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ENTREVISTA


Carla Oliveira, editora das edições Orfeu Negro, com máscara da autora RoseLee Golberg. Fotografia Joana Messias


Em 2013, Achimpa, de Catarina Sobral, foi premiado pelo Festival Amadora BD e distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores como Melhor Livro Infanto-Juvenil.


Jacques Rancière, Slavoj Žižek, Gilles Deleuze, Peter Brook e Pedro Costa são alguns dos autores que compõem o catálogo da Orfeu Negro [1]. Fotografia Patrícia Guerreiro Nunes


Na colecção Orfeu Mini, histórias inusitadas encontram formatos arrojados [2]. Fotografia Patrícia Guerreiro Nunes


A segunda edição, revista e aumentada, de A Arte da Performance, de RoseLee Goldberg, primeiro título da Orfeu Negro.


Os ensaios Orfeu Negro abrangem as várias artes contemporâneas, privilegiando o pensamento transversal [3]. Fotografia Patrícia Guerreiro Nunes


Os livros de Oliver Jeffers têm uma legião de fãs em Portugal. O Incrível Rapaz que Comia Livros terá a sua terceira edição em Abril.

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CARLA OLIVEIRA


Carla Oliveira é a actual editora da Orfeu Negro. Estudou Línguas e Literaturas Modernas (variante de Estudos Portugueses e Ingleses) na Universidade Nova de Lisboa. Depois de uma passagem pelo Parlamento Europeu em Luxemburgo como tradutora, regressou a Lisboa onde, para lá dos trabalhos de produção com a Companhia Clara Andermatt e a dupla de performers Ana Borralho & João Galante, foi colaboradora da editora Antígona durante quase uma década, fazendo o acompanhamento da produção editorial, organizando eventos e sendo responsável pelos direitos internacionais e por traduções e revisões literárias. Ainda dentro da Antígona, fundou em 2007 a Orfeu Negro, sendo responsável desde então pelo programa editorial.

ORFEU NEGRO dedica-se à edição de ensaios e de outros trabalhos documentais no âmbito das artes contemporâneas, privilegiando obras de reflexão sobre os modos de criação artística e o cruzamento das várias artes. Da dança à arquitectura, passando pelo cinema, o teatro, a fotografia e as artes visuais, as suas escolhas incidem em autores como Jacques Rancière, RoseLee Goldberg, Slavoj Zizek e Laurence Louppe.
A história ORFEU NEGRO, iniciada em 2007, estende-se um ano depois para ORFEU MINI, designação da série de livros ilustrados, e inusitados, para miúdos e graúdos.
No ano de 2010, nasce CASIMIRO, personagem bizarra e provocadora que inaugura a estúrdia colecção de livros ilustrados para gente madura e extravagante.


Por Liz Vahia

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LV: Qual a génese da editora Orfeu Negro e da sua especialização no ensaio artístico? Houve algum momento chave que despoletou o seu aparecimento?

CO: Estive durante alguns anos ligada à produção de espectáculos, sobretudo nas áreas da dança, da performance e da música, e à edição de livros, por via do meu trabalho de muitos anos com a editora Antígona. Houve um momento em que estes dois universos, que corriam em paralelo, se sobrepuseram e deram origem à Orfeu Negro, uma casa com uma programação editorial dedicada às áreas artísticas.


LV: Quem se interessa pelas artes visuais e pelo ensaio já está habituado a ir a bibliotecas e a comprar livros importados. A Orfeu Negro surgiu para preencher um vazio no mercado editorial português?

CO: Eu espero que a afirmação passe a ser a seguinte: Quem se interessa pelas artes visuais e pelo ensaio de arte pode agora ir a bibliotecas e/ou livrarias nacionais e encontrar livros traduzidos.
A Orfeu Negro foi, de facto, criada com o intuito de preencher uma lacuna no mercado editorial português, de modo a poder contribuir para um leque maior de traduções e de leitores de certas obras.


LV: Como é que surge a escolha do próximo livro a ser editado?

CO: De diferentes maneiras. Por vezes, são livros que trago na ideia há muito tempo, como foi o caso de A Arte da Performance. Um dia, num seminário em Lisboa dado pela própria RoseLee, no âmbito do Festival Temps D’Images, conheci a autora e resolvi que era a altura de avançar. Há livros que são sugeridos pelos amigos e colaboradores, outros que aparecem nas viagens, sejam elas físicas ou virtuais, outros que as editoras estrangeiras nos enviam, já conhecendo a nossa linha editorial. É importante ressalvar neste ponto que os apoios à edição e à tradução também podem ser determinantes nas escolhas.


LV: Quando vamos à secção “Livros”, na página web da editora, encontramos todos os livros editados sem separação de colecções. Esse lado a lado entre um “livro para crianças” e um ensaio sobre fotografia vem dizer-nos que os desafios provêm de diversas fontes?

CO: A colecção Orfeu Mini é entendida como uma extensão da série de ensaios, na medida em que distende e amplia os territórios artísticos. Por outro lado, os livros MINI dirigem-se aos públicos miúdo e graúdo. Misturá-los no site foi uma opção inicial, mas não sei se continuaremos por aí, no caso de construirmos um novo site. Através dos nossos mailings e da Feira do Livro de Lisboa, onde temos maior contacto com os leitores, apercebemo-nos que não há assim tanto contacto entre os leitores dos ensaios e os compradores dos álbuns ilustrados. É algo sobre que temos de ponderar...


LV: Os livros da Orfeu Negro sobressaem pela sua concepção gráfica, pela sua atenção e referência ao trabalho que está nas mãos dos designers. Foi uma questão importante desde o início? É uma chamada de atenção ao livro como objecto?

CO: O livro enquanto objecto sempre me fascinou. Tenho um amigo que chegava a dizer “Para de acariciar os livros ou eu começo a ter ciúmes.” É claro que dizia esta frase num tom de brincadeira, mas isso acontecia quando eu entrava nalgumas livrarias em Paris, em breves períodos que lá passei como tradutora do grupo Les Mousquetaires, e me detinha a admirar as estantes, a revirar os livros, a afagar o papel, a perscrutar a capa, a cosedura, a lombada. E assim é quando pego num livro, algo herdado de ter crescido no meio de livros e de ter estado tão presente numa Antígona que continua a almejar a perfeição.
Objectivamente, sim, o desenho do livro é uma preocupação desde o início na Orfeu, a tipografia, os materiais que se escolhem, do papel do miolo à cartolina da capa, a maneira como se pensa o livro em termos plásticos. Neste aspecto, a colaboração com o nosso designer, o Rui Silva (alfaiataria.org), tem sido frutuosa e muito importante também.


LV: A Orfeu Negro iniciou em 2008 a sua colecção de livros para crianças. Esta Orfeu Mini vem propor livros para um público infantil específico, ou tentar que as crianças se relacionem com os livros de outra maneira? Há um questionamento do que são os livros para crianças?

CO: O livro ilustrado tem vindo a derrubar categorias e, por isso também, não gosto de lhe chamar livro “infantil”. Na base da Orfeu Mini está a chamada de atenção para o livro enquanto objecto e para o objecto enquanto conteúdo ou parte da história, como é o caso flagrante de O LIVRO INCLINADO. Por outro lado, há livros que se prestam a várias camadas de leitura, como o ANIMALÁRIO UNIVERSAL. É um livro para leitores de todas as idades. Primeiro, podemos rir das composições estrambóticas de animais, depois juntar as sílabas e compreender os nomes inventados, mais tarde ler as frases que acompanham as ilustrações, mais cedo ou mais tarde perceber a ironia e o humor de ambos, texto e ilustração, acreditar ou não na história do Professor Revillod... É um sem fim de leituras e interpretações. E é essa complexidade que nos interessa.
Nos nossos livros, há buracos, dentadas, papéis pouco brilhantes, cartão à vista, personagens daqui e dali, histórias com finais nem sempre felizes e palavras difíceis. A mais difícil é mesmo “Achimpa”, que ninguém sabe o que quer dizer...


LV: Editou o livro “Oinc! A história do Princípe Porco”, que conta com 6 litografias de Paula Rêgo. Como é que surgiu esta colaboração entre a editora e a Casa das Histórias?

CO: Um dia recebi um telefonema da então responsável de marketing da Casa das Histórias, dizendo que gostariam de ter uma reunião connosco. Eu fiquei convencida de que se tratava algum assunto relacionado com a livraria. Qual não foi o meu espanto quando nos convidaram para conceber um livro ilustrado com imagens da pintora Paula Rego. O projecto correu muito bem na ligação entre a editora, a Casa das Histórias e as duas autoras. É um orgulho termos hoje a artista representada no nosso catálogo, a par da escritora Isabel Minhós Martins, que adaptou a história tradicional ao universo dos mais pequenos, recorrendo a onomatopeias e a pormenores relacionados com a própria obra de Paula Rego.


LV: Outra parceria foi com a Midas Filmes, para a edição do livro “Cem mil cigarros – Os filmes de Pedro Costa”. Pela primeira vez se reuniram textos de diversos autores (críticos, artistas...) sobre a obra cinematográfica de Pedro Costa. Era a monografia que faltava em Portugal sobre o autor?

CO: Continuam a faltar monografias sobre ao autor, tendo em conta que a sua obra continua em construção... Sobre esse livro, o mais relevante, para mim, é que foi um projecto apaixonante. Vi muitos dos filmes do realizador que ainda não tinha visto para poder acompanhar a leitura dos textos, trabalhámos directamente com o Pedro para criar a capa do livro, criaram-se novas amizades e parcerias profissionais e bebeu-se algum vinho, sempre tinto. Depois de editado, o livro é pouco comprado em Portugal, há livrarias que nem sequer o encomendam e acabamos por tentar escoá-lo na feira do livro de Lisboa a preços módicos. É um livro que levanta várias questões: vale a pena investir no livro enquanto objecto? É, realmente, a monografia que faltava?


LV: A colecção Casimiro, “títulos inusitados para gente madura e extravagante”, também surgiu duma necessidade específica do mercado português ou duma vontade particular? Já há outros livros previstos para serem editados nesta colecção?

CO: A Casimiro nada tem a ver com necessidades de mercado, mas de uma vontade particular de editar a obra A ARTE DE DAR PEIDOS em versão ilustrada por um artista contemporâneo. Como não tinha onde a encaixar, criei uma colecção. Temos prevista a edição, ainda este ano, de textos de uma escritora brasileira, Hilda Hilst, com ilustrações do André da Loba. São textos de escárnio e grotescos, acompanhados de imagens eróticas desenhadas pelo André. A colectânea vai chamar-se OBSCÉNICAS. Temos também outros projectos em curso, designadamente alguns contos de loucura e morte, escritos pelo uruguaio Horacio Quiroga e ilustrados por um artista espanhol, Manuel Martinez.


LV: Irão surgir, no futuro da Orfeu Negro, edições de textos de autores portugueses sobre áreas artísticas?

CO: A monografia sobre a obra do Pedro Costa inclui já autores portugueses. Outros virão, com certeza, mas a nossa perspectiva editorial não se relaciona com nacionalidades, mas com qualidade, pertinência, gostos pessoais, recursos, são vários os factores que influenciam a publicação de uma obra.


LV: Há alguma área do pensamento contemporâneo que esteja menos explorada a nível de edições em Portugal? A Orfeu Negro tem alguma proposta nesse sentido?

CO: Os estudos culturais, por exemplo. Não sei se vamos por aí. A música. Sim, vamos por aí, mas não podemos ainda desvendar. Os estudos de performance. Também estamos a ir por aí. Este ano sairá uma antologia de textos de Richard Schechner, professor de estudos de performance na Tisch School of the Arts, em Nova Iorque, seleccionados por Ana Bigotte e Ricardo Seiça Salgado.


LV: Podemos ver na selecção dos títulos na área do ensaio os interesses e as inquietações da Carla Oliveira?

CO: Um catálogo de uma editora independente retrata, com certeza, os desejos de leitura e de reflexão do seu editor.


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Orfeu Negro
www.orfeunegro.org


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Notas

[1] Fotografia conjunta: Cem Mil Cigarros – Os Filmes de Pedro Costa, Coordenação de Ricardo Matos Cabo, Destino das Imagens e Lógica da Sensação, de Jacques Rancière, Lacrimae Rerim, de Slavoj Žižek e Espaço Vazio, de Peter Brook.

[2] Fotografia conjunta: Animalário Universal do Professor Revillod, de Miguel Murugarren & Javier Sáez Castán, Livro Inclinado, de Peter Newell e Migrando, de Mariana Chiesa Mateos.

[3] Fotografia conjunta: Espelho do Mundo, de Julian Bell, Ensaios Fotografia – de Niépce a Krauss, Organização de Alan Trachtenberg, Poética da Dança Contemporânea, de Laurence Louppe e O Modulor / Modulor 2, de Le Corbusier.