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ENTREVISTA


João Rendeiro


Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, Art Center, Alcoitão. Fotografia: Paulo Seabra


Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, Art Center, Alcoitão. Fotografia: Paulo Seabra


Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, Art Center, Alcoitão. Fotografia: Paulo Seabra


Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, Art Center, Alcoitão. Fotografia: Paulo Seabra


Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, Art Center, Alcoitão. Fotografia: Paulo Seabra


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JOÃO RENDEIRO


No passado dia 22 de Maio a Fundação Ellipse abriu em Alcoitão a sede da sua colecção de arte contemporânea e a 23 de Junho inaugura a sua primeira exposição temporária. Nesta entrevista a João Rendeiro, Presidente do Banco Privado Português e da Ellipse, quisemos conhecer a origem do projecto, a sua natureza e os objectivos de longo prazo. Esta foi também a oportunidade de fazer o balanço do processo de constituição da Fundação e da Colecção, de debater polémicas e de abordar as relações estabelecidas entre o sector privado e o Estado na área da cultura.

Por Sandra Vieira Jürgens
Lisboa, 30 de Maio de 2006


P: O que é a Fundação Ellipse?

R: A Fundação Ellipse é uma iniciativa de um grupo de pessoas, liderada por mim, que pretende desenvolver uma colecção de arte contemporânea internacional e desenvolver também um Art Center em Cascais que vai ter essa colecção em depósito. Esse Art Center servirá também como catalisador de um conjunto de inter-relações no mundo da arte contemporânea: com outras fundações similares que existem a nível internacional, com residências de artistas e com a apresentação da própria colecção.
É uma iniciativa privada, completamente do sector privado, que se move com a agilidade própria desse sector. Foi feita em quase tempo recorde, quer a constituição da colecção quer as obras que se fizeram para a construção do Art Center.
Penso que isto mostra que em Portugal se podem fazer projectos de topo a nível mundial. É essa a grande ambição que temos para este projecto: que ele de alguma maneira sirva a comunidade e o mundo artístico português, para que todos nós possamos aumentar a nossa auto-estima e nos sentirmos parte de um mundo global.


P: Qual é a missão da Fundação e os seus objectivos?

R: A missão é constituirmos uma fundação que tem como objectivo de longo prazo a apresentação de uma colecção relevante, de topo e de referência mundial, e que sirva também como um catalisador de relações no mundo da arte contemporânea: de artistas, de críticos de arte, enfim, dos participantes neste universo. A nossa missão é ser um player de referência no mundo internacional de arte contemporânea. Nós colocamo-nos dentro do circuito internacional, como sendo um ponto de referência e um pólo de relações, e pretendemos estar ao nível de fundações similares, como a Fundação Dia em Nova Iorque ou outras fundações que existem em outros sítios do mundo e que são um catalisador de atenção no mundo de arte contemporânea e, portanto, ajudam a produção e a circulação artísticas. A nossa missão é, sendo privados, ter uma certa componente de serviço público.


P: Quais são as entidades aderentes a este projecto?

R: É um conjunto de 20 coleccionadores, onde eu próprio e o Banco Privado Português temos uma posição largamente maioritária. Muitas das outras pessoas não pretendem que se saiba quem são, mas incluem-se várias personalidades, coleccionadores portugueses, espanhóis e brasileiros. Mas como disse, a minha posição é largamente maioritária.


P: A Fundação surge numa continuidade da Colecção do Banco Privado Português?

R: Numa continuidade conceptual, chamemos-lhe assim. Eu próprio e o Banco Privado Português continuamos a coleccionar em varias dimensões e a Fundação é um salto qualitativo que existe na sequência desse processo coleccionista apreciável, no sentido em que se faz uma colecção ambiciosa, de referência internacional, que se faz um Art Center - algo completamente novo não só em Portugal, como na Península Ibérica, onde não há casos similares. Portanto, isto é um salto qualitativo, o qual se insere numa história e numa trajectória que estavam a acontecer.


P: Originalmente pensou-se no Fundo de Investimento ou isso nunca esteve no projecto inicial?

R: O projecto inicial tinha uma componente de investimento em relação aos participantes na Fundação. No início, o projecto já tinha as componentes essenciais daquilo que ele é hoje. O projecto chamou-se desde logo “fundação“, nunca se chamou “fundo de investimento“; sempre dissemos que a colecção iria ser depositada numa instituição museológica; sempre pensámos ter uma lógica de colecção, nunca pensámos ter uma lógica individual, de peças individuais e sempre tivemos uma lógica curatorial, científica na construção da colecção, nunca tivemos uma lógica de fazer peças isoladas, que se pudessem vender isoladamente. Portanto, os elementos chave daquilo que é hoje o nosso projecto já existiam desde o início. A única diferença é que eu, desde já, assumi pessoalmente uma posição maioritária no projecto que pensei vir a assumir dentro de oito ou dez anos. A componente de investimento, que alguns participantes poderiam ter, foi diluída e alguns participantes mais de curto prazo ou de liquidez saíram do projecto. E eu, que tenho uma perspectiva de longo prazo em relação ao projecto e, portanto, não tenho nenhuma perspectiva de liquidez em relação a ele, mantenho-o. A alteração fundamental é essa. A lógica conceptual do projecto é exactamente a mesma. O que mudou foram os participantes que, dado o facto de eu ter insistido na manutenção desta perspectiva de longo prazo, decidiram sair e acho muito bem que tenham saído.


P: A Fundação não previa a construção de uma sede. Quais foram as razões que levaram a esta decisão?

R: Foi uma razão muito simples: no início pensámos que a Colecção ficasse depositada na Fundação Serralves. Por razões várias não chegámos a acordo com Serralves em relação ao depósito da Colecção. Depois, pensámos que, em vez de andarmos a negociar o nosso depósito com outros museus ou fundações, faria muito mais sentido (embora evidentemente isso implicasse aumentar o investimento necessário) comprar este Art Center que é em Cascais e fazer as respectivas obras. Estou extremamente satisfeito por ter feito isso. E não tendo sido essa a primeira opção, ainda bem que isso assim aconteceu.


P: Quais foram as razões por que não chegaram a acordo com a Fundação Serralves?

R: Preferia que fosse Serralves a falar nisso. Mas teve basicamente a ver com aspectos financeiros. Foi-nos solicitada uma contribuição financeira para depositarmos a Colecção em Serralves que, nós entendemos, não fazia sentido, uma vez que desde sempre pensámos que estávamos a fazer uma grande contribuição para Serralves. Então, para ter uma contribuição financeira, mais valia investirmos no nosso Art Center.


P: Essa contribuição finaceira teria a ver com custos de manutenção, conservação e seguros?

R: Não, era um pouco mais do que isso.


P: O que pensa do acordo assinado entre o Comendador Joe Berardo e o Governo?

R: Em primeiro lugar, acho que é muito bom que haja uma Colecção Berardo em Portugal e que haja alguém que se tenha dado ao cuidado, ao trabalho e ao investimento de a fazer. É o primeiro ponto que se deve salientar.
Em segundo lugar, a lógica do acordo - que basicamente tem a ver com a possível venda da Colecção a preço de mercado, como se fosse num leilão, ao Estado português - não se pode considerar de grande generosidade mecenática por parte de Joe Berardo. Pessoalmente, ainda tenho a esperança de que, um dia, nos próximos dez anos (que é a duração do acordo), Joe Berardo tenha uma outra perspectiva sobre o acordo e faça uma doação significativa ao Estado português.


P: Considera que podem ter sido favorecidos os interesses privados de um Coleccionador?
Até que ponto o Estado não asseguraria mais os seus interesses de gestão atribuindo maiores verbas aos orçamentos dos museus?


R: O ponto mais frágil do acordo é a contribuição anual de 500 mil euros que o Estado faz para compras, no quadro daquela colecção. Acho que esse é o ponto mais frágil, no sentido em que, se o Estado não comprar a Colecção Berardo, as compras entretanto feitas - que, num horizonte de dez anos, ainda são 5 milhões de euros, o que é uma verba significativa do ponto de vista do montante que o Estado gasta anualmente em aquisições em Portugal - ficam sem lógica do ponto de vista da sua aquisição. Esse lado é talvez o mais vulnerável em termos conceptuais do acordo. O Estado poderá não exercer a sua opção de compra e durante dez anos usufrui da Colecção, em termos da sua colocação no CCB e das suas potencialidades de circulação internacional.
Pessoalmente duvido da eventualidade de o Estado fazer a aquisição. Porque é que o Estado vai comprar a preço de mercado uma colecção, quando pode comprar a preço de mercado as suas próprias escolhas; se valoriza uma colecção a preço de mercado e se vai comprá-la a preço de mercado, então, mais valia habilitar os seus especialistas e ir comprar ao mercado as peças ou uma colecção que lhe pudesse interessar. Ficaria extremamente surpreendido se o Estado viesse a exercer a sua opção de compra da Colecção. Mas tudo é possível, sendo que essa opção faz parte do contrato e do acordo.


P: Depois do processo de criação e de apresentação pública do espaço da Fundação Ellipse, e da negociação com Serralves, qual o balanço que faz das relações entre o sector privado e o Estado?

R: São relações extremamente difíceis. Penso que é extremamente difícil conversar e negociar com o sector público em Portugal. Muitas vezes, pela própria falta de estabilidade dos agentes do sector público, há uma mudança com frequência desses agentes, fruto da instabilidade política que tem havido em Portugal.
Depois, há uma falta de referencial conceptual. As pessoas, muitas vezes, não sabem o que querem e, algumas das vezes, nota-se algum preconceito, uma certa desconfiança, em relação ao sector privado, como se as pessoas do sector privado quisessem tirar partido do sector público. Infelizmente, isso às vezes acontece, mas há muitos outros casos onde isso não acontece. O sector privado tem muito pouco a ganhar na ligação ao sector público. Nos casos em que intervenho, é isso que sistematicamente encontro. Tenho muito pouco a ganhar naquilo que fiz com o sector público. Pelo contrário, o que tenho feito é exactamente o oposto. Acho que a relação de uma verdadeira parceria público-privada acaba não acontecendo por falta de uma relação inteligente entre as partes e de entendimento estratégico, que poderia obviamente dar dimensão e amplitude a essas iniciativas.


P: Como reagiu às polémicas relacionadas com os cargos públicos exercidos por dois dos responsáveis pelas aquisições da Fundação Ellipse: Alexandre Melo, Assessor para a Cultura do Primeiro-ministro José Sócrates e por Pedro Lapa, Director do Museu do Chiado?

R: Acho que é um exemplo típico de as pessoas ou de alguns comentadores sobrevalorizarem alguns aspectos acessórios em relação ao aspecto essencial. Até agora e até abrirmos o Art Center, apesar de a Colecção Ellipse já estar disponível no site da Fundação há muito tempo, não houve nenhum comentador que se tivesse dado ao cuidado de clicar na internet e ver a importância da Colecção. No entanto, houve alguns comentadores que se deram ao trabalho de mostrar a sua preocupação em relação à posição dos dois curadores, o que me parece uma sobrevalorização do acessório em relação ao essencial. Para mim, de longe, o essencial é a Fundação, se a Colecção é boa ou se é má, se tem mérito cultural ou não, se terá impacto na sociedade ou não, se globalmente é algo bom. O acessório também se pode analisar. Evidentemente, tudo se pode analisar. Mas, de qualquer maneira, são aspectos acessórios saber se um director de museu pode ou não participar nas escolhas de uma colecção, se um assessor cultural do Primeiro-ministro pode ou não estar nesta função.
O segundo comentário que faria é que, do ponto de vista da Fundação e da Colecção, não sentimos nenhum benefício específico pelos cargos públicos que essas pessoas têm, pelo que, para nós, é uma polémica sem sentido. Do ponto de vista da Fundação, é um problema das tutelas respectivas. Se Alexandre Melo tem autorização específica do Gabinete do Primeiro-ministro para fazer este tipo de trabalhos, não me compete a mim estar a desautorizar aquilo que outros autorizam. E, do ponto de vista do Ministério da Cultura, se o Pedro Lapa tem autorização para fazer este tipo de trabalhos, também não me compete a mim estar a dizer o contrário. Com toda a franqueza, é uma polémica que me passa bastante ao lado e com a qual não me preocupo.


P: A proposta é constituir uma das mais importantes colecções de arte contemporânea da transição do século XX para o XXI. O que a diferenciará das outras colecções internacionais. Qual será a sua marca?

R: Diria que há vários elementos dessa marca. Há o elemento da natureza da sua constituição e o facto de estarmos a fazê-la hoje com os artistas vivos, contemporâneos, pelo que podemos estar a escolher as obras de topo desses artistas. Portanto, podemos ter obras de referência, de valor máximo, de valor museológico desses artistas vivos, contemporâneos, e isso é diferente de estarmos a constituir uma colecção dos anos 40, 50 ou 60 de artistas que já não estão vivos, cujas primeiras e segundas linhas das suas obras já estão depositadas em museus, sendo que estaríamos sempre, por definição, nas terceiras, quartas ou quinta escolhas. Há, desde logo, uma opção por apostar nas melhores obras de artistas contemporâneos vivos e a nossa colecção está centrada naquilo a que internamente chamamos o “Circle de 2000“, na viragem do século XX para o XXI e, portanto, estarmos nesse topo de obras de artistas dos últimos 20 anos. Há logo aí uma escolha chave.
Depois, há uma segunda escolha chave, que tem a ver com esta lógica dos vários curadores e dos vários advisory board, que é termos uma colecção eminentemente institucional. Não quis substituir o meu gosto pessoal, ou a insistência de gosto, pelo gosto de uma terceira pessoa. Não quis nunca que a Colecção Ellipse fosse a colecção do senhor Pedro Lapa ou do senhor Alexandre Melo, do senhor x ou y. Quis que a Colecção da Fundação Ellipse fosse representativa do gosto curatorial de hoje, dos tempos de hoje. Para isso é que há este processo com três curadores, com um advisory board, com uma série de outros curadores.
Há uma interacção institucional à volta de tudo isto. A Colecção adquire uma consistência que tem a ver com o cruzamento dos interesses dos vários curadores, mas também com a diversidade de gostos e de sensibilidades que a existência de várias pessoas permite. A Colecção é mainstream, está no centro dos interesses, muita gente se pode rever nas escolhas que lá estão e, simultaneamente, tem sensibilidades distintas pelo facto de algumas pessoas envolvidas terem dado a sua marca à Colecção. Penso que a Colecção vai ser - já esta a ser - uma colecção de referência a nível internacional por este conjunto de características que referi.


P: Qual a razão que levou a Fundação Ellipse a situar a sua sede em Alcoitão?

R: O Art Center não foi a primeira opção. A partir do momento em que não chegámos a acordo com Serralves, ficámos um pouco pressionados em termos de tempo em relação a uma decisão, pois começámos a colocar-nos questões muito simples, como a de saber onde iriam ficar armazenadas as peças. O tema “tempo“ começou a ser relevante. Depois, falámos com várias entidades públicas em relação à possibilidade de termos algum acordo de depósito que nos solucionasse isso. E, aí, entrou a tal dificuldade de conversar com entidades públicas. Então, procurámos um armazém que pudesse ser adaptado. Não queríamos ter um “Guggenheim“, não queríamos ter um Frank Gehry, não queríamos ter um imobiliário que marcasse o projecto enquanto projecto arquitectónico e que absorvesse uma componente excessiva dos meios financeiros que tínhamos disponíveis. O que se colocou em cima da mesa foi a adaptação de um armazém, muito na linha do que temos visto a nível internacional, desde o Dia em Nova Iorque aos projectos de Miami, onde há uma adaptação do imobiliário à arte contemporânea. Foi um pouco por aproximação, até que encontrámos este espaço em Alcoitão que nos pareceu bastante adequado àquilo que nós queríamos e que também não era central em relação a Lisboa. As pessoas irão porque querem ir, não porque estão ao lado e, já agora, “entramos na porta ao lado“. Há uma pré-selecção em relação ao público ou aos públicos que frequentarão este espaço e, logo, há uma diferenciação, bem como uma autonomia de posicionamento e conceptual de todo o projecto em relação a tudo o que se fez até agora. Há uma característica distintiva muito forte em relação a este projecto e um carácter único no panorama existente.


P: Essa foi a principal razão para não se situarem em Lisboa? Essa hipótese foi pensada ou houve diálogo com organismos públicos, por exemplo com a Câmara Municipal de Lisboa?

R: Houve diálogo com a Câmara Municipal de Lisboa e foi um dos tais onde, em tempo útil, não se chegou a nenhum avanço.


P: E com a Câmara de Cascais? O projecto recebeu bom acolhimento?

R: Há uma boa relação com a Câmara de Cascais. Devo louvar o óptimo acolhimento, mas a Câmara Municipal de Cascais não tinha nenhum espaço disponível que pudesse acolher a Colecção. Mas já é encorajador para nós que haja um magnífico acolhimento da Câmara Municipal de Cascais. O Dr. António Capucho, Presidente da Câmara, esteve connosco na inauguração do Art Center e isso é uma demonstração da boa relação existente, que esperamos que fortifique.


P: Houve cedência de melhores condições para a sua instalação nesse concelho?

R: Não houve absolutamente nenhuma cedência nem nenhum benefício. O espaço foi comprado a uma entidade privada. Comprámos a preço de mercado.


P: Referiu a questão da autonomia e da localização. Não seria melhor, em termos de serviço público, tornar mais fácil esse acesso?

R: Nós somos uma fundação privada, não somos um museu público. O facto de abrirmos ao final de semana, de termos um serviço educativo, uma residência de artistas, entre outros, dá uma dimensão de serviço público à Fundação. Mas somos uma fundação privada. Não temos, em teoria e na prática, nenhuma obrigação. Fazemos porque achamos que devemos fazer.


P: Referiu que a Fundação Ellipse seria uma entidade privada com lógica de serviço público…

R: Constituir uma colecção, colocada ao serviço da comunidade, para ser vista, isso, em si mesmo, é uma lógica de serviço público. Além disso, estamos envolvidos na criação de um serviço educativo, em residência de artistas, etc. Se isso não é uma lógica de serviço público, não sei o que será.


P: Qual a leitura que faz do panorama artístico, a nível da arte contemporânea, em termos de museus?

R: Em Lisboa, há duas componentes distintas. Uma, é o panorama artístico, outra, é o panorama museológico.
Em termos do panorama artístico - das galerias dos autores, dos artistas -, diria que é bastante positivo. Temos um conjunto de galerias e, sobretudo, um conjunto de artistas jovens, outros menos jovens, uma cena de produção artística que, eu diria, é bastante vibrante em termos internacionais. Não temos nada que nos envergonhar em comparações dos artistas portugueses contemporâneos com os seus congeners internacionais.
Do ponto de vista museológico, o panorama é menos animador. O Museu do Chiado tem as limitações que todos nós conhecemos. Apesar de se chamar Museu Nacional de Arte Contemporânea, a verdade é que há dificuldades em assumi-lo como tal. Apesar de o seu Director desejar muito que isso seja assim, não sei se todos estarão de acordo em relação a isso. Depois, há o Centro Cultural de Belém (CCB) que, todos sabemos, é um centro que tem andado um pouco perdido em termos estratégicos. Esperemos que agora, com o seu novo Director, António Mega Ferreira, as coisas fiquem mais esclarecidas também relativamente ao depósito da Coleccão Berardo. Além disso, existe o Centro de Arte Moderna - que é mais de Arte Moderna do que de Arte Contemporânea - e a Culturgest. Isto preenche a totalidade da cena contemporânea lisboeta. Não é uma cena particularmente brilhante. Felizmente, Serralves, no Porto, dá um contraponto bastante mais positivo em relação a isto.
Acho que a abertura do nosso Art Center e a dinamização do CCB vão reequilibrar os pólos de interesse entre Lisboa e o Porto, colocando-nos, em termos de interesse, ao nível do que se faz em Serralves. Isso é bom, inclusivamente para Serralves, no sentido em que quanto mais se fizer, melhor.


P: Sendo coleccionador privado e tendo a sua própria Colecção, mudou a sua perspectiva sobre as suas aquisições em termos de gosto?

R: Sim. A natureza evolutiva do gosto e o facto de ir mudando o meu gosto é, para mim, justamente um dos fascínios da arte contemporânea ou, pelo menos, do coleccionador. Certas coisas que hoje gosto e aprecio imenso, se calhar, há cinco anos não apreciava ou até não compreendia de todo. Essa abertura do gosto e à mudança é, penso, um dos lados mais fascinantes deste mundo do coleccionismo e da arte contemporânea. É isso que nos deixa um pouco fascinados e um pouco vivos em relação a esta realidade.




Ellipse Foundation Contemporary Art Collection
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