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ENTREVISTA


Georg Schollhammer


"Springerin" (Capa), Inverno 2007


"Springerin" (Capa), Outono 2006


"Springerin" (Capa), Verão 2006


Documenta Magazine nº 1, 2007 - "Modernity?" (Capa). Design: Martha Stutteregger. © documenta GmbH


"Modernity?", p.54. Design: Martha Stutteregger. © documenta GmbH


"Modernity?", p.55. Design: Martha Stutteregger. © documenta GmbH


"Modernity?", p.108. Design: Martha Stutteregger. © documenta GmbH


"Modernity?", p.109. Design: Martha Stutteregger. © documenta GmbH

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GEORG SCHÖLLHAMMER


Por ocasião do lançamento público do primeiro número do projecto “Documenta 12 Magazines”, intitulado – “Modernity?” (a 26 de Fevereiro, editado pelo gigante editorial germânico Taschen), apresentamos uma entrevista exclusiva ao director desta revista ecuménica que reúne mais de 80 publicações e revistas online de todo o mundo: Georg Schöllhammer. “Documenta 12 Magazines” é a plataforma de reflexão em torno da qual se estrutura a próxima Documenta de Kassel na Alemanha (de 16 de Junho a 23 de Setembro de 2007) e mais do que um catálogo é um dos projectos estruturantes desta mostra quinquenal.

Georg Schöllhammer é desde os anos 80 editor, ensaísta e comissário de exposições como: “Play Sofia” (Kunsthalle Viena, 2005) e de projectos como “Inventory: Contemporary Dance and Performance” (Tanzquartier Viena, 2005) e “Local Modernities: Architecture at the Margins of the Soviet Union” (Frankfurt e Berlim). De 1988 a 1994 foi editor-chefe da secção de artes visuais de “Der Standard”, principal jornal diário da Aústria. Dirige também “Tranzit Österreich”, uma iniciativa promovida pelo Erste Bank Group (com uma das maiores colecções privadas da Europa de arte conceptual) para apoiar a criação de arte contemporânea na Europa Central e de Leste.

Por Sílvia Guerra
Paris, 14 de Fevereiro de 2007


UM MANIFESTO PELA TURBULÊNCIA

A procura e os sentidos a dar às três perguntas que tem sido o leitmotiv da “Documenta 12 Magazines” desde 2005 – É a modernidade a nossa Antiguidade? O que é a vida nua? O que há a fazer? – foram o pano de fundo da nossa conversa no café Select de Montparnasse. O rumor não impediu a intensa troca de ideias e foi talvez o motor de desejáveis misfits linguísticos.


P: Como começou a sua aventura no meio editorial e o seu interesse por revistas de pensamento sobre arte e cultura, como a “Springerin” que dirige actualmente?

R: Comecei por ser editor-chefe de um jornal diário liberal de Viena nos anos 80. Foi um período muito intenso para o mundo de língua alemã e Viena era um dos hot spots do momento. Posteriormente fui editor-chefe da secção de artes visuais do “Der Standard”, numa fase importante do pós-modernismo tardio. Foi quando surgiu em Viena uma nova geração de artistas que repensou tomadas de posição relacionadas com o final dos anos 70 e a década de 80. Neste grupo havia uma influência neo-conceptual muito forte e com posições politizadas, enquanto que o discurso artístico dominante era ainda muito influenciado pela corrente francesa pós-modernista.



P: Como diria Bruno Latour (1), o pós-modernismo foi exportado pela França para todo o mundo, mas os franceses nunca o consumiram. Ou seja, como os vendedores de cocaína, em casa, só consomem coca-cola …

R: Eu achava esta situação muito insatisfatória. Naquele momento a arte ainda estava no seu boom, embora o declínio do mercado, do início dos anos 90, já se desenhasse no horizonte. A economia artística denotava que não podia sobreviver com a proliferação de uma arte pós-modernista, altamente rétorica. Tinha chegado a altura de mudar a situação com a contribuição de novos artistas e criadores.
No “Der Standard”, eu acabava por ser um representante do sistema do qual desconfiava, mas houve nessa altura, nos finais dos anos 80, uma eclosão teórica com influências múltiplas: pós-estruturalistas, feministas, re-interpretações de uma cultura pop e uma nova corrente vinda de Nova Iorque que era propagada por conceptualistas politizados, como Hans Haacke, que caiu em bom terreno nos países de Leste; e em 1989, após a queda do muro de Berlim, foram repensadas diversas correntes artísticas.
Foi neste momento que me ofereceram a oportunidade de criar a minha própria revista, a “Springer” e reunir o meu grupo de trabalho para fazer um projecto pessoal. Para essa equipe de trabalho não escolhi colaboradores que pertenciam à minha geração, mas pessoas mais jovens e uma destas pessoas foi o Roger M. Buergel que é agora o comissário da próxima Documenta. Fundámos a revista, que a editora pretendia que reflectisse o mainstream, e ouvimos o que se passava não só no mundo da arte, mas sobretudo nos diferentes meios de criação. Esta era a ideia. Porém, após a publicação do terceiro número, disseram-nos que iriam acabar com a revista porque não era de modo algum aquilo que eles (a editora) estavam à espera.



P: Mas a revista tinha um público?

R: Tinha público, vendas consideráveis e algum capital público envolvido e foi então que decidi optar por uma alteração do nome da revista – em vez de “Springer”, passámos a usar a forma no feminino, “Springerin” (a saltadora) – e apelar à manutenção dos custos de distribuição durante mais três anos para a editar por conta própria. Ou seja, fui despedido e a revista tornou-se uma empresa neo-liberal, sendo hoje economicamente independente. Continuamos a ser actualmente um grupo que trabalha por sua própria conta e risco num projecto editorial que está empenhado e marcou as práticas artísticas dos anos 90 no mundo germânico.



P: A Documenta foi criada em 1955 por Arnold Bode para reconciliar o povo alemão com a modernidade e mantém ainda hoje o seu tempo de reflexão – as exposições realizam-se de 5 em 5 anos. A minha questão é a seguinte: ainda se mantém o empenhamento político que esteve na raiz da sua fundação após a Segunda Guerra Mundial? É essa marca que ainda a diferencia das outras bienais expositivas de arte?

R: A Documenta é uma instituição. Há uma política de imagem em que a instituição está empenhada, mas o que é interessante é que, desde os anos 70, o mercado da arte não se interessa pela Documenta. Provavelmente, um artista que é bem sucedido na Documenta não interessa ao mercado da arte, e neste aspecto ela é diferente da Bienal de Veneza ou de outros eventos deste género.
No entanto, a Documenta é uma instituição que ainda funciona muito como um ecrã de projecção da produção de conhecimento sobre o mundo da arte. A Academia, a Universidade, com a sua produção teórica, estão ainda reflectidas na Documenta, e ela é uma instituição canónica neste sentido.
Houve momentos particularmente desafiantes, como a Documenta de 1972 concebida por Harald Szeemann ou a edição dirigida por Catherine David. Nós tentamos ter uma atitude política num sentido diferente: não no sentido de uma intervenção aberta, mas no sentido de um empenhamento. A arte é algo que, no seu melhor, é totalmente incompreensível, impossível de negociar e, pela sua radicalidade, é uma magnífica ferramenta de conhecimento. Por este motivo quisemos trazer à Documenta manifestações e obras tão radicais como diferentes, e este empenho reflecte-se desde o modo de organização da exposição até ao método de trabalho. Pretendemos criar um espaço de conhecimento que ultrapassa o sentido político funcional que normalmente é apelativo na arte.



P: Como poderemos definir o projecto “Documenta 12 Magazines”? É um livro de registo de 3 anos de pesquisas? É um documento inter-continental sobre a cultura hodierna e os seus gaps? Um jornal polifónico… ou nada disto?

R: Nós começámos com a ideia de criar um jornal no sentido clássico e intelectual do termo, e com ele formulámos estas três questões que pretendiam ser problematizadoras: O que é a modernidade?, O que é a vida nua?, O que há a fazer?
A primeira questiona a figura da modernidade em diferentes contextos do mundo; a segunda, mais filosófica e abstracta, considera a vida nua e têm-lhe sido atribuída, em diversos grupos de discussão, filiações a Walter Benjamin, a Giorgio Agamben, ou também outros sentidos totalmente diferentes como: O que é a vida nua para os neo-confucionistas? A terceira pergunta é a clássica questão que nos foi dada por Lenine: O que há a fazer?
A resposta da equipe da Documenta foi fundar uma revista internacional, um jornal como aquele em que os irmãos Grimm, grandes efabuladores, trabalharam em Kassel. Com todas elas pretendemos obter territórios de subjectivização.
Pesquisámos por todo o mundo para encontrar orgãos de comunicação social que poderiam ter interesse em problematizar estas questões junto do seu público, pois as perguntas e as respostas têm de ser interessantes para o público de cada um dos media participantes.



P: Não há nenhuma revista portuguesa a participar no projecto?

R: Talvez porque em 2005 a vossa ainda não existia …



P: Quantas línguas estão representadas?

R: Temos presentes 65 línguas e o inglês foi aceite como língua de comunicação, mas os textos publicados nos diferentes media participantes surgem na língua original.
Uma das questões mais interessantes levantadas por esta Torre de Babel linguística foi a questão lexical. A tradução para o inglês fez com que se criassem grupos de estudo linguístico para inventar certas palavras do campo artístico que ainda não existiam na língua original; por exemplo, ainda não existia na língua árabe um termo para definir especificamente uma instalação artística.
Estamos a lidar com mais de 4000 contribuições vindas de todo o mundo. E a Documenta é um dos partners desta rede de media que tem vindo a contribuir com as traduções e possui uma redacção virtual em Viena.
Temos meios de comunicação que nem são mesmo online, são rádios, nomeadamente em África.



P: De que forma é que este projecto vai estar integrado em Kassel nos 100 dias de exposição?

R: Vamos ter apresentações diárias com conferências à hora de almoço e apresentações ao fim do dia. Além disso, uma grande parte dos projectos artísticos serão apresentados na Documenta estão baseados nesta pesquisa feita a nível internacional.



P: As questões propostas são provocadoras e ambíguas. Eu estive a ler o magazine online brasileiro, Canal Contemporâneo, e eles traduziram “bare life” por “vida crua” que eu traduziria por “vida nua” em português de Portugal… Mas a “bare life” também poderá ter um sentido diferente para um miúdo das favelas de São Paulo e para um miúdo que corre atrás de um eléctrico em Lisboa. São noções de modernidade, também a velocidades diferentes…

R: Claro que sim, e são esses diferentes sentidos que são enriquecedores. O que é provocador é ver o que nasce dessas diferentes interpretações. Por exemplo, na China não há uma noção de Antiguidade…
Para mim o que é produtivo são as turbulências das quais nasce uma explosão de criatividade. Eu gosto da energia da incompreensão, da turbulência criativa, gosto de erros de traducão, de misfits, porque eles criam novos sentidos. Criam novos espaços de questionamento e apontam para as coisas numa forma mais viva. Isso não acontece com a produção de semelhanças. Uma grande parte das pessoas procura ter um discurso correcto, semelhante ao do mainstream, mas a semelhança nos discursos não produz nada. É nos erros, na contra-argumentação que existe a base de um discurso produtivo e não na arena dos produtores de conhecimento que se auto-alimentam por infinitas citações. Deles só nasce aborrecimento e este espaço de turbulência é a ideia que subjaz ao meu projecto.




LINKS

www.springerin.at/en/

www.documenta12.de/magazine_es.html



NOTAS
(1) Bruno Latour “Nous n’avons jamais été modernes – Essai d’anthropologie symétrique”, Éditions la Découverte, Paris, 1991