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ENTREVISTA


Antoine de Galbert


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge – Fondation Antoine De Galbert (Paris). Fotografia: Christian Courrèges


Vista da exposição de Arnulf Rainer e da colecção de Arte Bruta. La maison rouge (23 JUN - 9 OUT 2005). Fotografia: Marc Domage


Vista da exposição “Une vision du monde, la collection vidéo d’Isabelle et Jean-Conrad Lemaître” (19 FEV – 14 MAI 2006). Fotografia: Marc Domage


Collection Harald Falckenberg. Franz Ackermann, “White Crossing and Mental Maps”, 2001. Fotografia: Marc Domage


Henry Dagen. Fotografia: Kiyoko Lerner


“Busy Going Crazy - La Collection Sylvio Perlstein” de 29 OUT 2006 a 14 JAN 2007 na Maison Rouge. Horn Rebecca, “The Prussian Bride machine”, 1988, 300 x 120 x 50 cm.


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand


La Maison Rouge. Fotografia: Jean Breschand

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ANTOINE DE GALBERT


Antoine de Galbert é Presidente da Maison Rouge em Paris, fundação dedicada à exposição de arte e de colecções privadas. Diplomado em Ciências Políticas, trabalhou em gestão de empresas até abrir uma galeria de arte contemporânea em Grenoble. Começou por esta altura a coleccionar, actividade que se torna cada vez mais importante na sua vida.

Por Sílvia Guerra
Paris, 2 de Junho de 2006


ANTOINE DE GALBERT: Retrato de um coleccionador em devir

No decurso da minha pesquisa doutoral sobre as colecções de arte contemporânea europeias, encontrei Antoine de Galbert; aqui começa uma troca de ideias sobre coleccionismo e sobre a arte contemporânea que curiosamente é uma homenagem a uma bela proposta de um dos filósofos mais amados em Portugal e em França, Gilles Deleuze. Este encontro tomou a forma de um diálogo, mais do que de uma entrevista: na voz de Antoine de Galbert, um coleccionador em devir.

“les devenirs, c’est de la géographie, sont des orientations, des directions, des entrées et des sorties ” in Gilles Deleuze e Claire Parnett, Dialogues, Paris, Flammarion, 1996.


Antoine de Galbert

O que eu queria dizer é que não me sinto um coleccionador de arte contemporânea; interesso-me por inúmeras coisas entre as quais a arte contemporânea. A arte contemporânea tem diversas significações; pode ter uma significação estritamente formal e eu não me encontro nesse “ghetto”. Conheço muitos coleccionadores de arte contemporânea que exibem as obras entre eles, que frequentam os mesmos sítios, mas se lhes falo de um artista que morreu há trinta anos, desconhecem quem é. Eu tenho uma colecção de etnografia, interessso-me por objectos religiosos, e por inúmeras coisas que cruzam a arte contemporânea.

Mas a arte contemporânea exclusivamente não me apaixona enormemente; é então muito complicado, pois eu desconfio da moda, da actualidade, dos “gurus” e dos “yuppies”, de todas as organizações ridículas que se constroem em seu nome… Por outro lado, a arte é hoje a minha vida. A fundação com o meu nome é de utilidade pública, portanto eu exponho artistas vivos.

Os coleccionadores são frequentemente muito especializados. Eu não altero o meu comportamento: quando estou na FIAC ou na feira de Bâle, sinto o mesmo prazer que numa loja de antiguidades. Não estou a constituir uma coleccão de museu já que para o fazer teria de comprar inúmeros artistas do mercado e isso não me interessa de todo. Eu não colecciono para outros, sou um amador. Em França há coleccionadores que dizem: Vou constituir uma colecção de arte extremamente delimitada, onde nenhuma figuração humana é tolerada e balizam as suas escolhas, senão enlouquecem.


P: Qual é a sua ideia de colecção?

R: A colecção é uma utopia, eu não delimito as minhas escolhas, mas ao mesmo tempo estou perdido, perdido no bom sentido, mas perdido. Seria mais simples para mim dizer que só me interesso pela arte dos anos 60 aos anos 90, ou pelo construtivismo abstracto já que isso facilitaria imenso, pois teria um objectivo claro e o meu único limite seria o dinheiro; enquanto que neste momento, a minha colecção é uma anarquia, é uma viagem. Eu digo isto porque cada coleccionador é diferente; mas no entanto, vou também aos mesmos lugares: à feira de Bâle, à FIAC. Agora estou a chegar de uma viagem a Barcelona, onde comprei alguns vídeos. Eu lido bastante bem com ele, mas na verdade não gosto do meio da arte contemporânea, é absurdo, irrita-me, são pessoas frequentemente de visão curta, arrivistas sociais, confundem o “establisment” com o objecto de arte, com a história de arte; a minha história pessoal faz com que eu não precise da arte para construir um futuro … sou mais livre.
Compro arte bruta, compro muita arte bruta. A arte do inconsciente foi sempre banida do mundo da arte contemporânea, mas agora, finalmente, algo começa a mudar nesse sentido.

Há também o mercado da arte contemporânea e a mim o mercado não me interessa. Porém, tenho algumas regras: “no sex”, quero dizer (risos) que o artista seja homem ou mulher é indiferente, sem restrição de idade ou de nacionalidade do artista. Sou muito aberto; o que me interessa são os objectos.


P: Começou por abrir uma galeria de arte em 1987?

R: Aprendi tendo uma galeria. Abri uma galeria há 20 anos. Tinha um espírito de amador, eu próprio pintava, desconhecia a arte contemporânea, mal sabia quem era Duchamp, e não me inquietava com o assunto; abri uma galeria, porque era para mim o único meio de pôr a mão na engrenagem. Eu não tinha uma carreira universitária, nem era historiador de arte, nem jornalista, então abri uma galeria. Viajei durante um ano, comprei diversas obras, coloquei os meus quadros nas paredes, mas não conhecia practicamente nada. Conhecia um pouco de pintura antiga do século XIX, e a arte, digamos até Picasso e Matisse, mas a arte mais contemporânea, nascida com o movimento Dada, com Duchamp, com os artistas da sua geração, practicamente não a conhecia. Depois aprendi, quer dizer comecei de uma forma um pouco naive, e conservei esse espírito mais tarde. Sou um caso particular, mas não o somos todos, em certa medida?


P: A arte contemporânea pratica hoje o culto aos jovens artistas. Qual é a sua opinião sobre o assunto quando expõe na Maison Rouge artistas como Denise Aubertin, que tem cerca de 70 anos?

R: O culto dos jovens artistas é um “business”. Os coleccionadores são mentirosos; não estão interessados nos artistas ou só muito raramente estão; o convívio com os artistas fá-los sentir “alternativos”. Convidam, de longe a longe, um artista para jantar, mas a vida deles não se faz de modo nenhum em companhia dos artistas. Em compensação interessam-se pelas pessoas que são um bom negócio, compreende.

Tenho uma teoria sobre o objecto na qual acredito: é a teoria que Jung apelida de memória colectiva, que é a relação invisível que se estabelece entre as coisas desde as Pirâmides até Picasso. Se há algo que me interessa é o objecto, é ele o lastro dos homens. Eu osculto o objecto e, ao longo da minha vida e por onde quer que vá, circundo-me deles. Este facto explica a relação que estabeleço com eles e o desejo de construir relações entre eles. O que me irrita no mundo da arte contemporânea é que existe uma espécie de sismo, de fossa brusca e violenta em que parece que nada existiu anteriormente. É muito irritante, porque não é possível. O século XX foi de uma violência, de uma velocidade incríveis, mas não é impossível restabelecer a ligação entre as coisas, e eu faço tudo o que está ao meu alcance para o provar. Esta é uma das razões pelas quais a Maison Rouge não consegue ter um público fiel. O Palais de Tokyo tem o seu público fiel, porque sabe que as exposições apresentadas correspondem às suas expectativas. O público é fiel à Halle de Saint Pierre pelas exposições de arte bruta. Se o Palais de Tokyo fizesse uma exposição de arte bruta e a Halle Saint Pierre uma exposição com a cena emergente, o público ficaria totalmente perdido. Aqui na Maison Rouge, nunca se sabe o que nos espera.


P: Onde se encontra a sua colecção?

R: Eu tenho acima de 1500 obras armazenadas e em minha casa, terei algumas dezenas, talvez uma centena de objectos, de quadros, de fotografias. E depois tenho dois armazéns; um, que é onde estão as obras de grandes dimensões e as instalações, e um pequeno que está… não posso dizer onde ele está (risos) … para as obras bidimensionais.


P: E nunca deixa que ninguém os visite?

R: Não, porque está tudo embalado. Mas estou numa fase onde estou a evoluir. Porque os coleccionadores vivem diferentes fases ou etapas. Há sempre o maior e o mais pequeno, é como no ténis e, actualmente, estou numa fase em que me considero um coleccionador médio, em que começo a ser um coleccionador. Sou um amador e encontro-me num momento onde a reflexão sobre a visibilidade da colecção se torna verdadeiramente importante. Existem diversos estádios: o primeiro estádio é quando estamos abaixo da nossa capacidade de “accrochage”, em que compramos peças de arte para a nossa casa - o que não tem qualquer sentido pejorativo, já é fantástico!; e num segundo estádio compramos sem saber onde vamos pôr as obras. É nesse momento que nos tornamos coleccionadores. Não é quando se têm duas cómodas que nos tornamos um coleccionador de cómodas, mas é quando temos trinta. E é nesse estádio, que se coloca o problema do armazenamento, da não visibilidade das aquisições, questão que não se coloca apenas no domínio concreto, mas também no domínio mental. Há todas estas etapas e depois podemos dizer que a terceira etapa consiste em comprar um lugar para a colecção, quer dizer a etapa do coleccionador museógrafo. Estas são para mim as três grandes etapas.


P: A Fundação La Maison Rouge não foi constituída para ser esse lugar?

R: A Fundação não é esse lugar, desde o seu início. Primeiro, porque não colecciono há muito tempo e tinha menos dinheiro no início deste projecto. Nessa altura, abrir a minha colecção ao público não se justificava. Queria esperar, esperar um pouco, ter um pouco mais de sensatez, um tempo de reflexão. Não nos tornamos coleccionadores porque dizemos que o somos, de um dia para o outro. O dinheiro é necessário mas não é suficiente; podemos dar 30 milhões de euros a alguém e essa pessoa nunca terá uma colecção. É a vida que faz com que uma colecção se construa; a colecção é uma obra.

Actualmente, existem demasiadas colecções constituídas unicamente pelo dinheiro. É simples: compram-se dez Cindy Sherman, três vídeos deste, três instalações do outro e, pronto, vou expor a minha colecção. E o problema é que se expõe este tipo de colecções porque exprimem o mercado. E é a este nível que me disputo com alguns coleccionadores: vou a casa deles e descubro que conheço todos os artistas.

Numa colecção, existem por vezes certezas, dúvidas, amizades. E é necessário que ela seja isso. Prefiro uma acumulação de erros que um quadro de caça. Sou um pouco pretencioso, mas faço uma crítica verdadeira aos coleccionadores. Eles estão demasiado dentro da actualidade, dentro da moda e do mercado.


P: A Maison Rouge, tem como princípio mostrar colecções privadas…

R: Sim, porque as colecções privadas me interessam, mais ainda do que os coleccionadores.

O que me cativa nos coleccionadores é a obra que eles construíram e a relação invisível que criaram entre cada obra. É essa a nova obra. E porque eles relêem a história e nos fazem reler a história fora da história de arte. É por esse motivo que gostei da exposição “Big Bang” (a penúltima mostra da colecção permanente do Centre Georges Pompidou), mesmo se é passível de crítica o facto de colocar duas peças brancas uma ao lado da outra, simplesmente porque são brancas... mas foi um olhar privado, e é esse olhar privado que me interessa.

A pedagogia serve à história de arte, e essa é a função do museu. O coleccionador não é pago para ser um pedagogo, ele é como um electrão livre, pronto a desencadear a perturbação e alguns dos grandes coleccionadores foram visionários. Por vezes os conservadores são tão especializados, que se tornam cegos. Quando um artista se parece a Fontana, diz-se “ele assemelha-se a Fontana”, quando não se assemelha a ninguém, diz-se “não vale nada”.


P: Conhece a ADIAF (Association pour la Diffusion Internationale de l’Art Français)?

R: Sou membro da ADIAF. É um pequeno grupo de coleccionadores franceses, o que é já uma bizarria porque os coleccionadores não são franceses, nem alemães, nem portugueses e tem tendência a comprar obras aos mesmos artistas. Defendem a noção de “cena francesa” que é uma categoria que não existe, mas são pessoas que respeito; não sou activo dentro da associação, porque não posso.


P: Considera François Pinault um verdadeiro coleccionador?

R: Sim, porque ele possui peças excepcionais, e é capaz de entrar num atelier de artista sem ser acompanhado.


P: Pensa que ele tem um olhar pessoal sobre a arte?

R: Ele teve seguramente esse olhar e a sua fortuna faz que esteja a construir uma colecção pública. É uma colecção que deixou de ser privada. Ele torna-a pública e isso faz perder a sua magia. A sua colecção é sobretudo a expressão de uma potência financeira e mediática. Ele tem bom gosto e tem peças de grande qualidade.

Existe este fenómeno terrível: alguns coleccionadores guardam apenas as obras dos artistas que fazem parte do mercado dominante, ou dos media; a partir do momento em que não se fala mais de um deles, retiram-no logo das paredes.

Vivemos todos através do olhar dos outros, seja qual for a nossa actividade: padeiro ou coleccionador. As obras, é preciso amá-las para além daquilo que elas são.


P: Conservou todas as obras da sua colecção desde o início?

R: É preciso distinguir o cliente de arte do coleccionador. Não sou contra o facto de vender, não é pelo facto de vendermos algumas obras que somos maus coleccionadores; mas há venda e revenda. E há o vender para comprar melhor e revender porque nos interessamos menos por um movimento e descobrimos outro. Mas se o único motivo é revender pelo dinheiro, é condenável, isso continua a ser a regra de ouro. Porém, se eu adquirir obras de um artista pouco conhecido e dez anos depois ele vier a expôr na Tate Modern, claro que fico orgulhoso, fico encantado, mesmo pelos meus filhos, há a mais-valia; sei que a obra vale dez vezes mais do que o valor pelo qual a comprei e não menosprezo esse facto. Comprar arte é isso. É também saber investir, também é dinheiro e o dinheiro é o tecido do nosso trabalho e do trabalho dos outros.

Investir é diferente de especular.

Não é insignificante comprar uma obra de arte e, qualquer que seja a nossa condição económica, é sempre importante.


P: A sua colecção é uma construção?

R: Sim, mas construída de uma forma não sistemática. Nunca penso na obra que vou comprar daqui a 5 anos. É preciso estar aberto a encontrar os objectos, sempre, é como uma grande aventura, como a aventura humana, não se pode escrever tudo… nem conhecer tudo.

Identifico-me muito com a definição de Pierre Legendre sobre a colecção como um “tripot animiste”. A definição de “tripot animisme” é extraoridinária porque une o culto dos objectos ao antro, que é o bordel: onde há vida, fumo, risco. A minha vida de cidadão não é de maneira nenhuma assim, eu sou um burguês, mas a minha aventura com a colecção é uma verdadeira aventura.


P: A colecção como uma visão do mundo, emprestando o título da exposição de vídeos da colecção Lemaître, com uma excelente cenografia de Didier Fiuza Faustino, é uma prefiguração da arte do futuro, do homem do futuro?

R: Cada colecção é uma visão do mundo de cada coleccionador, mas a colecção dos Lemaître é também uma visão do mundo de alguns jovens artistas porque é uma colecção muito geopolítica, muito documental, muito centrada no Médio Oriente, nos países árabes ou no Líbano, e ao mesmo tempo é o mundo dele (Lemaître); na sua profissão de banqueiro, este coleccionador viaja muito por esses países em guerra…

Alguns dos trabalhos são a prova de que uma sociedade sem artistas está morta, é como a Alemanha nazi.

O artista é o interface sem o qual eu não teria visto muitas coisas. Não acredito no génio do artista, mas na sua capacidade inconsciente em receber algo de espiritual. Tenho horror das pessoas que querem compreender tudo e saber tudo.

A arte contemporânea é uma fábrica, uma fábrica de hamburgers. Na arte como na vida é preciso deixar o tempo agir, é preciso dar-lhe essa liberdade e dar-lhe esse lugar. E preciso dar esse lugar à arte.

Eu começo a sentir vontade de mostrar a minha colecção, porque tenho vontade de partilhar.

É como num “bouquet” japonês, uma colecção define-se pelas suas faltas. Gostaria de a expor por temas como o sério e o ridículo, a vida e a morte… temas muito simples que me permitirão explorar algumas peças na minha colecção e inversamente me permitirá a mim mesmo de as compreender, porque há coisas que precisamos de compreender e não compreendemos imediatamente.


P: Qual foi a colecção privada das que expôs que mais o impressionou e qual será a próxima a ser aberta ao público?

R: A colecção Falkenberg. Ele é o coleccionador que mais me impressionou, pois a sua colecção é ao mesmo tempo valiosa e inteligente. Um grande coleccionador é o encontro do dinheiro com a inteligência e a inteligência pode revelar-se de diferentes formas.

A próxima colecção a ser exposta na Maison Rouge será a de Silvio Perlstain, um belga. É uma colecção de obras desde 1920 até hoje, é uma espécie de história das vanguardas artísticas e estou contente de poder mostrar uma escolha que nunca poderia ser a minha; é uma verdadeira colecção histórica, com todas as primeiras obras dos artistas americanos dos anos 60.

Ele é um coleccionador que ainda tem tudo em casa, é o último coleccionador de uma outra geração. É um grande viajante, que dada a sua profissão de vendedor de diamantes nunca vive mais de três meses no mesmo sítio; a colecção é uma viagem mental e geográfica.




La Maison Rouge
Fondation Antoine de Galbert

www.lamaisonrouge.org