde foram feitas aquelas imagens, a quem pertencem aqueles lugares, quem os usa.
No mapeamento e registo quase documental desses espaços, dessas construções orgânicas e efémeras, parece emergir nesse processo uma missão quase arquivista, de registar formas e cores, variedades de soluções diferentes.

 

No seu projecto “Dacha”, encontramos essa dimensão de registo da variabilidade. As “dachas”, casas de campo russas, contrastantes na sua estrutura com a arquitectura oficial soviética, são um bom exemplo de como a imensa combinação de elementos constructivos e a criatividade individual não podem ser reduzidos a uma única imagem.

 

A periferia não é a periferia, são precisas muitas imagens e mesmo assim não esgotará a capacidade de nos surpreender.

 

 

Liz Vahia