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ENTREVISTA


Helena Barranha


Almada Negreiros, “Primeiro estudo para a decoração do proscénio do Teatro de Muñoz Seca realizado em Madrid”, 1929. Fotografia: Arnaldo Soares.


Pedro Cabrita Reis, “H. Suite III”, 1992. Fotografia: Mário Valente.


Columbano-Bordalo Pinheiro, “Retrato de Antero de Quental”, 1889. Fotografia: Vítor Branco


João Cristino da Silva, “A passagem do gado”, 1867. Fotografia: Arnaldo Soares.


Eduardo Viana, “Nu”, 1925. Fotografia: Vítor Branco.


Mário Eloy, “Menino e varina”, 1928. Fotografia: Luísa Oliveira.


Alexandre Estrela, “Cross Sharing”, 2000. Fotografia: António Nascimento.


Helena Almeida, “Desenho habitado”, 1975. Fotografia: Mário Valente.


Jorge Vieira, “Monumento ao prisioneiro político (maquete)”, 1953. Fotografia: Arnaldo Soares.


Fernando Lanhas, “Cais 44”, 1943/44. Fotografia: Luísa Oliveira.


Miguel Ângelo Lupi, “Retrato da Marquesa de Belas”, 1874. Fotografia: Arnaldo Soares.


João Marques de Oliveira, “Praia de Banhos, Póvoa de Varzim”, 1884. Fotografia: Arnaldo Soares.


António Silva Porto, “Paisagem tirada da Charneca de Belas ao pôr-do-sol”, 1879. Fotografia: Carlos Monteiro.


Tomás da Anunciação, “O vitelo”. Fotografia: Arnaldo Soares.

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HELENA BARRANHA


Helena Barranha dirige o MNAC - Museu do Chiado desde Dezembro de 2009. Conversámos com ela sobre o seu trabalho na direcção do Museu, as suas expectativas face ao futuro e a forma como perspectiva o lugar do MNAC no panorama da arte contemporânea. Abordámos também as sinergias possíveis com outras entidades e a comunidade.

Helena Barranha é licenciada em Arquitectura pela Universidade Técnica de Lisboa, concluiu o Mestrado em Gestão Património Cultural com a dissertação “Museus de Arte Moderna e Contemporânea: conceitos, conteúdos, arquitecturas: das tendências internacionais ao caso português” (2001) e doutorou-se em Arquitectura com a tese “Arquitectura de Museus de Arte Contemporânea em Portugal. Da intervenção urbana ao desenho do espaço expositivo” (2008).

Lisboa, Junho de 2010
Por Sandra Vieira Jürgens



P: Os museus podem considerar-se o “instrumento de medida” da arquitectura contemporânea? Será que os museus mostram o estado de desenvolvimento da arquitectura com maior clareza do que os outros edifícios?

R: Bem, penso que a resposta não pode ser dada em termos absolutos, ou seja, eu dividiria desde logo a questão em termos de programa. Os museus são provavelmente, no que respeita a equipamentos culturais, o principal programa que se afirmou a partir da segunda metade do século XX, com antecedentes históricos incontornáveis como é o caso de toda a pesquisa que foi feita na arquitectura de museus do século XIX. Mas é a partir da segunda metade do século XX e, concretamente nas últimas décadas, que o museu enquanto programa da arquitectura, enquanto equipamento cultural, é efectivamente onde nós vemos aquilo que se faz de mais interessante e, eventualmente, mais arrojado, na produção arquitectónica. E quando digo produção arquitectónica estou a também a pensar numa marca autoral. A maior parte dos arquitectos que se considera serem as referências nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, estão ligados a projectos para espaços de museus ou centros de exposições. Portanto acho que o museu é o grande programa em termos de equipamento cultural desta passagem do século XX para o século XXI. Paralelamente há programas muito distintos, e eu destacaria a habitação, em que também há experiências igualmente importantes, mas num outro registo de escala, num outro registo funcional, num outro registo de contaminação com outros domínios artísticos.
O que é paradigmático e muito singular na arquitectura de museus, e concretamente na arquitectura de museus de arte, é o facto de o próprio programa encerrar em si mesmo uma abertura a outros domínios da criação, nomeadamente às outras artes visuais e até a algumas artes performativas. Desde logo espelha tendências, de pesquisa tecnológica, de trabalho entre artistas e arquitectos que provavelmente outros programas não traduzem com a mesma eloquência.


P: Como é se desenvolveu o seu interesse pelos museus de arte contemporânea?

R: A primeira questão será talvez porque é que as pessoas se interessam por museus? E essa questão, que tem sido colocada por vários historiadores, sociólogos, museólogos, críticos de arte, antropólogos, é recorrente. Eu comecei, como a maior parte das pessoas, presumo, por me interessar enquanto visitante de museus. Sempre visitei museus desde criança e isso de algum modo fazia parte da minha vida. Depois, em termos de investigação, quando comecei de facto a trabalhar e a estudar mais especificamente o património cultural e o património arquitectónico, foi quase um percurso natural ir ter aos museus, porque os museus de arte contemporânea, em concreto, associavam-se a três universos de estudo que me interessavam particularmente: um, à arquitectura contemporânea; outro, ao património arquitectónico, e ao entendimento de que a arquitectura contemporânea é ela própria não apenas intervenção sobre o património preexistente, mas um contributo para a construção de um património que ficará para as gerações futuras; e transversal a este interesse, existe a arte, pois não me parece que a arte e a arquitectura sejam disciplinas completamente autónomas. Esse encontro entre a arte e a arquitectura ganha nos museus uma dimensão especial, de facto. Daí ter começado a escolher, quando preparei a minha dissertação de mestrado em gestão cultural, os museus de arte contemporânea como área de investigação e pesquisa.


P: Como vê a tensão entre a arquitectura e a arte? A arquitectura de alguns museus é muitas vezes criticada por não conter espaços mais adequados a suportes da produção artística contemporânea. A pintura e a escultura são ainda as grandes referências da arte para os arquitectos?

R: Não sei se isso é exactamente assim e até creio que em alguns projectos o que se verifica é que os edifícios que têm sido criticados por não funcionarem tão bem em termos museográficos - e aqui quando falo em museográficos teria de fazer um parêntesis para me referir a uma museografia mais convencional - normalmente são avaliados pela sua capacidade de acolher suportes convencionais, ou seja, por eventualmente falharem em relação à pintura ou a algum tipo de escultura, verificando-se por outro lado que podem resultar muito bem para instalação.
Sugiro que recuássemos a meados do século XX e pensássemos naquele que foi o primeiro edifício amplamente questionado em termos de funcionalidade que foi o Museu Guggenheim em Nova Iorque, desenhado por Frank Lloyd Wright. O projecto demorou muito tempo justamente porque se considerava que não era o mais adequado. Já se comprovou ao longo de várias décadas de funcionamento que o de Frank Lloyd Wright resulta muito bem para instalação, para alguma escultura e para propostas site-specific de artistas contemporâneos. De resto, uma recente exposição no Guggenheim, em que se reuniram propostas de artistas, designers e arquitectos, veio sublinhar o grande potencial daquele edifício. Os seus problemas serão talvez mais ao nível da exposição de pintura, pelo menos em torno da espiral… Por isso colocava também a questão de efectivamente alguns edifícios não serem tão adequados para pintura ou outros suportes tradicionais, mas poderem resultar muito bem para instalação e como espaço de intervenção específica de artistas contemporâneos. Eu penso que se um museu de arte contemporânea tem essa flexibilidade, de ser um espaço estimulante para intervenções de artistas contemporâneos, ele está a cumprir uma função importantíssima.


P: O que é que justifica a proliferação de museus? O coleccionismo, a propagação de colecções, o excesso de produção artística? A indústria da cultura, o factor de marketing e o desejo de implantação de uma arquitectura que é emblemática de um espaço e catalisadora para a recuperação económica de uma cidade, de uma zona? Qual a sua opinião?

R: Seguramente não será o excesso de produção artística... Não consigo imaginar que em algum momento ou em alguma cultura ou civilização se possa falar em excesso de arte....


P: Referia-me sobretudo ao coleccionismo e ao desejo de os coleccionadores privados colocarem as suas obras em museus.

R: É claro que o fenómeno do coleccionismo (e de novas formas de coleccionismo) não será alheio ao boom dos museus, mas penso que o factor que prevalece é o da expansão das indústrias ligadas ao turismo e ao lazer. Cada vez mais as pessoas viajam e, cada vez mais, as indústrias culturais têm uma maior proximidade a lógicas inerentes à sociedade de consumo, o que faz com que os museus naturalmente se integrem nesta lógica de mobilidade. Portanto, se os museus são um pólo dinamizador desses fenómenos de mobilidade e de captação de públicos, e de algum tipo de criação de receitas, naturalmente serão objecto de investimento público e de investimento privado. Se a isso associarmos a questão da imagem, da competitividade entre cidades, temos um outro factor de reforço. As cidades tendem também a investir cada vez mais na criação de uma imagem, de uma marca em que o factor cultural começa gradualmente a ser mais valorizado. Mas voltando atrás, à sua questão, os museus têm, por um lado, esta capacidade de afirmar culturalmente as cidades e, finalmente, existe uma questão política. Muitos museus são obras de um determinado período, de um determinado ciclo político em que uma equipa, um partido, ou uma figura política quer deixar uma obra construída. E isso tem acontecido em vários países, incluindo Portugal.


P: Qual considera que pode ser o melhor exemplo de um museu bem sucedido, que alie esse desejo de afirmação de uma cidade e que tenha uma programação ainda assim coerente?

R: Apesar de tudo, há alguns casos que são de um grande sucesso por si mesmos, independentemente de um juízo que possamos fazer em relação à programação. Também não gostava de estar a julgar a programação de outros directores. Não irei fazê-lo. Mas, do ponto de vista urbano e do ponto de vista cultural, há casos inequivocamente de referência, para além do Museu Guggenheim de Bilbau que é consensualmente reconhecido como um equipamento que transfigurou por completo não só a cidade de Bilbau - porque objectivamente houve várias intervenções de requalificação daquele tecido urbano, que foram possíveis tendo o museu como motor -, mas também porque uma série de outros equipamentos culturais surgiram ou foram reabilitados. Estou a pensar, por exemplo, no Museu de Belas-Artes de Bilbau, que foi renovado neste contexto de dinamização que o Museu Guggenheim de Bilbau permitiu. Há outros casos comparáveis, mesmo em cidades que já têm à partida uma oferta cultural riquíssima, como é o caso de Londres. Londres não tem naturalmente a escala de Bilbau mas, proporcionalmente, a Tate Modern teve um impacto em Londres que pode ser comparável ao impacto do Guggenheim de Bilbau. Seguramente por dois factores: pela programação e pela qualidade das colecções, mas também pela qualidade da intervenção arquitectónica, por aquilo que ela potenciou na revitalização de toda uma margem ribeirinha obsoleta, marginalizada em relação ao resto da cidade, com a criação de novas acessibilidades, a pretexto deste grande equipamento cultural que se tornou uma referência internacional.


P: Que opinião tem do modelo de franchising aplicado pelo Guggenheim e pelo Pompidou. Acha que é benéfico? Faz parte da economia global?

R: Bom, já se percebeu através de algumas experiências não concretizadas ou menos bem sucedidas que o modelo de franchising não é, à partida, uma receita garantida, pelo que há que ter uma postura crítica relativamente a esses modelos de gestão. E claro, coloco aqui a palavra franchising entre aspas, em relação ao franchising de uma marca, que é a marca de um museu. O que me parece mais interessante é a segunda fase dessa tentativa de levar um museu para outros destinos, de desmultiplicar um museu em várias localizações. A ideia em si, do ponto de vista conceptual, pode até ter viabilidade e ser estimulante, mas só se for entendida enquanto um conjunto de projectos com alguma autonomia criativa e cultural relativamente à sede. O que é que eu quero dizer com isto? Que me parece que pode ser estimulante as grades instituições terem capacidade de investirem na divulgação dos seus acervos, fora daquilo que é o seu país de origem. Mas isso deve ser feito, pelo menos parece-me a mim mais interessante, de uma forma contextualizada. Isso é criar um novo projecto e não estar a exportar um produto ou um pacote pré-definido. Parece-me empobrecedor promover essa exportação pré-definida e formatada de igual modo para todos os destinos. A opção que me parece mais consistente é a partir de um acervo ou de uma grande exposição procurar diálogos com acervos de outros países ou de outras cidades e recontextualizar as obras. E isso significa que o que o público vê da instituição-mãe, chamemos-lhe assim, numa cidade, será substancialmente diferente do que vai ver quando esse acervo é posto em confronto com outras propostas, num outro destino, numa outra envolvente cultural, num outro contexto. Esse é um desafio que ainda não está totalmente explorado e que valeria a pena desenvolver.


P: Qual acha que será o caminho dos museus e da museologia, em termos das suas tendências actuais? Como é que será daqui a dez anos?

R: Estamos a viver uma situação que decorre, entre outros factores, de uma crise económica mundial, que afecta sobretudo a Europa e os Estados Unidos, e que aponta para a redução do número de novos projectos. Paralelamente pode haver uma consolidação dos melhores projectos existentes, uma consolidação de funcionamento das instituições de referência, em detrimento de projectos de raiz, uma vez que as verbas disponíveis para isso tenderão a ser menores do que acontecia nos anos 90, a manter-se o actual cenário económico. Haverá certamente espaço para projectos de raiz, para a construção de museus bastante espectaculares e com investimentos elevados em países que tem economias emergentes, aí creio que há essa margem, na Europa e nos Estados Unidos menos. Portanto os projectos terão de ser reequacionados em parâmetros mais contidos, o que não é necessariamente mau. Porquê? Porque isso faz com que se tenha que olhar com uma atenção diferente para o que já existe, para os equipamentos que já foram construídos. Como é que eles podem ser mantidos, como é que podem funcionar com qualidade? Como é que podem, ainda assim, ter propostas de programas inovadores, interessantes para os públicos? Como é que se pode continuar a fazer investigação em torno dos acervos existentes?


P: Acha que este pode ser um bom momento para as instituições olharem para as suas colecções?

R: Sem dúvida. Quando se vive um contexto de contenção económica temos naturalmente mais limitações para fazer exposições temporárias com grandes orçamentos e com uma logística complexa. Vejo também sempre estes constrangimentos circunstanciais como oportunidades para se trabalhar num outro registo e para se desenvolver projectos que poderiam ficar em segundo plano se tivéssemos orçamentos extraordinários para realizar outro tipo de eventos. Reduzida a verba, a aposta terá que ser em iniciativas mais consistentes e com maior durabilidade. Prefiro até a palavra durabilidade à palavra sustentabilidade que está agora muito na moda, pois acho que a palavra sustentabilidade em si mesma não é muito específica. Um projecto durável, uma linha de programação durável é justamente aquilo que possibilita ter um tempo para investigar, para concretizar, para avaliar e para reorganizar. Isto são ciclos mais longos do que o ciclo ligado ao evento temporário. Este ciclo tenderá, em muitas instituições, a ser construído a partir de um acervo. Por outro lado, é também uma oportunidade para se tirar partido de complementaridades de acervos de várias instituições, algo que em Portugal implica um caminho a percorrer, que é o de tentar desenvolver não só projectos de investigação mas também produção de exposições que verdadeiramente coloquem em destaque essas complementaridades. E não estou só a falar de museus de arte contemporânea, estou a falar de museus em geral.


P: Está desde Dezembro à frente do Museu Chiado. Qual era a sua lembrança e imagem do Museu enquanto visitante?

R: Eu tenho muitas lembranças do Museu do Chiado porque estava a estudar aqui ao lado na Faculdade de Belas-Artes quando o Museu reabriu depois da intervenção do arquitecto Jean-Michel Wilmotte. Quando o Museu reabriu, em 1994, eu era aluna da Faculdade de Arquitectura que funcionava no mesmo edifício da Faculdade de Belas-Artes, no Convento de São Francisco. Por isso eu tenho imagens daquilo que foram os primeiros tempos de reabertura do Museu, até experiências mais recentes, de visitas ao Museu nos últimos anos. A imagem mais recente e que também foi um dos motivos que me levou a concorrer a este desafio de vir para o Museu do Chiado, foi o facto de este ser um museu muito qualificado e ímpar no contexto português, não só pelas suas colecções, como pela sua dimensão histórica, pelo sítio e o edifício que ocupa. Há um conjunto de características que tornam este Museu num lugar muito especial. Ao mesmo tempo e, paradoxalmente, ele está pouco aberto à cidade e não é suficientemente conhecido e estimado pelo público. É muito estimado por um público habitual, que é fiel ao museu, que vem às exposições, mas há muitas pessoas, muitas mesmo, que nem sequer se apercebem que o Museu Nacional de Arte Contemporânea, o Museu do Chiado, existe.


P: A que é que isso se deve?

R: Penso que esse é um dos aspectos que está por concretizar, talvez desde sempre. Historicamente o Museu tem tido uma presença tímida, forçadamente contida nesta zona da cidade, desde a sua criação. E isso devia ser reequacionado, naturalmente, em termos de decisões políticas a um nível mais abrangente, que passam por dinamizar este quarteirão, o que implica viabilizar a sucessivamente adiada ampliação do Museu, mas também uma revisão da estratégia de comunicação com o público. Como é que nós podemos fazer com que o Museu esteja mais próximo deste eixo, que é o eixo Baixa/Chiado?


P: O que é que se pode fazer? Com as características que o Museu tem actualmente, e sem esperar pela ampliação, qual seria o caminho para tornar o museu um factor de atracção de públicos, e dinamizador ele próprio desta zona? Será que os nossos museus, como este Museu do Chiado, estão de facto implantados na comunidade?

R: Essa é uma boa questão e nós temos estado a trabalhar nela ao longo destes meses e demos alguns passos diferentes nessa aproximação aos nossos interlocutores, aqueles que espacialmente estão mais próximos, como seja, as outras instituições culturais que estão na proximidade do Museu. Dou-lhe um exemplo: assinámos um protocolo de colaboração com o Teatro de São Carlos este ano referente ao Festival ao Largo, ensaiando uma relação programática e funcional com a expectativa de que o público possa relacionar dois programas que são espacialmente comunicantes. Nos últimos meses temos tido uma cooperação regular com a Faculdade de Belas-Artes na organização e no acolhimento de eventos no Museu. Tivemos por exemplo uma participação no ciclo de conferências sobre o Chiado enquanto lugar de efervescência urbana e cultural, que correu muito bem. Participámos no programa “Chiado na Moda”, no programa “Chiado After Work”, com duas sessões de cinema organizadas pela associação promotora do evento, a Associação de Valorização do Chiado, ou seja temos tentado abrir o espaço, as instalações do Museu a outros programadores e a outras instituições de modo a que possamos partilhar algumas actividades. O balanço que fizemos é para já positivo e penso que essa prática de cooperação deverá ser reforçada. De qualquer modo, há uma coisa que disse e com que não concordo, que não devemos esperar pela reorganização do quarteirão. Devemos esperar pela reorganização do quarteirão, e eu acredito firmemente que ela tem de acontecer, é inevitável, é uma questão de tempo, o quarteirão tem de facto de ser pensado numa lógica de articulação. Não faz sentido esta divisão tão rígida entre instituições e este fechamento, esta introversão das várias instituições que integram o antigo Convento de São Francisco. E nós, Museu, tal como a Faculdade de Belas-Artes, vamos dar um sinal dessa melhor articulação abrindo o corredor que faz a comunicação entre o nosso jardim e as salas de escultura da Faculdade. Naturalmente, temos a expectativa de que aconteça a ampliação do Museu e da Faculdade. Estamos a trabalhar para isso.


P: Eu estava a referir-me também à programação e não só à requalificação. Como tecer essa aproximação a vários nichos de público? Qual é o seu plano? O que é que não funciona na relação do Museu com o público?

R: Eu não diria que não funciona de todo, mas há, de facto, algumas linhas em que podemos trabalhar melhor com os públicos. Por exemplo, há expectativas de que os públicos, nomeadamente das escolas e das faculdades, possam vir ao Museu para encontrarem a colecção e um conjunto de iniciativas pedagógicas relacionadas com o acervo. Nós tentámos desde logo dar uma resposta, de Março a Junho de 2010, quando fizemos uma apresentação abrangente da colecção na exposição “Um percurso, dois sentidos”, que teve efectivamente uma boa aceitação pelo público e pela crítica, não só dos públicos ligados ao ensino mas um conjunto de outros visitantes que aguardavam com alguma ansiedade e expectativa a possibilidade de rever certas obras da colecção. Isso foi feito com essa exposição e será seguramente o tema principal em 2011, no ano do centenário do Museu, com releituras da colecção, com destaques de determinados núcleos e relações com algumas obras paradigmáticas. Além disso, criámos um programa de destaques de obras da colecção, intitulado “Outros Olhares”, que é um programa permanente em que convidamos pessoas externas ao Museu, historiadores de arte, curadores, artistas, antigos e actuais directores de museus a escolherem uma obra da colecção. Expomos essa obra e fazemos sempre no dia 18 de cada mês uma conversa com o público à hora do almoço sobre aquele quadro, na expectativa de atrair pessoas que trabalham ou vivem perto do Museu para uma actividade que consiste em ver uma peça da colecção com uma atenção diferente e com um enquadramento crítico substancialmente distinto e singular. Acontece apenas uma vez com aquele convidado e com aquela obra e, de certo modo, é uma experiência irrepetível. Sendo que os nossos convidados produzem também um pequeno texto, e do conjunto desses contributos resultará uma exposição e um catálogo, daqui a cerca de dois anos. Uma das minhas preocupações é que as iniciativas temporárias tenham depois uma consequência mais perene, que os projectos se possam articular e não obstante esta configuração restrita, de um ciclo de um mês, possam mais tarde deixar um legado.


P: O que é que o Museu do Chiado representa para si? Que balanço faz destes primeiros tempos? No início havia bastante desconfiança sobre o que iria fazer e sobre o seu projecto para o Museu. Sentiu-se sob observação cerrada?

R: Bem, eu sempre senti, desde que concorri até saber o resultado e iniciar funções, e daí para a frente, e sinto ainda, uma enorme responsabilidade, porque estamos a falar de um museu nacional, o único museu nacional de arte contemporânea com essa identidade. É simultaneamente uma honra e um privilégio poder trabalhar num Museu como este e com esta equipa. Mas todos esses sentimentos são independentes da polémica que possa ter existido, porque acho que as polémicas são sempre situações efémeras. Qualquer polémica é efémera, o que me interessa não é aquilo que as pessoas disseram ou pensaram quando eu entrei aqui em funções. O que verdadeiramente me interessa, o que me preocupa, o que me faz todos os dias dar o meu melhor e tentar motivar a equipa é o balanço que nós próprios poderemos fazer, a par da recepção do público e da comunidade em geral, já que este é um Museu do Estado. Penso que esse balanço tem momentos próprios para ser feito, ao fim do ano podemos tirar algumas conclusões e seguramente ao fim de três anos poderemos tirar várias conclusões. A minha comissão de serviço é de três anos e eu estou empenhada em que, após esse período, as pessoas possam fazer um balanço positivo. Tenho a expectativa de que, no fim deste ciclo, o nosso trabalho possa ser com justiça valorizado. Digo isto não só por mim mas pela equipa do Museu, porque naturalmente é um trabalho de equipa em que eu assumo a responsabilidade. Nós já demos algumas provas nestes primeiros meses, e gosto de sublinhar que não teriam sido possíveis se a equipa não tivesse investido com grande profissionalismo e dedicação o seu tempo, a sua capacidade e as suas competências nessas actividades e projectos.


P: Fala-se do “efeito” Beaubourg, do “efeito” Tate. Daqui a três anos, qual gostaria que fosse o “efeito” Chiado?

R: Daqui a três anos o que eu gostava era que pudéssemos ter uma visão de conjunto, que o Museu do Chiado deixasse de ser uma parte relativamente autónoma do que é este quarteirão, e passasse a ser um traço identitário desta zona da cidade e de Lisboa como um todo. Isto significa o quê? Significa que o Museu tem de ser ampliado e tem que se perceber que este equipamento é vital para o processo de revitalização do eixo Baixa/Chiado. É vital não só por causa da ampliação das instalações, mas também porque é a oportunidade de dar a conhecer o acervo de uma forma mais global e de conciliar esse acervo com uma programação temporária qualificada. Este Museu tem de facto uma experiência consistente de programação temporária ao nível de exposições e de actividades pedagógicas que não se deve perder. Para que isso seja feito é preciso, por um lado, ampliar o Museu e, por outro, dar-lhe meios para que o trabalho possa ser desenvolvido à escala que o Museu merece. Penso que há uma revisão de escala do Museu que tem de ser feita. É obvio que a ampliação não vai estar terminada daqui a três anos, porque não é possível a concretização da obra num período tão curto mas se conseguirmos que pelo menos seja iniciada e que haja o assumir desta redefinição de escala de instalações e de meios para o Museu será muito positivo. Paralelamente é importante que se assuma que a própria colecção tem que continuar a ser actualizada e valorizada. Esta dupla vertente de conteúdos e de instalações passará também necessariamente por uma valorização da equipa que tem dado provas e tem sido reconhecida. Se nós conseguirmos avançar clara e objectivamente com este processo durante estes três anos eu sentir-me-ei realizada.


P: Como está essa situação actualmente?

R: Neste momento temos a informação de que o Comando Metropolitano da PSP sairá para novas instalações até ao fim do ano, o que possibilitará uma afectação imediata de alguns espaços ao Museu e outros à Faculdade de Belas-Artes. A confirmar-se poderíamos ter um acréscimo de área no início de 2011, o que seria vital para o Museu. Paralelamente está ser desenvolvido um trabalho de levantamento, com articulação das várias instituições em presença, para planear não só essa ocupação imediata de alguns espaços, mas também o projecto de ampliação, que é uma segunda fase que tem trabalho preliminar de estudo e levantamento já iniciado.


P: Para finalizarmos, o que é que poderá tornar o Museu do Chiado inesquecível?

R: A experiência da visita. E isso é totalmente distinto de visitante para visitante. Há visitantes que chegam ao Museu e que são orientados para a visita a uma exposição; há visitantes que vêm para uma conversa; outros vêm para ir ao jardim e desfrutar daquele espaço muito agradável. Mas a qualidade da experiência é que fundamental, o facto do visitante sair e sentir que teve um momento único, que deixará um registo na sua memória. Para algumas pessoas a valorização dessa experiência é essencialmente cognitiva, sentem que aprenderam alguma coisa, que adquiriram um conhecimento, por exemplo através de uma iniciativa pedagógica ou de uma visita a uma exposição; para outras pessoas, e isso é igualmente importante para nós, é a experiência de se terem emocionado e quererem voltar porque o registo com que ficam é o de uma emoção positiva, uma experiência positiva. É interessante porque, num estudo feito depois do 11 de Setembro, perguntou-se aos habitantes de Nova Iorque quais eram os espaços em que se sentiam mais seguros e mais tranquilos. Todos esperaríamos que as pessoas nomeassem espaços privados ou igrejas, mas a escolha maioritária recaiu sobre os museus. Eu acho que isso merece a nossa reflexão. Porque é que as pessoas podem sentir-se melhor nos museus do que noutros espaços? Eu acredito que independentemente da segurança é porque podem ter experiências positivas e as experiências positivas convidam ao retomo e a nossa expectativa é que a maioria do público regresse. É para isso que trabalhamos. Também trabalhamos para os turistas que nos visitam uma vez e não voltam, mas temos a expectativa que a maioria do nosso público seja um público que regressa e que, quando regressa, volte a ter uma experiência positiva.


Link
www.museudochiado-ipmuseus.pt