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ENTREVISTA


Ruth Addison


AES+F, Last Riot 2. The Track, 2006. ©AES+F. Cortesia: Triumph Gallery, Moscow.


Tim Parchikov, da série Rome.


Vladimir Dubossarsky and Alexander Vinogradov, D&G, 2010.


Vladimir Glynin, Untitled (Dagestan 120), 2009.


Recycle, Wheel, 2010.


Vladimir Dubossarsky and Alexander Vinogradov, Ray of Light, 2010.


Haim Sokol, Untitled, 2009.


Ilya Gaponov & Kirill Koteshov, First Snow 4, 2010.


Tanatos Banionis, Babelsberg Christmas, 2008. Vista da instalação.


Danja Akulin, Explosive, 2006.

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RUTH ADDISON


Este mês publicamos uma entrevista com Ruth Addison, uma das responsáveis pela Triumph Gallery de Moscovo. Ao longo da conversa, comenta-se a cena artística moscovita, o plano e o processo de internacionalização da galeria, bem como algumas das características e competências necessárias ao trabalho na esfera do mercado de arte. De uma forma muito directa, Ruth Adisson comenta a sua relação com os artistas, com os coleccionadores e com o público, defendendo pontos de vista muito pessoais sobre estas e outras questões. Caso da existência ou não de uma arte feminista.


Por Rui Pedro Fonseca
29 de Outubro de 2010




P: Como enquadra esta galeria na cena internacional, em particular as respectivas relações com outras instituições artísticas e agentes culturais?

R: Temos uma presença recente na cena internacional. Quando me juntei à galeria em 2007 tínhamos acabado de iniciar o programa de a internacionalizar. A galeria fê-lo com a minha ajuda antes de me juntar aqui, quando trabalhava para o British Council. Dei-lhes os contactos para uma exposição de Damien Hirst, e esse foi o inicio da relação da galeria com artistas e com galerias internacionais. A internacionalização passou também por um processo de implantar uma galeria em Londres. Somos relativamente novos na cena internacional, mas já mantemos relações comerciais com galerias em todo mundo, temos relações com muitos museus onde as/os nossas/nossos artistas têm visibilidade e, também, a partir de onde conhecemos pessoas e criamos contactos.
Penso que Moscovo move-se muito rapidamente no sentido da sua integração no meio internacional, e este sucesso de integração depende da inclusão da Rússia na cena mundial. Porque se as pessoas fora da Rússia virem este país como um parceiro potencialmente interessante, seja por parte de museus, seja por motivos comerciais, claro que isso abre mais possibilidades. Muito depende do contexto geral.


P: Em parte pode justificar esta “integração de sucesso” da galeria na cena internacional pelas relações de sucesso que tem com agentes culturais do estrangeiro?

R: Acho que passa sobretudo pelas relações entre países. Trata-se das relações entre a Rússia e outros países. Se essas relações são boas, as pessoas desse país sentem-se confiantes em relação a viajarem para a Rússia. Para muitas pessoas viajarem para aqui é um desafio, há quem tenha medo daquilo que lê na imprensa, e acho que é uma mentalidade aceitável quando não se conhece o local. De facto o sítio é muito diferente da imagem transmitida no estrangeiro, e acho que essa imagem está a melhorar à medida que as pessoas viajam para cá e à medida que mais artistas são aqui mostrados. Porque se há uma longa tradição em expor velhos mestres e impressionistas e arte do início do século XX, não deixa de haver mais artistas contemporâneos a exporem aqui, que vêm cá, e penso que isso melhora a situação muito rapidamente.


P: De alguma forma poderemos inferir que as politicas desta galeria também estão globalizadas. Faz alguma distinção entre esta galeria e outra galeria moscovita mais voltada para o mercado interno? É assim tão importante para esta galeria voltar-se para outros países?


R: Penso que muitas das galerias estão interessadas em voltar-se para o estrangeiro, também por um ponto de vista puramente comercial. Também existem coleccionadores na Rússia, claro, alguns deles muito importantes, o que torna a conjuntura comercial interessante. Mas… para uma galeria como a nossa que representa artistas, as/os nossas/nossos artistas precisam de também ter visibilidade fora da Rússia, e não apenas internamente. E diria que a maior parte das galerias aqui, senão todas elas, seguem as mesmas políticas, muitas delas também querem, caso representem artistas da Rússia, mostrar essas/esses artistas na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia, no mundo árabe, etc.


P: Tem quatro anos de experiência como galerista. Que competências acha que são necessárias para se ser uma galerista de sucesso?

R: Posso apenas falar pela minha experiência. Não diria que sou necessariamente uma galerista de sucesso, não trabalho sozinha, trabalho com os meus parceiros e então há outras coisas que surgem na equação. Entrei neste negócio depois de uma longa carreira no Serviço Civil do Brithish Council, onde adquiri alguma experiência na organização de eventos e com o trabalho de artistas, do ponto de vista organizacional. Fiz também muitas outras coisas: trabalhar com outros governos, lidar com alfândegas, e todo o tipo de coisas que são administrativas e não criativas, mas que na minha opinião são importantes.

Depois fiz um mestrado em história da arte. Tomei a decisão que queria mudar de carreira e juntei-me à galeria. Do meu ponto de vista acho que a minha mais-valia possa ser o benefício da experiência que tenho de organização. Muito trabalho da galeria passa pela organização. Quando há pessoas que aqui vêm procurar emprego, algumas delas pensam que trabalhar numa galeria é muito charmoso, que implica apenas um processo relacional com os clientes e os artistas (e claro que existe esse elemento).

Mas nas galerias o que muitas pessoas fazem é trabalho organizacional que implica resolver problemas, lidar com artistas, o que é fantástico mas que também pode ser difícil, pode ser problemático, lidar com clientes também pode consumir muito tempo, etc. Então, quem olha de fora, o trabalho parece menos administrativo do que é realmente, e muito do meu tempo passado é a fazer tarefas de administração. Acho que há uma regra geral: para se ser um galerista de sucesso é necessário ter a habilidade de lidar com todos os tipos de pessoas. Em última instância, do que se trata é de relações com pessoas. Claro que é preciso amar a arte e parece-me que existem algumas pessoas focadas no lado comercial da arte. Estamos focados nisso, acho que toda a gente está…


P: têm de estar…

R: … têm de ter objectivos comerciais. Dirigir um negócio não é a mesma coisa que dirigir uma organização de caridade. Mas penso que é preciso ter amor à arte, é preciso ter algo que se deixe tocar pela arte.


P: Quando estávamos na exposição (“New Decor”, Garage, Center for Contemporary Culture, Moscovo) senti-a muito emotiva quando falou sobre algumas obras de arte. Numa situação com um possível cliente, presumo que eventualmente terá um discurso idêntico em relação à/ao artista e à sua obra. Mas como aborda a questão dos eventuais impactos que a obra possa ter no mercado?

R: Quando estava consigo num encontro social eu não sabia nada sobre aquela exposição, nem sabia nada sobre as obras que iriam estar expostas. Acho que aquilo que testemunhou foi a minha reacção genuína ao que lá estava. Eu não tinha a minha agenda, eu não tive de lhe provar nada, não tive de lhe vender nada, você era uma pessoa que estava comigo a conversar. Então, penso que teve a minha reacção genuína, não filtrada. Tento algo idêntico com clientes. Não se está sempre a vender trabalho ao qual sentimos uma paixão absoluta porque as/os artistas criam obras distintas. Havia lá uma obra de Mona Hatoum, sobre a qual nós falámos, que é uma artista que me apraz, não apenas por a conhecer, é minha amiga, mas porque gosto mesmo da obra dela. Então, para mim, ver o trabalho dela implica ter uma reacção muito pessoal. Acho que tento conseguir isso com os clientes. Não se está sempre a vender trabalhos pelos quais nos sentimos absolutamente apaixonadas, porque os artistas têm produções distintas e podemos gostar mais de alguns do que de outros. É algo que tento não impor aos clientes, gosto de ser honesta sobre aquilo que sinto sem destruir as minhas hipóteses de vender algo.


P: Referiu a parte mais emotiva de quando fala sobre arte. E a outra parte em que tem de falar de negócios?

R: O que faço, com algum esforço, é não ter uma conversa com os clientes sobre: “se investir agora nesta obra, daqui a dez anos terá feito um grande investimento”. Procuro com algum esforço não fazer isso embora seja tentador porque insinua ao cliente: “se comprar isto agora, daqui a dez anos valerá uma fortuna”, mas não tenho ideia se esse será o caso…


P: … pode soar a especulação.

R: Com certeza! E acredito que os melhores coleccionadores compram coisas porque gostam delas. É claro que muitos coleccionadores compram tendo em atenção o valor do dinheiro e o investimento. Mas muitas pessoas que coleccionam também investem em outras coisas: em ouro, em acções, em minas de carvão, etc., isso é algo diferente. Tento dizer aos meus coleccionadores: “têm de gostar daquilo que compram”. Forneço informação sobre as exposições internacionais das/dos artistas com as/os quais trabalhamos. Algumas/alguns delas/deles são muito conhecidas/conhecidos internacionalmente e pode-se facultar uma lista de centenas de exposições em museus em todo o mundo, e claro que essa é uma informação válida. Estar a dizer ao cliente “estas/estes são artistas que são conhecidas/conhecidos, e esta é a lista de exposições em museus”. Da mesma forma que se pode dizer “estas/estes são as/os novas/novos artistas. Não são muito conhecidas/conhecidos, mas acreditamos que têm potencial” porque senão não investiríamos nelas/neles, não gastaríamos o nosso dinheiro e o nosso tempo a trabalhar com elas/eles. Tento não fazer promessas que não posso manter.


P: Disse-me que era feminista porque é apologista da igualdade entre géneros. Mas também me disse que não aprecia muito a arte feminista. Pode mencionar alguma razão?

R: Digo-lhe exactamente o motivo. Penso que uma/um artista é uma/um artista, independentemente do género, nacionalidade, sexualidade, religião. Acredito fortemente que definir artistas como “mulheres artistas”, ou organizar exposições em torno de arte feminista, e esta é a minha opinião pessoal, categoriza as mulheres como “mulheres artistas” e posiciona-as num pressuposto de que o seu trabalho é valido apenas porque elas lidam com questões de género - e isso para mim é inválido.


P: Mas enquanto feminista, encontra contradições entre arte feminista e o movimento feminista? Por exemplo, uma artista como Barbara Kruger que tem uma obra muito aberta (directa), um trabalho em que a maior parte das pessoas podem compreender sobre o que ela fala…

R: … isso é porque ela é uma boa artista.


P: Mas como galerista também lida com artistas com mensagens muito difíceis de decifrar.

R: Sim, é verdade.


P: E enquanto feminista, mulher, tem consciência das desigualdades presentes na nossa cultura, nos locais de trabalho, nos espaços privados, também no campo artístico…

R: … em todo lado.


P: Não acha que a arte feminista representa bem o movimento?

R: A minha posição mantém-se e já o referi anteriormente. Tenho algum problema em aceitar o termo “arte feminista”, e esta é apenas a minha opinião e talvez esteja incorrecta. Mas essa é uma forma de categorizar as mulheres artistas… Para mim, qualquer terminologia que categorize artistas numa base de género, pela sexualidade, pela religião, pela nacionalidade, etc., acho que é contra-produtivo. Existem artistas como Barbara Kruger, que é uma grande artista, que escolhe o objecto do seu trabalho e explora questões de género e desigualdade. Tento com algum afinco em não chamar a isso de arte feminista, apenas chamaria de arte.


P: Mas enquanto historiadora de arte sabe que a história da arte categoriza a produção artística.

R: Categoriza, sim, mas não tem de fazê-lo, pois não?


R: Mas, não o faz?

R: Toda a gente nas suas cabeças categoriza a arte. Tento não o fazer, para mim é ridículo.


P: Prefere categorizar a arte feminista como um estilo, e não como movimento?

R: Na história da arte feminista existe um período particular nos anos 60 e 70, no tempo da Barbara Kruger e outras/outros artistas deste período que, por aquilo que sei, fizeram parte de um grande movimento social. Para mim isso é algo diferente. Penso que agora no século XXI quando tantas pessoas acedem à internet, quando têm mais oportunidades de viajar, de interagir com outras pessoas e culturas, de diferentes nacionalidades, quando há possibilidades de interacção entre homens e mulheres, entre pessoas de diferentes sexualidades, etc., esta consiste numa situação diferente de há vinte anos atrás em termos de como os indivíduos se relacionavam uns com os outros na Europa. Talvez hoje não seja tão necessário categorizar e rotular artistas.


P: Dei uma olhadela no website da Triumph Gallery e reparei nas/nos artistas que estão aqui associadas/associados. Reparei que existiam 16 artistas individualmente associadas/associados à galeria e que apenas duas eram mulheres. Claro que este não é um caso excepcional na cena internacional, enquadra-se num padrão: as mulheres artistas, não me refiro necessariamente a artistas feministas, ainda vêem o seu trabalho pouco representado no campo artístico, e os homens encontram menos obstáculos em expor o seu trabalho. Como justifica estes padrões?

R: Não tentaria justificar. Concordo. Há muitos campos onde provas matemáticas e estatísticas mostram que a mulheres não conseguem alcançar as profissões nos mesmos números com as que têm cursos superiores. Tenho a certeza, mas não tenho os números. Se for feito um balanço nas formações, haverá um desequilíbrio: tenho a certeza que há mais mulheres que homens com formação superior. Na galeria, nós escolhemos artistas com base naquilo que sentimos sobre o seu trabalho, e isso tem duas facetas: uma do ponto de vista estético, obviamente que temos de gostar daquilo com que vamos trabalhar, temos de gostar do trabalho que vendemos porque comprar arte é também uma transacção emocional. Também se baseia na premissa comercial, temos de pensar sobre a base de clientes, etc. Não escolhemos na base de género, portanto, não pensamos deliberadamente se precisamos de mais artistas mulheres. É interessante. Vou falar com os meus parceiros sobre isto, este é um assunto sobre o qual não pensei muito. Não aceitaríamos um artista, e como mulher eu não o faria, apenas porque ela é mulher. Acho que é injusto para artistas, é injusto para as mulheres. Tudo deve ser feito pelo mérito, na base da igualdade. Mas realmente vou dar mais atenção a essa questão porque é um desequilíbrio interessante, que estou certa que se reflecte no resto da Europa. Se dermos uma olhadela às galerias de Londres pode ser que seja similar, não sei… não sei porque as mulheres não o conseguem.


P: Acha que há alguma preferência por homens artistas?

R: Para ser honesta, não sei. O que tenho a certeza é que não é consciente. Seria interessante pesquisar nomeações de prémios de arte contemporânea e ver as proporções de homens e de mulheres. Mas tenho a certeza que as decisões não são tomadas a partir de linhas de pensamento que passem pela preferência consciente de homens. Tenho a certeza de que não são decisões conscientes. Talvez a questão é que durante o processo de tentar trabalhar de forma independente, o que implica a auto-promoção, as mulheres talvez se percam algures no processo…


P: Referiu que acha muito importantes as questões estéticas da arte. Mas não acha que têm de ser consideradas como factor que entra em jogo com o carácter e com a personalidade do artista, independentemente se é homem ou mulher?

R: Temos uma reacção estética para aquilo que olhamos. Então, quando olhamos para um portfólio, e somos três parceiros aqui, claro que temos diferentes reacções. Ocasionalmente todos concordamos, mas geralmente temos áreas de desacordo quando olhamos para um portfólio, um/a de nós pode não gostar daquilo que vê. Mesmo que gostemos, temos diferentes sentimentos sobre coisas distintas, então, a primeira reacção, se não conhecemos o artista, é sempre uma reacção estética. Passamos tempo com as/os artistas, falamos com elas/eles sobre o que querem alcançar, que tipo de ideias estão por detrás daquilo que fazem, porque é que fazem o que fazem, e porque é que vieram até nós. A partir da interacção com a pessoa, claro que surge um elemento de química pessoal que acaba por entrar na equação.


P: Então, qual é a química que procura numa/num artista?

R: Temos de ver o processo. Elas/eles trazem o portfólio, olhamos para ele, discutimos entre nós e falamos com as/os artistas… Tenho de sentir que há alguma coisa por detrás do que fazem, têm de ter algum tipo de filosofia, têm de poder falar sobre o trabalho, e não exijo que saibam falar de forma publicitária sobre o seu trabalho, porque nem todas/todos as/os artistas gostam de o fazer. Mas quando nos sentamos com alguém e sentimos que essa pessoa sente emoção por aquilo que faz, isso é algo que também procuro em artistas no que diz respeito à química pessoal. E eu sou a pessoa que na galeria faz a organização administrativa com os artistas. Então, claro que seria muito mais fácil para mim se tivesse uma relação de amizade com toda a gente com a qual lido. Mas não tenho, necessariamente. Simpatizo mais com algumas/alguns artistas que outros; faz parte da natureza humana. Para mim, o importante é que os artistas sintam paixão pelo que fazem, que não seja unicamente paixão pelo dinheiro, paixão pela fama, ou paixão para trabalhar connosco apenas porque somos uma grande galeria que está em voga. O que quero ouvir falar é sobre o trabalho delas/deles e saber como se relacionam com o seu trabalho, como o sentem - é isso que procuro.


P: Acha que a arte deve desempenhar algum papel social em relação à sociedade? Se sim, que tipos de papéis lhe parece que a arte deve desempenhar?

R: Não estou segura se o deve fazer como obrigação, mas acho que a natureza humana lhe dá um papel social. Para mim o papel social da arte passou pela minha experiência pessoal: venho de uma classe trabalhadora que não tem qualquer interesse na arte, e eu era a pessoa que na família mantinha esse interesse pela arte e pelos artistas. O que a arte poderia fazer por mim seria dar-me a oportunidade de me mover fora das fronteiras familiares e de fazer algo de diferente, de encontrar algum interesse que eu fosse capaz de desenvolver e de aprender. Acho também que o papel mais importante da arte é o papel educacional, de abrir os horizontes das pessoas.


P: Papel educacional para quem?

R: Para as pessoas enquanto indivíduos, toda a gente.


P: Quando expõem arte nesta galeria pressupõe-se que têm um público específico, certo?

R: Temos.


P: Então, por exemplo, se afirmar que públicos de bairros periféricos vêm a esta galeria, seria muito surpreendente, porque estes espaços têm um público muito específico.

R: Qualquer galeria comercial tem um programa assente no comércio, na venda de arte. Qualquer galeria comercial que afirme que o seu programa não se baseia em vender arte está, a meu ver, a não fazer o seu trabalho muito bem ou então pode não estar a dizer a verdade. Mas isso não significa que o foco tenha de incidir nos coleccionadores ou nos públicos em geral. Inicialmente, a política desta galeria, e isto foi antes de se fazerem muitos projectos de arte contemporânea, passava por vender obras de velhos mestres e de impressionistas. A política era muito exclusiva, tínhamos muitas exposições privadas, tínhamos uma política muito rígida ao ponto de não permitirmos que as pessoas transferissem convites. Os nomes erm sempre registados. Isso foi estabelecido na altura em que vendíamos velhos mestres. Ainda vendemos velhos mestres, mas fazemo-lo de uma forma ligeiramente diferente. A forma como desenvolvemos a galeria nos últimos anos foi a de partir do principio de que do ponto de vista comercial há algo a ganhar em ter um vasto número de pessoas que vêm à galeria: as pessoas começam a falar, os artistas começam a ser conhecidos e a imprensa começa a escrever. Para os russos, a minha posição é um pouco estranha por eu achar que toda a publicidade é boa publicidade. Mas quando existe uma má crítica, não deixa de ser uma crítica, é a opinião de uma pessoa! E passei muito tempo nos últimos quatro anos a dizer às pessoas da galeria, e também às/aos nossas/nossos artistas, que quando têm uma má crítica que ela vale na mesma porque lhes dá espaço nos jornais, divulga-as/os. As hipóteses de um cliente ler essa crítica e decidir não comprar nada à/ao artista são, a meu ver, limitadas. O facto é que as pessoas a lêem, elas vêm o nome e talvez possam vir e ver a exposição.
Então, este espaço é diferente. Tem razão. Aqui, neste espaço, não temos um público muito alastrado. Mas o outro espaço, no Hotel Metropol, está geralmente aberto sete dias por semana das 12 às 22 horas, e quem quiser visitá-lo pode com certeza fazê-lo, independentemente de quem seja - esta é uma política deliberada. Claro que aquilo que está exposto nas paredes baseia-se no princípio do que poderá ser vendido, mais cedo ou mais tarde. Mas quem quiser, pode visitar a exposição e vê-la.


P: Então, existirão públicos distintos em ambos os espaços?

R: Sim, este espaço é mais privado. Mas estamos focados no outro espaço.


P: … se não me conhecesse e se eu passasse na rua e tocasse à campainha para visitar o espaço, seria possível entrar?

R: Sim, se tivéssemos uma exposição. Mas não temos exposições constantemente, portanto…


P: Normalmente existem algumas queixas vindas dos públicos, mesmo em particular dos públicos da cultura. Muitos deles queixam-se que a arte contemporânea é como uma imensa torre de marfim. Porque acha que estes choques existem entre arte contemporânea e os públicos da cultura?

R: Para ser justa, provavelmente também há uma pesquisa que mostra isso, e também se aplica às artes clássicas. Podemos encontrar esse aspecto num museu público. Por exemplo, na experiência britânica. Um dos nossos anteriores governos deu dinheiro aos museus para que não cobrassem entradas de forma a atraírem uma audiência mais vasta. Numa pesquisa detalhada sobre a audiência feita num museu, no Victoria and Albert Museum, em Londres, mostrou-se que durante o período em que não se cobrou dinheiro, o perfil demográfico das audiências não teria mudado muito. Talvez porque muitas pessoas não têm tradição na família ou da escola, ou seja de onde for, em visitarem museus e galerias onde pode, inclusivamente, ser assustador e alienante. Concordo consigo, e também não sei lidar com isso.
Existem museus muito bonitos em Londres, muitas populações pouco privilegiadas, e claro que essas pessoas devem aceder aos museus. No que diz respeito à arte contemporânea, ela também pode ser de difícil acesso. Tenho muitas/muitos amigas/amigos que não têm interesse na arte e que não estão envolvidas/envolvidos no mundo da arte, e que geralmente me dizem: “eu poderia ter feito isso”; “o meu filho poderia ter feito isso”; - é algo que se ouve muito. Essa barreira existe. Sinto-me motivada para que quando as pessoas entrem na minha galeria, que qualquer uma delas sinta que pode formular qualquer questão, pedir qualquer explicação a quem trabalha aqui.


P: E elas fazem-no?

R: Não o fazem em particular, porque não se espera que o façam, mas eu tento encorajar quem trabalha na galeria a aproximar-se das pessoas e falar com elas, a ser amigável… e claro que nem todos o querem. Compreendo. Se visito uma galeria e estou a observar as peças de arte, não quero necessariamente que alguém venha e me aborreça. As pessoas também podem pensar que estamos a tentar vender alguma coisa. O que não gosto enquanto consumidora de arte é entrar numa galeria onde o ambiente é tão snob que possa imediatamente fazer sentir alguém deslocado, e essa sensação parece-me que tem de ser combatida. Não me atrai a ideia de exclusividade e de personalização.
Claro que sempre se pode ter uma minoria de pessoas que têm dinheiro suficiente para coleccionar arte. Em termos relativos, obviamente que é um hobby para pessoas ricas. Existem bastantes pessoas que não têm dinheiro suficiente para ter qualquer tipo de hobbies ou interesses que não sejam olhar pela própria família. Parece-me que pelo ponto de vista económico esta é uma área exclusiva, mas em termos de como se lida com alguém que se dirige a uma galeria, parece-me que tem de existir igualdade de tratamento.



Triumph Gallery
www.triumph-gallery.com