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ARQUITETURA E DESIGN




Francisco e Manuel Aires Mateus. Fotografia: Francesca Gramegna.


Zaha Hadid. Fotografia: Francesca Gramegna.


Zaha Hadid. Fotografia: Francesca Gramegna.


Peter Zumthor. Fotografia: Stefano Tornieri.


Toyo Ito. Fotografia: Laura Fregona.


Toyo Ito. Fotografia: Laura Fregona.


Urban-Think Tank, com Justin McGuirk e Iwan Baan. Fotografia: Stefano Tornieri.


Urban-Think Tank, com Justin McGuirk e Iwan Baan. Fotografia: Laura Fregona.


Urban-Think Tank, com Justin McGuirk e Iwan Baan. Fotografia: Laura Fregona.

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DRESS SEXY AT MY FUNERAL: PARA QUE SERVE A BIENAL DE ARQUITECTURA DE VENEZA?

STEFANO TORNIERI E PEDRO CAMPOS COSTA


A 13.ª Bienal de Arquitectura de Veneza terminou há apenas dois meses e ainda antes de se saber qual era o tema da próxima já existia um frenesim à volta do nome proposto. A nomeação de Rem Koolhaas para a 14ª Bienal foi recebida com exagerado entusiasmo, numa clara ansiedade de dar sentido a uma Bienal que procura ser central na discussão dos problemas mundiais e das suas vertiginosas mudanças.

De facto, qual o sentido de uma Bienal quando a resposta da maioria dos arquitectos ao repto do Common Ground proposto por David Chipperfield na 13.ª Bienal foi uma exposição de projetos e de personalidades? Infelizmente, estes projectos e personalidades simplificaram, banalizaram o debate, numa desactualizada visão heróica da autonomia disciplinar.

A proposta de Chipperfield pressuponha o contrário: um caminho das ideias colectivas e das ambições partilhadas, tentando afirmar a existência de um terreno comum, de uma cultura arquitectónica comum onde se retém um envolvimento da sociedade e de participação. Apesar da grande maioria perseguir uma auto-celebração, também surgiu uma segunda direcção que respondeu de forma muito clara ao desafio e que demonstrou que acredita na cooperação, na partilha e na colaboração multidisciplinar e social.


Visão disciplinar

Muitos dos arquitectos interpretaram o terreno comum concentrando-se na autonomia disciplinar fechada, num solipsismo criativo com produção de formas úteis apenas para confirmar a sua própria poética.

Grafton Architects mostraram-se devedores dos espaços nus de Paulo Mendes da Rocha, propondo uma relação de longa distância entre maquetes em diferentes escalas sobre questões comuns da arquitectura, o vazio, a estrutura, a linguagem mínima. Nas paredes estavam vários esquiços relativos aos projectos expostos, que ilustravam a ideia e a capacidade de síntese formal da mão do arquitecto.

Uma grande escultura de ferro assinada por Francisco e Manuel Aires Mateus, localizada ao lado do arsenal de Sansovino, tentou falar com a história local através de uma geometria contemporânea. As experiências com metais alcançaram picos com Anish Kapoor e Richard Serra, mas este trabalho comunicou mais com os temas desenvolvidos pelos arquitectos Aires Mateus nas suas casas (ver casa em Monsaraz) e, em geral, com toda a sua carreira artística construída principalmente sobre o tema dos contrastes como sólido-vazio, abstracto-real, compacto-fragmentado.

Peter Eisenman expressou sua ideia de um terreno comum com outros professores e estudantes da prestigiada Universidade de Yale, trabalhando em fantásticas e imaginativas camadas sobrepostas (collage city), oferecendo jogos complexos entre novas visões arquitectónicas e a tavola de Campo Marzio de Piranesi. Numa recente entrevista à revista Mark (n.º 41), o arquitecto americano especificou que a sua participação apenas serviu para se mostrar – “just to show myself”.

Uma série de maquetes penduradas mostraram o profundo vínculo teórico que liga Zaha Hadid com os pioneiros da pesquisa estrutural, como Felix Candela ou Otto Frei Heinz Isler. A flor de aço, construída entre as colunas do Arsenal, fragmenta a percepção do espaço e é de grande impacto expressivo, mas permanecem apenas como uma reafirmação da carreira artística da arquitecta iraniana.

Peter Zumthor passou directamente para os meios de comunicação. Wim Wenders realizou um documentário sobre ele, desenvolvendo a investigação que já começou dois anos antes do potencial do vídeo em relação à percepção do espaço. Desta vez, o título do documentário é: One day in the life of an architect. O sujeito já não é uma obra mas sim o próprio Peter Zumthor. O documentário resulta numa mistificação pura da vida quotidiana, numa exaltação do eremita isolado de tudo.


Arquitectura como plataforma

O Leão de Ouro para a melhor participação nacional foi atribuído a Toyo Ito e à sua proposta de apelo social fortemente marcada pela relação com uma situação de tragédia. Após o tsunami de 2011, a situação de terrain vague provocou a discussão em torno da capacidade “auto regenerativa” do homem. A reutilização de resíduos foi algo para além da reutilização de espaços abandonados e tornou-se a resposta à dúvida sobre se a arquitectura pode ser feita num não-lugar. A colaboração entre arquitectos e habitantes foi verdadeiramente um terreno comum. Uma colaboração e uma função social clara para a arquitectura, num sítio onde depois do tsunami era preciso reconstruir não só casas mas lugares públicos e uma identidade perdida. O trabalho de Ito fez-se de gente e construiu-se como uma plataforma, uma verdadeira plataforma construtiva. Os resíduos foram os materiais para uma composição em que o domínio da forma e da linguagem perderam sentido.

O testemunho de Ito ensinou-nos que a ambição e o objectivo da pesquisa arquitectónica deve redireccionar os seus esforços no sentido de voltar a dar significado ao fazer arquitectura. Questionando, ao mesmo tempo, os fantasmas da última década sobre a redefinição da profissão de arquitecto. Acreditando no projecto como participação e como oportunidade de diálogo com as pessoas. Afastando-se das torres de marfim do conceito de arquitecto como figura autónoma. Trabalhar com os restos de uma catástrofe não é apenas uma operação física. É também ideológica. É uma ideia para o futuro da arquitectura em que o material para o projecto é tudo o que o lugar tem para oferecer.

O evento colateral da participação mexicana foi um bom exemplo para o tema da reabilitação urbana. Neste caso, não ficou apenas pela intenção, desenvolvendo-se num lugar da cidade de Veneza. Através de um acordo entre o México e o Município de Veneza, a igreja de San Lorenzo acolherá o Pavilhão nacional Mexicano na Bienal de arte e arquitectura para os próximos nove anos. Em troca, o México assumirá o restauro da antiga igreja que se encontra num perigoso estado de abandono desde 1920, numa remodelação que devolverá o monumento à cidade. Miquel Adrià, o curador do pavilhão do México, previu para os projectos seleccionados um túnel formado de painéis coloridos em frente à entrada da igreja, incluindo simultaneamente uma visita à obra como parte da exposição. A operação teve um alto impacto material. A experiência da obra, ao entrar-se num espaço activo, em transformação, torna-se assim um símbolo da participação colectiva na transformação da cidade.

O projecto expositivo do pavilhão Torre David: Gran Horizonte, concebido pelo colectivo Urban-Think Tank, em colaboração com Justin McGuirk e Iwan Baan, ganhou um Leão de Ouro. O projecto retratou o fenómeno da Torre David, um moderno edifício de vidro e betão localizado no centro de Caracas que acabou por não ver concluída a sua construção devido à crise económica. Desde 2007, a Torre, parcialmente inacabada, foi sendo ocupada por 650 famílias desabrigadas. Colectivamente, estas famílias criaram a maior comunidade organizada à escala global, com casas para idosos e deficientes, e administraram um verdadeiro sistema de vigilância organizado pelas pessoas que lá vivem para a segurança do edifício. Dos 45 andares da Torre David, mais de 28 são ocupados por cidadãos que criaram lojas e actividades. O Leão de Ouro para o melhor projeto da Bienal foi assim para um projeto fracassado, para um sonho da modernidade que permaneceu inacabado, para um espaço que regressou à vida graças a um acto quase heróico. Um acto em que aqueles que não têm nada recuperam um edifício abandonado pela sociedade para reinventar uma função, um novo uso.

Este projectos refrescam a Bienal e os prémios que receberam demonstraram essa evidência, essa ansiedade de outra perspectiva, de uma outra formulação para além do umbigo do arquitecto.


Winds of change

A Bienal, ao premiar e distinguir a importância da arquitectura socialmente útil, não reconhecida pela autoria mas pela qualidade social e urbana que é capaz de gerar, acabou por contradizer a total isenção de crítica ao star-system. Como se procurasse um consenso generalizado totalmente desnecessário. Mesmo que a Bienal de Veneza tenha concorrentes mundiais e talvez já não seja a principal exposição de arquitectura no mundo, é ainda um centro de debate internacional e como tal deve exibir e seleccionar com coragem e frontalidade os projectos que estimulem esse debate. Esta timidez cria um equívoco ou um acto falhado como se existisse uma dislexia entre aquilo parece que se queria e aquilo que efectivamente foi.

Em torno destas questões, alguns críticos influentes têm mostrado a necessidade de uma mudança radical. Como Michael Rojkind que, em vez de common ground, propõe um ground zero: “First, I would choose a curator based on the proposal involved – and not the name. I do not think everything should be common. We live in a world with constant polemics and no stability. So the discussion should be about how to embrace instability rather than about what we have in common. It’s too pacifying.” (Mark, n.º 41)

Winy Maas, dos MVRDV, critica a falta de visão do futuro da Bienal: “I think the Biennale is somehow too small. I would push the pavilions outside – extend the show to the city, in the gardens, on the water. I miss the involvement of people, and if I compare it with Documenta, I miss that speed, of which i cannot get enough. In the current edition, I find too many observations on the future. I see too much repetition, which doesn’t inspire me much.” (Mark, n.º 41)

Estamos à espera então de uma Bienal que represente e investigue esta crise através de um debate aberto alimentado por iniciativas mais radicais e mais críticas. Como foi recentemente sugerido por Pedro Gadanho, novo curador no MoMA: “A curadoria é a nova crítica”. Se pensarmos nas Bienais de Arte de Veneza dos anos 1960 e 70, não é uma ideia inovadora. No entanto, hoje é uma postura mais necessária que nunca. Ao contrário de um terreno comum estático e autónomo, o contexto em que os arquitectos são chamados a projectar não é estático. O contexto está em constante mudança, vibra. Como sugerido por Hans Hollein em 1996, o arquitecto, como um sismógrafo, deve agir criticamente.

Nas palavras do colectivo Urban-Think Tank: "Nós viemos de séculos em que os arquitectos e urbanistas viviam num clima em que foram colocados num pedestal, enquanto o projecto, socialmente orientado, foi considerado uma reflexão tardia. Com o tempo, essa tendência perdeu a sua importância. Hoje, o mundo exige algo mais complexo para arquitectos e designers, e esperamos que o nosso trabalho, tanto na prática como na investigação, possa fazer parte desta mudança de paradigma." (Ghirlandaio, www.ilghirlandaio.com)


A Bienal de Veneza não pode ser um vazio total de ideias onde não se pergunta ou se especula sobre a maior transformação económica social e política mundial depois da segunda guerra mundial. Recordando o título de um tema de Bill Callahan (Smog), “Dress sexy at my funeral", um funeral não o deixa de ser com vestidos de alta costura por muito sexy que sejam. Um funeral é um mero enterro, uma despedida, um último adeus. Está na hora de deixar ir o morto em paz. Que se faça a cremação e respectivos rituais de despedida. Que venha daí o próximo evento. Que a próxima Bienal de Arquitectura seja, no mínimo, uma proposta de casamento com uma festa à moda antiga: back to basics.


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[os autores escrevem de acordo com a antiga ortografia]

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Stefano Tornieri
(Arzignano, 1985) Arquitecto pela Università IUAV di Venezia em 2009 e estudante Erasmus na ETSAB de Barcelona. Em 2010, participou na missão arqueológica italiana a Hierapolis di Frigia, na Turquia. É assistente convidado no IUAV de Veneza desde 2010. Actualmente, é doutorando em composição arquitectónica na Università IUAV di Venezia sob orientação de Carlo Magnani e Jorge Figueira.

Pedro Campos Costa
(Lisboa, 1972) Arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1997. Sócio fundador de Campos Costa arquitectos desde Novembro de 2007. Vencedor de vários prémios, nos quais se destaca o 40 under 40 europe's emerging young architects and designers (2012). Membro da Redacção da equipa Editorial do Jornal Arquitectos (2012-2014). Lecciona no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa.