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ENTREVISTA


Luís Sáragga Leal


António Olaio. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Eduardo Batarda. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Eduardo Matos. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Inez Teixeira. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Jorge Martins. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Manuel Botelho. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Nikias Skapinakis. Colecção PLMJ - Pintura e Desenho


Ana Vieira. Colecção PLMJ - Escultura


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Jorge Molder. Colecção PLMJ - Fotografia


José Maçãs de Carvalho. Colecção PLMJ - Fotografia


José Luís Neto. Colecção PLMJ - Fotografia


Manuel Costa Martins/Victor Palla. Colecção PLMJ - Fotografia


Paulo Mendes. Colecção PLMJ - Fotografia


Paulo Nozolino. Colecção PLMJ - Fotografia


Rita Magalhães. Colecção PLMJ - Fotografia


Susana Mendes Silva. Colecção PLMJ - Fotografia


Fernando José Pereira. Colecção PLMJ - Vídeo


Filipa César. Colecção PLMJ - Vídeo


Francisco Queirós. Colecção PLMJ - Vídeo


João Onofre. Colecção PLMJ - Vídeo


Luís Alegre. Colecção PLMJ - Vídeo


Martinha Maia. Colecção PLMJ - Vídeo


Miguel Leal. Colecção PLMJ - Vídeo


Miguel Soares. Colecção PLMJ - Vídeo


Vasco Araújo. Colecção PLMJ - Vídeo

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LUÍS SÁRAGGA LEAL


Presidente do Conselho de Administração da Fundação PLMJ, Luís Sáragga Leal começou a coleccionar a título privado na década de setenta. Em 1998 viria a dar um contributo indispensável à criação da colecção de arte da Sociedade de Advogados PLMJ – A. M. Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins, Júdice e Associados – hoje constituída por um acervo de 1000 obras, que inicialmente abrangia Pintura, Desenho e Escultura, e posteriormente estendeu-se à Fotografia e ao Vídeo.

Nesta entrevista conversámos com Sáragga Leal sobre a sua colecção privada, o seu papel na criação da Colecção e da Fundação PLMJ (instituída em 2000), e sobretudo as opções e os domínios privilegiados da sua intervenção cultural, o crescimento do seu acervo e a aposta na arte emergente. Ouvimos relatos da sua experiência e dos projectos que tem em curso, e conhecemos a sua opinião sobre a situação do coleccionismo em Portugal e a posição do Estado Português em relação às Fundações e Colecções Privadas.

Por Sandra Vieira Jürgens
Lisboa, 24 de Outubro de 2006


P: Em que ano adquiriu a primeira obra da sua colecção particular?

R: A título pessoal, foi no início dos anos 70, por volta de 1971 e recordo-me bem da primeira obra de arte que comprei. Curiosamente, foi de uma pintora que acabou por não ter grande notoriedade mas, que na altura, expunha regularmente. Chamava-se Aldina e fazia parte do grupo do Vespeira. Anteriormente, já tinha adquirido obras menores, mas a minha primeira obra de arte significativa, um óleo, era dessa artista. As que comprei um pouco depois eram de pintores hoje mais consagrados e, na altura, já com algum currículo. Os quadros mais antigos que tenho são do Nikias Skapinakis, que depois se transformou em meu amigo pessoal, e do João Vieira que também se transformou em meu amigo pessoal… Aliás, o estabelecimento de amizades com os artistas foi uma constante desde essa altura. Para mim é fundamental conhecer os autores, e quando comecei a comprar arte no princípio da década de 70 já era assim. Ainda hoje, passados 40 anos, é fundamental para mim conhecer os pintores, tal como tem sido fundamental conhecer os fotógrafos, porque nos últimos anos temos estado (na PLMJ) mais activos na área da fotografia. E nos últimos dois anos na área do vídeo.
Durante muitos anos comprei basicamente pintura e alguma escultura, numa altura em que esta era bastante mais académica do que é hoje. Lembro-me que havia sempre aquela grande rivalidade entre o João Cutileiro e o Jorge Vieira que são os autores das peças que tenho. Mas também tenho outras peças, por exemplo, esculturas do Mário Cesariny.



P: Em que momento surgiu esse interesse pelo coleccionismo? Ou seja, quando é que se tornou coleccionador?

R: Isso levava-nos a definir o que é que é uma colecção e o que é um coleccionador. Embora sejam palavras muito vulgarizadas e eu as use frequentemente em relação à Fundação PLMJ, não o faço em relação ao meu próprio acervo de quadros. Não sei se tenho uma colecção, porque não sei o que é uma colecção. Define-se a partir de 50, 100, ou 200 quadros? Não sei se para ter uma colecção é preciso ter um fio condutor que dê alguma lógica ao acervo. Portanto, não lhe consigo dizer se, a título particular, tenho uma colecção. Sei que tenho comprado regularmente desde o início dos anos 70 e compro única e exclusivamente pintores portugueses. Também procuro dar sempre alguma preferência aos autores emergentes à data. E, hoje, quando digo emergentes, não têm de ser jovens de 20 anos, podem ser autores à data menos consagrados. Curiosamente, algumas das minhas primeiras obras eram de pintores que estavam a começar na altura. Referi já o Nikias Skapinakis, o João Vieira, e podia mencionar o Jorge Martins, de quem comprei o primeiro quadro nessa altura; podia-lhe referir o Palolo, cuja primeira peça também adquiri então. Ainda na década de 70, mas já claramente depois do 25 de Abril, recordo-me de ter comprado o meu primeiro Júlio Pomar, e curiosamente a minha primeira Paula Rego. Eu estou a dizer a minha primeira obra da Paula Rego como se tivesse muitas, mas não tenho. Comprei-a numa exposição em que ela não vendeu praticamente nada. Julgo que foi no Verão de 1975, e penso que nessa altura a Paula Rego vendeu dois ou três quadros numa exposição muito grande na Galeria 111. Felizmente comprei uma obra e incentivei um grande amigo meu e colega de escritório a comprar, aliás quase o obriguei a comprar. Portanto a aquisição de obras desses grandes nomes remonta a essa data. O fio condutor são os portugueses, em princípio, artistas emergentes ou que estejam numa fase ascensional da sua afirmação, e só compro obras de que goste. Não quero fazer uma colecção de cromos e, tal como fazem os meninos com as suas colecções, preencher todos os nomes da pintura portuguesa. Há alguns nomes claramente importantes, que conheço e que vieram a ter grande importância na história da pintura contemporânea, que na altura não gostei. Não eram prioritários para mim, e mais tarde acabei por não recuperar esse atraso. Ou seja, não procuro fazer uma colecção como se fosse um catálogo dos principais nomes da pintura do pós-guerra até à actualidade - do fim do modernismo até aos pintores contemporâneos... Tenho claramente lacunas na minha colecção. Em termos da historiografia reconhecida e assente há nomes importantes que eu não tenho e há nomes dos quais tenho várias peças. Claro que, não tendo eu a responsabilidade institucional de fazer uma colecção representativa, faço uma colecção representativa daquilo que eu gosto. Portanto é evidente que o meu critério é um critério de adesão estética. Essa é uma faceta da minha personalidade, do meu carácter, que é ter interesses diversificados. Não consigo ter, como alguns coleccionadores têm, 10 a 20 quadros do mesmo artista, da mesma época, muito semelhantes, algumas vezes até com a intenção de os fazer rarear no mercado, puxar o valor das obras. Não é esse o meu critério. O meu critério é ter várias obras representativas de um leque alargado de artistas de que gosto. Mas não me lembro de ter mais de três ou quatro obras de um mesmo artista. Provavelmente, terei cinco de alguns deles, mas não mais do que isso.



P: Na aquisição de obras, selecciona primeiro, analisa ou segue um primeiro impulso?

R: Adoro primeiros impulsos. Acho que os primeiros impulsos são extremamente marcantes nas opções estéticas que fazemos. Até nas opções emocionais, sentimentais, que fazemos. Mas porque também sou racional procuro fazer a combinação entre ambas. Raramente compro no primeiro momento. Marco claramente a peça que vejo, peço muitas vezes para reservar e preciso de ir para casa, preciso de chegar à noite antes de me deitar e dizer: “Que peça fantástica!”. Acordo-a e tenho-a na memória, apetece-me imenso tê-la. Preciso de acordar a pensar nela. E depois, tenho de ter a certeza que a quero ter. Preciso de a ter na retina porque normalmente quando se compra a título particular não se podem comprar muitas. Primeiro por limitações financeiras e depois também por limitações de espaço. No entanto, nunca compro um quadro para pôr num determinado sítio. Os quadros comigo passam a vida a girar e a mudar de sítio. Mas os quadros, em princípio, compram-se, senão para toda a vida - nem sei bem o que é fazer opções deste tipo, definitivas - para um período alargado de tempo. E como a minha motivação não é financeira, mas sim estética, de prazer, de gozo, é evidente que tenho de ter um prazer muito grande e estar convicto de que o vou ter durante um período alargado de tempo. Mesmo aos meus amigos nunca os aconselho a comprar de impulso. Escolho, selecciono, adiro por impulso mas nunca compro de impulso. Acabo por confirmar as transacções um ou dois dias mais tarde, sempre depois do que se chama em termos jurídicos um “cooling of period”, um período de resfriamento desse entusiasmo para saber se ele é genuíno ou não. Portanto esse é o meu critério para comprar.



P: Que diferença existe entre coleccionar nos anos setenta e actualmente?

R: No fim dos anos 60 e na década de 70 coleccionar era uma actividade mais restrita, quer no número de compradores, quer na oferta de galerias, de artistas e de obras de arte. Havia poucos artistas a pintar e a expor regularmente; existia provavelmente uma dúzia, no máximo duas dúzias de artistas a expor com alguma regularidade. As exposições desses artistas também não eram sequer anuais, a maior parte das vezes eles expunham de dois em dois, de três em três anos, e o número de galerias era bastante limitado. Havia provavelmente seis galerias implantadas, que não aquelas que abriam e fechavam rapidamente por não terem sequer qualidade ou sustentação. Dando o salto para a actualidade, hoje há uma proliferação muito grande de galerias, de espaços, etc. e a arte transformou-se numa moda. As pessoas compram não só por uma questão de gosto e de adesão estética, mas também por uma questão de estatuto, e ainda bem, pois não tenho nada contra isso. O que interessa é o resultado final e não as motivações das pessoas. Actualmente, ter pintura em casa é muito mais corrente, para não dizer banal, do que há quarenta ou cinquenta anos. Hoje não há ninguém com algum desafogo financeiro que não compre pintura. Até porque hoje há alguma pintura boa muito acessível em termos de preço. Por outro lado, hoje há uma geração muito mais alargada de jovens artistas, que expõe com regularidade. Enfim, nós próprios aqui na Fundação temos um programa, o projecto “Opções e Futuros”, que visa incentivar e divulgar esses valores emergentes, e cuja expressão revela precisamente esta política de aquisições da Fundação, que é um pouco a política de aquisições que tive pessoalmente desde os primeiros tempos: seguir com atenção os valores mais jovens a caminho da sua afirmação e consagração, fazer as nossas escolhas criteriosas, ou seja, as nossas opções em função da avaliação que nós fazemos da sua qualidade em termos de afirmação e valorização futura. Estou a referir-me à valorização artística e não financeira, por isso a expressão “Opções e Futuros” que importámos do direito financeiro. Não podemos esquecer que a fundação PLMJ tem por detrás uma sociedade de advogados. Portanto, hoje em dia há muito mais artistas jovens e uma muito maior diversificação na oferta: pintores contemporâneos claramente consagrados coexistem com outros artistas mais jovens, com uma linguagem mais próxima dos consagrados do que os jovens dos anos 60 tinham em relação aos consagrados. Grande parte dos consagrados de 60 vinha ainda de uma pintura fortemente da escola modernista, e alguns ainda com influências do naturalismo, etc. Portanto o contraste entre os consagrados à data e os jovens à data é muito maior do que o contraste actual entre os consagrados e os jovens. Considero que hoje é talvez um pouco mais difícil comprar porque pressupõe muito mais critério. É um exercício muito mais arriscado do que há quarenta anos atrás, quando a oferta era mais limitada, mais selectiva. Mas eu continuo a achar que esse é que é o aliciante de comprar arte, esse e que é o aliciante de fazer aquilo que outras pessoas chamariam uma colecção (como lhe disse, não sei se fiz uma colecção). Para a Fundação PLMJ, também, porque hoje a Fundação tem, em quantidade e em qualidade, em diversidade e em termos de política aquisitiva, uma colecção.



P: Foi um dos incentivadores da Colecção PLMJ que começou a ser criada em 1998 com os sócios da sua sociedade de advogados?

R: A Colecção PLMJ surge precisamente na sequência da grande paixão que eu tinha pela pintura, pela escultura e, diria de uma forma mais lata, pelas artes plásticas. Era uma paixão muito constante, diria até que tem sido a mais constante das minhas paixões ao longo da vida. E sempre tive este projecto de expor as obras de arte de que gosto no sítio onde trabalho. É aqui que passo, tal como os meus colegas que aqui trabalham, grande parte da vida útil e consciente. Não é em casa, porque chegamos a casa cansados e a maior parte das vezes para dormir, e ao fim-de-semana queremos é desanuviar. Portanto se gostamos de ter obras de arte em casa e com elas conviver também é normal que o queiramos fazer no escritório. Infelizmente, o nosso antigo escritório não tinha condições para isso; era um antigo edifício de apartamentos que tinha sido reconvertido para escritórios e portanto tinha todas as limitações da reconversão. Quando mudámos para aqui, no final da década de noventa, deparei-me com este sítio, com um edifício em tosco, de espaços amplos que me dava a possibilidade de desenhar eu próprio o seu “layout”, e logo aí percebi que iria ter dezenas de metros, centenas de metros de paredes para exporobras de arte. O que era tradicional expor nos escritórios de advogados eram aquelas gravuras feiosas, algumas com cavalinhos a saltar, outras com mapas… Nos escritórios mais sofisticados existiam umas gravuras do Daumier, que foi um gravador francês no género do nosso Rafael Bordalo Pinheiro, que tinha umas gravuras satíricas, algumas delas retratando determinadas profissões: os advogados, os médicos… etc. Eram muito procuradas e é claro que na sua grande parte eram duplicações, réplicas que se compravam facilmente nos bouquinistes na margem do Sena. Nós rompemos um pouco com essa tradição e assumimos transformar uma sociedade de advogados num espaço de cultura. Esse foi o lema deste projecto - uma sociedade de advogados como espaço de cultura.Consegui convencer os meus sócios a apoiar-me neste projecto. No primeiro momento reuni cerca de 180 obras de arte (que inicialmente foram cedidas a título provisório) de cerca de oitenta artistas, que eram os mais representativos da produção contemporânea, dos anos 80 até à actualidade. E quando inaugurámos o escritório fizemos uma grande exposição, foi a forma de celebrar trinta anos de vida da sociedade e a mudança para estas novas instalações. Para a fazer, assumimos um compromisso perante as galerias e os artistas: dessas 180 obras emprestadas iríamos comprar um mínimo de quarenta a cinquenta peças. E assim fizemos. Enfim, houve um processo de consulta um pouco artesanal realizado às pessoas não só da casa, que cá trabalhavam, os advogados, os secretariados, mas também a quem nos visitou, colegas e amigos, para saber quais as obras de que mais gostavam nesse conjunto exposto temporariamente. Depois de um processo de apuramento desse critério de artesão, com umas pequeninas batotas que tive de fazer (tive de corrigir algumas das escolhas), apurámos as primeiras quarenta e tal obras que comprámos. E assim começámos o nosso acervo, precisamente em 1998, com quarenta e tal obras. E temos vindo todos os anos a aumentar, a completar, a actualizar a colecção, porque a minha condição para organizar esse projecto no escritório foi que ele não se esgotasse no acto de inauguração e que houvesse uma dotação orçamental todos os anos. E assim foi, desde então tenho tido esse apoio dos meus sócios. Gostaria que fosse maior, gostaria que eles fossem mais generosos, que fossem mais entusiastas, mas de qualquer forma tem havido uma forte evolução. Lembro-me que nessa grande exposição parte dos colegas e até das pessoas que nos visitavam tinha aquela reacção um pouco primária perante as obras de arte: “ai, o que é isto? O que é que isto representa? Isto também o meu filho faz!” E pouco tempo depois verifiquei que as pessoas passavam nos corredores e eu já as ouvia a discutir a peça do Batarda ou do Jorge Martins. Comentavam os seus gostos: “eu gosto mais desta”, “eu gosto mais daquela”… e ainda maior prazer foi verificar que alguns delescomeçaram a frequentar as exposições, a ir às galerias que representavam esses artistas e hoje também começaram a comprar. Esse foi um prazer grande que, curiosamente, tive uns anos depois em relação à fotografia, porque em 98 começámos com pintura e alguma escultura e uns anos mais tarde, aliás, fruto de um desafio que me lançaram, arrancámos para a fotografia. Na altura tinha pouca informação sobre fotografia como forma de expressão plástica autónoma e, como sempre faço, fui-me informar, documentar. Comprei livros, assinei revistas, comecei a ir aos museus no estrangeiro, onde começa a haver cada vez mais museus de fotografia. Fui aos grandes acontecimentos da fotografia, entre os quais os Encontros de Fotografia de Coimbra, os Encontros de Imagem de Braga, ao Mois de la Photo em Paris… e depois comecei a verificar que mesmo nas feiras internacionais havia uma presença cada vez maior, em termos percentuais, de fotografia. Na Arco, em Basileia, havia muita fotografia e, curiosamente, também depois na Bienal de Veneza. Esse é um fenómeno a que tenho assistido nos últimos anos, e foi por volta de 2000/2001 que a Fundação PLMJ começou a colecção de fotografia. Agora também tenho estado a assistir ao mesmo fenómeno em relação ao vídeo. Provavelmente estou mais desperto e tenho verificado uma explosão de obras em suporte vídeo nesses grandes certames internacionais, quer nos de natureza comercial quer nos de natureza institucional. E foi assimque começámos a colecção de fotografia, a maior parte dos autores até nem estava referenciada, não havia um levantamento sequer de qual era o universo de autores que faziam fotografia em Portugal. E foi um passa-palavra, foi o pescar à linha, e hoje devo ter a maior informação visual e pessoal sobre a fotografia em Portugal. Entrevistei pessoalmente mais de 100 autores. Traziam os seus portfolios, mostravam-nos aqui no escritório, discutíamos, alguns mostraram maior facilidade em aderir ao projecto, alguns tinham maior resistência porque não tinham o hábito de vender. Nunca tinham exposto na vida, e infelizmente alguns já tinham falecido e foi com os filhos ou com a viúva que tratei, o que em alguns casos tornava o exercício um bocadinho mais penoso. Mas foi assim que fizemos uma colecção de fotografia e hoje julgo que a Fundação tem de longe o maior acervo fotográfico privado, em termos antológicos. Temos actualmente mais de 650 fotografias de mais de cerca de 150 artistas, enquanto na pintura temos a preocupação de cobrir desde os anos 80 até à actualidade. E cada vez mais a actualidade, sempre com ênfase na vanguarda, porque foi possível ir mesmo à origem da moderna fotografia de autor. Ou seja, desde o fim do pós-guerra até à actualidade. Todos os anos publicamos um livro. Nos primeiros anos, monografias sobre autores que tinham tido maior relevo e destaque na tal grande exposição que fizemos, e cujas obras mais emblemáticas terão sido as preferidas e estão expostas aqui no escritório. O primeiro livro foi sobre o Manuel Botelho, o segundo sobre o Pedro Proença, o terceiro sobre o Pedro Casqueiro, e o quarto sobre a Ana Vidigal. Portanto fizemos esses quatro livros não unicamente sobre a colecção, eles têm obras da colecção mas são monografias sobre o percurso artístico desses autores. Quando chegámos a um momento em que tínhamos uma colecção de fotografia com um acervo já significativamente representativo, fizemos um livro sobre as obras da colecção. O primeiro livro chamou-se “Extensão do Olhar” e cobriu sobretudo a produção dos anos 70 até à actualidade. Considero que foi um livro muito significativo, porque realizou-se um primeiro levantamento da produção fotográfica nacional que nos conduziu até uma exposição para a qual fomos convidados pelo CAV – Centro de Artes Visuais do meu amigo Albano. Fizemos uma colecção em Coimbra com parte da colecção que estava representada na “Extensão do Olhar”. No ano seguinte prossegui esse exercício cobrindo o período anterior aos anos 70, desde o pós-guerra, e fizemos um segundo livro exclusivamente sobre a nossa colecção chamada “Em Foco”. É precisamente sobre os fotógrafos desse período, e por sua vez também nos levou à realização de uma exposição chamada “Em Foco”, a convite da Câmara Municipal de Lisboa, para o Pavilhão Negro do Museu da Cidade. Essa é a nossa actividade ao nível da fotografia. Temos continuado a comprar obras desses tais jovens que também expõem algumas fotografias em “Opções e Futuros”, que é um projecto mais pluridisciplinar, cobre pintura, desenho, fotografia, escultura e vídeo. Estamos desde há dois anos a constituir o que também julgo ser hoje a colecção mais representativa e antológica de vídeo nacional. Já lhe posso dizer em primeira mão que temos cerca de 80 vídeos e devo dizer-lhe que devo ser a pessoa que mais informação tem sobre a produção em suporte vídeo. Ao longo destes dois anos devo ter visto mais de 100 obras vídeo de artistas nacionais, para além das que tenho visto em exposições, em certames, em feiras, no estangeiro. Em Portugal já vi obras de mais de 150 artistas e uma média de seis a sete obras por artista. Já vi mais de 1000 vídeos, o que me permitiu seleccionar mais de 80 e tal vídeos que constituem hoje o núcleo desta nossa colecção. Até lhe posso dizer, quase em primeira mão, que o livro deste ano vai ser sobre vídeo. Não estou a desvendar um grande segredo - mantenho sempre um grande segredo sobre as iniciativas editoriais e sobre o livro que sai em Novembro/Dezembro, mas como estamos quase lá... Este livro é uma experiência pioneira, porque há muito pouca bibliografia sobre vídeo. Em Portugal não há livros sobre vídeo e mesmo em termos de bibliografia internacional há muito pouco. Fazer um livro desta natureza é um risco porque o vídeo é por definição imagem, é som, é movimento, sendo difícil transferir essa magia do vídeo para um livro, que pressupõe imagens estáticas, com base nos “stills”. Mas enfim, achámos que era didáctico e que do ponto de vista de divulgação era importante fazer esse livro. Está no prelo e vai estar acompanhado por um DVD com obras que foram especialmente encomendadas a artistas mais jovens, o que dá aos leitores a possibilidade não só de ver qual é a colecção mas também de ter em casa uma certa exposição a esta nova forma de expressão plástica que, acredito, vai ter uma grande afirmação e pujança nos próximos 20 a 30 anos, acompanhando o desenvolvimento tecnológico neste sector da produção.



P: O que é que o levou a apostar no vídeo?

R: Primeiro, a Fundação quer apoiar os jovens artistas, a sua divulgação. Hoje grande parte dos artistas mais jovens têm uma produção não só na pintura; alguns fazem pintura e fotografia, outros fotografia e vídeo, mas já há muitos pintores e fotógrafos a fazer vídeo. É uma forma de expressão hoje muito vulgarizada entre os artistas e portanto quisemos apoiá-los, divulgá-los; e também porque o próprio escritório quer ser dinâmico, pioneiro, inovador, e esse é o mesmo espírito da Fundação. Se o vídeo é uma forma de expressão plástica inovadora e dinâmica, com alguns riscos - sabe-se lá qual vai ser o futuro - nós queremos lá estar, queremos ter um papel nessa divulgação.



P: Quem assume a responsabilidade pela escolha do acervo?

R: Como tenho algum entusiasmo por isto, dou muito do meu tempo à Fundação, às artes plásticas, a ver, a estudar, a seleccionar, é claro que a decisão final é minha. Mas eu tenho limitações, sou um curioso, tenho uma formação um bocado empírica, não sou um técnico e felizmente em boa hora, um dia quando fui tirar um curso de história da fotografia encontrei um jovem curador, o Miguel Amado, com quem estabeleci uma certa empatia e desafiei-o para fazer o primeiro livro de fotografia. Foi assim que começou a nossa colaboração e a partir daí tem vindo a aumentar, têm-se vindo a alargar a novos projectos e acho que tem sido uma colaboração extremamente útil e certamente importante para a Fundação, que passou a contar com o apoio de alguém que tem uma formação específica e pertence a esta nova geração de curadores. Também é importante que seja um curador com créditos firmados. E para o Miguel Amado, estando em princípio de carreira, também terá sido importante ter uma Fundação que lhe dá alguma autonomia e ter alguém a representar essa fundação que tem capacidade de decisão, alguém que decide sozinho. Não preciso de reunir com ninguém, não preciso de grandes coisas. Nós, eu e o Miguel, decidimos com base nas propostas dele, no conselho dele, e decido na hora e isso funciona bem para ele.



P: Na apresentação diz-se que o acervo pretende ser ilustrativo da criação artística contemporânea, e a colecção apresenta de facto um panorama eclético e bastante abrangente de obras e nomes. Integra obras em diversos suportes, reflecte uma pluralidade de posturas éticas e estéticas, de criadores com nomes consagrados até quase desconhecidos. Não teme que esta abrangência possa ser entendida como uma falta de
identidade, de uma orientação e de personalidade forte da colecção?


R: É evidente, preso por ter cão e preso por não ter. É evidente que eu poderia fazer uma colecção só com nomes consagrados. Possivelmente até seria menos atacado. Contudo, também é evidente que com as limitações orçamentais que temos, provavelmente só conseguiríamos comprar meia dúzia de obras de arte desses autores consagrados. Nunca iria ter uma boa colecção porque só poderia comprar meia dúzia de obras por ano e, sobretudo, porque começando a comprar agora obras desses autores, que iniciaram a sua produção nos anos 60, 70 e 80, chegaria tarde. Ou começaria a comprar obras mais antigas e nesse caso não estava a comprar talento, mas a comprar as mais valias de quem comprou nessa altura e está agora a vender no mercado secundário. Era uma opção. Provavelmente teria hoje uma, duas ou três dezenas de quadros de nomes incontornáveis, mas não tinha uma colecção representativa. E não tinha mérito nenhum, estava a comprar aquilo que já toda a gente comprou. É uma questão de ter mais ou menos dinheiro. A nossa opção é precisamente a oposta, os nomes consagrados são importantes para dar alguma coerência a este acervo, mas o mérito está em apostar, e apostar é arriscar, é uma vez mais “Opções e Futuros”, nos artistas mais novos. O ano passado expusemos vinte e tal artistas, este ano vamos expor mais vinte e tal artistas, provavelmente no próximo ano mais vinte e tal artistas. Eu não estou à espera que estes cinquenta e tal artistas que vamos expor em dois anos venham a ser todos eles, a médio e a longo prazo, grandes nomes, valores indiscutíveis da produção artística nacional. Assumo perfeitamente que grande parte deles vai ficar pelo caminho, vai fazer outras opções de vida, outras opções profissionais, uns vão ser professores, outros vão casar, outros vão emigrar, outros vão ser assessores de ministros, outros vão ser designers gráficos. É um risco, mas esse é o risco que dá prazer a este exercício. Porque se destes artistas, 30 ou 40%, continuarem a sua carreira, estou certo que 20 ou 30% do total vão ser grandes valores, porque têm qualidade para isso. Portanto se eu tiver acompanhado o percurso de 20% ou 30% dos futuros valores indiscutíveis das artes plásticas em Portugal desde a sua génese, fico satisfeito. E não me preocupa a valorização, mas se alguém pensar alguma vez em termos de valorização, a valorização desses 20 ou 30% compensa, em termos financeiros, a desvalorização ou a não valorização dos outros 60% ou 70%. Essa é pelo menos a minha experiência pessoal ao longo destes anos. Não é no horizonte de cinco anos, e não falo sobre valorizações patrimoniais e financeiras, esse não é o meu campeonato, não é a minha linguagem, não é o meu objectivo, não é essa a motivação da Fundação. Falo em termos de afirmação e valorização artística e julgo que 30% destes artistas vão obter a devida consagração a médio e a longo prazo.



P: A procura dos novos valores tem sido por vezes criticada pela possibilidade de significar preços baratos, peças menos caras e um potencial de valorização elevado.

R: Provavelmente para falar sobre valorizações, é melhor falar com bancos de investimento que compram obras de arte para valorizar ou com companhias de seguros. Nós não compramos para valorizar. Eu próprio, que compro há quarenta anos, normalmente não vendo por motivação financeira. Posso às vezes trocar umas obras para comprar outras por uma questão de evolução de gosto, de opções estéticas. E também não é essa a motivação da Fundação, que já lhe expliquei qual é. Mas também lhe digo que se estes 30% de artistas se valorizarem, se obtiverem a tal consagração profissional e artística que lhe estou a falar, essa consagração vai traduzir-se numa valorização patrimonial que compensa os outros 60% ou 70% que vão ficando pelo caminho. É como os advogados, todos os anos formam-se dezenas de advogados, mas nem todos vão ser advogados consagrados. Mas há certamente em cada geração um núcleo percentual importante de advogados bem sucedidos e consagrados.



P: Referiu que gostava de conhecer os artistas. E de que modo se relaciona com o meio artístico, com os vários agentes que o constituem?

R: Sim, como referi, para mim é fundamental conhecer os artistas e eu até tinha um ritual: quando comprava um quadro pedia aos artistas para lá irem a casa, fazíamos um jantar lá em casa, convidava alguns amigos mais afins e pendurávamos o quadro, discutíamos aonde é que ele deveria ficar, etc. Era também um gozo, um projecto, que passava por esse convívio. A vida foi-se tornando cada vez mais absorvente do ponto de vista profissional e nem sempre tenho tempo para isso. Mas é evidente que a minha relação não é só com os artistas. Porque eu respeito imenso e sempre respeitei a função e o papel das galerias. Mesmo quando os compradores mais conhecidos e activos têm a possibilidade de ter acesso directo aos artistas, eu acho que se deve respeitar o papel das galerias, porque estas são fundamentais no diálogo, na ligação entre o comprador e o artista. Portanto eu respeito as galerias e tenho as melhores relações com todas elas. Algumas,infelizmente já desaparecidas, foram muito importantes no princípio da minha colecção, como a galeria Quadrum, havia a também a Interior que foi a primeira galeria da Ana Isabel e que ficava ali na Castelo Branco, depois assisti ao aparecimento da galeria 111, que teve um papel fundamental nessa altura, assisti depois ao aparecimento da Módulo do Mário Teixeira da Silva, e agora às mais recentes, à Cristina Guerra, à Filomena Soares, etc. Não só em Lisboa como no Porto, à Pedro Oliveira - é curioso que houve primeiro uma migração das nossas para o Porto e agora está a haver do Porto para Lisboa - a Fernando Santos, a Quadrado Azul, do Ulisses, a Presença, da Maria de Belém. Conheço-os a todos eles há vinte anos e conheço os mais novos, como o Miguel Nabinho… É inevitável, eu não sou apenas um comprador, eu sou um activo visitante, interesso-me e tenho a melhor relação com os galeristas. Não me lembro de ter tido um único problema com uma única galeria ou com um único galerista.



P: Daqui a alguns dias irá realizar-se a Arte Lisboa. Que expectativas tem relativamente à próxima edição desta feira de arte contemporânea de Lisboa?

R: Expectativas, pessoalmente não tenho nenhumas. E não é crítica. Acho que a Arte Lisboa deve realizar-se e acho que tem um papel importante na divulgação da arte contemporânea e na possibilidade de fazer facilmente uma mostra representativa do que se está a fazer em Portugal. Portanto é sobretudo para público menos informado, um público que está a chegar, que mostra curiosidade crescente em relação à arte. É a oportunidade de, em duas ou três horas e num espaço limitado, visitar quase todas as galerias e ter uma visão representativa do que se está a fazer. Se eu não andasse nas galerias o ano inteiro, se não conhecesse os artistas, se não recebesse o que hoje é possivel e fácil (passo a vida a receber portfolios por email de artistas para ir actualizando, tenho dossiers, volumes, pastas sobre portfolios de artistas), é evidente que eu estava ansioso, à espera que viesse a Arte Lisboa para ver o que se está a fazer. A Arte Lisboa, para mim pessoalmente, não vai ter grandes novidades. Vou sempre com muito gosto, é sempre um acontecimento, mas para os mais connaisseurs, os mais entrosados neste meio, é um acontecimento que não traz grande novidade. É sobretudo um acontecimento comercial e de divulgação. Mas não é aí que eu faço as minhas grandes compras e não é aí que eu vou ver algo de extraordinário. Para o grande público é um acontecimento importante e saúdo e louvo o esforço que fazem para a sua divulgação. Era melhor se fizessem mais publicidade, assim como em Madrid com o Arco. Quando chegamos a Madrid só vemos ARCO por todo o lado, só se fala da Arco nos jornais, nas paredes, nos placares, e aqui em Lisboa a maior parte das vezes quando se diz “Olha, a Arte Lisboa acabou”, as pessoas dizem: “Ah foi? Não vi”. Há claramente um défice de projecção dessa imagem, mas é um acontecimento importante.



P: Pensa que pode ser importante para incentivar o coleccionismo?

R: Sim, na medida em que permite a familiarização de um público crescente. É mais fácil chegar a um sítio onde, em duas ou três horas, se vê provavelmente 600 ou 700 obras de 60 artistas diferentes, uma grande variedade… É mais fácil para as pessoas ir a uma feira do que ir pontualmente a uma galeria, hoje a uma, amanhã a outra, sobretudo com as dificuldades de estacionamento, para ver obras de um artista. Acho que é fundamental para a divulgação e para a chegada de um número cada vez mais alargado de amantes e compradores de arte.



P: Que opinião tem sobre o coleccionismo em Portugal?
R: Hoje, fala-se muito do coleccionismo por dois fenómenos que considero serem epifenómenos. Ainda bem que acontecem em Portugal, mas acho que não são representativos do que se passa em Portugal. Estou a falar da Fundação Berardo e da mais recente Colecção da Ellipse Foundation/ João Rendeiro. Cada uma tem a sua razão de ser, o seu objectivo, as suas particularidades, mas não são representativos do coleccionismo em Portugal. Pessoalmente, não sei quem são os grandes coleccionadores em Portugal, mas deve haver, dizem-me até que há pessoas que têm armazéns cheios de obras de arte, o que para mim é bizarro, eu não concebo isso. Se não desfruto das minhas obras de arte, então não sei para que é que as tenho. Tê-las num armazém? Será por investimento? Será por ambição de reconhecimento futuro? Será para fazer outra Fundação Berardo, outra Fundação Ellipse, outra Fundação Ilídio Pinho? Não sei. Se um dia destes o Estado vai comprar estas colecções a todos os privados que juntam obras de arte em armazéns, não há Orçamento Geral do Estado que aguente isto, porque criou-se um precedente com a Fundação Berardo que não sei aonde é que pára. Se vão comprar a colecção ao Berardo, ou põem ou suportam os custos, a divulgação… e aí entraríamos na crítica deste projecto, o que não vem ao caso. Mas eu agora digo, porque não fazer o mesmo em relação à colecção do João Rendeiro? Vamos fazer aqui um juízo valorativo? Uma é melhor que a outra? Uma é maior que a outra? Uma tem mais interesse do que a outra? Não sei. Depois, a questão pode pôr-se em relação a muitas outras, as tais que estão aí metidas em armazéns. Esteja a Senhora Ministra da Cultura descansada que não é esse o objectivo da Fundação PLMJ. A Fundação PLMJ não quer nenhuns apoios do Estado para coisa nenhuma e não espera expor amanhã no CCB a expensas do Orçamento Geral do Estado. Não é essa a nossa motivação. Nao sei se há outros projectos de coleccionismo privado ou desta natureza. Eu acho que as grandes empresas que têm colecções não têm feito o que nós fazemos, que é assumir a responsabilidade, comprar, explicar porque é que se compra, e divulgar. Algumas empresas lançaram-se nisso com grande capacidade financeira, com grandes meios, e depois não vejo os resultados. Não vou fazer queixinhas relativamente a nenhuma, mas está certamente a pensar nas mesmas que eu, e que depois não se vêem resultados. Nós pelo menos, bem, ou mal, pretensiosos ou arriscados, damos a cara, fazemos, somos um agente cultural activo, responsável. Temos uma política e temos resultados dessa política com limitadíssimos meios financeiros. Sei que hoje o coleccionismo se está a divulgar, sei que há cada vez mais pessoas a comprar, não sei é se é um sintoma de pujança do coleccionismo, e não sei se tem sustentação ao nível da oferta. Tenho as maiores dúvidas. Acho que grande parte das pessoas está a comprar para ter em casa, o que já é importante, permite uma certa democratização da arte e uma maior disseminação, muito mais positiva do que estarmos a fazer as tais colecções que depois estão metidas em contentores dentro de armazéns.



P: O coleccionador é um eterno insatisfeito?

R: É. Qualquer pessoa muito afectiva, qualquer pessoa muito sentimental, qualquer pessoa que viva de projectos é um insatisfeito. Reconheço que sou um insatisfeito. Acho que em todos os projectos da minha vida não me interessa chegar a lado nenhum, interessa-me o percurso para lá chegar e se alguma vez eu tiver a noção de que cheguei - por exemplo, se eu disser algum dia “Tenho uma colecção” - perdeu o gozo. Então vou fazer colecções de outras coisas, de caricas, berlindes ou qualquer coisa assim. Chegar ao fim, atingir um objectivo, é redutor, o que interessa é a motivação para procurar esse objectivo. Esse é que deve ser o objectivo do coleccionador, e nesse sentido o coleccionador é sempre um insatisfeito porque não deve chegar à conclusão de que atingiu o seu objectivo. O seu objectivo é sempre uma miragem, está sempre longe e nunca se lá chega.



Fundação PLMJ
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