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ENTREVISTA


Camille Morineau no primeiro Congresso Arte e Género? Fotografia Teresa Tojo.


Fotografia Teresa Tojo.


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CAMILLE MORINEAU


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Assinou exposições como a retrospectiva de Roy Lichtenstein, Gerhard Richter ou Yves Klein no Centre Pompidou, onde foi curadora durante dez anos. Passou pela galeria Jeu de Paume e pelo Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris. Hoje é curadora independente, sendo responsável pela actual exposição “Niki de Saint Phalle”, no Grand Palais. Pelo caminho comissariou uma das mais visitadas exposições de sempre no Centre Pompidou. “Elles@centrepompidou” exibiu obras de mais de 300 artistas a cerca de 2,5 milhões de visitantes e marcou não só a sua carreira como também o universo de estudos sobre mulheres artistas. Em visita a Lisboa para participar no primeiro Congresso Internacional “Arte e Género?”, Camille Morineau falou à Artecapital sobre “elles”, mas também sobre os seus novos projectos.

Por Natália Vilarinho


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NV: Afirmou numa entrevista, respondendo a uma questão relacionada com a exposição elles@centrepompidou, que “nos Estados Unidos pensa-se em arte feita por mulheres. Em França, nunca, não é um assunto, e se o assunto não existe, não há possibilidade de ser discutido”. Mas, por outro lado, afirmou mais tarde que o seu objectivo com essa exposição não foi produzir um evento feminista. Trazer a arte feita por mulheres para um plano em que possa ser discutido não é um assunto feminista?

CM: A exposição foi um evento feminista. O que tentei explicar nessa altura é que no contexto francês teria sido extremamente difícil apresentá-la como tal. A minha estratégia pode ter sido um pouco estranha, mas também interessante na medida em que consegui fazê-lo dizendo que queria expor mulheres artistas na diversidade da sua produção artística: muito poucas com obras de cariz feminista, mas muita arte abstracta… tudo o que tínhamos na colecção. Mas nunca disse que seria algo feminista porque o feminismo não era na altura um conceito fácil em França. Penso que agora as coisas mudaram um pouco, também graças a “elles“, mas naquela altura, até nas minhas conversas com o director do museu e com os meus colegas foi difícil apresentá-lo como um evento feminista, embora fosse! Apenas não foi dessa forma que “vendi” o projecto.

É difícil entender isto de fora, fui muito criticada, as pessoas disseram que eu não estava a ser radical o suficiente em relação ao feminismo, mas eu não podia mesmo sê-lo. A única forma de seguir em frente com a ambição, o âmbito e a duração deste projecto foi apresentá-lo como algo um pouco neutro, afirmando “OK, metade da nossa colecção não foi ainda mostrada porque são mulheres artistas e temos que ser mais precisos com aquilo que estamos a fazer, temos de ser justos e temos de mostrá-las juntas, porque isto nunca aconteceu e temos de ver o que poderá acontecer em termos de movimentos, história de arte e como poderá mudar o modo como olhamos para a história”.

Foi um grande desafio intelectual organizar este trabalho porque o feminismo teoriza algo mas a teoria feminista em si não repensou a arte no sentido que nós o fizemos, ao criar salas com artistas que nunca trabalharam juntas, mas que para mim estavam relacionadas visualmente, embora não existisse nenhuma categoria para as juntar. Foi um trabalho intelectual muito intenso, que eu apenas iniciei mas que julgo que precisa de ser continuado. A teoria feminista não me ajudou nesse sentido e não ajuda realmente ninguém. Ainda hoje estive a discutir esta ideia: os historiadores de arte que hoje se interessam pelas mulheres artistas deviam pensar em categorias de uma forma mais séria e precisa, porque de certa forma temos que ir muito para além do feminismo.

Concordo plenamente, claro que foi um assunto feminista, mas não o apresentei dessa forma por razões políticas. No entanto, apesar de ter sido um gesto feminista, para mim foi mais um desafio intelectual apresentar aquelas artistas de um modo que respeitasse o seu trabalho, a maior parte não sendo de artistas feministas, mas simplesmente artistas. Esta foi a maior dificuldade. Penso que precisamos de trabalhar estas questões.


NV: Linda Nochlin escreveu que não existe uma “essência” de feminilidade que possa unir o trabalho de Louise Bourgeois e Marina Abramovic. Numa entrevista, afirmou que juntou mulheres na exposição para mostrar que não têm nada em comum. Então o que é que re-laciona entre si as mulheres artistas que escolheu para “elles”, para além do facto de se-rem mulheres?

CM: Foi um evento muito grande, dois pisos do museu, cerca de 800 metros quadrados. A exposi-ção estava dividida em oito capítulos e dentro de cada capítulo, cada sala tinha um tema. O que juntou as artistas foi precisamente o tema que escolhi para cada sala, de modo a termos mais arte abstracta, conceptual ou alguma categoria dentro da arte conceptual.

Sempre que tentei juntá-las num movimento ao qual julgava pertencerem, deparei-me com uma dificuldade: as mulheres artistas realizaram trabalhos em torno de movimentos, muito próximas dos artistas masculinos, mas não foram divulgadas porque as mulheres artistas não eram mostradas ou publicadas, embora estivessem a trabalhar dentro do mesmo movimento. Por isso, parte do meu trabalho foi trazê-las para dentro dos respectivos movimentos, dizendo “o trabalho desta mulher não esteve dentro do movimento conceptual, embora o seu trabalho seja conceptual” ou “esta é uma mulher que fez algum trabalho abstracto nos anos 40 mas não esteve em exposições desse tempo”.

O que as uniu foi o facto de serem contemporâneas e pertencerem ao mesmo movimento, não o facto de serem mulheres. Poucas trabalharam o feminismo ou o feminino e a própria colecção do Centre Pompidou tinha muito poucas artistas feministas. A colecção era muito pequena, eu é que adquiri a maior parte dos trabalhos feministas, que ocuparam uma sala em “elles”. O resto eram artistas vídeo, fotógrafas, pintoras… alguém que entrasse na exposição esqueceria completamente o facto de serem mulheres e apenas veriam uma história da arte contemporânea do séc. XX, e esse foi o meu maior objectivo, mostrar que as mulheres artistas fizeram parte de todos os movimentos da arte do século XX, de todas as técnicas e de todos os estilos. Estiveram escondidas, mas produziram o mesmo tipo de obras que os homens artistas.


NV: Li que o Centre Pompidou não adquiriu novas obras para a exposição.

CM: Adquiriu, poucas, mas adquiriu. Comprei muita arte feminista ainda antes de sequer pensar nesta exposição e quando começámos a pensar nela apercebemo-nos de que não tínhamos obras de algumas das maiores mulheres artistas. Durante um ou dois anos estivemos a tentar completar a colecção. Por exemplo, tivemos à entrada da exposição uma escultura enorme da Raquel Whiteread, artista que não estava presente na colecção. Mas encontrámos grandes patrocinadores e conseguimos trazer uma escultura de uma artista relativamente jovem que considero ser muito importante. Neste sentido, adquirimos algumas obras, mas também recebemos muita ajuda e donativos da parte de artistas, galerias e coleccionadores, que souberam da exposição e quiseram contribuir.

Foi muito bom, tivemos algumas obras a entrar na colecção através de doações, especialmente depois da exposição ser inaugurada e da reacção das pessoas e da imprensa ser positiva. Então aí foi fácil para mim dizer “olhe, “elles” vai ser prolongada, pode ajudar-me a trazer este e aquele artista…?”. Faltavam artistas sul-americanas na nossa colecção, mas na última edição de “elles” conseguimos finalmente ter uma grande sala com artistas sul-americanas porque conseguimos adquirir obras e porque recebemos muitas doações. A exposição cresceu muito, recebemos muitos jornalistas da América do Sul, muitos do Brasil e as pessoas entenderam que queríamos muito artistas brasileiras nesta exposição e ajudaram-nos. Tivemos um grande grupo de amigos que se interessaram muito pelo projecto e ajudaram-nos muito para tornar tudo possível.


NV: Tem alguma ideia de qual era a percentagem de obras de mulheres artistas na colec-ção antes e depois de “elles”?

CM: Antes da exposição sim, porque fiz estatísticas sobre isso: cerca de 12% a 15%. Agora pen-so que seja um pouco mais alta, mas não sei o valor ao certo porque já não trabalho no museu. No entanto penso que hoje as pessoas pensam mais no assunto, antes não era, como disse ante-riormente, sequer uma questão. Estou muito desapontada com os jornalistas porque tinha esperança que depois de “elles” seriam mais cuidadosos com essa questão das estatísticas e dos números e penso que não estão ainda interessados nessas diferenças.


NV: Mas é importante.

CM: É muitíssimo importante, mas… já se sabe…


NV: Pensa que houve uma mudança depois de “elles”? Começou a ver mais exposições com mulheres artistas? “Elles” foi um “statement”?

CM: Sim foi, penso mesmo que foi. Foi e continua a ser. Sei que dentro da instituição foi um grande passo, porque foi um tema que se tornou numa questão muito séria, porque na Europa foi um pouco complicado. O que fizemos foi não apenas uma exposição, foi trabalhar a colecção permanente, e por isso foi um pouco arriscado retirarmos os homens artistas das salas. Não sabíamos como é que o público e os artistas iam reagir. Lembro-me do director do museu dizer que talvez os artistas homens pudessem protestar, tinham medo que os homens dissessem: “O que é que estão a fazer? Porque é que nos estão a pôr de parte?”. Lembro-me de responder que “a maior parte destes homens são maridos de mulheres artistas e não penso que seja do estilo do artista dizer algo nesse sentido”, mas havia um medo real de que houvessem protestos masculinos contra o museu. Claro que não aconteceu nada disso. Também havia um terror da imprensa e de que o público pudesse ficar chocado, houve mesmo um medo profundo das reacções.

Assim que a exposição foi feita, assim que houve a percepção de que a reacção geral tinha sido boa, incluindo a da imprensa internacional, muitos museus sentiram-se mais livres para trabalhar o mesmo tema e fazer exposições só com mulheres artistas. Fui muito criticada antes da inauguração, muitas pessoas disseram: “é completamente estúpido juntar mulheres que não têm nada em comum, é criar um ghetto, o que é que estás a fazer?” ou “é muito tarde, já não estamos nos anos 60”. Eu penso que fazê-lo, como já referi, sem ser demasiado feminista mas simplesmente mostrando a diversidade da produção das mulheres artistas e colocando-as de volta na narrativa histórica do século XX, foi algo muito simples e de certa forma humilde. Penso que isto mudou a visão do mundo da arte acerca de exposições com mulheres artistas, mostrando que é possível fazê-lo sem se ser feminista de um modo agressivo. É possível fazê-lo com artistas que não são feministas e mostrar algo diferente. É possível mostrar que a história da arte tem sido muito unidireccional e não suficientemente complexa. Por isso é também um modo de questionar a história da arte. Porque é que juntamos artistas brasileiras e sul-americanas? Porque estamos a falar de sítios que não se conhecem suficientemente e porque há questões específicas que surgem quando se agrupam pessoas a partir de um certo ponto de vista. Porque não fazer isso com as mulheres?

Penso que “elles” libertou muitas pessoas que puderam finalmente fazer algo que queriam mas não se sentiam à vontade para fazer. Recebi muitas críticas, mas fiquei muito feliz por poder responder desta forma: “sim, estou muito feliz por produzir isto porque estamos a discutir algo importante” e na maior parte das vezes as questões que surgiram foram mesmo muito interessantes. Mas penso que por vezes nos faltam novas categorias na história da arte, não só para mulheres artistas, mas também para artistas africanas ou do Médio-Oriente. Quando se juntam estas pessoas na narrativa da história da arte mudam-se por completo categorias, movimentos, ligações e não temos actualmente ferramentas para reorganizá-las. Por isso existe mesmo uma necessidade de pensar em ferramentas intelectuais que redefinam estilos e movimentos de forma a agrupar artistas de um modo diferente. Tentei fazê-lo com “elles”, comecei mas cedo soube que não tinha o tempo necessário para o fazer. Fiz o melhor que consegui com a minha pequena equipa, mas para mim é certamente o princípio da história, o começo de algo, é como o vejo. Não é o fim mas sim o princípio de qualquer coisa. Tem havido muito mais exposições com mulheres artistas em vários museus, e fico sempre muito feliz quando isso acontece, porque penso que são todas, de certa forma, filhas da “elles”.


NV: O ensaio “Why Have There Been No Great Women Artists?”, de Linda Nochlin, faz 50 anos em 2021. Faz sentido voltar a fazer a mesma pergunta nessa altura e ver que tipo de resposta teremos? Ou podemos dizer que o trabalho está terminado?

CM: Desde que a pergunta foi feita que tem sido respondida de várias formas, mas o truque é con-tinuar a perguntar. A questão já não é tanto o “porquê?”, porque penso que todos sabemos a razão, mas sim saber porque é que estas mulheres continuam a não estar inscritas na narrativa da história de arte. Para mim isto ainda é um problema e a resposta é esta: temos de fazer trabalho de pesquisa e exposições de modo a criar um tipo de grelha para as colocar dentro da história de arte. Na maior parte do tempo as mulheres artistas são consideradas como indivíduos fora das categorias. As pessoas dizem que elas têm trabalhado sozinhas e por isso não podem estar ins-critas num movimento e isso é completamente errado na maior parte das vezes.

O desafio da próxima geração até 2021 (e penso que muitas pessoas estão a trabalhar nesse sentido), é pensar sobre categorias e colocar as mulheres artistas que descobrimos e das quais nunca se falou, dentro dos seus movimentos, ou criar movimentos para elas, mas colocá-las numa grelha de modo a que não tenhamos este discurso que detesto, que diz que “elas foram indivíduos completamente isolados e por isso não podem ser integradas na história da arte”. É a pior coisa para uma mulher artista, ser conhecida como a solitária que trabalha na sua cozinha a fazer arte, é uma coisa terrível de ser dita. Penso que os historiadores de arte devem trabalhar nesse tema, no colocar estas artistas na história e isso aplica-se também a artistas da Índia, África, Médio-Oriente, zonas com menos museus, menos historiadores de arte e mercados de arte menos poderosos, com artistas mais perdidos. É só uma questão de se pôr em ordem pensamentos, teorias, ligações e movimentos para se organizar a história de arte.


NV: Foi por isso que criou o AWARE (Archive for Women Artists, Research and Exhibiti-ons)?

CM: Foi, absolutamente. A ideia é responder à questão da Linda Nochlin, de certo modo. Já sa-bemos porquê, agora como é que inscrevemos as mulheres artistas na história? O AWARE é uma ferramenta para o fazer, é uma grelha onde espero que todas as mulheres artistas encontrem o seu lugar. Cada artista será representada por um texto e uma reprodução do seu trabalho. O texto será escrito por especialistas e será indexado, para que estas mulheres artistas sejam colocadas dentro dos movimentos do seu tempo, das técnicas utilizadas, dos grupos e exposições onde estiveram representadas. Deste modo quem queira, por exemplo, fazer uma exposição sobre arte portuguesa dos anos 20, poderá aceder a um site e encontrar as mulheres artistas que estavam a trabalhar em Portugal. Esta informação ainda não existe. O mesmo pode ser dito acerca de alguém que queira trabalhar o Abstracto nos anos 60. Se fizer pesquisas só vão aparecer nomes de homens, mas com este site, podemos escolher uma lista de mulher artistas que trabalharam no abstracto nessa altura. A minha ideia é tornar a informação disponível de um modo claro, para que estas mulheres artistas deixem de ser completamente desconhecidas, para que sejam inscritas na história da arte, consideradas e respeitadas por aquilo que produzem. Algumas quiseram ser artistas isoladas do mundo da arte, mas a maior parte esteve muito atenta à arte do seu tempo e foram absolutamente esquecidas. A minha ideia é trazê-las ao mesmo nível de informação que existe sobre os artistas que são homens.


NV: Vão ter publicações?

CM: As publicações não são a minha prioridade. Vou tentar angariar financiamento primeiro para um site mas também para congressos como este (Congresso Internacional “Arte e Género?”), mas em versões mais pequenas. Penso que em alguns países é muito importante juntar os especialistas, os historiadores de arte, os críticos e os artistas. Para que a informação esteja sempre presente, os simpósios serão filmados, editados e colocados no site. A minha ideia é oferecer esta informação a toda a gente de forma gratuita: estudantes, professores, trabalhadores dos museus, mas também qualquer pessoa que queira saber algo acerca de mulheres artistas. Se estiver a viver no Líbano, por exemplo, e não souber se existe alguma mulher artista lá, poderei ter acesso a uma lista de mulheres a trabalhar na área. Este tipo de informação ainda não existe.

Vamos ter esta ferramenta que terá pequenas informações, mas que será uma porta que dará acesso a colecções públicas, privadas, publicações e exposições, tudo numa plataforma electróni-ca. Tenho pensado muito neste assunto e penso que depois da exposição “el-les@centrepompidou” e de ter escrito alguns livros, o próximo passo é o site.


NV: Quando é que estará disponível?

CM: Tudo depende do dinheiro que conseguir angariar, mas tenho esperança que seja em breve. Uma das coisas que estou a fazer actualmente para lançar este projecto é a criação de um prémio para mulheres artistas. A maior parte dos prémios de cinema, arquitectura, arte e até literatura são entregues a homens e nunca a mulheres. Então pensei que se pudesse fazer algo um dia para mudar isso seria criar um prémio para mulheres artistas, o que vai acontecer pela primeira vez em Novembro, numa parceria com a revista Marie Claire. É uma forma de divulgar o meu projecto, espero que consiga angariar algum financiamento no início de 2015. Depois teremos outro evento no dia 8 de Março e espero que nessa altura tenha já patrocinadores suficientes para ter uma primeira versão do site pronta. E estou a tentar estabelecer parcerias com museus e universidades de todo o mundo.


NV: Eric Fassin escreveu no catálogo da exposição elles@centrepompidou que “a repre-sentação artística não reflecte sexo, produz género”. Para que possamos, de algum modo, responder à questão presente no título deste congresso, pergunto: a arte tem género?

CM: Penso que depende realmente do artista. Alguns artistas não pensam sequer na questão do género, outros sim. É um dos temas da arte. Um dos temas.

 

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[a autora escreve de acordo com a antiga ortografia]

 

 

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Camille Morineau was responsible for the retrospective exhibitions of Roy Lichtenstein, Gerhard Richter and Yves Klein at the Centre Pompidou, where she was curator for ten years. She worked at the gallery Jeu de Paume and the Musée d´Art Moderne de la Ville de Paris, before becoming an independent curator, responsible for the current exhibition "Niki de Saint Phalle" at the Grand Palais. Along the way, she curated one of the most visited exhibitions ever at Centre Pompidou. "Elles @ centrepompidou" exhibited works by over 300 artists to around 2.5 million visitors and marked not only her career but also the universe of women’s artists studies. On a visit to Lisbon to attend the first International Congress "Art and Gender?", Camille Morineau spoke to Artecapital about "elles", but also about her new projects.

 

By Natália Vilarinho


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NV: You’ve stated on an interview, related to elles@centrepompidou, that “in the States, you think about women´s art. In France, never, it’s not a subject, and if the subject does not exist, there’s no possibility of discussion. And now, we are turning it into a subject”. But, on the other side, you’ve stated later that the goal was not to produce a feminist event. Bringing women´s art to discussion is not a feminist issue?

CM: It was a feminist event, what I’ve tried to explain was that in the french context it was extremely difficult to present it as a feminist event. My strategy was a little strange, but interesting in the sense that the way I could do it was to say that I wanted to expose women artists in the diversity of their production, very few feminist artists actually, but a lot of abstract. I mean everything we had in the collection. But I never said that it would be something feminist because feminism is not a easy concept in France. At least at the time, I think now things have changed a little, thanks to elles@centrepompidou, but at that moment, even with my discussion with the director of the museum and with my colleagues, it was difficult to present it as a feminist event, although of course it was, of course! But this was not how I sold the project, so to speak.

It’s difficult to understand from the outside, I’ve been criticized for that, people said “you haven’t been radical enough about feminism”, but I couldn’t. The only way for me to do that, with that ambition, that scope and the length of the project was to present it as something quite neutral in a way. Just to say “OK, we have half of the collection that has not been shown enough because they are women artists, and we just have to be more precise about what we are doing and we have to be fair, so we have to show them all together, because they haven’t been shown before, and see what happens in terms of movement, history of art and how it changes the way we look at history”.

I think it was a real intelectual challenge to organize that work because feminism theorizes something but feminist theory didn’t rethink art history in the sense that I had, to build rooms with artists that hadn’t really worked together, that were for me visually related, but I didn’t have the right category to put them together. So it was a very intense intelectual work, that I only started doing and that I think that needs to be continued. And feminist theory doesn’t help me in that sense and doesn’t help anybody. I was just discussing this idea earlier today: art historians who are interested in women artists should think about categories in a much more serious and precise way, because we have to go beyond feminism in a way.

So I completely agree with you, of course it was a feminist gesture. I didn’t present it that way for political reasons, in a way. But the challenge was not a feminist one, for me was an intelectual challenge to present these artists in a way that would respect their work, most of them not being feminist artists, just being artists. That was the difficult thing and I think now we need to work on these questions.


NV: Linda Nochlin wrote that there’s no “essence” of femininity that can unite the work of Louise Bourgeois and Marina Abramovic. In an interview you said that “we’ve put women together to show they have nothing in common”. What does then unite the artists you have chosen to elles@centrepompidou, besides the fact of being women?

CM: It was a big show, it was two floors of the museum, and about 800 square meters. There were eight chapters and inside each chapter each room had a theme, so what brought together the artists of each room was the theme that I chose for each of this rooms. So it could be some abstraction, it could be conceptual art or certain category of conceptual art.

Each time I’ve tried to bring them back to the movement and the side they belong to, I think the problem was that women artists have works around a movement, very close to men artists, but they haven’t been shown with men because women artists were not shown or published, but they were actually working within that movement. So part of my work was to bring them back to the existing movement, to say “this is a woman which was not in the conceptual show, although her work is conceptual” or “this is a woman that did some abstract work in the 40’s and she was not in the shows of the time”.

What united them was that they were part of their time, and the things that linked them were their belonging to the movement of their time, not the fact that they were women. Few of them actually worked on the women’s theme or on feminism, but it happened that in the collection of the Centre Pompidou very few artists were actually feminist. The collection of feminist artists was very small, I acquired most of the feminist work, which was one room. The rest of it was just video artists, photographers, painters… At some point someone entering the show would completely forget about the fact they were women artists and just see a history of contemporary art, of the twentieth century, and that was my main objective, to show that women artists have been part of all the movements of the twentieth century art, all the technics, all the styles. They were hidden but they were here producing the same kind of works as men artists.


NV: I’ve read that Centre Pompidou didn’t acquire new works for the exhibition…

CM: They did, they actually did a little. I bought quite a lot of feminist art before even thinking about the show, and when we started thinking about the show of course we realized that some of the main women artists were missing, so for one or two years we’ve tried to complete that. For example, in the entrance of the show I had a big sculpture from Rachel Whiteread. I knew she was not in the collection, she was missing, so I found big sponsors and we did put this huge sculpture of her, who I think is a very important relatively young woman artist. In that sense we did a few acquisitions but also a lot of artists, galleries and collectors gave donations, because they knew about the show and they wanted the artists to be at the show.

It was a very good way also to have works entering the collection through donations, especially when the show was opened. People liked it, the press was positive and it was announced that the show would last. Then it was easy for me to say “listen, “elles” is moving forward in time so please can you help me in bringing such and such artist…”. For example, a lot of south american women were missing in the collection, but in the last edition of “elles”, we finally had a big room with south american artists because we could acquire them and a lot of donations came. Because it became famous, a lot of journalists from south america came, a lot from Brazil and such, so people were extremely generous and understood that if they wanted the Brazilian artists to be in the show, they just had to help. We had a group of american friends who were really interest with the project and they gave quite a lot of money to make that possible.


NV: Do you have any idea of which was the percentage of works by women artists at the collection before and after the exhibition?

CM: Before yes, because I made statistics about that: it was between 12% and 15%, and right now, I think it’s a little better but I don’t know about the statistics because I don’t work in the museum anymore. But I think now artist people think about it a little bit more, before it was not, as I said, even a question. I’m a little disappointed with journalists because I was hoping that after “elles” they would be careful about that question of statistics and numbers and I don’t think they’re so much interested in the differences.


NV: But it is important.

CM: It’s very important, yes, but, you know…


NV: Do you think there was indeed a change after “elles”, did you started to see more exhibitions with women artists? Was it a statement?

CM: Yes it was, I think really it was and it is still. It’s hard for me to calculate that. I know inside the institution it was a big step, because it was a subject that became a serious question, and because in Europe it was something that was a little tricky. What we did was not just to show it, it was the permanent collection, so it was a big risk to actually push away male artists from the rooms and nobody knew how the public would react and how the artists would react. At some time I remember the director of the museum saying that maybe the male artists would protest, they were afraid of that, of male artists saying “What are you doing? Why are you pushing us away?”. And I remember saying that “you know, most of these men artists are husband of female artists and I don’t think that’s the style of the artist to say that”, but there was a real fear of male protesting against the museum. Of course it didn’t happen. And there was also a terror of the press, of the public that could be shocked, there was really a deep fear of the reaction.

As it was done, and the reaction was good, including from the international press, a lot of museums felted a little more free to work on that theme and to do a all women’s show. I got very criticized before the opening, a lot of people said “it’s completely stupid to bring women together because they have nothing in common and it’s ghettoizing women, why are you doing that?” or “it’s too late, this is not the sixty’s anymore”. And I think just to do it in the way that I did, as I explained, which was not overly feminist but just showing the diversity of women´s production and putting them back into historical narrative of the 20th century, it was a very simple and humble thing in a way. I think it changed the vision of the art world over women artists show, showing that it’s possible to do it without being aggressively feminist. It’s possible to do that with non feminist artists, to show something else. It’s possible to show that art history had been very unidirectional and not complex enough. So it’s also a way to question art history as much as doing a show with Brazilian artists or south american artists it the same thing, I mean, why do you bring these people together who have nothing in common? Because you are talking about places that nobody knows, because there are specific questions that arises when you group people in a certain point of view. Why not women in a way?

I think “elles” just liberated a lot of people so they could finally do something that they wanted to do and were not pretty comfortable doing. I took a lot of critics but I was happy to response to these critics saying “yes I’m happy to produce this, because with this we are discussing something important” and most of the time the questions were interesting. But sometimes I think we miss new categories in the history of art, not only for women artists, but also for african or median-east artists. When you bring these people into the main narrative of art history it changes completely categories, movements, ties and we don’t have the tools to reorganize that. So there’s really a need of thinking these intelectual tools to redefine styles and movements, to group artists differently. So I tried doing that for “elles”, I started doing it but I knew I didn’t really had the time to do it. I did the best I could with my small team, but it’s the beginning of history, the start of something, it’s how I see it. It’s not the end but the start of something. Indeed there had been a lot of women shows in many museums, and I’m always happy when it happens, because I think they are all “elles” babies in a way.


NV: At 2021 there will be passing 50 years from Linda Nochlin essay about women artists. Is there any point of asking again the same question and see what kind of answer we get then? Or can we say the work is done?

CM: I think since then there’s a lot of answers that had been given, but the trick is to keep answering that question. It’s not so much “why” because I think now we know why, but why are these women still not in the main narrative of art history, for me it’s still a problem, and the answer is that we need to do research and exhibitions to create a sort of intelectual grid to put them back into art history. Most of the time women artists are considered as sort of individuals out of categories, people said they had been working alone so they can’t be in a movement and that’s completely untrue most of the time.

I think the challenge now in the next generation, until 2021 (and I think a lot of people are working in that direction), is to think about categories and put these women artists that we’ve discovered and that we never heard about, back in these movements, or create movements for them, but put them in a grid, in order not to have this discourse that I hate, to say that they were “specific individuals completely isolated, so there’s no way they can be integrated into art history”. That’s the worst thing to a woman artist, to be considered as the loner, the lonely person working in her kitchen doing art, this is a terrible thing to say. So I think art historians should work in that subject, to put these artists back into the history and that applies also to artists from India, or Africa, Median-East, these three with less museums, less art historians or less powerful art markets, so the artists are a little bit lost. It’s just a question of really organizing thoughts, theories, ties and movements, to organize history.


NV: Is that why you created AWARE (Archive for Women Artists, Research and Exhibitions”?

CM: Yes, absolutely. The idea is to answer the question of Linda Nochlin, in a way. Now we know why, now how do we put them back into history? And AWARE for me is the tool to do that, for me it’s a grid where I hope all important women artists will find their place. Each artist will be represented by a text and reproduction of their work. The text will be written by specialists and will be indexed, so that these women artists can be placed in movements of their time, ties of their time, the technics they used, the groups they have been to, the shows they have been to, so that anybody who wants to, let’s say, have a show about portuguese art in the 20’s, can access this website and find the women artists who were working in Portugal. That information doesn’t exist yet. The same can be said about someone who wants to work on abstraction in the 60’s, the names that will pop up will be men’s names. Thanks to that website, it will say “60’s abstraction” and we will have a list of women artists working abstraction in the 60’s. So my idea is to make the information available in a clever way, so that these artists are not completely unknown or considered as individual artists and can be placed back into the art history and be considered seriously and respected for what they have been doing. I mean, some of them wanted to be loners, but most of them really were very aware of the art of their time and working the same style as the men of their time and they have just been forgotten, so my idea is to bring them back on the same level of information.


NV: Will you have publications as well?

CM: Publications are not my priority, I will try to raise money first to the website and also for talks and symposiums like this one (International Congress “Art and Gender?”), only in smaller versions, because I think that in some countries it’s very useful to bring together specialists, art historians critics and also the artists, and so that the information can be accessible, these talks will be filmed, edited and then put on the web. My idea is to offer this information for free to everybody, to students, teachers, museum people, but also anybody who wants to know about women artists. For instance, if I’m living in Lebanon, and I want to know if there is any women artist in the country, the idea is to have access to a list of artists working there. Once again, today the information doesn´t exist.

We’ll have this tool that will be like a door opening and giving access to private collections, public collections, publications, shows, but on a big platform. I’ve been thinking about that a lot and I think after having done the show and written a few books the next step is the website.


NV: Do you know when it will be available?

CM: It all depends on the money I can raise, so hopefully very quickly. One of the things I’m doing now to launch the project, is that I’ve created a prize for women artists. One of the things that stroke me when I was working at “elles” is that most of the artistic prize for cinema, architecture, art and even literature are given to men and never to women. So I thought that if I can do something one day, I would like to create a prize for women artists, and I’m doing that in a partnership with magazine Marie Claire: we are giving the first prize early in November. For me this is the way to publicize about my project and I hope I will find some money by early 2015. I may have a second event on March 8th, so I hope by then I will have enough sponsors to have a first version of the website. I’m trying to find partnership with museums and universities all over the world.


NV: Eric Fassin wrote on the exhibition catalogue of elles@centrepompidou that “artistic representation does not reflect sex, it produces gender”. Just to try to answer, in a way, to the question on the title of the congress, I would like to ask you: do you think art has a gender?

CM: I think it really depends on the artist. Some artists really don’t care about gender, and some do, so it’s one of the subjects of art. One of the subjects.