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José António Fernandes Dias

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JOSÉ ANTÓNIO FERNANDES DIAS


José António Fernandes Dias é antropólogo e professor na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde coordena o Mestrado em Estudos Curatoriais. Exerce a actividade de curadoria de exposições, integrou a equipe de coordenação do Projecto artafrica (www.artafrica.info), e é consultor do Serviço de Belas Artes da Fundação Gulbenkian. Actualmente dirige o projecto Africa.cont tendo sido precisamente sobre este projecto, lançado publicamente no mês de Dezembro, que conversámos. O objectivo foi saber mais sobre o que é e o que será este Centro Cultural, com inauguração da sua sede marcada para 2012. Ainda falta muito tempo, é certo, mas a programação inicia-se já no próximo mês de Março.


Lisboa, 23 de Dezembro de 2008
Por Sandra Vieira Jürgens



A PROPÓSITO DO AFRICA.CONT

P: O projecto Africa.cont acabou de ser apresentado publicamente no passado dia 9 de Dezembro. Como surge este projecto de criação de um Centro Cultural de Arte Africana em Lisboa?

R: O projecto surge, em 2007, por altura da realização da Cimeira União Europeia/África durante a Presidência Portuguesa da União Europeia, por iniciativa do Dr. Luís Amado (Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros) que depois de ter dito ao Dr. António Costa (Presidente da Câmara Municipal de Lisboa) que lamentava o facto de não existir nenhum Museu de Arte Africana Contemporânea em Lisboa afirmou que talvez fosse importante falarem sobre esse projecto e que ele poderia constituir um desafio para a CML (Câmara Municipal de Lisboa). O Dr. António Costa terá reflectido sobre essa questão e contactou-me depois telefonicamente para saber a minha opinião sobre essa ideia. Fui apanhado desprevenido, mas disse-lhe que à primeira vista a ideia de criar um museu não era muito brilhante, sobretudo por duas razões: por um lado, o museu é uma estrutura muito pesada, muito estática, onerosa, devido à existência de colecções, reservas, e funções de conservação; por outro, colocava-se sempre a questão de não existir um acervo, uma colecção de arte africana contemporânea. Também não seria possível constituir uma de imediato já que uma colecção de arte não se faz de um dia para o outro. Pareceu-me então mais interessante pensar na criação de um centro cultural, que poderia ter uma estrutura mais dinâmica, com outras possibilidades de programação, e que eventualmente até poderia constituir um acervo sem que essa fosse a sua funcionalidade. Também não me parecia muito acertado restringir a actividade de um centro cultural às artes visuais. Possivelmente, há dez anos, isso faria sentido, mas actualmente não, porque na sua grande maioria, os artistas africanos contemporâneos já se movimentam no circuito internacional. Não se justifica continuar a manter nichos ou guetos para a arte africana contemporânea. Seria mais interessante pensar numa programação que englobasse a generalidade das expressões culturais da África contemporânea e reunisse as artes visuais, mas também o cinema, a fotografia, o vídeo, o teatro, a música, a dança, a literatura, a arquitectura, o urbanismo... O Dr. António Costa considerou a ideia interessante e desafiou-me desde logo a apresentar um projecto para essa instituição. Entreguei-o passadas duas semanas, e tanto ele como o Ministro dos Negócios Estrangeiros, gostaram muito. Foi então assim que se decidiu começar a pensar nisso de um modo mais consistente. O projecto nasceu então desta vontade política, nasceu como um projecto de Estado. O que não me repugna nada, sobretudo porque considerei interessante os termos em que a Cimeira EU/África se realizou. Pela primeira vez, numa cimeira de África com o mundo ocidental, não existiram relações de paternalismo, voltadas para a concessão de empréstimos, mas sim relações paritárias, de parceria. Portanto não tive qualquer problema em fazer parte deste projecto que partiu de uma vontade política. Mas obviamente, logo na primeira versão do projecto e nas conversas e reuniões que mantivemos sobre a sua definição, deixei muito claro que uma instituição como esta só poderia credibilizar-se e ser respeitável se tivesse uma autonomia de programação. Nunca poderá estar à disposição do Ministro dos Negócios Estrangeiros nem das relações diplomáticas, e terá de ter sempre uma independência de programação. Naturalmente, houve um consenso geral sobre essa questão e as minhas propostas foram aceites. Nunca me interessaria estar a funcionar como porta voz de nenhum governo e até ao momento não houve quaisquer problemas. Acho que vai tudo correr muito bem.


P: De que modo se poderia pensar numa introdução geral à arte africana contemporânea que é a marca identitária desta nova estrutura cultural?

R: Nós em geral, seja na Europa ou especificamente em Portugal, quando pensamos em África, pensamos sempre numa África tradicional, pensamos nas máscaras, nas danças, nos rituais, nas aldeias, nas palhotas, no osso no nariz. Ou seja, pensamos sempre nessa África rural, tradicional. Esquecemos que em África estão algumas das grandes metrópoles do mundo, caso de Joanesburgo, Lagos, Cairo, Nairobi, e eventualmente, Luanda, que está numa fase de crescimento. Estas são algumas das maiores cidades do planeta, onde há uma produção cultural muito forte e intensa. Nalguns países o fervilhar cultural sente-se mais numas áreas disciplinares do que noutras; em certos países poderá destacar-se mais a produção musical, noutros o cinema, ou as artes visuais. Não há uniformidade que se estenda a todos os países africanos, mas há uma produção de formas culturais poderosa, e esse é o aspecto interessante. Se não poderíamos perguntar-nos: Que sentido faz falar de África? A África é uma geografia, é um continente geográfico, mas existem muitas culturas africanas contemporâneas. Não há uma cultura africana contemporânea, há múltiplas, há uma multiplicidade de línguas, de religiões... Falo de culturas africanas e esse é o ponto fundamental do Africa.cont. O que me parece ligar toda a África, desde os países do norte até à Província do Cabo, na África do Sul, do Ocidente ao Oriente, é exactamente a modernidade transversal. A última modernidade africana é uma modernidade que foi introduzida pela colonização, a primeira terá ocorrido quando alguns dos países africanos foram islamizados e passaram por uma modernização no século X, mas a modernidade tal como nós a entendemos na Europa, tem a ver com a colonização e ela é mais ou menos simultânea. Inicia-se na segunda metade do séc. XIX/princípio do séc. XX, e embora a modernidade seja algo de introduzido pelo Ocidente, pela Europa mais concretamente, transportado e levado pela colonização, muitos dos seus aspectos foram apropriados pelas elites africanas, caso da ideia de independência, de nação, de liberdade, de liberdades individuais, que se transformaram em armas das próprias elites culturais, políticas e económicas dessas antigas colónias e depois países. O nosso objectivo é trabalhar a modernidade e a contemporaneidade africana e é esse tipo de conhecimento que nós não temos. O nome do projecto refere essa realidade, a designação “.cont” faz referência a contemporâneo e a continente, tem as duas valências. Nós não vamos trabalhar sobre a África tradicional. Poderemos desenvolver algumas iniciativas sobre essa realidade africana, mas apenas na medida em que essa África tradicional se reflicta de diferentes maneiras na modernidade ou na contemporaneidade africanas.


PROGRAMAÇÃO

P: Há hipótese de haver exposições fora do âmbito das culturas africanas?

R: A nossa concepção sobre o projecto é abrangente, não se restringe à África geográfica. Quando falamos de culturas africanas estamos a pensar também nas diásporas, na europeia, nas dos Estados Unidos e do Brasil. As mais antigas, são as das Américas, nos Estados Unidos e no Brasil, que são continentes feitos em grande parte por africanos. Neste momento, os Estados Unidos têm um presidente eleito, que é descendente de africanos! E não é por acaso temos vindo a estabelecer relações com instituições dos Estados Unidos e do Brasil que estão relacionadas com a herança africana nesses países. E existem também as diásporas africanas na Europa que têm também uma forte expressão. É essa a ideia. Podemos eventualmente ter um outro tipo de programação, mas não será numericamente muito relevante. Todavia nada me impede de mostrar trabalhos que não sejam realizados por artistas africanos, da África ou da diáspora. Posso mostrar obras que sejam realizadas por outros artistas cujo trabalho tenha a ver com a África e com questões africanas. Não tenho nada contra isso.


P: E qual será a sua principal função neste Centro?

R: Está previsto que seja o director artístico e científico do Africa.cont. O Centro irá tornar-se uma fundação no início de 2009, por forma a que instituição tenha autonomia em relação ao ciclo político e não possa ficar dependente das eleições e da mudança de governo. O modelo de Fundação que nós adoptámos é muito semelhante ao da Fundação de Serralves, e no seu organigrama de funções existe a figura de director artístico e cientifico, que é o lugar que irei ocupar. Serei o responsável pela programação e pela organização de exposições e dos eventos.


P: Quais serão as suas principais linhas de programação?

R: Para a programação propus dois formatos: haverá uma programação que se prolonga durante meio ano e que funciona em torno de um tema. Poderá ser por exemplo, o papel da mulher na modernidade africana. Mas um aspecto determinante desta programação é que em relação aos temas propostos iremos procurar sempre definir temáticas que sejam relevantes e pertinentes, seja do ponto de vista africano seja do ponto de vista internacional. Também é importante referir que quando pensamos em colaborações com artistas ou intelectuais africanos, não estamos à espera que abordem e nos falem apenas sobre África, poderão ter opiniões sobre o resto do mundo. Tal como nós, os africanos têm o direito de expressar as suas opiniões sobre o mundo e será muito interessante ter essa visão do que é seu olhar. Voltando ao formato de programação baseado num determinado tema, iremos depois escolher de entre as diversas disciplinas artísticas contempladas, que tipo de iniciativas fará sentido apresentar. O programa poderá incluir uma exposição de artes visuais, ou um ciclo de teatro, um ciclo de cinema, espectáculos de música, debates sobre literatura, leituras e debates no âmbito das ciências humanas... Esta é a linha que iremos seguir e só muito excepcionalmente haverá uma programação desenvolvida em torno de um país. Não é uma solução com interesse, sendo preferível trabalhar sobre temas e, partindo deles, determinar quais serão as disciplinas e os países contemplados em cada proposta.
Para além deste formato estrutural previsto para a programação, teremos igualmente um outro tipo de propostas para o resto do ano, que constituirá um programa mais solto, com maior disponibilidade para oportunidades que poderão surgir. Pode ser o caso de novas produções ou de outras iniciativas e eventos que possamos receber e que sejam produzidos por outras instituições. De qualquer maneira, é sempre mais interessante conseguir cruzar mais do que uma disciplina. Por exemplo, gostaria que a propósito de uma proposta de literatura ou de poesia programássemos uma iniciativa de dança relacionada com ela, ou cruzássemos a poesia com o teatro. Tentarei sempre que possível estabelecer essa ligações pois dão-nos uma visão mais rica de África e não se comparam aos resultados que se atingem quando trabalhamos com disciplinas de forma isolada. Normalmente, o que acontece neste caso é que ao fazermos uma exposição isolada de artes visuais, ficam as artes visuais a falar sobre as artes visuais. Mas por exemplo, se tivermos uma exposição de artes visuais e em torno dela existirem abordagens do cinema, da literatura ou do teatro, teremos a apresentação de um contexto cultural, que é sempre mais interessante que a representação de posições isoladas e ensimesmadas.


P: Este novo projecto depende da sustentação de muitos agentes e instituições. Considera que em Portugal existem condições para desenvolver linhas de trabalho voltadas para as culturas africanas? Não existe o perigo de esta vir a ser uma estrutura, mas esvaziada de dinâmicas de programação?

R: Posteriormente às conversas mantidas com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e de encontros semanais com o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que manifestou desde logo um forte empenho pessoal na concretização deste projecto, tivemos uma reunião com o Primeiro-Ministro José Sócrates, em Setembro de 2008, para definir a localização do futuro Centro pois estávamos num certo impasse e era necessário chegar a uma conclusão. Já tínhamos pensado em vários espaços, e todos eles apresentavam vantagens e desvantagens, mas por várias vezes, o Presidente da CML, havia referido a ideia de recuperar o espaço de Tercenas do Marquês, sabendo contudo que isso seria uma obra incomportável para o projecto. Fomos então reunir com o Primeiro-Ministro, que obviamente já tinha lido a proposta, e manifestou um grande entusiasmo pelo projecto, tendo-o definido como prioritário nos termos da política diplomática portuguesa. Nessa ocasião foi muito claro para o Primeiro-Ministro, sendo essa minha ideia desde início, que um projecto desta dimensão não se justificaria se pensássemos no âmbito duma escala nacional. Só faria sentido pensar na sua existência enquanto um centro europeu, um espaço de referência para as culturas africanas contemporâneas, sediado em Lisboa.
Portugal é um país pequeno, e o Centro só se justificará se pensarmos para além de Portugal. E esse é o nosso objectivo. Queremos criar uma instituição sediada em Lisboa, mas com ambição europeia. E em relação a isso tenho tido um feedback muito positivo, tanto de várias instituições europeias como de intelectuais africanos que consideram que faz todo o sentido pensar numa instituição com estas características para Lisboa. E nós podemos fazer isso muito facilmente. A Internet dá-nos condições para trabalhar em rede com outras instituições. Prioritariamente serão africanas, sendo que na África, com excepção da África do Sul, não há instituições oficiais. As instituições culturais que existem em África são maioritariamente privadas, nascem da vontade de indivíduos. Mas temos já uma grande lista das que existem e é com elas que estamos a relacionar-nos. Estamos a ter grande receptividade e existem também as entidades europeias. Neste caso, quase todos os países, inclusivamente aqueles que não tiveram impérios africanos, possuem instituições voltadas para a arte africana. O caso de Espanha é interessante. Apesar de nunca ter tido um império africano, colonizou apenas o Saara e a Guiné Equatorial, criou no início de 2008 uma instituição importante, a Casa África, que está a funcionar em pleno e com grande força. Em relação à existência de outras instituições na Europa, foram criadas entidades em França, na Bélgica, na Holanda, na Alemanha... quase todos os países europeus as têm. E portanto, nós podemos entrar muito facilmente nesse circuito. Aliás, já tivemos uma proposta, e estamos a trabalhar nela. Trata-se de uma parceria com o CCCB - Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, na co-produção de um projecto sobre a cidade de Luanda, que integrará a apresentação de uma exposição, de um ciclo de debates e de um ciclo de cinema.
Todavia em relação à maior parte das instituições congéneres internacionais, o Africa.cont terá características um pouco diferentes. Geralmente, estas entidades estão muito orientadas para as artes visuais ou então estão muito direccionadas para os países que foram suas ex-colónias. O Culturesfrance, em Paris, trabalha apenas com os países francófonos do continente africano, o África Center e o Iniva, ambos em Londres, trabalham com países da África anglófona. De resto, um dos aspectos que mais me satisfez em relação ao África.cont, foi o de existir neste momento uma vontade de reorientar a política diplomática portuguesa para África, que desde o 25 de Abril estavam restringidas aos países africanos de língua oficial portuguesa, e alargar a rede de relações ao resto dos países do continente. Essa questão foi aflorada desde a primeira conversa que mantive com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, e foi ressalvada pelo Primeiro-Ministro, quando considerou o Africa.cont um projecto estratégico para Portugal.
Profissionalmente, esse é também um desafio muito interessante para mim. Nos últimos 10 anos da minha actividade, na Fundação Calouste Gulbenkian, trabalhei com os países africanos de expressão portuguesa, e poderá será agora mais interessante trabalhar sobre a África em geral. Culturalmente, também faz muito sentido.


P: A apresentação de artistas africanos contemporâneos tem sido rara ou quase inexistente entre nós. E a questão que coloco é a seguinte: Este projecto não deveria ser uma extensão natural das actividades expositivas realizadas em Portugal? Crê que existem agentes culturais, comissários, estudiosos, com interesses no âmbito das práticas artísticas do continente africano e da diáspora?

R: Obviamente que não. Mas se há interesse em dar continuidade ao que foi feito, posso dizer-lhe que não estou tão preocupado com o facto de existirem ou não comissários em Portugal. E não estou tão preocupado com essa questão porque tenho mais interesse em trabalhar com comissários africanos do que com portugueses. O nosso objectivo é, em geral, trabalhar com agentes culturais africanos. Assim acontecerá com grande parte dos nossos eventos, começando já com o primeiro, um ciclo de cinema a realizar em Março, Abril e Maio de 2009, que será comissariado por um africano do Mali, Manthia Diawara, que é professor na Universidade de Nova Iorque. Mas se quer uma resposta directa à pergunta: acho que em Portugal não temos massa crítica suficiente.


P: Que opinião tem sobre as iniciativas que foram desenvolvidas até ao momento?

R: Acho que se desenvolveu uma série de iniciativas nos últimos anos, quer a nível institucional quer a nível pessoal, de galerias, e de grandes instituições. As maiores colecções institucionais ou empresariais existentes em Portugal têm obras de artistas africanos, seja de África ou da diáspora. Não é uma presença muito forte, com excepção da Culturgest que fez um maior número aquisições, mas há uma presença de arte africana contemporânea nas colecções portuguesas, na Gulbenkian, em Serralves, na Culturgest, na Ellipse, e na Berardo. Por outro lado, têm-se realizado algumas exposições. O Instituto Camões teve algumas iniciativas, mais concretamente no domínio das artes visuais, e no domínio da literatura há relações muito mais fortes, tal como no domínio da música. A área das artes visuais é talvez um dos domínios menos tratados.


P: A que se deve isso?

R: Há várias razões. Por um lado, o espaço das artes visuais em África é um espaço muito reduzido, com excepção da África do Sul, e eventualmente do Egipto e do Senegal, mas em menor extensão. Não existe mercado de arte, não existem galerias, crítica de arte, revistas de arte e os artistas que vivem em África, na sua grande maioria, trabalham para o mercado exterior ao continente. Ainda assim, mesmo os artistas africanos que vivem na diáspora, trabalham sobre temas africanos e todos mantêm relações ou passam temporadas em África. Por outro lado, no caso mais específico dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) a verdade é que, ainda hoje, não existe nenhuma escola de arte. Nós nunca criámos nenhuma durante o período colonial e, passados trinta anos, também nenhum dos países das ex-colónias portuguesas criou uma escola superior de arte. Nunca tivemos capacidade nem possibilidade, quer quando fomos colonizadores, ou enquanto ex-colonizadores, de apoiar e promover uma política cultural de apoio às ex-colónias, como fizeram os ingleses e os franceses. Nós nem conseguimos internacionalizar os artistas portugueses, quanto mais internacionalizar os africanos! Portanto partimos sempre de uma posição de fragilidade muito grande, e depois não podemos esquecer que as independências nas colónias portuguesas passaram-se trinta anos após as dos outros países. Há de facto um conjunto de factores que nos permitem entender porque é que essa presença nas artes visuais é menor do que na literatura, na música, ou no cinema.


P: Porque é que nunca houve interesse, nem um esforço efectivo no sentido de trazer uma grande exposição sobre arte africana a Lisboa? Caso, por exemplo, da mostra “Afrika Remix: Contemporary Art of a Continent” que esteve na Hayward Gallery, em Londres, e no Centre Georges Pompidou, em Paris, ou no Mori Art Museum, em Tóquio.

R: Mais uma vez, em Portugal, seja nas instituições ou a nível individual, as tentativas feitas de divulgação e de política cultural da arte africana estiveram direccionadas para os PALOP. A política cultural esteve voltada para esses países africanos de expressão portuguesa. Se bem me lembro, a única exposição de maior dimensão que foi trazida a Portugal, foi “Looking Both Ways: Art of the Contemporary African Diaspora”, que se realizou na Fundação Calouste Gulbenkian, que tinha dois artistas dos PALOP. De resto, nenhuma dessas grandes exposições veio a Portugal, nem a “Africa Remix”, nem a “Snap judgments: new positions in contemporary African photography” comissariada pelo Okwui Enwezor, no Center of Photography, de Nova Iorque, em 2006, que foi uma exposição sobre fotografia africana absolutamente marcante. Ou mesmo “The Short Century. Independence and Liberation Movements in Africa 1945 – 1994”, também com curadoria de Okwui Enwezor. Nenhuma delas veio, mas porque também estávamos muito presos aos PALOP.


DISCURSOS CURATORIAIS

P: Que abordagens considera mais interessantes para que haja um maior conhecimento sobre as práticas artísticas das culturas africanas? Acredita mais em mega-exposições como “Afrika Remix” que apresentou 86 artistas, de 25 países africanos, ou deles descendentes; ou em projectos como “Looking Both Ways: Art of the Contemporary African Diaspora", mais baseada em percursos individuais e com uma selecção de artistas muito mais restrita?

R: Não tenho interesse em fazer um catálogo de arte africana, à semelhança do apresentado na exposição “África Remix”. Do meu ponto de vista era uma exposição excessivamente grande e nem consegui identificar nenhum critério. Ainda assim teve a sua importância, sobretudo por mostrar um panorama das artes africanas. Eu estou mais interessado em trabalhar com temas e isso logo à partida restringe o tipo de exposição enciclopédica, como foi a “África Remix”. O meu modelo é mais “Looking Both Ways”, e estou mais interessado em exposições mais selectivas, com menos artistas, menos obras, mais aprofundadas do ponto de vista conceptual, do que em mostras que sejam uma espécie de amostragem do que se está a passar. A única iniciativa que vamos fazer neste âmbito, e que está prevista para o próximo ano, é uma amostragem ou reunião de todos os trabalhos de arte africana contemporânea que existem nas colecções em Portugal. Neste caso, parece-me fazer sentido; será um balanço sobre o que há de arte africana no país. Trata-se de uma iniciativa que integrará a programação itinerante que vamos ter em 2009, e que se estenderá até termos a nossa sede provisória em 2012. Só nessa altura é que vamos ter o tal formato do ciclo de programação semestral. Daqui até lá vamos ocupando outros espaços disponíveis da cidade, que serão maioritariamente espaços da CML, onde apresentaremos outras iniciativas. Caso de um ciclo de cinema, de uma exposição produzida pela Casa África, das Canárias, composta por sete vídeos, muito interessantes e curiosos, sobre sete cidades africanas realizados por jovens artistas de cada uma delas. Vamos ter também um encontro internacional para lançar as bases da nossa colaboração com agentes culturais africanos. Nesse colóquio irão estar presentes intelectuais e agentes culturais africanos que queremos que nos ajudem a reflectir sobre o que é que deve ser exactamente uma instituição como esta, num lugar como Lisboa. Digo sempre isto, já que muitas vezes não prestamos muita atenção às palavras: nós não vamos trabalhar sobre África, nós vamos trabalhar com África. Esse é o objectivo. Assim, para marcar essa ideia, o nosso primeiro evento é comissariado por um africano.


ESTUDOS PÓS-COLONIAIS

P: Que abordagens considera mais interessantes acerca do pós-colonial?

R: As teorias pós-coloniais foram e são ainda, acho que não estão esgotadas, muito importantes. Nasceram no domínio literário, apareceram designadamente no domínio asiático anglo-saxónico, mais especificamente na Índia e na Oceânia, na Austrália, e depois estenderam-se a outros domínios. O que me parece relevante nas teorias pós-coloniais, ainda hoje, é a possibilidade de se rever a história, de rever as nossas relações com África tendo em consideração um duplo ponto de vista: o ponto de vista europeu que é o que nós temos na nossa história oficial, e o ponto de vista africano, que é o que nos não temos na nossa história oficial. Eu acho que a importância dos estudos ou das teorias pós-coloniais é permitir essa re-visão, essa re-leitura do que foram as relações coloniais, pré-coloniais e pós-coloniais entre a África e os países europeus. Isso é algo extremamente importante e que tem a ver tanto com o que se passa nos países africanos contemporaneamente, como connosco. Na exposição “Looking Both Ways”, que se apresentou na Gulbenkian, a primeira peça quando se entrava na exposição era o trabalho “Scramble for África”, de Yinka Shonibare. Nessa obra ele trata de um assunto: a Conferência de Berlim de 1875 que foi um tema central do Portugal moderno. Nessa conferência ficaram definidas quais eram as colónias portuguesas em África, tendo também correspondido ao princípio do fim da monarquia em Portugal. Com a derrota do país houve uma onda popular que foi obviamente aproveitada pelas forças políticas republicanas contra os Braganças, porque acharam que eles estavam vendidos à Inglaterra, já que eram primos da Rainha Vitória. Portanto este é um acontecimento que é extremamente importante para África mas que também é extremamente importante para nós. E são esses dois pontos de vista que os estudos pós-coloniais permitem. O título dessa exposição, na sua tradução portuguesa era “Das Esquinas do Olhar” e dava plenamente essa ideia, a de termos um olhar para um lado e para o outro. Olhemos para a cidade de Lisboa, ela está profundamente marcada, mesmo fisicamente, pelas relações com África. É muito difícil entendermos o que somos hoje se não tivermos em conta exactamente esse contexto, que durou cinco séculos ou mais no caso português. É essa a importância dos estudos pós-coloniais. Não creio que se possam considerar os estudos pós-coloniais como uma doutrina. Eles são um ponto de vista, eventualmente enriquecedor, eficaz, frutífero. Não me quero esgotar nas teorias pós-coloniais, mas não as descarto. Acho que em alguns momentos, ou em alguns contextos, são extraordinariamente importantes. Nós em Portugal temos muita dificuldade em lidar com elas, tal como em relação ao feminismo. Quando se fala em feminismo, o comentário é: “Ah, o feminismo já passou”. Já passou não, as teorias do feminismo nunca entraram em Portugal. Nós nunca tivemos feminismo em Portugal. Sobre pós-colonialismo, há apenas dois livros publicados em Portugal. São da autoria de Manuela Ribeiro Sanches. Um primeiro, que se intitula Deslocalizar a Europa. Antropologia, Arte, Literatura e História na Pós-Colonialidade é uma antologia de textos fundamentais traduzidos das teorias pós-coloniais, com textos de Edward Said, do Homi K. Bhabha, etc. E o outro, que foi realizado com autores portugueses, chama-se Portugal não é um país pequeno. Contar o “império” na pós-colonialidade, e o seu título faz referência a uma legenda de um mapa que havia nas escolas primárias. Esses são assim os únicos dois livros publicados em Portugal que estão relacionados com as teorias pós-coloniais.


P: Considera que nesse aspecto, alguma coisa pode mudar com as novas gerações nomeadamente com o Mestrado em Estudos Curatoriais, onde lecciona?

R: Acho que sim. Os estudantes do Mestrado em Estudos Curatoriais, sobretudo nos últimos dois cursos, têm maior interesse nesses temas e certamente tenho alguma responsabilidade nisso. Para além de lhes facultar o acesso a essas questões, tenho convidado vários professores e personalidades que trabalham nesta área, caso de pessoas como o Okwui Enwezor, o Manthia Diawara, a Jane Fisher, e outros. Vejo que há um interesse crescente por esta questão. E isso é muito importante porque durante muitos anos vivemos isoladamente sós. É necessário sair desse “isoladamente sós”, que era muito salazarista, nós e o Império, e depois passou a ser nós e os PALOP. É muito sadio que nós olhemos para o mundo de outra maneira. O mundo da arte mudou muito, basta irmos a Madrid, não precisamos de ir mais longe, vamos a Madrid, vamos a Paris, a Londres, ou a qualquer cidade europeia, a Berlim, e temos permanentemente exposições de artistas indianos, de sul-africanos, de africanos, com temas que tem a ver com questões políticas, com questões prementes. Ai invés, sempre que chego a Portugal parece que aterrei num outro planeta, vivemos numa espécie de lua qualquer do Planeta terra. Não se pode entender. Para mim é muito misterioso e desconfortável também. Mas penso que sim, que poderão nascer outras perspectivas, na medida em que as gerações mais novas começam a ter maior interesse por essas realidades.


PROJECTO ARTAFRICA

P: Esteve à frente de uma iniciativa que foi importante nessa área, no projecto artafrica, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian. Gostaria que me fizesse o balanço desse projecto referindo o seu novo enquadramento, uma vez que por iniciativa do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian o site foi associado ao projecto Dislocating Europe, com sede no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

R: Exacto. Eu estou agora no Projecto Africa.cont em muito porque fiz o artafrica. E essa é foi uma das razões porque o Dr. António Costa me contactou. Sabia que já estava a trabalhar com África desde há dez anos e achou que eu estaria bem colocado para fazer esse projecto. O artafrica da Fundação Calouste Gulbenkian começou em 2000, e surgiu de uma conversa entre mim e o Director do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, o Pintor Manuel Costa Cabral. Éramos amigos, conhecíamo-nos, e em conversa ele falou-me que tinha tido um contacto de uma galeria institucional norte-americana que estava interessada em fazer uma exposição de artistas cabo-verdianos. Na altura ele telefonou-me a perguntar que artistas cabo-verdianos poderia sugerir-lhes e disse-lhe que dos PALOP conhecia apenas os nomes que toda a gente conhecia: o António Ole, o Malagantana. A verdade é que dessa conversa nasceu a ideia de se fazer um levantamento, um inventário da criação, apenas na área das artes visuais e restrita aos PALOP. O projecto foi patrocinado pela presidência da FCG, o Dr. Vilar, e o objectivo era, por uma lado, ficar a conhecer o que é que se estava a fazer no domínio das artes visuais nos PALOP e, por outro lado, fazer um site, ter uma base de dados e colocá-la na Internet de modo a servir toda a gente. Esse trabalho de levantamento, de inventariação demorou-nos cinco anos, com visitas a África e contactos. Daí resultou a base de dados que está online. Para o Dr. Rui Vilar foi muito claro, sendo este um princípio permanente na Fundação Gulbenkian, que um projecto deste tipo, que é construído pela Fundação terá de ter mais tarde razões para continuar a existir fora dela. E foi isso o que aconteceu, ao fim de cinco anos a base de dados estava mais ou menos coberta, tínhamos aproximadamente 500 artistas identificados, inventariados com informações sobre cada um deles e portanto era altura de ver se ela interessava a alguém. É claro que interessava porque ao longo desses cinco anos fomos recebendo muitos pedidos de informação, sobretudo de fora de Portugal, caso da Alemanha que foi o país que mostrou mais interesse pelas informações que nós podíamos dar, e também de pessoas que estavam a fazer doutoramentos sobre arte africana dos países lusófonos. Ou seja, o artafrica cumpriu essa função e o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras mostrou interesse nele e a nós pareceu-nos que as condições que nos ofereciam eram interessantes. O Centro de Estudos Comparatistas é um espaço onde apesar de tudo os estudos pós-coloniais se tem desenvolvido e tem uma actividade continuada, permanente e presente, efectiva. Foi feito um protocolo entre a Fundação e o Centro e o site migrou para lá, assim como toda a documentação. O site tem uma base de dados que continua a ser actualizada, tem ensaios que são traduzidos para português sobre a temática das artes africanas contemporâneas e tem uma agenda de eventos que é permanentemente actualizada. Ou seja o site está a funcionar no Centro de Estudos Comparatistas da mesma maneira que estava na Fundação Calouste Gulbenkian. Não sofreu alterações. As pessoas que tem trabalhado sobre arte africana contemporânea tem ali um corpus de informação e portanto penso que os objectivos que o artafrica se propôs foram e continuam a ser cumpridos.
Ainda há muito pouco tempo esteve cá um artista sul-africano, de origem portuguesa, que está a fazer uma base de dados para o sul de África, e que quer integrar Angola e Moçambique, e veio-nos pedir autorização para utilizar as informações. Portanto o site existe, é conhecido e circula. Uma coisa acho que foi importante no artafrica foram algumas das opções que tive que tomar em relação aos critérios de avaliação da base de dados. Achei que para uma base de dados com essas características, era mais interessante ser abrangente e portanto aquela base de dados é democrática, entre aspas. Estão muitos que nós não consideraremos artistas do ponto de vista europeu, ocidental ou africano erudito, estão mais perto do artesanato, do artesão do que do artistas mas eles consideram-se como tal e o meio em que eles vivem também os considera artistas. E há uma imensa produção, desses 500 nomes, cerca de 150 são provavelmente pessoas que estão mais próximas de um trabalho artesanal, por exemplo, da produção de imagens estereotipadas como o pôr-do-sol. A base de dados é alargada, inclusiva e abrangente. Cada pessoa que usa a base de dados pode fazer a sua própria avaliação, depois também é proposta uma exposição temporária virtual, que é feita pelo próprio artafrica que já implica uma selecção. Quando escolhemos sobre quem vamos fazer a exposição já estamos evidentemente a seleccionar.


P: No projecto Africa.cont vai ser mais selectivo?

R: O Artafrica.cont vai ser selectivo, não vai ter essa abrangência. Não é um mapeamento, não é mostrar o que é relevante, o que é significativo na modernidade e na contemporaneidade africana. Vamos assumir quais são os critérios que utilizamos e vai ser selectivo, fortemente selectivo.


P: Nestes quinze dias que decorreram desde a apresentação pública do Artafrica.cont, qual tem sido a recepção e as reacções ao projecto?

R: Tenho tido reacções de pessoas com quem tenho falado e que me comunicaram por vários meios, quer de Portugal, quer de fora de África e de outros lugares da Europa. Por cá acompanhei nos últimos dias minimamente um série de blogs em que se fizeram comentários. De resto, no dia do lançamento do projecto, fiz uma apresentação e a primeira coisa que disse foi chamar atenção para que se estava a destruir uma coisa que ainda não existia, há uma série de preconceitos que apareceram nesses blogs; não fiz ainda a inventariação dos argumentos, mas acho que será um trabalho muito interessante. Creio, inclusivamente, que há uma estudante de mestrado de museologia que irá fazer um trabalho sobre os argumentos utilizados a propósito do Africa.cont. Há uma série de preconceitos e de confusões incrível, por exemplo, confundir o Africa.cont com o Museu de Etnologia, questionando porque é que não se investe no Museu que tem colecções de arte africana tão importantes? Isto é de quem não percebe e não tem nenhuma ideia sobre o que se está a falar. Esse é um exemplo. Há uma série de argumentos que são recorrentes, como achar que não há uma modernidade africana. Que a modernidade é uma coisa tipicamente europeia, tipicamente ocidental. Destaco o blog do Alexandre Pomar, que é quem tem desenvolvido a temática mais sistematicamente, e que todos os dias dedica parte do seu tempo a dizer mal do Africa.cont. Devo dizer que esse tipo de comentários que vejo que são de pessoas que não sabem muito bem do que estão a falar não me desmotivam nada, pelo contrário, justificam mais ainda a necessidade de haver o Africa.cont. Tornam mais claro ainda a necessidade de tentar clarificar um pouco as mentes conturbadas que andam a falar sobre isso. Não me deixo abater.


P: Que expressão artística se destaca no actual panorama das culturas africanas?

R: Não é por caso que vamos começar pelo cinema, penso que actualmente o cinema africano é extremamente vivo e activo. Há um número considerável, perto da dezena, de festivais de cinema africano em África. Obviamente que o maior é no Benim, que corresponde a uma espécie de Bienal de Veneza, do Cinema, mas depois há outros, houve agora um festival de cinema em Luanda, há um interessante que se faz em Acra, no Gana, sobre documentário. Quer dizer, há um produção cinematográfica grande e muito forte. O Manthia Diawara para este ciclo que organizou connosco, partiu de um projecto que fez para a Casa das Culturas do Mundo, em Berlim, mas que depois mudou porque a programação é outra e o contexto também, tendo sido adaptado ao contexto português. Ele esteve em Lisboa na semana passada a trabalhar sobre isso e no conceito do seu ciclo chama a atenção para o facto de hoje, o papel que a literatura teve na cultura africana no período a seguir às independências, nos anos 70 e 80, ser actualmente preenchido pelo cinema que tem uma relevância muito grande. É com certeza o campo cultural e a expressão cultural mais rica e que nos pode dar uma visão mais interessante, mais complexa, mais densa do que é a contemporaneidade africana e é por isso que vamos começar pelo cinema. Vamos ter uma apresentação de aproximadamente quarenta filmes africanos; não é uma programação , não é uma amostragem, é conceptualmente muito sólida , está dividida em quatro temas e vai-nos permitir ter uma visão da ande parte do que é hoje viver em África através do cinema. Teremos cinema de ficção e documentário, não nos interessa muito distinguir um campo do outro, porque temos muitos filmes que são difíceis de serem catalogados e uma coisa muito interessante do cinema africano é precisamente essa fronteira puder ser muito facilmente posta em causa. Vamos ter quatro fins de semana prolongados, sextas, sábados e domingos, com apresentação de filmes e debates em que os realizadores estarão presentes bem como outros participantes, portugueses e africanos, ou nem portugueses nem africanos. Essa vai ser a nossa primeira actividade.


P: De alguma forma gostava que este 2009 fosse já 2012?

R: Ah sim, gostava imenso, estou ansioso que chegue essa altura. Vamos ter uma sede incrível, o projecto é absolutamente fabuloso, concebido por um grande arquitecto africano, David Adjaye. Entretanto vamos montar esses esquema de internacionalização, de uma forma muito sólida. Estou convencido que em 2012 podemos trabalhar em pleno e com uma excelente programação. Não tenho dúvidas quanto a isso. As pessoas que me convidaram também acreditam.


LINK
www.artafrica.info